perdido no meio de uma montanha daquelas que estão nas mais altas montanhas que o mundo conhece, encontrei um monge budista e resolvi perguntar-lhe algo que sempre me tinha suscitado curiosidade "o que é que o budismo tem a dizer sobre tatuagens".
durante tempo e tempo a fio, que com um monge budista parece sempre tempo a menos, explicou-me que duas correntes completamente opostas existem sobre a matéria. os 'contra' defendem que tatuar o corpo é criar uma marca definitiva, indo totalmente contra o princípio de desprendimento material, extensível ao próprio corpo. os 'pro' contrariam, dizendo que tatuar o corpo é a prova mais fantástica e evidente de desprendimento físico e que a prática deve ser incentivada.
como eles são budistas, falam sobre isto horas e não acabam fulos de raiva. discutem com argumentos nos olhos e nas línguas e não com duas pedras na mão.
de facto concordo mais com uma das correntes. tal como li recentemente escrito pelo josé luís peixoto, são pobres de espírito aqueles que acham que fazer uma tatuagem é mau porque fica para sempre, porque é uma coisa que não se pode mudar. podem não querer fazer uma, e isso merece o respeito de todo e qualquer fervoroso adepto do livre arbítrio, como eu sou. mas desenganem-se se acham que pigmentos de tinta na derme são mais definitivos do que o dia em que morreu o nosso pai ou a nossa mãe, do que o nascimento do filho tão desejado, do que o fim daquele curso, do que aquele emprego pelo qual lutámos a ferro e fogo e um pouco mais de ferro, ou todas as outras situações que nos formatam como seres vivos e não-vivos.
a vida são marcas. não importa de quê ou como. uma linha desenhada no ombro marca-me do mesmo modo que o cheiro do risotto de frutos do mar em portofino num final de uma tarde de verão. se trouxerem o chardonnay fresquinho, até o bebo nas duas ocasiões com idêntico prazer.
não somos mais do que um molde, e se fugirmos a todo e qualquer tipo de marca, vamos embora tão puros e tão não-trabalhados, que nunca teremos sequer descoberto se, por baixo daquela pedra tosca e romba, havia um diamante à espera de ser delapidado.
segunda-feira, novembro 28, 2011
domingo, novembro 27, 2011
não são só quatro rodas e uns eixos
em virtude da minha migração próxima, soube hoje que o meu carro também vai migrar à sua maneira, com a minha partida.
deve ser muito mais bonito fazer-se um texto sobre carros quando se anda a conduzir um aston martin ou um lexus, mas cada um é para o que nasce e eu e o meu carro estamos assim um para o outro.
quem diz que os objectos não têm sentimentos não percebe nada disto. a fuga ao materialismo puro deve, com toda a certeza, afastar-nos de sobrepor os objectos às manifestações mais profundas da emocionalidade, mas há objectos que ganham um lugar tão especial no nosso eixo coração-mente-história. é impossível não associá-los ao nosso crescimento pessoal, às alegrias da vida, aos dias difíceis, ao lugar especial, ao lugar terrível, à chuva que inundou o para-brisas e ao sol que aqueceu o couro do volante e o fez ter aquele cheiro de pos-pôr-do-sol, que puxa apenas a condução lenta até ao quarto, por entre as pestanas cheias de sal, para um banho rápido e um encaminhar para a noite.
tal como aquele urso de peluche que nos viu chorar baba e ranho ao mesmo tempo que nos viu dar pulos de alegria com o raio do jogo d'a ratoeira no dia de natal, o carro atravessa uma fase fundamental da vida.
naquele volante não estão só os botões para mudar de estação ou aquele que faz barulho e tem um nome parecido com gambuzino. está o suor do dia de maior ansiedade. estão as lágrimas dos dias de fim de ciclo. está o quente do caminho para casa após aquele beijo. está a garra de querer fingir ser um jovem piloto de um qualquer campeonato de uma qualquer categoria, para acabar a fazer um pião parvo e pouco digno.
o pedal também não é decerto só ferro e borracha. foi pontapeado no meio da fúria. foi acariciado quando o caminho se queria mais lento para que nunca mais acabasse. foi pressionado até mais não quando a morte pareceu aparecer de repente numa beira-de-ravina, ao saltar uma cabra para o meio da estrada.
o meu carro não é só um carro. não só lá vivi, como lá morei e como lá está parte de mim, e do que eu sou. fui lá não-condutor, segundo condutor e por último condutor principal. ele também foi um privilegiado, porque calcorreou uma europa de uma ponta à outra, mas foi sempre um fiel soldado, nunca desistindo, mesmo quando maltratado.
sei que ele pode partir, mas tudo parte, até nós, porque nunca paramos no momento. reserve o futuro o que reservar, voltarei sempre com facilidade a um qualquer fim de tarde perdido nos pirinéus em que podia desligar o rádio, para ouvir o prazer de um carro em comunhão com a natureza...
deve ser muito mais bonito fazer-se um texto sobre carros quando se anda a conduzir um aston martin ou um lexus, mas cada um é para o que nasce e eu e o meu carro estamos assim um para o outro.
quem diz que os objectos não têm sentimentos não percebe nada disto. a fuga ao materialismo puro deve, com toda a certeza, afastar-nos de sobrepor os objectos às manifestações mais profundas da emocionalidade, mas há objectos que ganham um lugar tão especial no nosso eixo coração-mente-história. é impossível não associá-los ao nosso crescimento pessoal, às alegrias da vida, aos dias difíceis, ao lugar especial, ao lugar terrível, à chuva que inundou o para-brisas e ao sol que aqueceu o couro do volante e o fez ter aquele cheiro de pos-pôr-do-sol, que puxa apenas a condução lenta até ao quarto, por entre as pestanas cheias de sal, para um banho rápido e um encaminhar para a noite.
tal como aquele urso de peluche que nos viu chorar baba e ranho ao mesmo tempo que nos viu dar pulos de alegria com o raio do jogo d'a ratoeira no dia de natal, o carro atravessa uma fase fundamental da vida.
naquele volante não estão só os botões para mudar de estação ou aquele que faz barulho e tem um nome parecido com gambuzino. está o suor do dia de maior ansiedade. estão as lágrimas dos dias de fim de ciclo. está o quente do caminho para casa após aquele beijo. está a garra de querer fingir ser um jovem piloto de um qualquer campeonato de uma qualquer categoria, para acabar a fazer um pião parvo e pouco digno.
o pedal também não é decerto só ferro e borracha. foi pontapeado no meio da fúria. foi acariciado quando o caminho se queria mais lento para que nunca mais acabasse. foi pressionado até mais não quando a morte pareceu aparecer de repente numa beira-de-ravina, ao saltar uma cabra para o meio da estrada.
