sexta-feira, julho 29, 2011

o paradoxo é uma espécie de combustão da vida

quando quero começar a escrever sobre nova iorque fico sempre com uma dificuldade imensa, porque as palavras misturam-se com os pensamentos, e os dedos comportam-se no teclado como um míudo trapalhão que tenta em vão fazer uma roda de jeito no ginásio.

se calhar é mesmo esse o motivo. o débito de pensamento pode impossibilitar a escrita e o meu turbilhão neste lugar é sempre tão grande, que aponto nessa solução para o problema. deve começar por ser a cidade que não dorme que me identifico tão bem com ela. mas é de certeza muito mais do que isso.

basta pôr um pé no aeroporto para me sentir de consciência em casa. basta ver ao longe a shiny pointy thing do chrysler para o meu coração ficar quente. basta aproximar-me da esquina do balthazar para a minha memória se sobressaltar em noites e noites de comunhão com esta cidade.

depois vou andando pelas ruas. falo com as pedras. falo com as pessoas. falo com as galerias, com as lojas e com os bares. falo sobretudo com carros amarelos que transportam o mundo lá dentro e falo com cortinas de fumo que saltam das profundezas e encaminham o calor que esta cidade tanto tem pelo meio do pretenso frio da época do ano.

nada nesta cidade é regular. tudo parece confuso, mas é tão imperfeitamente perfeito. tropeço em paradoxos a cada esquina, a cada sorriso, a cada gesto!

bolas, inventem uma religião para esta cidade. não sabem como eu agradecia...

domingo, julho 24, 2011

o mapa das sensações

às vezes acho que os sentimentos deviam ser como países.

abríamos à nossa frente o planisfério dos sentimentos e em cima da mesa estaria também a enciclopédia geográfica, pronta a ser consultada. em segundos conseguiríamos descobrir a capital do amor, os montes e vales da saudade, quantos rios correm na melancolia ou qual a história da ansiedade.

tenho interesse sobretudo em descobrir quem faz fronteira com quem. há dias em que tenho quase a certeza de que há conflitos à escala planetária entre alguns deles. lembro-me de um ataque feroz da ansiedade à razão algures no tempo. de um breve momento em que a paixão se armou em alemanha e trucidou a liberdade, como se esta fosse uma espécie de polónia. e ouvia-se wagner em pano de fundo.

se alguém descobrir este mapa, que me dê um toque. é que o 'jogo do risco' jogado constantemente entre os quatro lados do meu mapa era bem mais controlado se eu soubesse por onde ando a movimentar as tropas.

sexta-feira, junho 03, 2011

a prova de que uma entrevista pode ser poesia...

Se fosse a vocês tirava vinte minutos dessas vossas vidas TÃO ocupadas, porque isto é uma lição de vida como se escrevem poucas. Amen.