o meu carro não é só um carro. não só lá vivi, como lá morei e como lá está parte de mim, e do que eu sou. fui lá não-condutor, segundo condutor e por último condutor principal. ele também foi um privilegiado, porque calcorreou uma europa de uma ponta à outra, mas foi sempre um fiel soldado, nunca desistindo, mesmo quando maltratado.
sei que ele pode partir, mas tudo parte, até nós, porque nunca paramos no momento. reserve o futuro o que reservar, voltarei sempre com facilidade a um qualquer fim de tarde perdido nos pirinéus em que podia desligar o rádio, para ouvir o prazer de um carro em comunhão com a natureza...
sábado, novembro 26, 2011
a espuma das noites
tenho um dicionário próprio a partir das três da manhã.
acho que isso é a prova exacta e científica de que o mundo muda a essa hora. os brilhos têm uma tangente diferente. os copos ganham uma espécie de fluorescência própria. os corpos ganham uma tendência flirtantemente diabólica. a lua faz de conta que é o sol e o sol nem esgrime a tentativa de parecer que é a lua.
fecham-se portas no momento em que se acendem luzes. os vidros partidos são espalhados por ruas, tapetes e entradas, como ânsia de homenagem ao desequilíbrio natural da falta de luz.
as palavras do meu dicionário não são só diferentes nas letras que as unem. têm cores, que durante o dia andam muito mais fugidas. há letras amarelas, azuis, verdes, encarnadas, fuchsinzento, pratadeado ou amarelilás. as que existem, as que não existem e as que estão à espera de passar a existir. porque este dicionário é escrito a cada momento, numa espécie de acordo inteligentográfico feito entre as páginas do próprio dicionário, numa noite como outra qualquer, à beira-rio, antes de os raios de sol começarem a reflectir nos vinis de outras horas.
vou só ali escrever mais duas ou três páginas e aceito ajudas. até já.
acho que isso é a prova exacta e científica de que o mundo muda a essa hora. os brilhos têm uma tangente diferente. os copos ganham uma espécie de fluorescência própria. os corpos ganham uma tendência flirtantemente diabólica. a lua faz de conta que é o sol e o sol nem esgrime a tentativa de parecer que é a lua.
fecham-se portas no momento em que se acendem luzes. os vidros partidos são espalhados por ruas, tapetes e entradas, como ânsia de homenagem ao desequilíbrio natural da falta de luz.
as palavras do meu dicionário não são só diferentes nas letras que as unem. têm cores, que durante o dia andam muito mais fugidas. há letras amarelas, azuis, verdes, encarnadas, fuchsinzento, pratadeado ou amarelilás. as que existem, as que não existem e as que estão à espera de passar a existir. porque este dicionário é escrito a cada momento, numa espécie de acordo inteligentográfico feito entre as páginas do próprio dicionário, numa noite como outra qualquer, à beira-rio, antes de os raios de sol começarem a reflectir nos vinis de outras horas.
vou só ali escrever mais duas ou três páginas e aceito ajudas. até já.
sexta-feira, novembro 25, 2011
seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático
nunca acreditei em sonhos.
pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo.
o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos.
quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado apenas pelo homem que inventava palavras, para ter comida na mesa e roupa para os filhos.
os sonhos não são mesmo sonhos. são futuros concretos. que podemos seguir ou não. depende apenas de cada um.
pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo.
o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos.
quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado apenas pelo homem que inventava palavras, para ter comida na mesa e roupa para os filhos.
os sonhos não são mesmo sonhos. são futuros concretos. que podemos seguir ou não. depende apenas de cada um.
creio que a melhor forma de alguém se encontrar é perdendo-se
detesto a calma.
acho que já bati nesta tecla. mas eu adoro bater em teclas. sejam de macs ou de steinways. por isso não me escandalizo por voltar a bater-lhe.
no fim de um dia de cansaço e de trabalho infindável, nada me sabe melhor do que recolher ao meu caos. perdido entre livros espalhados no sofá, mesa e chão (só nos últimos cinco minutos já pisei o borges e lixei um dedo no palahniuk), com a discolette a entrar-me nos ouvidos patrocinada por uns phones vermelhos conspirativos, olho para os sons da escuridão e o que cheiro é o tumulto da vida.
sinto que podiam estar milhares de seres vivos em plena harmonia autista neste momento. devorar sons é para mim um hobby (sim, o acordo ortográfico que se) que me permite uma espécie de sincronização de fim do dia.
no fundo, não somos todos mais do que iPhones (com um ou outro blackberry teimoso) e adoramos regressar de vez em quando à nossa dock para voltar a ficar com a barra no verde.
e que bem que sabe ficar com a barra no verde...
acho que já bati nesta tecla. mas eu adoro bater em teclas. sejam de macs ou de steinways. por isso não me escandalizo por voltar a bater-lhe.
no fim de um dia de cansaço e de trabalho infindável, nada me sabe melhor do que recolher ao meu caos. perdido entre livros espalhados no sofá, mesa e chão (só nos últimos cinco minutos já pisei o borges e lixei um dedo no palahniuk), com a discolette a entrar-me nos ouvidos patrocinada por uns phones vermelhos conspirativos, olho para os sons da escuridão e o que cheiro é o tumulto da vida.
sinto que podiam estar milhares de seres vivos em plena harmonia autista neste momento. devorar sons é para mim um hobby (sim, o acordo ortográfico que se) que me permite uma espécie de sincronização de fim do dia.
no fundo, não somos todos mais do que iPhones (com um ou outro blackberry teimoso) e adoramos regressar de vez em quando à nossa dock para voltar a ficar com a barra no verde.
e que bem que sabe ficar com a barra no verde...
quinta-feira, novembro 24, 2011
o açúcar em pó, eu e aquela cena meio redonda chamada mundo
conheci um homem que largava palavras nas folhas como quem espalha açúcar em pó sobre um bolo de cenoura.
a teoria dele é que nunca se polvilha nada com formas muito direitinhas. quem quiser perfeição fica em casa a organizar as meias por cores ou as camisas por tipo de colarinho. quem espalha o açúcar como quem lança notas de cem dólares ao ar, depois de ganhar um jogo de poker em las vegas, vê a vida de uma forma impagável.
penso em todas as estradas que ainda tenho por fazer. imagino artérias cheias de sangue pulsátil, imparável, em que eu navego consumindo tudo o que têm para me dar. desertos, florestas, montanhas, lagos. nem paro para comer. janto serras. janto lagos. de que serve fingir que há funções vitais a manter quando há tanto mundo para conhecer?
a vertigem da velocidade puxa por mais velocidade. quem acelera a sério sabe bem que quanto mais rápido vamos mais confortável é o desconforto da velocidade acima. o mundo de quem o vive devagar é tão diferente de quem o vive a mil. imagino uma estrada vivida com calma, e percebo o que daí pode ser retirado, mas é de certeza um mundo diferente. para mim, só valem centopeias impregnadas de speeds que atravessem um pátio como quem corre os cem metros, obikwelizadas que estão da vida.
por mim, pego no açúcar em pó, atiro-o ao ar e deixo-o cair sobre toda a gente numa alegre metáfora da vida imperfeitamente perfeita.
a teoria dele é que nunca se polvilha nada com formas muito direitinhas. quem quiser perfeição fica em casa a organizar as meias por cores ou as camisas por tipo de colarinho. quem espalha o açúcar como quem lança notas de cem dólares ao ar, depois de ganhar um jogo de poker em las vegas, vê a vida de uma forma impagável.
penso em todas as estradas que ainda tenho por fazer. imagino artérias cheias de sangue pulsátil, imparável, em que eu navego consumindo tudo o que têm para me dar. desertos, florestas, montanhas, lagos. nem paro para comer. janto serras. janto lagos. de que serve fingir que há funções vitais a manter quando há tanto mundo para conhecer?
a vertigem da velocidade puxa por mais velocidade. quem acelera a sério sabe bem que quanto mais rápido vamos mais confortável é o desconforto da velocidade acima. o mundo de quem o vive devagar é tão diferente de quem o vive a mil. imagino uma estrada vivida com calma, e percebo o que daí pode ser retirado, mas é de certeza um mundo diferente. para mim, só valem centopeias impregnadas de speeds que atravessem um pátio como quem corre os cem metros, obikwelizadas que estão da vida.
por mim, pego no açúcar em pó, atiro-o ao ar e deixo-o cair sobre toda a gente numa alegre metáfora da vida imperfeitamente perfeita.
quarta-feira, novembro 23, 2011
dei por mim a pensar, daquela forma que quase sai fumo pelos ouvidos
gosto muito de ler sobre a crise. de ver muitos programas sobre a crise. de ouvir muitos especialistas a falar sobre a crise. ou aqueles que não são especialistas de coisa nenhuma, mas que falam da crise como se de alguma coisa fossem especialistas. nem de outras coisas o são, muito menos da crise. mas a crise é sem dúvida um óptimo tema para abrir telejornais. dez minutos para os ratings. outros dez para o comportamento dos mercados. ainda sobram dez minutos para falar das reuniões de concertação social, que são o equivalente a juntar um benfiquista e um sportinguista numa tasca em dia de derby - já se sabe que sai de lá tudo com um olho à belenenses, para democratizar o gosto clubístico lisboeta. os últimos dez minutos podem ficar para falar do mourinho, da lesão do tendão do ronaldo e da cor de cabelo do jorge jesus.
facilmente caímos no 'ai jesus' (o da cruz, não o do benfica) da depressão profunda e contínua de quem vai para uma crise sem fim à vista e, no meio desse pânico, apenas nos vamos afundar. as crises existem desde que o homem faz trocas comerciais. não havia era imprensa, que o guttenberg devia estar ocupado a fazer macramé, mas algures no tempo os mercados devem ter dado baixos ratings à Hispania e o preço das tâmaras era incomportável por causa dos conflitos no médio oriente. nunca foi boa solução para sair de areias movediças desatar a tentar fugir à pressa e de modo não pensado.
pensava que o tipo do cabelo branco despenteado tinha dado uma lição ao mundo sobre uma coisa chamada relatividade. a análise dos problemas e a sua dimensão nunca é relativizada.
no japão passou uma onda por cima dos "mercados". e rapidamente mudaram os "fundamentals" da economia e, sobretudo, o conceito de crise...
facilmente caímos no 'ai jesus' (o da cruz, não o do benfica) da depressão profunda e contínua de quem vai para uma crise sem fim à vista e, no meio desse pânico, apenas nos vamos afundar. as crises existem desde que o homem faz trocas comerciais. não havia era imprensa, que o guttenberg devia estar ocupado a fazer macramé, mas algures no tempo os mercados devem ter dado baixos ratings à Hispania e o preço das tâmaras era incomportável por causa dos conflitos no médio oriente. nunca foi boa solução para sair de areias movediças desatar a tentar fugir à pressa e de modo não pensado.
pensava que o tipo do cabelo branco despenteado tinha dado uma lição ao mundo sobre uma coisa chamada relatividade. a análise dos problemas e a sua dimensão nunca é relativizada.
no japão passou uma onda por cima dos "mercados". e rapidamente mudaram os "fundamentals" da economia e, sobretudo, o conceito de crise...
terça-feira, novembro 22, 2011
os verdes anos do carlos paredes ressoam ecos nas paredes da memória através de polaroids de outros tempos
nostalgia.
uma palavra tão válida, que até dá para dar nomes a rádios. bem, isso talvez não seja critério, porque senão tenho de escrever um texto sobre a validade de coisas como "amadora de alenquer" ou "alma viva", também nomes de rádios.
sou meramente semi-nostálgico. adoro o passado, da mesma forma que venero o presente e endeuso o futuro. acho que tudo tem o seu lugar. o tempo traz uma nova forma de ver as coisas. sinto que há momentos do passado que pareceram tão claramente amargos, mas o tempo encarrega-se de os tornar agri-doces. ou aqueles bem azedos, que deixados a repousar em banho-maria uns quinze/vinte anos parecem abrir em todo o seu esplendor, mimetizando trufas deixadas a apurar debaixo de terra, trazendo consigo lá de longe tudo menos azedume.
dos vários 'eus' que percorremos toda a vida, a infância nunca vai perder o seu canto especial. julgo mesmo que a infância é o esplendor da exploração. achamos que não, que é no pico da capacidade física e mental que exploramos tudo, mas isso é mais aquilo de que nos convencemos, "entretidos" na nossa vida ocupada e de pseudo-gozo. claro que exploramos com mais capacidades. mas, ainda mais claro, exploramos muito menos tempo.
na infância estamos a descobrir barreiras. estamos a testar limites. se tivermos a feliz coincidência de ser amados e de ter tudo o que é preciso para ser feliz, o nosso debate é com o mundo. aprendemos que não é boa ideia pôr a mão dentro de um tijolo das obras quando somos picados por uma vespa. percebemos que descarregar a irritação birrenta numa pedra traz ainda mais birra com a dor que desperta no pé. ouvimos o raspanete de uma vida porque íamos agora mesmo beber meio frasco de xarope da tosse só porque é docinho. e em cima disso ainda nos apresentam, tentando esconder, tudo o resto que temos de descobrir daí em diante. falam-nos de "um sítio melhor" para onde vão os avós naquele dia em que estranhamente não os podemos ir visitar ao fim-de-semana, convencem-nos a acreditar que temos de nos portar bem para que "deus nosso senhor" goste de nós e que só os meninos que comem a sopa é que recebem presentes no natal.