"Manuel Hermínio Monteiro: a entrevista ao DNA em 2001

O DNA (suplemento do Diário de Notícias) de 12-05-2001 publicou aquela que penso ter sido a última entrevista dada por Manuel Hermínio Monteiro, o editor da Assírio & Alvim, que viria a morrer em Junho desse ano. Foi uma longa entrevista, conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Deixo-a aqui:
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MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO
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A conversa seguinte aconteceu numa destas tardes de sol. Do sol radioso que encharca de esperança os primeiros dias da Primavera. Manuel Hermínio Monteiro, o mítico editor da Assírio & Alvim, refastelou-se no sofá para desfiar o novelo da sua vida cheia. Como ele diz, logo no começo, a ponta pode ser a que nos aprouver que há-de sempre dar no mesmo.
Decidi começar por um lugar que cruzava as palavras e as memórias, umas e outras em catadupa. Um lugar que é talvez o mais belo recanto do Douro. E por isso de Portugal. E por isso do mundo. Conheço esse sítio há muito porque me fiz, também, em terras transmontanas. O que, como perceberão, tem a sua importância. A marca da terra, espessa, fez-me assim, fê-lo assim.
Esta é a vida de um transmontano, um transmontano de boa cepa. Calha de haver uma flor maligna que lhe traga a carne. Até ver. Como ele dizia, quando pela primeira vez o vi depois de saber, «Estou bem», embrutecendo o tronco, referindo-se à força, à robusteza.
A seguir, que é para isso que servem as introduções, têm a vida deste homem. E dentro dela a vida toda.
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Começamos por onde?
- Sei lá. Como a vida anda às voltas, pode ser por qualquer lado.
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A vida anda às voltas?
- Muitas. A minha é uma vida muito cheia.
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Podemos começar por S. Leonardo de Galafura, o recanto do Douro escolhido por Torga, que, presumo, conheça.
- Conheço. Dizem-me agora que na encosta contrária ainda há outro miradouro mais bonito, S. Salvador.
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O seu lado do Douro é o do Pinhão.
- A minha terra é mais para o interior, perto de Murça. Alijó. Do meu lado vejo Favaios, Sanfins, Vilar de Maçada.
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Nasceu na aldeia, em Parada do Pinhão. Viveu lá até que idade?
- Fiz lá a Primária. Vivi no século passado, posso dizê-lo. Vi chegar a electricidade, a rádio, a televisão.
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Era um outro tempo para o país, e sobretudo para o interior.
- A escola era uma mesa muito grande numa sala; em bancos corridos estavam numa pontinha os meninos da primeira classe e na outra ponta os da quarta, alguns já com 17/18 anos.
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Passavam directamente do campo para a escola?
- Andavam ali a arrastar. Uma vez um contou que a professora lhe tinha dito: «Se fizeres os deveres, vais amanhã dormir comigo». Ele chegou ao pé da mãe e disse: «Ó mãe, dá-me umas cuecas novas que amanhã vou dormir com a professora!» Ainda levou nas orelhas.
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A professora era quem? Uma moça da aldeia?
- Comecei com uma professora que levei até ao fim. Marcou-me muito e ainda hoje a recordo com muita saudade. Vive agora em Cascais, chama-se Lúcia. A minha professora deve ter sido das primeiras do Magistério; as outras tinham a quarta classe. Logo a seguir inaugurámos uma escola nova. Excelente, a escola, com entrada em arco, azulejos à volta, e tal.
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A professora Lúcia acompanhou a sua escolaridade primária. Onde eu queria chegar era à sua primeira relação com as palavras.
- Deve-se muito a ela. Uma relação de encantamento. O que é extraordinário é que andamos sempre à procura. Do Graal, às tantas. Antes de irmos para a escola estamos num estado absolutamente delirante. Eu já sabia os reflexivos, os pronomes, as preposições…
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Como é que já sabia?
- Era uma música. Ouvia os mais velhos e decorava.
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Ouvia-os do recreio?
- A escola era mesmo no meio da aldeia, ouvia cá de fora e depois perguntava aos mais velhos. Quando vamos para a escola, imaginamos que vamos aprender coisas. Uma ansiedade. Como depois temos quando vamos para o Liceu; julgamos que ali é que vai ser a sério. Depois, a Universidade é que vai ser a sério. Para chegar à conclusão que andamos permanentemente à procura de qualquer coisa que não existe. Tal e qual como a felicidade.
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A felicidade não existe?
- Com a idade vamos percebendo que a felicidade é uma aquisição muito delicada, muito trabalhosa. Esgaravatar uma mina, mexer muita terra, muita pedra, e depois, de vez em quando, lá aparece um bocadinho de minério. A felicidade também é assim. São momentos fulgurantes, extraordinários, mas não existe em estado puro. Nada existe nesta vida em estado puro.
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O que é que se pode retirar dessa lida diária?
- Mas é isso, é o trabalho diário, é a busca. E talvez sim, talvez se consiga. A consciência disso leva-nos a valorizar cada vez mais esses momentos, esses pedaços de cintilância. Isto vem a propósito?
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Da aldeia, dos parcos recursos.
- Como é que com pouquíssimos livros… raramente víamos um livro, uma imagem.
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Não tinham livros em casa?
- Não. E não tínhamos ainda televisão, éramos muito virgens em termos de imagens. A cultura era muito interessante; desde cantares, guitarras, uma forte tradição do teatro, festa feitas conjuntamente – havia laivos de comunitarismo permanentes. Ao mesmo tempo a aldeia fechava-se, como se um medo a rodeasse, «Fulano de tal ainda não chegou à terra?». Imaginavam-se coisas completamente loucas, derivadas também das casas onde o vento soprava pelas frestas, o soalho rangia, a luz da lareira era móvel, parecia que estávamos em empurrões de barcos. Isto a juntar àquela imaginação alucinante, como ainda é lá em cima, do maravilhoso celta; ou, para não sermos tão caros, a imaginação do próprio meio que fermenta coisas – uma vez que ainda não havia esta dispersão que há hoje.
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Qual era o seu ponto de observação e participação nesta vivência comunitária?
- Tinha uma experiência muito colectivizada porque a minha avó tinha um forno onde as pessoas iam fazer o pão e o meu avô tinha um grande alambique onde se juntava o pessoal todo, com a concertina, e mais não sei quê.
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O que representava a sua família na aldeia?
- Eram camponeses. O meu pai e a minha mãe casaram cedíssimo, a minha mãe com 16, o meu pai com 18, dois miúdos filhos de volframistas.
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Naquele tempo eram comum casarem tão cedo e terem filhos logo depois.
- Nasci um ano depois. Tive sempre os meus pais muito novos e uma família muito numerosa: muitas tias, muitas primas, em idade casadoira. Lembro-me bem dos vestidos delas, muito vaporosos, de se pentearem. A minha tia tinha raparigas que iam para lá aprender costura. Um gineceu fortíssimo, sempre a ser esmagado por abraços apertados.
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E gostava ou não?
- Às vezes apertavam-me demais, já fugia. Mas na verdade sentia-me um reizinho. São coisas que nunca mais se esquecem: a pressa para irem à missa, os dias de sol, a luz da Primavera.
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Num dia claro de Primavera, como é este, é isso que rememora?
- Lembro-me muito da minha infância. É uma espécie de película impressionável: o que fica ali registado, marca muito, muito mesmo. Tive a felicidade de ter uma infância completamente rural. O meu avô ia podar, levava-me com ele, deitava-me no casaco dele. Nessa altura, que é das primeiras ervinhas e flores, enquanto ele cantava aquelas canções, o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo, e sentia os lampejos do sol nos açudes. Para um miúdo de sete anos, isto era uma coisa fabulosa. Acordar num casaco a cheirar a tabaco – o meu avô fumava onça – e ficar a olhar. Ficar com as florzinhas em primeiro plano, ver o mundo mais rasteirinho. Nunca mais esqueci. De tal maneira que ainda hoje a maior parte dos meus sonhos são: águas límpidas, rosas, pereiras floridas, o meu pai a mostrar-me sítios por onde passávamos quando íamos à feira.
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Respira, assim, um tempo que já não existe. Como é que sai da aldeia?
- Apareceu a hipótese de ir para um colégio de Salesianos, com as duas vertentes, para padre ou não. Ficava em Arouca, num antigo convento, sinistro. Fui logo a seguir à quarta classe, com dez anos. Nunca tinha saído lá de cima, nunca tinha visto o mar.
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O seu mundo era a aldeia, e os campos à volta.
- E as romarias, e as feiras: a Sra. da Pena, a Sra. da Saudade, a Sra. Da Piedade. Adorava, adorava aquilo. Conhecia outras aldeias. Mas, naquele tempo, íamos a outra aldeia sempre com o risco de levar uma pedrada. Para irmos a Justes – as terras ali mais perto eram Justes e Vilar de Maçada, que é a terra do [José] Sócrates – fazíamos uma aventura extraordinária, com um cuidado extremo.
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Onde lhe parece que radica essa incrível rivalidade?
- Talvez sejam reminiscências de castreja, não percebo de outra maneira. Agora está melhor, há mais circulação, carros vão e vêm.
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Há a televisão.
- E as comunidades dissolveram-se, com a emigração, por exemplo. Hoje, na minha aldeia, há uma geração jovem muito civilizada, educada, que estuda e circula. Organizam-se para o teatro, para o futebol, têm um grupo coral, até já gravaram um cd. Na altura, eram ódios terríveis. Isto é uma conversa de Antropologia que dava para irmos por aí fora.
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A aldeia era visitada por almocreves, ou havia uma venda onde coincidia o café, a mercearia, a farmácia, etc?
- Existia uma economia natural, de trocas directas. Nas feiras trocavam-se sacholas por feijão.
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Os seus pais trocavam o quê?
- O que tinham: milho. O meu pai tinha algum dinheiro, mas muito pouco, porque tinha explorações de resina. Está bem que o meu avô vendia aguardente e teve muito dinheiro no tempo do volfrâmio, tinha certa produção de vinhos, e o vinho sempre se vendia. Mas imperavam as trocas directas.
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A relação era muito mais desprendida com os objectos. Quer trocas eram as suas?
- Nós só jogávamos ao botão.
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A sua primeira namorada era da aldeia?
- Sim.
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Eu recordo os quilómetros que os namorados faziam para encontrar ao domingo a namorada, que vivia noutra aldeia, para, no fim, ficarem uma hora a falar na berma da estrada.
- Uma vez inventaram-me um namoro, que nem era verdade!, em Sanfins, os sacanas, já andava no colégio Almeida Garrett. Levaram-me à fonte e tive de pagar um garrafão de vinho ao pessoal! Mergulharam-me a cabeça para ser adoptado.
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Uma praxe. E nisto já estamos no Porto.
- Depois da Primária, estive dois anos nos Salesianos, em Arouca, e depois perto de três perto de Coimbra, onde completei o quinto ano.
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Quando foi para os Salesianos, era para ser padre?
- Digamos que tinha uma certa tendência. Por uma razão simples: numa aldeia, neste contexto de que lhe falo, o que produzia um fascínio, fascínio, fascínio, era a religiosidade.
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O que era tão fascinante?
- Para já, havia um delírio religioso, mesmo que não fosse ortodoxo. A presença da bruxaria, do sobrenatural, do Além. Antigamente vivia-se nesse mundo. E pessoas que não mentiam (homens de uma verticalidade, de uma palavra dada…) viam coisas.
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Também via coisas?
- Uma vez estendia a mão para tocar numa senhora que julgava que estava ao meu lado. Imagine o que eram aquelas eiras quando no Verão ficávamos a olhar para o céu, a imaginar o que era o mundo, a chegar lá apenas por intuição. Então, o mundo da igreja, os bastiadores dos altares…
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Chegou a ser acólito?
- Ajudar à missa? Montes de vezes.
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Não estou a vê-lo feito papinho de anjo…
- Nos Salesianos, onde cheguei todo sujo do carvão do comboio, nunca consegui ser dos bens comportados.
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Demorou quantas horas a chegar?
- A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para chegar ao Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à esoera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas de beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.
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Viu o «Rio do Ouro» do Paulo Rocha? É disso que está a falar?
- O ambiente era ainda mais denso. Entrava uma mulher com cerejas, ia de Godim à Régua: dava logo cerejas ao pessoal. Dava! Vender, vendiam bilhas de água, regueifas, todo um conjunto de coisas ao longo da linha. E um calor infernal.
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Como por lá se diz, «Nove meses de Inverno e três meses de Inferno». Para não perdermos o fio à meada, aterra no colégio sozinho. O normal era que os miúdos fizessem a quarta classe e ficassem por ali. Como é que se decidiu que continuaria os seus estudos?
- Conheciam um padre salesiano ali perto, o padre Álvaro, que perguntou ao meu pai, «Porque é que ele não vai?, tal tal tal..» Já estava decidido que ia estudar, tinha um jeitinho, portava-me bem nas aulas. Eu queria ir, e gostava, embora sofresse como um cão. Com saudades, chorava que era uma coisa doida.
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Cortou com o universo encantatório da infância.
- Diziam-me «Mas vai-te embora»; mas por outro lado cria-se uma relação com os amigos e há o orgulho, não se quer ir para trás. É um desafio. O meu avô dizia «Como é que o rapaz está lá naquela coisa dos padres?, sem lareira e sem vinho!» (sorriso).
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Davam-lhe sopas de vinho?
- Não, mas às escondidas o meu avô dava-me às vezes um bocadinho de aguardente, tinha a mania que já era um homenzinho.
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O que é que mais gostava no contacto com as palavras, de ler, de escrever?
- Ah, o que eu mais gostava era de contemplar. E ouvir os velhos.
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Pela sua professora, tinha uma paixão?
- Tem-se sempre. Ainda me lembro das saias dela!
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A sua memória é prodigiosa.
- Dessa coisas da infância, lembro-me bem, mais do que das coisas de agora. As saias, os gestos, o ir buscar as cartas do namorado ao correio.
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Os seus pais ajudavam-no nos trabalhos de casa?
- Sabiam ler e escrever, mas não me ajudavam. O meu pai adorava ensinar-me como cantavam os pássaros, a imitá-los a todos. Chegava a casa, saltava para cima dele com ramos de cerejas. A minha mãe é muito mais enérgica, ágil, nervosa, como as mulheres lá de cima.
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Há um momento, já em Lisboa, em que pensa voltar para casa, para os seus pais, depois de passar pela prisão de Caxias.
- Olhe que há muitas coisas para trás. Ainda nem passámos pelo Porto.
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Então vamos ao Porto.
- O Porto foi uma descoberta, o primeiro contacto com a cidade. Tinha muita malta cujos pais estavam em Hong Kong e que tinham motorista fardado, grandes carrões à porta.
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Impressionava-o de que maneira?
- Pela bizarria. Fascínio?, nenhum. Ao mesmo tempo era injusto: metia-me no Cabanelas e via aquela gente toda, pobre, a subir a Serra do Marão. Pobres mas muito alegres, diga-se de passagem. Não sei o que aconteceu ao povo português. Acho que foram os primeiros rádios, sabe? Até para trabalharem nas vinhas levam rádio, em vez de cantarem. Agora já nem usam rádio. No princípio a música era fundamental. Sempre fui sensível às injustiças. O Porto, o Porto ajudou-me a abrir. Era o período da Guerra Colonial, quase não havia homens nem rapazes. Os bailes eram só com raparigas.
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Como é que entra nessa roda dos bailes?
- Bailes que havia em qualquer associação, e também bailes privados. Arranjavam-se namoradas muito facilmente – estava tudo lá fora. Na minha aldeia, havia o sol de Inverno, os cães, um e outro sentados, não se via mais ninguém. A partir dos 18 anos, iam para a Guerra. Mas devo ao Porto ter-me desmamado em relação a uma série de coisas. Fiz também um esforço para sair de um certo maniqueísmo religioso em que tinha sido formado. Comecei a frequentar igrejas protestantes para ver como é que os outros pensavam.
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Era profundamente crente?
- Sim, sim. Já não muito de missas. Isso ajudou a libertar-me do que era o bem e o Mal. É um percurso que tem de se fazer sozinho. Os amigos estavam noutra. Provavelmente não tinham as mesmas inquietações que eu tinha. Reflectia muito sobre mim próprio, escrevia já bastante, e tentava perceber o que se estava a passar. E havia outra coisa: para aquela malta do Porto, não ir às putas era o mesmo que ser maricas. Fazia-lhes uma confusão do caraças. E era uma coisa que também não percebia: como é que com tanta rapariga lindíssima… Tinha essa estranha relação homem-mulher facilitada, apesar de ter passado por um colégio interno, pelo facto de ter tido uma infância de gineceu. A malta nova ia toda para a Rua do Bonjardim, para as Candeias.
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Frequentavam bordéis ou putas de rua?
- Casas, o Porto estava cheio disso. Bastava descer a Rua dos Caldeireiros a passear… O meu avô, no tempo do volfrâmio, às vezes até trazia os trabalhadores para os Caldeireiros.
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Escrevia para as raparigas?
- Ah sim, escrevia. Aconteciam-me coisas extraordinárias: entrava num comboio e apaixonava-me, entrava numa camioneta e apaixonava-me.
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Pela beleza, por aquilo que a pessoa emanava?
- Não sei. Uma vez estava a contar ao José Agostinho Baptista e ele dizia-me «Tens uma imaginação maluca». As coisas estavam num estado de pureza… Eu tinha uma felicidade interior, uma tal transparência, que isso contagiava a outra pessoa.
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Essa «imaginação» deixou de o acompanhar no amadurecimento dos anos?
- Com o passar do tempo as pessoas deixam de ter disponibilidade para viver em estado de paixão. A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder…; outra coisa era o amor, isso sim, movia-me para o cu do mundo. O resto? Brrr…
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Fala de uma relação de afecto que me parece tremendamente panteísta.
- Tinha sempre a casa com flores, mesmo quando estava a estudar e tinha pouquíssimo dinheiro: 18 escudos iam para as sécias, comprava meia-dúzia todas as semanas. Já trabalhava na Assírio, metia-me sozinho, com o saco a tira-colo e um caderninho para escrever, primeiro no barco, depois na camioneta: Costa da Caparica, quilómetros por ali fora, ficava a olhar para o mar. Fazia isto com uma regularidade extrema. A partir de determinada altura, o tempo não chegava para nada, nada!
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Responsabiliza sobretudo o tempo? Estava a pensar que naturalmente há uma inocência que se perde. As pessoas deixam de ser puras.
- Chega a uma altura em que nem damos conta de como tudo se passa. Ficamos absorvidos, e depois queremos mais, cada vez mais, e já não conseguimos parar, a não ser que aconteça qualquer coisa de muito…
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Esteve ainda um ano em Direito.
- Quando vim para Lisboa foi para fazer Direito, mas praticamente não fiz nada. Direito estava ocupado, era o tempo do Martinez.
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Porque é que vai para Direito? Ainda por cima já escrevia, já sabia que lhe interessavam as palavras.
- O que queria era ser poeta. Os poetas que lia mais, o Pascoaes, o António Patrício, alguns simbolistas, eram todos licenciados em Direito. Julgava que o Direito… Uma ingenuidade!, como aliás tinha muitas. O mundo era assim, não precisava que fosse mais complexo. Fica-me mal dizer o eu, mas há uma água límpida que ainda mantenho.
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É o seu lado aldeão.
- Não tenho ninguém a quem desejo mal, acredita? Posso não simpatizar, mas não consigo atirar uma pedra a ninguém. Nem aos de Justes! (riso)
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Os seus pais acompanhavam o seu projecto?
- Cresci sozinho, praticamente sobrevivi sozinho. No Porto, tinha muito pouco dinheiro, os meus pais também tinham muito pouco dinheiro. Tive a minha fase freak, como todos. Quer ver como é que eu era?
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Quero.
- [Mostra uma fotografia com a mulher, Manuela, em Marrocos]. Isto é nos anos imediatamente anteriores à Revolução. Tínhamos a sensação de que o mundo ia mudar e que estava ali, ao alcance da nossa mão. Estamos a dispersar-nos muito, não?
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Vamos recentrar em Lisboa, no primeiro ano de Direito.
- Não, Direito é de ignorar, é só matrícula e mais nada.
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Lisboa, depois do Porto, é um novo mundo. Ainda se identificava como um rapaz da aldeia? Pelo facto de ter estudado, a sua vida passou a ser completamente diferente da vida dos rapazes da terra.
- Na aldeia só estive dez anos, nesta altura já tinha outro tanto fora. Mas mantive uma relação muito forte com aquilo. Em Lisboa, numa primeira fase, toda a malta de Trás-os-Montes se encontrava. Desde cirurgiões a tipos do PC, a tipos da PIDE. Desde malta de Montalegre a malta de Vila Real. Juntava-se o pessoal todo ao pé do [café] Gelo.
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Discutindo a situação do país?
- Não. Era talvez puro instinto, pura defesa. Dos que não conheciam isto, dos que conheciam bem. E depois rapidamente se passou a uma fase, por que passei também, de repulsa por tudo o que era rural. Aquilo parecia-me uma piroseira do caraças, as músicas e tudo. Estive muito tempo sem lá ir.
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Porque se fascinou com uma Lisboa sofisticada?
- Julgo que foi um processo mais cultural, que começa nos livros e no que se aprende. Há coisas que irritam!, que, aliás, ainda hoje me irritam: um atavismo, um não querer saber, uma preguiça natural.
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Foi tudo hiperbolizado.
- Parecia-me atávico, justamente. E ridículo: os rapazes chegavam de bicicleta aos bailes, com óculos espelhados comprados na feira! Vinham juntos, mas depois, à frente das raparigas, atravessavam o baile para se cumprimentar. Hoje tudo isso me encanta, mas na altura achava hipócrita.
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Tinha algum amigo da escola primária?
- Sim. Que estudassem só uma rapariga e um rapaz; ela é hoje professora, e foi o único caso de chegar ao fim do curso como eu.
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Estava a tentar perceber se ter tido acesso a outros universos o demarcou das pessoas que conhecia.
- Não muito. Nunca julguei as pessoas pelo que sabiam. Nunca fiz qualquer discriminação pela pessoa ter o curso ou não ter, ser assim ou assado, ser pobre ou rico. Quer dizer, é uma coisa tão natural que o simples facto de falar nisso mete-me impressão. E nunca tive mitos, nem Marilyn Monroe, nem Jim Morrison; a única coisinha que talvez tenha tido foi pelo Che Guevara. As pessoas fascinam-me sempre muito mais. Na hora da sesta, enquanto os outros iam dormir, passava o tempo a ouvir os velhotes. Horas e horas e horas. E depois continuou, com o agostinho da Silva, que ia ouvir de vez em quando.
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Quando é que encontra o Agostinho da Silva?
- Anos 70, pouco depois de vir para cá. Um amigo disse-me «Tens de conhecer o Agostinho». Só não ia mais vezes visitá-lo por causa do cheiro dos gatos (com o cio, o cheiro é insuportável).
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A sua gata, Gueixa, cheira?
- Não, os machos é que é uma coisa terrível. Ele vivia no terceiro andar e sentia-se no fundo das escadas.
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Então, é um rapaz universitário que vai parar a Caxias. Conte lá a história, antes de aprofundarmos a relação com as letras e com a Assírio.
- No Porto já participava numas coisas pró-social. Com o Bispo do Porto e uma certa igreja mais prá-frentex, com um grupo de jovens. Havia uma espécie de reflexão, um centro na Rua do Rosário, com a Irmã Humberta; cantava umas baladas do Fanhais e do Zeca Afonso.
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Estavam ligadas para si essas duas componentes, a religiosa e a política?
- Por acaso nunca tive grande sentido político. Na faculdade deixei-me motivar pela luta anti-Guerra Colonial, mandei umas bocas e pronto. Mais nada. Fui parar a Caxias basicamente porque estava a ouvir o Zeca Afonso no Centro Nacional de Cultura. Deram-me enxertos de porrada inacreditável. Com a minha ingenuidade perguntava: «Por que é que me está a bater?»
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A sensação mais forte é o medo?
- É a de que se está nas mãos da mais completa arbitrariedade; podem-nos dar um tiro, podem fazer o que quiserem. Mas agora, estar a contar isto tudo…
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Custa-lhe?
- Não. Mas foi a primeira machadada na minha vida. Até essa altura tinha sido como um pássaro, à solta. Cortaram-me o cabelo todo, que era enorme, implicaram com as coisinhas que trazia no saco: um caderninho, umas almofadinhas bordadas que as minhas amigas me davam. Meteram-me numa cela sem um papel, sem um livro, nada nada. Um dia parecia uma eternidade. Sabe o que me fez cair na situação? Perceber que já não mandava em mim: «Tens a mania que andas aí como um pássaro?».
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Quanto tempo esteve?
- Para aí uma semana. Lá dentro apercebi-me que havia luta; nos pratos, no alumínio, escreviam coisas como «Coragem, estamos contigo», «Resiste»; na enfermaria havia coisas escritas com sangue; e havia gajos que cantavam, cantigas alentejanas.
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Quando sai quer voltar à terra. Formulou seriamente o desejo de voltar para a aldeia? Ainda se reconhecia nessa vida?
- Estava farto. Essa coisa da Aura Mediócritas, como dizia o Sá de Miranda, é uma coisa que existe muito dentro de nós. Às vezes vejo colegas meus lá em cima, a tranquilidade com que estão com os seus filhos. A felicidade é aquela coisa projectada nos outros, felizmente estamos já avisados, sabemos que não existe. Mas nos poetas acontece muito, o Pessoa então, «Ai se eu pudesse casar com a filha da minha mulher a dias». Sempre o outro como representação, encenação da felicidade. Essa busca de uma vida calma, contemplativa, às vezes assalta-me. Na altura era insólito, por ser muito novo e ter o mundo à minha disposição.
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Aos 22/23 anos vai para a Assírio como vendedor.
- É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar, mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá um escritório e deu uma mão, mais duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição do que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.
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Já tinha acabado o curso?
- Já me tinha matriculado em Sociologia em Évora!, para ver as voltas da minha vida. Fui para a Assírio para a parte de vendas, mas ali todos faziam tudo. Sabe como é que se sobrevivia? Quantas vezes fazendo bancas, para sacar algum dinheiro. Estava mesmo na penúria, penúria. Fui-me mantendo por lá, acabei o curso de História.
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Vivia desse pequeno trabalho?
- Já tinha um outro numa agência que contratava artistas: os Genesis, os Procul Harum.
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Conheceu essa malta?
- Alguma, e outra que vinha para o Casino do Estoril, de românticos a stripers. Foi o meu primeiro trabalho, quem mo arranjou foi a Maria Leonor, da rádio.
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Na Assírio assume, em 78, a coordenação editorial. Imagino que tenha correspondido a um desejo de estabilidade que grassou por todo o país, passada a agitação política.
- E a tropa. Fui para a tropa depois de completar o curso. Tinha sido já refractário, devia ter ido para os Fuzileiros antes do 25 de Abril. Não fui e andei a monte.
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Em 78 assentou arraiais na Assírio. Deixou de ser o rapaz à descoberta do mundo?
- Continuei à descoberta. Ainda fui fazer vindimas a França. Andei sempre muito à solta, parecia que o mundo todo me sorria. Nestas viagens, sozinho, amadurecia muito, fermentava.
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Na base da mochila às costas?
- Era assim mesmo, sem saber onde ia ficar. Nunca fiquei na rua.
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O que é que queria da vida? Ou tratava-se de a ir descobrindo?
- Descobrindo. Mas sempre à espera, com a sensação de que a seguir é que era. A seguir, a seguir.
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Tinha desistido do sonho de ser poeta?
- Fartei-me de escrever. Tenho ali cadernos que nunca mais acabam. Depois começa-se a publicar tanta poesia tão boa… Não sei se é muito importante.
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Realmente?
- Ah, a vaidadezinha, não tenho muito essa vaidadezinha. A vaidadezinha que tenho é colectiva, por amigos. Às vezes apetece-me escrever, é uma necessidade interior, um imperativo. Na verdade, posso não escrever poesia, mas vivência poética acho que a tenho. Escrevo coisas incríveis. Só que não as escrevo. É como se as escrevesse, andam assim por dentro. Poemas feitos. Metê-los no papel? Brrr…
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O seu olhar é eminentemente poético, marcado pela vivência rural.
- E a visão desde a infância. Ver tudo, com muita atenção. Podia escrever um livro de memórias, relatando a vivência com uma gente de que pouco se sabe, das histórias que lhes ouvi.
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Portugal não tem tradição de livros de memórias. As biografias, noutros países, vendem-se como pão quente.
- Em Portugal as biografias não pegam, não sei dizer porquê. Eu gostava de fazer, sobretudo pela vivência forte que aí tive, humanamente. É quase uma dívida que queria saldar. Podia juntar a minha experiência no Alentejo. E a minha experiência enquanto editor; podia fazer um livro extraordinário sobre os poetas que conheci, não só os poetas que publiquei, mas todos os outros: o Manuel da Fonseca que ia tanta vez à Assírio, o Rui Cinati que ia diariamente à Assírio…
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As relações que a editora mantém com alguns poetas é mítica. É verdade que vão levar o almoço diariamente a casa do Cesariny?
- É. Mas não é preciso contar isso.
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O que me interessa é perceber a relação familiar que se estabelece entre si e alguns destes autores.
- Sim, são a minha família, não há nenhuma dúvida. Mas há outros, que nem sequer são da Assírio, com os quais tenho uma relação igualmente profunda. Caso do Eugénio de Andrade: falamos dia sim, dia não.
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Pensou muito neste projecto no último ano, desde que sabe da sua doença? Mesmo que trabalhe a partir de casa e vá à Assírio ocasionalmente, imagino que esteja mais recolhido em si e nas suas memórias.
- É verdade. Mas tanto penso em fazer isso, como logo a seguir penso em não fazer. Sou muito assim. Na minha vida as coisas quando têm de acontecer, acontecem. Não falo de um deixar-se reger, de um determinismo exterior à minha vontade; mas fui ganhando alguma sabedoria, percebendo que as coisas impõem-se.
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Prefere que as coisas lhe aconteçam?
- Sim. A minha vida é feita de acasos, de circunstâncias. Nunca forcei muito as coisas, nem as relações amorosas. Suponhamos que as coisas andam num caos e que tendem para uma harmonia. Se não as precipitarmos, elas tendem para uma pacificação. Tudo, tudo o que está no universo é assim. Se calhar é a lógica da vida toda.
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Poucas foram, então, as opções de vida tomadas de forma categórica.
- Sim. No trabalho, claro, é diferente.
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A propósito dessa vida que lhe acontece, como ficou, a páginas tantas, a relação com o divino?
- É uma relação harmoniosa, sempre foi. Tenho fé, tenho. Há a perplexidade que algumas coisas inevitavelmente nos suscitam; por outro lado, há ainda tanta coisa por conhecer que é uma arrogância julgar que já estamos no fim do processo. Só posso falar da experiência própria. Não posso falar a alguém do encantamento que me dá ver um melro ali à frente no ramo, ou de uma pequena flor que me enche completamente de vida. Então neste momento actual enche a sério. Como não podia, quando era mais novo, ler um poema às pessoas que me respondiam «Lá vem este com o poema, agora com esta merda».
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Harmoniosamente foi fazendo a síntese entre a sabedoria das pessoas e da terra.
- É a mais importante.
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E o saber livresco e o que deriva do contacto com outras pessoas. Foi este o seu labor.
- Aprendi muito vendo, vendo a natureza. Isto é uma escola permanente, é uma escola permanente. O grande problema é que está a morrer a nossa sensibilidade, a nossa disponibilidade. A relação com os outros está terrível. Esta coisa do novo-riquismo, esta ansiedade desenfreada que não leva absolutamente a nada. Um punhetaço, como dizem os espanhóis. Há uma coisa infernal que retira às pessoas a sua tranquilidade, a sua liberdade. E estamos a matar aquilo que, em putos, no tempo da festividade, do amor e tal, tínhamos como capital incrível, e que era o afecto.
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Na altura já sabia disso?
- «O nosso grande capital é o amor». Era a nossa grande riqueza, o que queríamos. Depois logo nos safávamos, íamos a França, enfim. Agora precisam de não sei quantos contos para ir para a estância de neve, mais não sei quê que só vai com determinadas condições. Estamos a perder a liberdade. Mais: a perdê-la sem ter consciência disso.
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Esse conforto material em que vive agora, esta sua casa tão simpática, a casa da aldeia…
- Mas eu posso viver em qualquer sítio. Se não fosse a Manuela a arranjar a casa, algum dia tinha isto? Não, não me mexe muito. Seria uma estupidez dizer que não gosto de ter um bom carro, em vez de ter um carro a abanar por todos os lados. Agora, que não signifique hipotecar a liberdade da pessoa. Se não puder ter, não há problema, até não há problema absolutamente nenhum.
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Estas coisas ficaram mais flagrantes para si porque as pessoas ficam sacudidas quando estão doentes?
- Não, absolutamente nada. Tinha consciência delas, mas andava tão alienado que me apetecia chegar aí, ligar a televisão e ver a bonecada porque me dava o sono. Neste momento sinto-me melhor fisicamente, por incrível que pareça. A minha cabeça parece que estourava, com milhões de preocupações, permanentemente tau-tau-tau. Não tinha paz. E sinto-me tranquilo.
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Sente? Não o invade uma angústia quanto ao futuro?
- Se morrer quero ir para a minha terra.
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Foi nisso que imediatamente pensou?
- Foi. Logo. E disse-o à Manuela. Às vezes, depois das quimios, vou-me um bocadinho mais abaixo, fico mais mole e psicologicamente fico mais afectado. Agora, como hoje me sinto… Fico aqui sentado a ver os melros, de que gosto muito, os pequenos rebentos das folhas.
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Porquê os melros?
- É um pássaro muito bonito, canta extraordinariamente bem. Quando tinha seis anos, havia uma japoneira ao pé da casa dos meus avós e cantava lá um melro ao amanhecer; contam que dizia: «Ó Vó, olha o que o melro está a dizer!, o que é que está a dizer?, queres comer, queres comida?». Era eu que estava com fome.
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Teve um encontro, com um livro ou poema, que tivesse sido determinante na sua relação com a literatura?
- Quando comecei a sentir a poesia a sério, assim poesia de estremeção, foi nos Simbolistas, Gomes Leal e Camilo Pessanha. Sobretudo Pessanha, a gente dizia: «O que é isto?»
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Que verso ou poema traduziria a essência de si e que escolheria para seu epitáfio?
- Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas sobre mim, não pense que não. Muitas convulsões, muitas dúvidas. Sou um toiro. Agora estou partido. Quem é que me domava? Nem eu. Energia. Alegria. Era capaz de levar uma multidão. Era uma coisa genésica e telúrica. Ao mesmo tempo, tenho uma dose de feminilidade forte, que não enjeito. A mulher herdou uma sabedoria de muitos séculos, de velha aranha que sabe esperar, perceber o silêncio. Os homens são tipos de uma ingenuidade total, de uma generosidade inexcedível, só qualidades; e depois há qualquer coisa de bruto, de guerreiro, de incapacidade de crescimento.
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Que conversas tem com o seu pai e com a sua mãe?
- Ao meu pai gosto muito de o abraçar, estamos sempre agarrados um ao outro, «Então a poda já está feita?», «Está quase», e tal. Com a minha mãe falo das coisas da casa, das minhas irmãs, deito água na fervura. E é assim.
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As partes mais íntimas de si ficam para quem?
- São coisas que a gente digere em nós, não é? Nunca matei ninguém, não tenho nada que me atormente. (pausa) Precisávamos de ter várias vidas, não é?, para acertar com uma. Esta é muito pequena. Mesmo que a tenha vivido intensamente. Morrendo brevemente, já ganhei muita coisa. Claro que gostava de mais, de fazer isto e aquilo; mas por outro lado, mesmo 100 anos não é nada, 200 também não. Estou habituado a ver a biografia de escritores… Isso passa tudo. É uma lucidez que convém ter afinada. Sempre a tive, não é de agora. Pelo contrário, agora tenho mais ganas de viver. Mas sempre percebi o quão relativo isto era: 90 anos, 100 anos, 200 anos. Não se dá conta; julga-se que quando se for mais velho se vai saber mais e também não se sabe nada.
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Que idade tem?
- 48. "