no meio de tudo isto, a nossa infância é uma espécie de role-playing-game mais fabuloso do mundo. de um mundo encantado e que encanta. de um mundo de caos, em que a ordem com que nos querem proteger até à idade mais tardia possível é uma mera armadura para os sentimentos, e o reflexo da ilusão de algo diferente daquilo com que realmente nos vamos debater.
ainda antes de ler exaustivamente o friedrich, já acreditava que "one must still have chaos in oneself to give birth to a dancing star". mas eu não dormia muitas horas. é. é capaz de ser isso.
uma palavra tão válida, que até dá para dar nomes a rádios. bem, isso talvez não seja critério, porque senão tenho de escrever um texto sobre a validade de coisas como "amadora de alenquer" ou "alma viva", também nomes de rádios.
sou meramente semi-nostálgico. adoro o passado, da mesma forma que venero o presente e endeuso o futuro. acho que tudo tem o seu lugar. o tempo traz uma nova forma de ver as coisas. sinto que há momentos do passado que pareceram tão claramente amargos, mas o tempo encarrega-se de os tornar agri-doces. ou aqueles bem azedos, que deixados a repousar em banho-maria uns quinze/vinte anos parecem abrir em todo o seu esplendor, mimetizando trufas deixadas a apurar debaixo de terra, trazendo consigo lá de longe tudo menos azedume.
dos vários 'eus' que percorremos toda a vida, a infância nunca vai perder o seu canto especial. julgo mesmo que a infância é o esplendor da exploração. achamos que não, que é no pico da capacidade física e mental que exploramos tudo, mas isso é mais aquilo de que nos convencemos, "entretidos" na nossa vida ocupada e de pseudo-gozo. claro que exploramos com mais capacidades. mas, ainda mais claro, exploramos muito menos tempo.
na infância estamos a descobrir barreiras. estamos a testar limites. se tivermos a feliz coincidência de ser amados e de ter tudo o que é preciso para ser feliz, o nosso debate é com o mundo. aprendemos que não é boa ideia pôr a mão dentro de um tijolo das obras quando somos picados por uma vespa. percebemos que descarregar a irritação birrenta numa pedra traz ainda mais birra com a dor que desperta no pé. ouvimos o raspanete de uma vida porque íamos agora mesmo beber meio frasco de xarope da tosse só porque é docinho. e em cima disso ainda nos apresentam, tentando esconder, tudo o resto que temos de descobrir daí em diante. falam-nos de "um sítio melhor" para onde vão os avós naquele dia em que estranhamente não os podemos ir visitar ao fim-de-semana, convencem-nos a acreditar que temos de nos portar bem para que "deus nosso senhor" goste de nós e que só os meninos que comem a sopa é que recebem presentes no natal.
no meio de tudo isto, a nossa infância é uma espécie de role-playing-game mais fabuloso do mundo. de um mundo encantado e que encanta. de um mundo de caos, em que a ordem com que nos querem proteger até à idade mais tardia possível é uma mera armadura para os sentimentos, e o reflexo da ilusão de algo diferente daquilo com que realmente nos vamos debater.
ainda antes de ler exaustivamente o friedrich, já acreditava que "one must still have chaos in oneself to give birth to a dancing star". mas eu não dormia muitas horas. é. é capaz de ser isso.
segunda-feira, novembro 21, 2011
esfiquinhazes pedras de toque
despe o que tens vestido e atira com as guardas dessa auto-estrada à cara daqueles que não acreditam que os girassóis um dia se podem lembrar de girar ao contrário. só porque sim. ninguém obriga ninguém a nada. a morte à definição seria a abertura da caixa de pandora da delícia. estou a imaginar tudo muito bem na sua vidinha e, de repente, vai-se a gravidade que lhes venderam como absoluta e aparece outra gravidade, a da situação. caem que nem uns perdidos no abismo profundo que não é abismo e a queda nunca acaba. no fundo ficaria meio mundo preso na angústia do poço gigante, em que a partir de certa fase é provavelmente mais angustiante achar que não há um fim para queda do que perspectivar a dor da queda.
tropeça nas raízes das folhas, e poupa o tronco. sabes tão bem como eu que dar cabeçadas em postes de electricidade é uma actividade tão digna como apanhar folhas no outono. a menos que uses aquelas pegas extensíveis, sua calona. isso não é objecto de gente. a usar isso que seja para abrir o frigorífico a partir do sofá, tirando de lá garrafas de pseudo-cerveja, que tem escrito no rótulo nomes de terras mas que se infiltra na alma como clicquot reserva.
mais que tudo, sai de casa quando te apetecer atirar pedras ao mar. eu defino o mundo entre as pessoas que atiram pedras ao mar às três da manhã só porque lhes apetece e as que não o fazem. as últimas aumentam substancialmente a sua probabilidade de ver a cabeça aberta pelas pedras que os primeiros atiram. quase como quando vem o tipo que vê o copo meio cheio e bebe de um trago a metade do que chora pelo copo meio vazio.
a vida resume-se a um pôr-do-sol, pode ser aproveitado e sentido como um fenómeno irrepetível, ou estupidamente perdido, estando virado para trás a atar os atacadores dos ténis com medo de não cair da falésia. esses não morrem da queda. mas morrem de tédio.
tropeça nas raízes das folhas, e poupa o tronco. sabes tão bem como eu que dar cabeçadas em postes de electricidade é uma actividade tão digna como apanhar folhas no outono. a menos que uses aquelas pegas extensíveis, sua calona. isso não é objecto de gente. a usar isso que seja para abrir o frigorífico a partir do sofá, tirando de lá garrafas de pseudo-cerveja, que tem escrito no rótulo nomes de terras mas que se infiltra na alma como clicquot reserva.
mais que tudo, sai de casa quando te apetecer atirar pedras ao mar. eu defino o mundo entre as pessoas que atiram pedras ao mar às três da manhã só porque lhes apetece e as que não o fazem. as últimas aumentam substancialmente a sua probabilidade de ver a cabeça aberta pelas pedras que os primeiros atiram. quase como quando vem o tipo que vê o copo meio cheio e bebe de um trago a metade do que chora pelo copo meio vazio.
a vida resume-se a um pôr-do-sol, pode ser aproveitado e sentido como um fenómeno irrepetível, ou estupidamente perdido, estando virado para trás a atar os atacadores dos ténis com medo de não cair da falésia. esses não morrem da queda. mas morrem de tédio.
domingo, novembro 20, 2011
so, take the red pill or the blue pill, your choice
no outro dia parei. para pensar uma vez mais sobre o valor da decisão.
curioso como há quem seja criticado por decidir de modo demasiado racional, outros por decidirem logo com o que lhes vai na alma, e outros ainda por não se assumirem nem como carne nem como peixe.