sábado, maio 28, 2011

o contínuo descontínuo

hoje li que uma sonda espacial a vários milhares (seriam milhões? ou mais?) de anos-luz da terra foi atingida por uma descarga de positrões emitida por uma tempestade eléctrica (vulgo mega-trovoada) a decorrer nesse momento na namíbia.

isso fez-me pensar uma vez mais sobre o valor das moléculas que a todos nos formam. agora acredito ainda mais piamente que quando espirro estou a emitir vibrações para andrómeda. que quando salto no ar estou a desviar a ionosfera o suficiente para fazer com que aquele meteorito não caísse no meio de oklahoma, mas sim num campo de milho ali perto.

depois vejo as tuas moléculas. tão juntas e alinhadas que me parece impossível que uma explosão de uma bilha de gás em plutão as mova do sítio. pergunto-me se os seres imperfeitamente perfeitos conseguem quebrar este contínuo de matéria e ser imunes ao que quer que seja que os envolva (vou ser multado pela emel da língua portuguesa por usar demasiados 'q's nesta frase). no fundo, provavelmente, quando a matéria de alguém assim for reciclada, vai ser vendida como conjunto de átomos de primeira qualidade, figurando nas prateleiras de uma qualquer loja gourmet de derivados de azoto. ao mesmo tempo, a de muitos outros, será desviada por tempestadas eléctricas ou condenada a um rateio ao desbarato numa qualquer margem de um qualquer rio de um qualquer mundo.

quinta-feira, maio 19, 2011

desalinho

doces, suaves e frutados.

é o que eu diria dos teus cabelos. sim, podes argumentar que são só cabelos. para mim são muito mais do que isso. são florestas tropicais nunca antes exploradas, com gnomos perdidos e orangotangos imitadores. são lençóis de água caminhando escondidos sobre a terra, com um brilho que desconfio ser do tão badalado elixir da vida. toda uma vida aí se passa. imagino milhões de pequenos operários cuja função de vida é manter o teu cabelo assim, como está neste momento. e é com peso na consciência que o desalinho, imagino-os todos a cair em desespero, a saltar para uma morte certa, a perder a função da sua vida. mas logo me passa, porque ele de novo ganha curvas fatais e percebo que é a perfeita demonstração de quão bela é a natureza. não é mais nem é menos que uma estrela cadente em noite de verão ou uma aurora boreal em noite de inverno. com a diferença que está aqui. que o posso tocar. e ter a certeza que eu também posso mudar a natureza, nem que seja por um momento...



picture by me as well

sábado, abril 09, 2011

sóis

vivo enfrascado em ideias nos dias que passam. têm tanta consistência como as placas tectónicas para os lados do chile. o país, não a praça.

gostava de virar o sentido às coisas todas, mas por mais que procure não consigo encontrar a alavanca. não me podem dar um dia que comece com o sol a pôr-se e acabe com ele a nascer? ficaria sentado na doca da baía, a ver os barcos, que agora saíam em vez de entrar. marinheiros perdidos, com astrolábios que pareciam atingidos por um qualquer bug do ano-não dois mil. aviões em desespero perante rotas, sem perceber que de barriga para o ar chegariam ao mesmo lugar que era esperado. e pessoas em pânico, o mundo ao contrário, o que fazer? ninguém nos ensinou isso na escola. só aprendemos a viver o mundo direito, somos tão avessos ao avesso. se a escada rolante está avariada, até as pernas fraquejam quando lá entram porque não estão habituadas aquela imobilidade. muito menos arriscar subi-las ao contrário. isso fazem as crianças, ainda a viver na imaginação sem regras, e logo levam nas orelhas e já não comem gelado à conta disso...

mas enquanto não encontro essa alavanca, gostava pelo menos de saber como será o pôr-da-terra visto do sol?

terça-feira, março 29, 2011

morte à simetria. lenta, por favor.



escrevo com a pena que se transformou em caneta que se transformou em dedos que carregam em teclas.

escrevo com a sensação de quem flutua por cima de um mundo maior, feito de beleza e de desequilíbrio. tomara o dia em que se assuma que a simetria é o expoente máximo do pior que o homem consegue criar. a natureza prova isso das melhores formas. não há simetria que quando mudada de escala não seja assimétrica. a definição nasce precisamente da assimetria.

percebo a paixão por linhas direitas. é o mesmo conforto de achar que está alguém num pedestal num edifício de pedra, que olha por vocês, e que corrige os vossos erros, vos apara os erros e vos aplaude as virtudes. mas as linhas direitas são nauseantes. as linhas direitas estão sempre a pedir para levar com aquela borrachinha do paint brush, que eu uso mentalmente para apagar o que não gosto.

para mim, tudo o que me apaixona é assimétrico. até o wassily, com a sua mestria, pegou em formas geométricas e baralhou-as como quem atira os dados para cima de uma mesa. aqueles que se dedicaram a desenhar senhoras direitas e com chapéus de plumas ou desinteressantes maçãs dentro de um prato, tenho para mim que um dia se vão afundar no pântano do esquecimento, numa espécie de sismo global que tudo mudará.

o que nos foge entre os dedos



fico perdido. parado nesta encruzilhada. por mais voltas que dê, venho com demasiada frequência parar a este cruzamento em que para um lado vejo a seta do futuro e para o outro a placa tosca do passado. em primeiro lugar, adorava saber que lugar (estava para usar um pleonasmo desde as quatro da tarde) é este onde me encontro. há quem lhe chame presente, mas eu sou levado a crer que presente é coisa que não existe.

existe só como homónimo, sobretudo nesta altura do ano. porque, tirando isso, foge entre os dedos como outra coisa qualquer. o presente nunca o é. mas também não está bem definido que eu não possa voltar ao passado ou acelerar o meu caminho ao futuro. ninguém define essas regras. criam-se tantas comissões para tudo e mais alguma coisa, e o tempo continua a brincar ao deus dará (se calhar até só a brincar ao dará), sem que nenhuma entidade reguladora o obrigue a apresentar contas e a explicar porque faz o que faz e como faz.

na volta acabaria como tudo o resto. corrupto e vendido. e nesse dia eu nem perceberia bem que estava no cruzamento de sempre. a placa tosca teria sido trocada por um diamante qualquer e o caminho sinuoso adiante era agora uma alcatifa horrível, pejada de ácaros e que nem no barroco era bonita.

pensando bem, vou deixar o tempo continuar assim. a fluir por ele. a viajar sem regra. a esconder os buracos negros, os menos negros e até os que não têm cor. é verdade que me foge entre os dedos, mas antes isso que estar claustrofobicamente fechado dentro de uma ampulheta. por mais bonita que ela fosse...

terça-feira, fevereiro 22, 2011

senti o natal chegar sob a forma de um termo

não ligo a toda esta agitação à minha volta. noto que está a chegar o natal porque enfeitam as ruas com estas luzes bonitas e vejo passar senhoras e senhores cheios de sacos, cheios não sei muito bem do quê. a loja aqui mais perto põe uma música diferente do resto do ano, em que senhores estrangeiros falam de como o natal é uma altura bonita, com quente nas lareiras, amor entre as pessoas e bonecos de neve.

o meu calendário é outro. o meu advento é mais irregular. conto os dias consoante está frio ou quente, não conforme os dias que passam desde o início de dezembro. e no natal está frio. muito frio. por isso conto que estou no natal quando vejo a mistura de chuva, frio e luzes.

ontem deitei-me no sítio do costume, enroscado da forma do costume, mal tapado entre as caixas de cartão e as duas ou três mantas rotas que consegui tirar de uma esquina há uns meses. preparei-me para mais uma noite de luta com a hipotermia e os meus dedos estavam gelados ainda o sol não se tinha posto. uma vez vieram falar-me em deuses e eu não consegui parar de me rir. como posso eu acreditar em deuses, quando todas as portas me foram fechadas, sobretudo as da rua, sobretudo em dias frios?

por volta da meia-noite surgiu-me um anjo vindo do nada. sim, ontem acreditei em anjos. trazia-me um termo, com sopa quente, que não me soube a sopa de legumes, mas sim a um creme de diamantes com toque de felicidade e lágrimas de alegria. sorvi a primeira coisa que comia nos últimos dez dias, acho que o quente me desceu directamente ao coração. e tentei olhar para quem tinha enchido a minha noite do tão famoso calor de que os senhores estrangeiros falam nas músicas de natal. já tinha ido embora, seguia pela rua a encher de luz as trevas do natal de tantos outros.

e ali e então fez sentido ser natal. e, sem descobrir se existem ou não deuses, tive pelo menos a certeza de que existem pessoas boas. com B grande, já agora.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

adoro este jogo do faz de conta que merecemos todos caixas de ferrero rocher

o natal.

sem dúvida que é uma época com os seus altos e baixos. revisitamos a família, fazemos jantares de amigos, revemos o love actually e o home alone e aproveitamos, umas horas que seja, para ficar no quente do enrolado do sofá, a brincar às lareiras, verdadeiras ou fictícias.

mas o natal traz o pior da relativização humana. a teoria que é vendida às crianças de que o pai natal só traz prendas para as que se portaram bem é uma treta quase tão grande como a de girar tudo à volta da terra. convençam-se de uma coisa, o problema não é não existir pai natal, o problema é brincarmos todos nesta época ao jogo do faz de conta que todos são bonzinhos e merecem uma caixa de ferrero rocher. decerto que o pior dos violadores dos direitos humanos consegue construir uma pirâmide só com caixas de ferrero rocher. porque as recebe. porque dar presentes é social. faz parte do que nos é incutido desde novos, e é visto como uma pre-obrigação. quem não dá, nunca o não faz por convicção. é sempre assumido como um esquecimento. na pior das hipóteses.

não estou ácido hoje. só acho que devíamos aproveitar esta época de proclamada paz e harmonia, para a organizar na entropia de discriminar quem merece um ferrero rocher ou quem merece uma folha em branco. ou nem isso, que até pode ser uma forma de arte.

eu sonho com um natal branco. mas branco de neve. não de branqueamento de um ano de falta de valores, tapado à pressa com uma mão cheia de azevinho e o primeiro livro que estava na prateleira do top de vendas da bertrand.

quinta-feira, novembro 25, 2010

a alegoria da taberna

estávamos caídos num silêncio nu. perdidos entre o grau de um qualquer abafado que deslizou pelo tubo que serve para alimentar e o fumo intenso do tabaco perdido, antes fora mascado. nas paredes memórias antigas, esquissos de noites melhores, sinais de noites piores, palavras toscas riscadas toscamente, figuras de estilo que o eram sem o ser.

pedimos mais um. e mais outro. e depois ainda mais outro. ficámos sentados no êxtase de quem vê o mundo à sua frente. vimos romanos, fenícios, vândalos, lábios, olhos, outros lábios, promessas, desastres, confidências e pecados. éramos ali, todas as noites (e algumas noites ate' chegaram a ser dias) confidentes de um mundo que ali passava. com um gesto pacífico mandávamos seguir. ouvíamos outro. e mais outro. a confissão da vida sem um castigo no retorno. sem obrigações de penitência. pelo preço de um sorriso.

um dia um de nós decidiu levantar o seu corpo torpe e cambalear ate' à porta da rua. escalou os dois degraus, a porta de madeira gasta e arrastou-se pela calçada. voltou um dia depois. tinha visto um outro mundo. toda uma nova maravilha. falou-nos de malabaristas, de castelos, de monstros estranhos com trela e com guizo, de máquinas que transportavam pessoas e tinham uma espécie de rodas, de fumo, de nevoeiro, de tanta coisa... queria convencer-nos a acordar e de uma vez ir e conhecer.

rimo-nos quase em uníssono. que nevoeiro mais perfeito que aquele que os nossos olhos tinham permanentemente? para quê ver castelos, quando o baralho de cartas que ali tínhamos construía um em segundos? os malabarismos estavam por conta do empregado quando pedíamos mais um copo. e monstros estranhos éramos todos nós. uns com mais trela que os outros. felizes e inebriados na felicidade de quem vê o mundo la' de fora sem ter que escalar os dois degraus e atravessar a porta de madeira gasta.



(picture by me)

sábado, novembro 13, 2010

uma caça ao tesouro diferente

desde que o Homem e' Homem que tenta expressar o que sente através da arte. Desenhava primeiro em paredes de cavernas, com sangue de animais. ai' tenho a certeza que não era expressão artística, tão so' apenas visão de futuro e de como aquela caverna se viria a tornar desse modo um interessantíssimo polo turístico com milhares de bilhetes vendidos para la' entrar.

continuou-se depois durante milhares (quais milhares, muito mais, centenas!) de anos com modos de pintar mais elaborados, e formas diferentes, quer seja esculpindo, escrevendo, compondo, quer tudo o resto. que haja muito resto. mas, de facto, a necessidade fundamental e' expressar. no fundo expressam-se a beleza, alegria, tristeza, raiva, paixão, todos os sentimentos, concentrando-se num pincel, lápis, caneta ou escopo e polvilhando de vida uma peça que se quer imortal.

a conclusão e' q o Homem não consegue guardar para si próprio o que sente. felizmente. mas a beleza esta' em toda a parte e por vezes não e' captada de modo universal. todos se sentam a ver o pôr-do-sol (continuo a achar que aquilo não e' o pôr-do-sol, mas sim o girar da terra), mas raro e' o q se senta a ver o saco de plástico a voar. todos ganham bolhas nos corredores do prado, mas ninguém perde um minuto a pensar no que estara' por trás da vida de um bicho de prata, que gosta tanto de livros como eu e alguns de vocês, e o prémio que recebe e' uma vil sapatada e a vida desfeita em microssegundos.

adoro arte. mas arte e' isto tudo. dalí casado com conchas da praia. kandinsky de braço dado com um andaime das obras. sartre em amena cavaqueira com o gajo de alfama e com um pirilampo que por ali passa.

esta' tudo la' sempre. so' e' preciso caçar o tesouro diferente.


quinta-feira, novembro 04, 2010

preciso tanto de danieis sa' nogueiras como de um pontape' no escroto

leio no i que aparentemente portugal tem um novo guru. da' pelo nome de 'daniel sa' nogueira' e encheu recentemente o pavilhão atlântico com oito mil pessoas para uma 'palestra espectáculo' sobre crescimento pessoal. o michael buble' e o tony carreira também o fizeram, mas dispensaram a parte da palestra e passaram logo ao espectáculo. pelo menos o michael buble'.

crescimento pessoal. por onde começar?