a decisão é um ponto importante da vida. diria mesmo que é decisivo. provavelmente é o acto humano mais importante, e a história está cheia de momentos que o comprovam. se não é fácil decidir entre o bitoque e o bacalhau espiritual, imagino para o alexandre, mesmo sendo grande, qual a angústia e o conflito interno quando tinha de decidir se continuava a sua marcha vitoriosa, se parava ou até se voltava para trás.
parece mais importante quando falamos de generais. ler na military history sobre termophilas, gettysburg, waterloo ou outras, é igual a ler uma espécie de hino à decisão. mas nas guerras do dia-a-dia, somos nós própios generais das nossas próprias decisões.
quando oiço que alguém se suicidou, confesso que não me prendo tanto com o acto em si. corpos caídos e sangue a sair pela boca são coisas demasiado vistas na televisão para conseguir impressionar. o que me cria sempre grande curiosidade é imaginar o processo interno que levou a tal decisão. em que momento alguém decide pôr fim à vida? e isso é feito com base na reacção de fight-or-flight do momento? ou é uma escolha racional e pensada? ou depende do indivíduo? ou pode ser feito de um modo totalmente contrário ao racional habitual daquele indivíduo, como se, pela primeira vez na vida, resolvesse ter a audácia de fazer algo diferente, mas para um fim questionável.
a decisão envolve a influência de muitos factores. mas pergunto-me realmente qual o peso desses factores consoante o grau de importância que essa decisão possa ter. porque decidir é importante. e pelos vistos às vezes até pode ser fatal.
curioso como há quem seja criticado por decidir de modo demasiado racional, outros por decidirem logo com o que lhes vai na alma, e outros ainda por não se assumirem nem como carne nem como peixe.
a decisão é um ponto importante da vida. diria mesmo que é decisivo. provavelmente é o acto humano mais importante, e a história está cheia de momentos que o comprovam. se não é fácil decidir entre o bitoque e o bacalhau espiritual, imagino para o alexandre, mesmo sendo grande, qual a angústia e o conflito interno quando tinha de decidir se continuava a sua marcha vitoriosa, se parava ou até se voltava para trás.
parece mais importante quando falamos de generais. ler na military history sobre termophilas, gettysburg, waterloo ou outras, é igual a ler uma espécie de hino à decisão. mas nas guerras do dia-a-dia, somos nós própios generais das nossas próprias decisões.
quando oiço que alguém se suicidou, confesso que não me prendo tanto com o acto em si. corpos caídos e sangue a sair pela boca são coisas demasiado vistas na televisão para conseguir impressionar. o que me cria sempre grande curiosidade é imaginar o processo interno que levou a tal decisão. em que momento alguém decide pôr fim à vida? e isso é feito com base na reacção de fight-or-flight do momento? ou é uma escolha racional e pensada? ou depende do indivíduo? ou pode ser feito de um modo totalmente contrário ao racional habitual daquele indivíduo, como se, pela primeira vez na vida, resolvesse ter a audácia de fazer algo diferente, mas para um fim questionável.
a decisão envolve a influência de muitos factores. mas pergunto-me realmente qual o peso desses factores consoante o grau de importância que essa decisão possa ter. porque decidir é importante. e pelos vistos às vezes até pode ser fatal.
sábado, novembro 19, 2011
um jantar como outro qualquer
sentei-me com eles antes que tivéssemos sequer tempo de olhar bem à volta. perde-se muito quando não se conhece o terreno. eu gosto de olhar bem, como quem vê, antes de me sentar onde quer que seja. as paredes falam, a decoração susurra dicas e a disposição das pessoas explica a disposição da noite. um jarro com flores pendurado daquela parede explica mais sobre esta sala que mil comentários de críticos no jornal.
o encontro estava marcado há um tempo, mas andámos sempre os três tão ocupados que foi bem difícil arranjar uma data. enquanto o f se tentava decidir entre o robalo grelhado e o joelho de porco, o k conseguiu adormecer sobre si próprio, vítima de uma espécie de narcolepsia do génio. finalmente lá demos o murro na mesa e acordou para pedir a sua massa. integral. parece que estava de dieta.
começámos com o pé esquerdo, com o k a vir com a do costume de que todo o Homem é uma seca, e quem o queira contrariar será uma seca a fazê-lo. depois lá explicou que isto era apenas uma ideia geral, bebeu um trago de vinho branco e fizemos as pazes. não durante muito tempo. o f, ainda picado com a história de sermos todos uma seca, começou a tentar desafiar a lógica de pensamento do k dizendo-lhe que frequentemente dá grandes passeios e que quando olha para um abismo o abismo olha de volta para ele. contrariamente ao que ele esperava, tanto eu como o k concordámos com ele e por isso não se gerou a discussão. no fundo achámos que ele nunca devia ter tocado nos aperitivos, mas isso é outra história.
quando se fala bem entre amigos, nunca parece muito, nunca é demais, nunca cansa. o que cansa é a conversa da treta, de ocasião, e de falta dela. inventar o ininventável dificulta o discurso e faz tropeçar a compreensão. nada disso se passou nas três horas em que ali estivemos. entre a nuvem de fumo e a pouca nitidez do vinho, falou-se de tudo, sem preconceitos e sem cair em paradigmas fáceis.
chegou a conta por fim. o f disse para me lembrar que tenho de ter muito caos em mim mesmo para fazer nascer uma estrela que dance e o k que a nossa vida expressa o resultado dos nossos pensamentos dominantes. com isto paguei a conta, perguntei-lhes se ao menos podiam dividir a gorjeta e sorriram enquanto acenavam que sim.
o encontro estava marcado há um tempo, mas andámos sempre os três tão ocupados que foi bem difícil arranjar uma data. enquanto o f se tentava decidir entre o robalo grelhado e o joelho de porco, o k conseguiu adormecer sobre si próprio, vítima de uma espécie de narcolepsia do génio. finalmente lá demos o murro na mesa e acordou para pedir a sua massa. integral. parece que estava de dieta.
começámos com o pé esquerdo, com o k a vir com a do costume de que todo o Homem é uma seca, e quem o queira contrariar será uma seca a fazê-lo. depois lá explicou que isto era apenas uma ideia geral, bebeu um trago de vinho branco e fizemos as pazes. não durante muito tempo. o f, ainda picado com a história de sermos todos uma seca, começou a tentar desafiar a lógica de pensamento do k dizendo-lhe que frequentemente dá grandes passeios e que quando olha para um abismo o abismo olha de volta para ele. contrariamente ao que ele esperava, tanto eu como o k concordámos com ele e por isso não se gerou a discussão. no fundo achámos que ele nunca devia ter tocado nos aperitivos, mas isso é outra história.