...

... ...

... ... ...

ok, para eu saber como ser melhor e mais realizado, pessoal e profissionalmente, parece ser suposto enveredar pelo caminho do 'personal coaching', tendo uma espécie de treinador da minha personalidade...

erro!

podem ler 'o segredo'. podem ler 'a profecia celestina'. podem ler o que quiserem. esses livros têm magia. eu sei, ja' li alguns e e' um facto. mas a magia que la' vem e' so' uma: a prova de que vocês próprios podem construir o vosso sucesso por vocês mesmos. não precisam de ter um tipo de barbas a cobrar-vos uma entrada e a falar durante duas horas para acreditar nisso.

ate' conheço um excelente 'personal coacher', chama-se 'vida'. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ganhar o euromilhões que o ganham. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ter sucesso na vossa profissão que o têm. e' trabalhando. e' lendo. e' estudando. e' aprendendo com o que vêem. com o que falam. com os outros. com os inteligentes. com os que não vos parecem inteligentes, mas que são muito mais inteligentes do que os que parecem. com os que têm histórias para contar e ninguém os ouve. o segredo esta' la'. so' e' preciso estar atento.

aprendem mais em meia hora parados a ver um carreiro de formigas do que em duas horas de daniel sa' nogueira. e não me digam que as formigas tiveram de ouvir um guru para aplicarem o conceito de eficácia. aprendem mais ao perceber que as tribos das andaman, sem livros e internet, não morreram no tsunami de ha' uns anos porque fugiram para as montanhas ao ver a linha de mare' descer do que ao ler durante meses semi-verdades globais encapotadas de ovo de colombo.

lamento, daniel sa' nogueira. não tenho nada contra ti. és um tipo esperto. podia ter-te dado para inventar o facebook e viver disso, vives das ilusões dos outros e não vejo mal nisso. o problema e' de quem tem essas ilusões em vez de gastar a energia em concretizações...

P.S.: ja' agora, se querem ficar parados duas horas a ouvir falar um homem, oiçam o dalai lama. não vos tenta converter a nada e fala-vos despretensiosamente de tudo o que faz parte da vossa vida e da vossa não-vida.


(picture by me)

terça-feira, novembro 02, 2010

NYC, a extensão filosófica do meu eu físico

Ha' cidades que não aquecem nem arrefecem. Ha' cidades boas. Ha' cidades óptimas, verdadeiramente fantásticas. E depois ha' Nova Iorque. Num patamar distinto. Uma epifania do ser a cada momento, a cada olhar, a cada passo, a cada movimento respiratório.

Mesmo a Nova Iorque turística e' uma bela cidade, capaz de encantar novos e velhos, judeus e muçulmanos, fanáticos religiosos e ateus. Mas a verdadeira cidade esconde-se atrás dos autocarros vermelhos de dois andares, que apregoam mostrar a essência de ny em quatro ou cinco horas.

Perco-me na minha cidade, e descubro-me perdendo-me. Poucas coisas me dão tanta paz como sentar-me em brooklyn a olhar o skyline do outro lado do rio. O east river corre com pressa, muita pressa. Pressa de quem quer passar pela cidade onde tudo acontece e rapidamente chegar ao mar. A pressa de milhões de gotículas de água que pensam não aguentar a pressão desta cidade. Pressão essa que e' constante. Ninguém fica indiferente.

Para la' da vertiginosa velocidade de vida da cidade, sentado no meu banco consigo olhar a calma que me envolve. Como tudo flui numa calma apressada. Dois namorados sentados partilham histórias, amores, com um pano de fundo que faz inveja a muito cineasta. Uma modelo despe-se de preconceitos enquanto e' fotografada para um novo catálogo de roupa interior. Sinto-me quase impelido a avisar os produtores dessa sessão que e' um risco tirar fotografias ali, as pessoas não se vão concentrar a cem por cento no produto a vender.

E ando. Caminho sem parar. Entro aqui, entro ali. Corro a High Line de cima a baixo, de baixo a cima. Petisco no Pastis, entro na Little Marc Jacobs. Paro quatro, cinco, seis horas na loja de vinis que se esconde do bulício dos cafés da St. Marks Place. Meia dúzia de 'nós' passam ali estas horas, a correr disco atrás de disco, a descobrir o que era a 'pacatez' inicial do Joey Negro ou a relíquia redonda dos Stardust. E saio, ando mais, entro no cafe', procuro o jardim nas traseiras, sento-me a ler e peço um copo de um Chardonnay. Como e' bom misturar os prazeres todos nos mesmos momentos... acho que fomos programados para ser assim.

A vertigem não me assusta. Antes, puxa por mim.

Desoriginalizando, 'new york, i love you'.


(picture by me)

segunda-feira, novembro 01, 2010

A vida e' uma pizza quatro queijos

Primeiro que tudo um disclosure: eu adoro queijo. Quem me conhece sabe que gosto tanto de queijo que invariavelmente a minha escolha recai, mesmo em vastos menus, sobre a pizza quatro queijos. Que nunca tem quatro. Transformo-a sempre em cinco, com reforço de parmesão on-the-top.

A vida não deixa de ser como uma pizza quatro queijos. De base temos a nossa personalidade, pode ser o mozzarella ralado e o molho de tomate. Juntamos a nossa família, que e' uma espécie de emmenthal, que une os ingredientes de base. Não me esqueci da massa, respeito a massa, claro. Mas a massa e' aquilo em que nascemos, a casa, os vários mundos, os olhares trocados que contam e não contam ao mesmo tempo. Os amigos vêm como um provolone, que reforça um sabor especial, que se destaca no meio de um festival de textura e sabor.

Os amores definem a pizza. Umas vezes danish blue, outras vezes roquefort, eventualmente gorgonzola, chévre ou rodelas de queijo fumado. Variam, apaixonam, encantam, podem adorar-se ou detestar-se, às vezes num gesto quase simultâneo, confundindo sentimentos extremos como quem confunde a defesa com o ataque.

Claro que cada um faz o que quer da sua pizza. Digo, vida. Junta-lhe o fermento que quer. Acrescenta o toque de azeite de trufas que lhe pareça mais adequado. Pre-aquece o forno ou não, tudo na vida e' uma opção. E deixa os 220ºC aquecerem durante o tempo certo, às vezes de menos, outras vezes demais. O importante e' sentir a crosta. Não da ferida. Mas sim da pizza.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Metamorfose



As crianças têm uma felicidade muito mais natural. Quando crescemos, a nossa felicidade deixa de ser ingénua e genuína e passa a ser pensada, construída, e muitas vezes falsa. Convencemo-nos que certas coisas nos fazem felizes. Enganamos o mais profundo do nosso ser e do nosso pensar, e nem descobrimos que o que nos faz realmente felizes e' aquela gargalhada súbita, que sai não sabemos bem como, não sabemos bem porquê. Estando bem entre amigos, como estando bem entre amores, sabemos que nada mais à volta interessa, mas isso era o que sentíamos muito mais frequentemente quando éramos crianças.

Eu imaginava que 'quando fosse grande' queria ter uma piscina exclusivamente cheia de leite creme. Teria empregados sempre a confirmar a temperatura e textura do leite creme, para que, quando me apetecesse, eu mergulhasse nesse éden gastronómico, em direcção a pirolitos de prazer. Ate' podiam ir amigos à piscina. Seria grande e dava para todos. No fim nem precisávamos de toalhas e podíamos tão simplesmente lamber os restos de leite creme das peles alheias como quem rapa o tacho do doce acabado de fazer. Aqui esta' logo uma das perdas de inocência. Não só não posso ter uma piscina de leite creme, como não posso dizer que lambia corpos alheios sem lhe dar um cunho de total desinocência.

Também queria que a minha cidade fosse toda equipada de escorregas de água. Sete colinas (são muitas mais, melhor ainda), transformadas num gigantesco parque aquático, da altura em que ainda ninguém os via como ferramentas de homicídio infantil. Eu então poderia andar pela cidade de calções e descer a Bica como quem ataca o Kamikaze.

Sabemos que tudo isto passa. Crescemos e percebemos que o mais próximo que a cidade se torna de um parque aquático gigantesco e' o dia em que chove desalmadamente, e na pressa (sempre a pressa) de chegar a lugar nenhum, derrapamos e quase levamos à letra a história do kamikaze.

Agora sei que não posso ter uma cidade de escorregas com água. Mas a piscina de leite creme...

segunda-feira, agosto 23, 2010

Tempo



Não fujas. Temos tempo.

O sol ainda vai alto. Vês como faz sombras com os teus cabelos? Ficam pequenos caminhos espalhados na areia, que não sabem bem a quem pertencem. Nada na areia sabe bem a quem pertence. É umas vezes do mar. Outras vezes da terra. Outra vez da família que traz frango assado com batatas fritas pala-pala. Do casal de namorados que se oscula enquanto o dia cai. Do solitário que olha o horizonte em busca da fuga para a solidão.

Uma gaivota. Não há tempestade no mar. Que raio faz este bicho em terra? Há tempestade talvez nas nossas almas, no vórtice de alegria, felicidade e medo do que vem. Mas no mar nada. A calma de um fim de tarde perfeito, com a brisa que lembra o que move o mundo, as estações, os projectos, os sonhos, o futuro.

Não sei ver horas. Sei contar quantas vezes o sol se põe e aparece de novo. Sei que vem do Japão. Sei que vai para Nova Iorque. O número de vezes que ele vem do Japão e que vai para Nova Iorque diz-me quantos dias passaram. O resto não me interessa. A convenção destrói o belo e destrói a nossa faceta pre-histórica, a nossa ligação ao primata que se levantou para ver melhor o mundo.

Corre. Adoro correr atrás de ti. Mas não fujas. Temos tempo.

quarta-feira, junho 16, 2010



Já dizia Max Ehrmann "listen to the others, even the dull and the ignorant. they too have their story".

A azáfama da consulta permite pouco tempo para fugir ao acelerar da burocracia e da conversa puramente médica, deixando pouco espaço no tempo para conversas paralelas. A entrada em conversas paralelas cria-nos injustamente um nervoso miudinho por atrasar toda uma lista de doentes, que se vão revoltar. Entre muitas outras coisas, tira-nos tempo para aproveitar o facto de falar com centenas de pessoas diferentes, o que permitiria aprender coisas novas a toda a hora. Exemplo de histórias de vida que mereciam mais dar um filme do que muitas que são forçadas como argumentos de Hollywood.