quando se fala bem entre amigos, nunca parece muito, nunca é demais, nunca cansa. o que cansa é a conversa da treta, de ocasião, e de falta dela. inventar o ininventável dificulta o discurso e faz tropeçar a compreensão. nada disso se passou nas três horas em que ali estivemos. entre a nuvem de fumo e a pouca nitidez do vinho, falou-se de tudo, sem preconceitos e sem cair em paradigmas fáceis.
chegou a conta por fim. o f disse para me lembrar que tenho de ter muito caos em mim mesmo para fazer nascer uma estrela que dance e o k que a nossa vida expressa o resultado dos nossos pensamentos dominantes. com isto paguei a conta, perguntei-lhes se ao menos podiam dividir a gorjeta e sorriram enquanto acenavam que sim.
sexta-feira, novembro 18, 2011
lagos sulfurosos entre substância cinzenta e substância branca
hoje passeei por um cérebro. não me consigo lembrar se estava acordado ou se estava a sonhar. essa informação ficou perdida enquanto me maravilhava com os ramos cuidadosamente podados das árvores que enchiam a terra da substância cinzenta. velhos guardiões trabalhavam os troncos e os caules como quem poda bonsais e as folhas brilhavam como uma espécie de estrela a nascer. daquelas a sério, não das cadentes, que as cadentes duram o mesmo tempo que dura o encanto humano pelas coisas pouco perenes, delirantemente passageiras.
o susto, ao ver largas bolhas explosivas nos lagos sulfurosos entre a substância cinzenta e a substância branca, deu lugar à paixão por mergulhar nesses lagos, e senti-me como um molde quando é banhado num ouro de muitos quilates, talvez demasiados quilates.
o dia dentro de um cérebro nunca termina. é uma espécie de simulação dos seis meses de verão no árctico. quando acabam as actuações do dia, começam as actuações da noite. os malabaristas do dia dão rapidamente lugar aos saltimbancos da noite. há espectáculos de magia por todo o lado, e as redes, que nunca terminam, são usadas para múltiplas exibições. atarefados seres minúsculos, com número ímpar de olhos, vão montando uma espécie de peças de lego e logo as atiram para um infinito finito, como se tudo fizesse parte de um gigante modelo de máquina de guerra do leonardo.
continuei sem saber se estava acordado ou a sonhar. mas ali dentro pouco importa, o sonho abraça a realidade e tropeça toscamente nela como quem força a queda em direcção ao prazer do caos.
o susto, ao ver largas bolhas explosivas nos lagos sulfurosos entre a substância cinzenta e a substância branca, deu lugar à paixão por mergulhar nesses lagos, e senti-me como um molde quando é banhado num ouro de muitos quilates, talvez demasiados quilates.
o dia dentro de um cérebro nunca termina. é uma espécie de simulação dos seis meses de verão no árctico. quando acabam as actuações do dia, começam as actuações da noite. os malabaristas do dia dão rapidamente lugar aos saltimbancos da noite. há espectáculos de magia por todo o lado, e as redes, que nunca terminam, são usadas para múltiplas exibições. atarefados seres minúsculos, com número ímpar de olhos, vão montando uma espécie de peças de lego e logo as atiram para um infinito finito, como se tudo fizesse parte de um gigante modelo de máquina de guerra do leonardo.
continuei sem saber se estava acordado ou a sonhar. mas ali dentro pouco importa, o sonho abraça a realidade e tropeça toscamente nela como quem força a queda em direcção ao prazer do caos.
domingo, setembro 11, 2011
o mundo como ele é
no dia 10 de setembro de 2001 lembro-me de um momento preciso em que pensei como o mundo era quase perfeito. tinha acabado de sair da água magicamente aquecida do oceano pacífico e estava então sentado entre duas palmeiras, a olhar o horizonte, onde peixes saltavam na água, e a constatar a felicidade que a própria pele sente nestas situações, em que as pedras de sal desenham novos mapas pelo corpo e dão outro sabor ao dia.
poucas horas depois fui visceralmente lembrado de que esse planeta quase perfeito existe, mas existia sobretudo antes da evolução humana. se, por um lado, sem evolução humana, eu não existiria e não teria os meios para chegar ao outro lado do mundo, por outro lado, os milhares e milhares de anos de acumulação de ambição desmedida, egoísmo, fanatismo e todos os ismos que vos possam ocorrer, levam o homem (devia vir com h grande, mas há dias em que não o merece) a cometer os actos diários de terrorismo que comete.
o de 11 de setembro de 2001 tocou-me particularmente. porque atacou a minha cidade do coração. porque destruiu um local no topo do qual tinha estado dois anos antes. porque, sobretudo, arrancou a vida a milhares de inocentes, perdidos na linha da vida por um mero acaso ou apenas inocentes que tentavam ajudar outros inocentes em perigo.
não nos enganemos contudo. o mediatismo deste ataque de seres humanos contra seres humanos é superior. mas os actos de terrorismo são diários. a cada dia que passa contribuímos globalmente para diminuir o número de dias que nos restam. a escalada da falta de solidariedade e da falta de respeito pelo outro tem essa consequência.
há precisamente 2 anos atrás escrevi as seguintes palavras:
" estranho. o destino faz este dia chegar nalguns dos mais belos locais do mundo. há 8 anos (dilacerante o modo como o tempo passa por nós...) estava sentado num banco junto ao fabuloso mar de oahu, e agora estou sentado num banco com gigantescas dunas de areia do deserto mongol aqui mesmo à minha frente. o que mudou em 8 anos? eu mudei muito, o mundo infelizmente mudou pouco. "
infelizmente acho que isto vai ser aplicável substituindo 8 por 80. faz-nos falta conhecer o mundo. ver que as fronteiras estão na nossa cabeça e não no terreno. que o coração humano traz sempre agarrados dois braços, uma cabeça e duas pernas, e que estamos em modo de auto-destruição acelerada se não percebermos que falta amar, respeitar e entender o outro, bebendo das suas diferenças para casar as nossas igualdades.
todos juntos caçámos animais saindo de cavernas. só nos falta fazer o mesmo para caçar um futuro melhor.
poucas horas depois fui visceralmente lembrado de que esse planeta quase perfeito existe, mas existia sobretudo antes da evolução humana. se, por um lado, sem evolução humana, eu não existiria e não teria os meios para chegar ao outro lado do mundo, por outro lado, os milhares e milhares de anos de acumulação de ambição desmedida, egoísmo, fanatismo e todos os ismos que vos possam ocorrer, levam o homem (devia vir com h grande, mas há dias em que não o merece) a cometer os actos diários de terrorismo que comete.
o de 11 de setembro de 2001 tocou-me particularmente. porque atacou a minha cidade do coração. porque destruiu um local no topo do qual tinha estado dois anos antes. porque, sobretudo, arrancou a vida a milhares de inocentes, perdidos na linha da vida por um mero acaso ou apenas inocentes que tentavam ajudar outros inocentes em perigo.
não nos enganemos contudo. o mediatismo deste ataque de seres humanos contra seres humanos é superior. mas os actos de terrorismo são diários. a cada dia que passa contribuímos globalmente para diminuir o número de dias que nos restam. a escalada da falta de solidariedade e da falta de respeito pelo outro tem essa consequência.
há precisamente 2 anos atrás escrevi as seguintes palavras:
" estranho. o destino faz este dia chegar nalguns dos mais belos locais do mundo. há 8 anos (dilacerante o modo como o tempo passa por nós...) estava sentado num banco junto ao fabuloso mar de oahu, e agora estou sentado num banco com gigantescas dunas de areia do deserto mongol aqui mesmo à minha frente. o que mudou em 8 anos? eu mudei muito, o mundo infelizmente mudou pouco. "
infelizmente acho que isto vai ser aplicável substituindo 8 por 80. faz-nos falta conhecer o mundo. ver que as fronteiras estão na nossa cabeça e não no terreno. que o coração humano traz sempre agarrados dois braços, uma cabeça e duas pernas, e que estamos em modo de auto-destruição acelerada se não percebermos que falta amar, respeitar e entender o outro, bebendo das suas diferenças para casar as nossas igualdades.
todos juntos caçámos animais saindo de cavernas. só nos falta fazer o mesmo para caçar um futuro melhor.
sexta-feira, setembro 02, 2011
um jantar como outro qualquer
sentei-me com eles antes que tivéssemos sequer tempo de olhar bem à volta. perde-se muito quando não se conhece o terreno. eu gosto de olhar bem, como quem vê, antes de me sentar onde quer que seja. as paredes falam, a decoração susurra dicas e a disposição das pessoas explica a disposição da noite. um jarro com flores pendurado daquela parede explica mais sobre esta sala que mil comentários de críticos no jornal.
o encontro estava marcado há um tempo, mas andámos sempre os três tão ocupados que foi bem difícil arranjar uma data. enquanto o f se tentava decidir entre o robalo grelhado e o joelho de porco, o k conseguiu adormecer sobre si próprio, vítima de uma espécie de narcolepsia do génio. finalmente lá demos o murro na mesa e acordou para pedir a sua massa. integral. parece que estava de dieta.
começámos com o pé esquerdo, com o k a vir com a do costume de que todo o Homem é uma seca, e quem o queira contrariar será uma seca a fazê-lo. depois lá explicou que isto era apenas uma ideia geral, bebeu um trago de vinho branco e fizemos as pazes. não durante muito tempo. o f, ainda picado com a história de sermos todos uma seca, começou a tentar desafiar a lógica de pensamento do k dizendo-lhe que frequentemente dá grandes passeios e que quando olha para um abismo o abismo olha de volta para ele. contrariamente ao que ele esperava, tanto eu como o k concordámos com ele e por isso não se gerou a discussão. no fundo achámos que ele nunca devia ter tocado nos aperitivos, mas isso é outra história.
quando se fala bem entre amigos, nunca parece muito, nunca é demais, nunca cansa. o que cansa é a conversa da treta, de ocasião, e de falta dela. inventar o ininventável dificulta o discurso e faz tropeçar a compreensão. nada disso se passou nas três horas em que ali estivemos. entre a nuvem de fumo e a pouca nitidez do vinho, falou-se de tudo, sem preconceitos e sem cair em paradigmas fáceis.
chegou a conta por fim. o f disse para me lembrar que tenho de ter muito caos em mim mesmo para fazer nascer uma estrela que dance e o k que a nossa vida expressa o resultado dos nossos pensamentos dominantes. com isto paguei a conta, perguntei-lhes se ao menos podiam dividir a gorjeta e sorriram enquanto acenavam que sim.
quinta-feira, setembro 01, 2011
sei que o tempo pára exactamente naquele momento em que a pestana se imobiliza
há um momento em que tenho a certeza que o tempo pára.
são micro-segundos. o tempo em que olho fixamente para dentro dos teus olhos. seria mais fácil achar que o olhar ficava preso na cor, nos milhões de cristais roubados ao arco-íris, que escondem habilmente os segredos guardados lá dentro na alma. mas não, fica preso no instante em que a pestana superior pára de subir e se imobiliza, antes de descer novamente. é o momento em que tudo cede.
quando a pestana resolve mudar de direcção, todo o mundo se suspende num maravilhoso golpe de rins. o rímel sente a vertigem de quem anda numa montanha-russa e deixa-se ir no doce contorno da descida que vai levar a uns olhos fechados.
o perfume intenso das emoções espalha-se em pequenas borrifadelas. são puffs de paixão, disfarçados com cosméticos ou artifícios, mas que denunciam o criminoso em flagrante delírio. são borboletas-no-estômago-like. são dragões chineses, daqueles a brincar, a encher as ruas de uma cidade diferente, uma cidade sem nome, em que os cidadãos não têm duas pernas ou dois braços, mas sim um corpo diferente, de estrutura complexa e não de fisicalidade simples.
é por isso que sei que o tempo pára nesse momento. quando a tua pestana desce, ouvimos o barulho dos carris debaixo dos nossos pés. o horizonte torna-se repentinamente vertical e desorizontalizado e mergulhamos no vórtex da descida, fazendo muita força para agarrar o corpo à carruagem.
quem vê de fora, acha que temos medo de cair. mas eu sei que a força é para que a viagem nunca tenha fim.
sábado, agosto 13, 2011
a cor da caixa negra
já pensaste que este mundo pode não ser nada do que nos parece que é? e se tudo isto for uma fachada para algo maior ou menor, diferente, com mais cores do que as que temos agora, com mais sons do que aqueles que permitimos que nos encantem e nos levem na melodia da noite?
os precipícios podem ser excelentes locais para pensar desta forma. não te atiras de um precipício porque aprendeste que se te atirares te vais magoar. provavelmente até de uma forma séria. envolvendo morte e coisas dessas, que são uma maçada a certas horas do dia. eu por exemplo não gosto nada de morrer a seguir ao almoço, fico indisposto. mas como podes tu saber? nunca te atiraste de um precipício. quem te diz a ti que o impacto das tuas moléculas no fundo da ravina é igual ao de outro ser qualquer? até te digo que igual não será de certeza, porque as tuas moléculas não são as de outro ser qualquer. porque algum outro morreu com o impacto, porque haverias de ter que morrer tu? tudo é extrapolável sem limite? e se tu conseguires voar? nunca vais descobrir se consegues voar porque nunca te vais atirar em nenhum precipício...