(bolas, esta senhora não se cala... e tudo são problemas, dói-lhe tudo, queixa-se de tudo, podia ser uma daquelas 'velhinhas' do sketch do gato fedorento, eheheh)
- E agora ando muito mais em baixo, Dr.
- Então porquê dona L?
- Porque morreu o meu cachorro, que era a minha companhia.
- Então e que idade tinha ele?
- Tinha 17 anos, já, Dr.
- Pois, isso deve ter sido bem difícil... Mas já se sabe que eles nunca vão viver toda a nossa vida. Porque é que não arranja outro novinho agora?
- Não posso... Com esta doença não consigo tomar conta do pobre animal (silêncio) Eu nem consegui ir ao funeral deste. Gastei o que tinha e o que não tinha para o tratar. Fui ao Veterinário, paguei 280 euros e não se conseguiu salvá-lo. Disse-me que ele já tinha quase 100 anos, em idade dos cães. No dia a seguir, quando me levantei do sofá para me ir deitar, disse 'vamos deitar, lindo' e só quando não ouvi as patinhas dele a correr é que me lembrei que ele tinha morrido... a minha única companhia...
- Pronto, dona L não fique triste. Os animais vivem poucos anos. Muito menos do que a senhora gostaria, mas tem de se conformar.
- O que mais me prendia ao animal é que ele tinha sido um presente para o meu filho, quando ele andava na Faculdade. Ele disse-me 'ó mãe, eu quero um cão' e eu dei-lhe este. Ele entretanto tornou-se professor no Instituto Superior Técnico e o cão continuou em minha casa, mas ele sempre teve uma adoração pelo animal. Há 5 anos apareceu-lhe subitamente um linfoma e morreu ao fim de 3 meses. A última coisa que ele me pediu foi para tratar sempre muito bem o cão, que ele o adorava.

...

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Noite



Suaves ruídos. Um choque de roda com milhões de partículas de água numa poça que teima em não desaparecer da estrada. O motor afastado e esquecido de um avião que já leva na cabeça o destino final. Passos apressados de quem sabe para onde vai e o pouco tempo que tem.

A noite traz o silêncio. Com o silêncio da noite vem todo um novo mundo de sensações. Não há ruídos. Não há distracções. A adoração da noite tem a ver com isto. Com o contraste. Há uma espécie de paragem durante a noite. Pequenos oásis de som, espalhados aqui e ali, perpetuam o som num volume bem alto, para compensar pelo resto da noite. Nesses oásis juntam-se adoradores do som. Fazem hoje com o som o que no passado já alguns fizeram com o sol.

Cá fora o som do silêncio permanece. Consigo ouvir o camião do lixo, que se aproxima. Vem sempre. Não falha. Se um dia não vier a esta hora sei que algo se passou. Problema na central. Fim de todo o lixo no mundo. Algo se terá passado.

O dia tem a verve da loucura, partilha e alegria. A noite traz o silêncio. O silêncio traz a paz. E a meditação.

Shhhht!

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Diário de Bordo




Excerto do meu moleskine, 11 de Setembro de 2009, Deserto de Gobi, Mongólia, escrito exactamente no momento captado na foto:

"Estranho. O destino faz este dia chegar nalguns dos mais belos locais do mundo. Há 8 anos (dilacerante o modo como o tempo passa por nós...) estava sentado num banco junto ao fabuloso mar de Oahu, e agora estou sentado num banco com gigantescas dunas de areia do deserto mongol aqui mesmo à minha frente. O que mudou em 8 anos? Eu mudei muito, o mundo infelizmente mudou pouco.

Parto à descoberta das dunas próximo do pôr-do-sol. 15 minutos depois depara-se um primeiro obstáculo, um pequeno rio, de pouco caudal, mas pouco apetecível de atravessar, por ser lamacento. Eis que do nada aparece um jipe com um casal mongol, aos quais berrámos para parar e conseguimos boleia para atravessar o rio e ir até à orla das dunas. Claro que fomos no meio das couves e peças de automóvel, mas ficou registada a habitual boa vontade mongol.

Trepei pela areia pura, lisa, sem marcas, das grandes dunas, até ao topo mais topo das redondezas e o misto de isolamento com as cores do pôr-do-sol e o espectáculo natural envolvente é algo próximo da transcendência. Rolei ainda pela areia como se fosse um míudo de 10 anos.

A experiência foi tão boa que no dia seguinte acordámos às 5 da manhã, para repetir a dose e ver o nascer do sol. Como é óbvio tive de empapar os pés em lama, mais duas vezes, para conseguir passar o rio... Mas valeu a pena..."

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Uma questão de nível



Longe vão os tempos em que a expressão "comida de hospital" era associada a algo de insonso, com sabor a nada e textura de papas de aveia (embora nas cantinas hospitalares pareça que é isso que continuam a servir).

Através do recrutamento de uma equipa de nutricionistas qualificados, hoje os doentes têm à sua disposição pratos equilibrados do ponto de vista nutricional, adequados à sua doença, mas ao mesmo tempo com características que tornem a refeição agradável (e não apenas tolerável).

Onde surge o problema é quando lhes é dada escolha sobre o que querem para o dia seguinte. Certamente plenos da melhor boa vontade, os responsáveis das empresas de alimentação dão os nomes mais pomposos aos pratos que servem e é frequente ver os nossos idosos terem um pré-colapso a tentar perceber o que é que os nomes significam.

Exemplo:
"Senhor Manel, para o jantar, de sobremesa, vai querer melão ou bavaroise de morango?"
"O que é que disse a seguir ao melão?"
"Bavaroise de morango!!!"
"E o que é que é isso"
"É... é... é... pudim com gelatina"
"Hm, pode ser o melão...."

terça-feira, dezembro 08, 2009

Serão artroses?



Outra vez seis meses sem escrever?

Acabou-se o combustível? Falta de criatividade? Dispersão? Falta de tempo?

Ou serão artroses?

Não tenho idade para artroses. Há quem as tenha com esta idade, mas eu não tenho idade para as ter e não tenho. Ponto final. Parágrafo.

Ando embrenhado. Por caminhos intensivos. Por medicinas públicas e menos públicas. Cuidadas e menos cuidadas. O tempo é pouco. A bem ver são as mesmas vinte e quatro horas. Os mesmos mil quatrocentos e quarenta minutos.

Aproxima-se o novo ano, altura de resoluções. Quebra. Não gosto de paradigmas. Faço já uma das minhas: vou voltar a tentar e escrever mais. Não se perde nada. Ganha-se em desabafo. Ganha-se em desafio.

Escrever faz-me bem.

Até já.

segunda-feira, junho 29, 2009

Som



A minha relação com o som?

Quem me conhece sabe que gosto de falar. Muito. Gosto de ouvir. Muito. Sou capaz de estar 20 horas a falar. Seria um óptimo amigo para o Fidel Castro (até pelo estado de saúde dele...) ou para o Boutros-Ghali, especialistas de discursos de 20 e tal horas nas suas funções políticas.

O som tem um papel fundamental. Tem restrições. Tem controlo. Usá-lo ou não usá-lo define a nossa vida. O que se disse. O que não se disse. O que se disse e não se devia ter dito. O que não se disse e se devia ter dito.

Gosto do som. Uma destas noites dei por mim, na enfermaria, a reparar num silêncio absoluto. Apeteceu-me de repente quebrar com a regra. Ter à mão uma buzina de camião e dispará-la loucamente durante 30 segundos. Acordar tudo e todos em sobressalto, mostrar-lhes que precisam do som. Que têm de respeitar o som. Que o som é bom.

No dia seguinte... Gui Boratto no Lux. Até que enfim alguém me percebe e trata o som como ele deve realmente ser tratado! Brilhante!

domingo, junho 14, 2009

Lisboa menina e moça, festeira!



Já dizia a letra da música:

"Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados de outra dança
A noite finge ser... ainda uma criança
De olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo"

Lisboa é isso. É isso e muito mais. A noite do dia 12 de Junho é apenas um corolário do que Lisboa pode ser. Do que Lisboa devia ser mais vezes ao ano.

A sardinha assa no braseiro.

Nisto a criança pede uma moedinha para o Santo António ("Não tenho moedas""Não faz mal, eu aceito notas"). O traquina que descaradamente se aproveita desta noite para ser uma espécie de "arrumador" das almas, cruza-se com o nórdico que olha espantado para todo este movimento, para toda esta côr, para este bulício e vontade de viver, que o fazem acreditar que este povo pode ser pobre, pode ser melancólico, mas que tem a capacidade de se mobilizar em massa para a rua e encher de alegria a noite de uma cidade.

Pára naquela janela. Pede uma ginjinha. Quem ta serve? Um argentino? Que foi estudar para a Bulgária, conheceu uma portuguesa e acabou por vir parar a este histórico "melting pot"? O quê? Já tem 3 filhos? Vai vender ginjinha muitos mais anos, está visto. Promete-me uma mesa para o próximo ano, no mesmo sítio, à mesma hora. Será o mundo assim? Digo-lhe que sim, cá estarei, combinado.

Ouvem-se sons pelo meio do fumo dos braseiros. É música brasileira. Faz mal? Tem algo de nós. Ponham também música africana, música indiana, música malaia, música timorense, música japonesa, música hawaiana. Podemos passar a noite a desenrolar música de todo o mundo... há-de ter sempre um toque português. Faz parte desta noite. Deixa-a ficar.

A Rosa Martins vai subir ao palco. O arroz doce da Tia Beatriz está um espanto. Cheira a cerveja, a carvão, a manjerico, a Lisboa.

A sardinha continua a arder no braseiro. Felizmente, felizmente há-de lá continuar.

segunda-feira, abril 06, 2009

Novo dentista, novos temores



Vou dentro de minutos a um novo dentista. Desde pequeno que sou um fiel participante do grupo de pessoas que têm semi-pânico do dentista.

Para começar, o facto de ter de abrir a boca em extensão máxima durante vários minutos é logo para o desagradável. De seguida somos submetidos a uma espécie de tortura (é pelo menos isso que me parece) com a utilização de instrumentos que parecem saídos de uma caixa de ferramentas do Ikea, ou pior, de um estojo inquisitório da Idade Média. Daí para a frente é sempre a piorar.

A picada da anestesia é desagradável.
O sabor dos produtos é estranho.
A força das brocas faz-me acreditar que em breve terei um túnel escavado encéfalo dentro, ou no mínimo uma vista vazada.

E para terminar, no caso de termos sido anestesiados, a felicidade de terminar a visita ao dentista é prontamente estragada pelo deprimente facto de nos estarmos a babar por um dos cantos da boca. Assim... não há dignidade.

Figas preparadas. Aí vou eu!

domingo, abril 05, 2009

Horários



Negócio. Está difícil. Quem tem um negócio queixa-se muito que "está difícil". Ou pela crise, ou pela competitividade, todos acham que é cada vez mais complicado triunfar num negócio. Mas onde começarão os erros?

Exemplo: ontem fui a três bares na zona de Santos, sendo que todos tinham um traço em comum - fechavam às duas. A um Sábado à noite. Está certo que os horários existem para ser estabelecidos, mas uma postura destas é quase igual a um restaurante que fecha para almoços e jantares. Nisto faz-nos falta atravessar a fronteira e ver o que é a noite dos nossos vizinhos espanhóis. Famílias inteiras invadem a noite madrileña, preenchendo a Latina, e fica tudo aberto noite fora. Até pequenos supermercados e outro tipo de comércio prolongam os seus horários para ganhar com isto.

Por cá: vamos fechar, vai tudo dormir.

terça-feira, março 31, 2009

Mas afinal? Tu queres ver?



Coisas que aprendemos com os reformados dos jardins lisboetas: quando não se tem tema de conversa sobre o que é que se fala? Sobre o tempo, pois claro está. Não a dimensão inexorável de medida, mas sim a meteorologia.

E, portanto, lembrei-me hoje de comentar este tempo "nojentinho" que por aí anda. Tão depressa parece que afinal já é Verão, como vem um vento frio de cortar a respiração. E então não há roupa certa. Por isso se vêem desde pessoas encasacadas a malta quase em tronco nu. O que é parvo. E pouco digno.

sábado, março 28, 2009

De noite tudo se passa



Com a minha longa paragem na escrita não tive ainda oportunidade de comentar esses expoentes máximos do enchimento de chouriços que são os concursos telefónicos da madrugada.

SIC e TVI degladiam-se para tirar o máximo de roupa possível a uma apresentadora (que tem como critério obrigatório de selecção ter aparecido na capa de uma revista masculina) e dessa forma levar os "toinos" e "toinas" que acreditam no Pai Natal a gastar uma pipa de massa em chamadas de valor acrescentado para tentar ganhar 300 ou 400€.

Os temas vão variando, embora tenham sempre um traço em comum: a estupidez. Quando os participantes têm de descobrir coisas como "Josés famosos" penso que está tudo dito. A única solução para eu ultrapassar isto é passar a deitar-me mais cedo. Assim, mesmo que depois acorde às 4 ou 5 da manhã, sempre me divirto a ver o TV Shop, que é bem mais enriquecedor do ponto de vista cultural.

terça-feira, março 24, 2009

Eu sou o Bob, o construtor!



Passei uma infância a achar que não tinha jeito para trabalhos manuais.
Passei uma adolescência a achar que não tinha jeito para trabalhos manuais.
Passei um início de jovem adulto a achar que não tinha jeito para trabalhos manuais.

Percebi finalmente que o jeito não se tem, aprende-se. Lancei-me num desafio hercúleo de montar sozinho um móvel de sala de 2m por 1m (é um dos jovens altos que podem ser observados na fotografia). E não é que ficou direito? Não é que até o raio das portas ficaram ao mesmo nível e não arrastam por sítio nenhum?

Quando acabei senti-me verdadeiramente um Bob, o construtor. Ou pelo menos alguém com capacidade de unir peças e gerar um móvel (não é gerar vida, mas já é um primeiro passo).

O melhor disto tudo é que poupei 70 Euros de montagem, e consegui fazê-lo martelando nos sítios certos e saindo com os dedos intactos.

segunda-feira, março 23, 2009

Até arranhar a fita



Na brilhante série "How I Met Your Mother", há um episódio em que o Marshall tem de se despedir do seu velho carro. Nesse episódio recorda os bons momentos passados na viatura e ficamos a saber que há vários anos tem encravada no leitor de cassetes uma cassete dos Proclaimers, onde tinha gravado apenas a música "Im gonna be (500 miles)".

Lembrei-me de perguntar a mim próprio que cassete eu gostaria de ter posto no leitor de cassetes (se tivesse um e se ele encravasse). A escolha pareceu-me óbvia. Ia recair sem dúvida em "Bohemian Rhapsody" dos Queen.

Na, qualquer dia longínqua, década de 90, nas férias de Verão em Sesimbra, passava as tardes a gastar o meu Walkman com o terceiro "Greatest Hits" dos Queen. Invariavelmente enchia de "rewinds" o fim de Bohemian Rhapsody. Ao ponto de a entrada de "Another One Bites the Dust" se ter tornado quase inaudível com o passar do tempo, ao ser substituído por um arranhar semelhante ao passar de unhas num quadro da escola. Sempre que ouço esta música, lembro o sol, as festas, o cheiro a sardinha, as brisas do mar no café da esquina, e o som cansado do Walkman, a querer acompanhar os Queen e a ver-se à rasca.

domingo, março 22, 2009

You never get tired of...



Da família amarela que nunca cansa, hoje na FOX:

Bart cai, vai ao hospital e de repente o Dr. Hibbert desfibrilha as nádegas de Bart. Segue-se:

Marge: Why are you doing that?
Hibbert: Oh, it's good for the batteries. Now, I'm afraid your son has
cracked his coccyx.

Brilhante...

Home-made pizza




Sou o fã mundial número um de pizza quatro queijos. Acredito que existam outros admiradores que lutem com igual intensidade por uma 4Q (vamos chamá-la assim, carinhosamente, como se fosse um modelo de automóvel), mas lutar mais do que eu... tenho cá para mim que é impossível.

Como quatro-queijista experiente, venho levantar um dos grandes problemas para os quatro-queijistas: os queijos escolhidos. Raramente, se alguma vez, conseguem as pizzerias acertar nos quatro queijos favoritos do quatro-queijista.

Como forma de protesto a essa situação, vou pôr a minha Bimby a tratar da massa e depois vou ganhar respeito a mim próprio com uma combinação fatal: mozzarella, parmeggiano, gorgonzola, roquefort e chévre. Espera... São cinco queijos? E o que é que isso me interessa? Não vou vender para fora.

sábado, março 21, 2009

Bip



Fiquei tão contente! Tinha os meus 15/16 anos, o telemóvel ainda era algo em fase experimental, e o que estava na moda eram os bips. Vi um concurso numa revista ao qual concorri prontamente: era para escrever uma frase sobre bips. Havia um como prémio. Como a pior das fashion-victims que sou, logo concorri, e passadas umas semanas recebo a agradável notícia de que era o vencedor do passatempo. A minha alegria foi temporária... Afinal o bip não servia para grande coisa. Permitiu-me estar no topo da moda, e receber regularmente linhas com notícias sobre o desporto ou o tempo, mas não me ajudou muito nem a ser melhor pessoa nem a coisa nenhuma. A moda do bip passou rápido, cilindrada pelo telemóvel (nos primeiros tempos quase literalmente, com o tamanho de tijolo que estes últimos tinham).

Nunca mais ouvi falar de bips.

Até agora. Voltei a ter um. E este não o pedi. Obrigam-me a usá-lo e é a minha companhia no hospital. Não me dá notícias, nem o tempo, nem o resultado do Benfica. Quando apita estridentemente às quatro da manhã e me acorda de rompante, lá vou eu de cabelo (o que me resta) despenteado e olhos sonolentos em riste para salvar uma vida. Na maior parte dos casos não há uma vida para salvar. É só alguém que de repente ficou com uma ligeiríssima dor de cabeça e o bip (faz de conta que é ele) lembrou-se de me chatear (não há aqui qualquer ressabiamento pela última noite, cof cof).

Os bips perseguem-me. Mas agora foram eles que me escolheram a mim. Será vingança?

quinta-feira, março 19, 2009

Sopa



Dizem que a sopa foi inventada provavelmente há mais de 8000 anos, a partir do momento em que foram inventados recipientes à prova de água, feitos de barro. Permitam-me duvidar disso. Acho que a sopa consegue ser mais básica do que isso, e provavelmente já os répteis faziam um gaspacho em três tempos, muitos anos antes.

De facto, juntar legumes, cozê-los, e a seguir triturá-los, não tem grande ciência. Já juntar as quantidades certas tem o seu quê de entendido, mas para os pré-históricos qualquer coisa serviria (até porque não lhes tentavam impingir sopas pré-feitas da Knorr).

A sopa agrada ainda a ambos os sexos. Escolher legumes no supermercado é pouco másculo, mas aplicar uns golpes ou "estrafegar" com uma varinha mágica são coisas para gente de barba rija (não querendo eu ferir a susceptibilidade de senhoras que andem sem tempo para a depilação).

Paz à sopa... lá vou eu comprar os legumes...

quarta-feira, março 18, 2009

Escrever



Porque motivo alguém escreve num blog?

Será para escrever piadas e esperar que alguém se ria? Será por acreditar que, partilhando com o mundo o que escreve, se sente maior? Será para sentir interiormente que as suas opiniões e pontos de vista são lidos por todos?

Provavelmente sim e não. Provavelmente a maior parte das pessoas que se dedica a escrever num blog tem a mesma intenção que tantos outros tiveram ao longo da história da Humanidade, ou seja, transformar em palavras algo que sente.

É por esse motivo que nem é assim tão importante ser lido. Se alguém ler o que escrevemos, obtemos reconhecimento (mais não seja pelo tempo dispendido a apreciar algo produzido por nós), mas o nosso objectivo final é sempre egoísta, é o de aliviar a pressão de pensar em algo e ter de o dizer. Acho, por isso, que a escrita é um escape, seja ela de que tipo for.

Eça com certeza teria vontade de criticar muito mais abertamente a sociedade numa conversa de café. E talvez até o tenha feito. Mas nunca conseguiria ser tão mordaz como escrevendo crónicas de costumes em que, com o disfarce de um romance, conseguiu tão bem atacar tudo e todos, ganhando reconhecimento, mas decerto ganhando também o alívio da sua pressão.

Pergunto-me muitas vezes porque nunca escrevi um livro. Sempre tive ideia de que o queria fazer. Várias vezes comecei a escrever romances. Mas o resultado final foi sempre o mesmo. A vontade é tanta de partilhar outras ideias, que se as tentasse enfiar todas numa história, saíria algo de semelhante a uma Nova Iorque da escrita, uma mistura que de tão complexa seria impossível de descodificar.

Por isso, vou continuando com as minhas crónicas. Pequenos Maias, pequenas Cidades, pequenas Serras, sempre tão longe do brilhantismo de quem escreveu essas histórias, mas perto do mesmo sentimento de que a escrita serve para libertar.