percebo o conforto de acreditar que o mundo é como nos é dito que é. entre outras coisas poupas-te a vários comprimidos de oito em oito horas, que te arrastam quimicamente do mundo como o vês e trazem de volta o mundo como os outros querem que o vejas. não percas essa porta escondida que te leva ao teu mundo. lá há unicórnios, potes de ouro, mais cores e mais sons do que os temos agora. lá provavelmente podes voar e ninguém te impede de saltar em direcção ao desconhecido.
não acredites em tudo o que te vendem. não te esqueças que até a caixa negra do avião é laranja.
os precipícios podem ser excelentes locais para pensar desta forma. não te atiras de um precipício porque aprendeste que se te atirares te vais magoar. provavelmente até de uma forma séria. envolvendo morte e coisas dessas, que são uma maçada a certas horas do dia. eu por exemplo não gosto nada de morrer a seguir ao almoço, fico indisposto. mas como podes tu saber? nunca te atiraste de um precipício. quem te diz a ti que o impacto das tuas moléculas no fundo da ravina é igual ao de outro ser qualquer? até te digo que igual não será de certeza, porque as tuas moléculas não são as de outro ser qualquer. porque algum outro morreu com o impacto, porque haverias de ter que morrer tu? tudo é extrapolável sem limite? e se tu conseguires voar? nunca vais descobrir se consegues voar porque nunca te vais atirar em nenhum precipício...
percebo o conforto de acreditar que o mundo é como nos é dito que é. entre outras coisas poupas-te a vários comprimidos de oito em oito horas, que te arrastam quimicamente do mundo como o vês e trazem de volta o mundo como os outros querem que o vejas. não percas essa porta escondida que te leva ao teu mundo. lá há unicórnios, potes de ouro, mais cores e mais sons do que os temos agora. lá provavelmente podes voar e ninguém te impede de saltar em direcção ao desconhecido.
não acredites em tudo o que te vendem. não te esqueças que até a caixa negra do avião é laranja.
sexta-feira, agosto 12, 2011
percursos
todos passam por ti como quem te despreza. vêem o teu aspecto pobre e envelhecido, essa camisa gasta e as botas de quem já teve melhores dias na vida. olham de esguelha para o teu caminhar trôpego sobre a neve. as marcas que deixas na neve, parecem de quem claudica, mas só tu sabes que são marcas de guerra. de guerras, aliás. daquelas a sério, como aparecem nos filmes, e das outras, que se seguem a essas e são ainda piores. para as primeiras ainda fizeram de conta que te preparavam. para as segundas ninguém te deu qualquer conselho, ninguém te leu os planos, não te puseram uma metralhadora às costas, muito menos te mandaram seguir pelo pântano fora. mas tu seguiste, como é óbvio. tinhas um daqueles caminhos curiosos, que não têm trás. no fundo, os caminhos nunca têm trás, só têm frente, mas as pessoas também teimam em achar que há frente, trás e lados em tudo.
quando eu paro e olho para ti, sentado nesse limbo onde o passeio finge que se torna estrada, pergunto-me se olhas os carros que passam, ou se são eles que te olham a ti. imagino que o teu refúgio na contemplação da estrada tem muito a ver com o facto de os carros irem para lá e virem para cá. no fundo um efeito doppler contínuo, como tu gostavas que a tua vida tivesse sido e nunca ninguém deixou.
não reparas que te estou a observar e levantas-te, penosa e vagarosamente. arrastas-te na direcção não sabes bem do quê. deixas-te guiar pela brisa da tarde, pelo crepúsculo do dia, pelo gélido do frio que se adensa com a noite, e lanças-te em mais um caminho que sabes tão bem que nunca terminará porque já está terminado. sentes-te estranhamente leve.
o teu corpo jaz sob uma pele pálida e a ganhar tonalidades arroxeadas. ninguém repara. o vento continua a soprar. a neve cai. a música toca ao longe e tu continuas a caminhar, afastando-te da imagem do teu corpo, com a mesma naturalidade com que todos os dias a levavas contigo no final do dia.
quando eu paro e olho para ti, sentado nesse limbo onde o passeio finge que se torna estrada, pergunto-me se olhas os carros que passam, ou se são eles que te olham a ti. imagino que o teu refúgio na contemplação da estrada tem muito a ver com o facto de os carros irem para lá e virem para cá. no fundo um efeito doppler contínuo, como tu gostavas que a tua vida tivesse sido e nunca ninguém deixou.
não reparas que te estou a observar e levantas-te, penosa e vagarosamente. arrastas-te na direcção não sabes bem do quê. deixas-te guiar pela brisa da tarde, pelo crepúsculo do dia, pelo gélido do frio que se adensa com a noite, e lanças-te em mais um caminho que sabes tão bem que nunca terminará porque já está terminado. sentes-te estranhamente leve.
o teu corpo jaz sob uma pele pálida e a ganhar tonalidades arroxeadas. ninguém repara. o vento continua a soprar. a neve cai. a música toca ao longe e tu continuas a caminhar, afastando-te da imagem do teu corpo, com a mesma naturalidade com que todos os dias a levavas contigo no final do dia.
sexta-feira, julho 29, 2011
o paradoxo é uma espécie de combustão da vida
quando quero começar a escrever sobre nova iorque fico sempre com uma dificuldade imensa, porque as palavras misturam-se com os pensamentos, e os dedos comportam-se no teclado como um míudo trapalhão que tenta em vão fazer uma roda de jeito no ginásio.
se calhar é mesmo esse o motivo. o débito de pensamento pode impossibilitar a escrita e o meu turbilhão neste lugar é sempre tão grande, que aponto nessa solução para o problema. deve começar por ser a cidade que não dorme que me identifico tão bem com ela. mas é de certeza muito mais do que isso.
basta pôr um pé no aeroporto para me sentir de consciência em casa. basta ver ao longe a shiny pointy thing do chrysler para o meu coração ficar quente. basta aproximar-me da esquina do balthazar para a minha memória se sobressaltar em noites e noites de comunhão com esta cidade.
depois vou andando pelas ruas. falo com as pedras. falo com as pessoas. falo com as galerias, com as lojas e com os bares. falo sobretudo com carros amarelos que transportam o mundo lá dentro e falo com cortinas de fumo que saltam das profundezas e encaminham o calor que esta cidade tanto tem pelo meio do pretenso frio da época do ano.
nada nesta cidade é regular. tudo parece confuso, mas é tão imperfeitamente perfeito. tropeço em paradoxos a cada esquina, a cada sorriso, a cada gesto!
bolas, inventem uma religião para esta cidade. não sabem como eu agradecia...
se calhar é mesmo esse o motivo. o débito de pensamento pode impossibilitar a escrita e o meu turbilhão neste lugar é sempre tão grande, que aponto nessa solução para o problema. deve começar por ser a cidade que não dorme que me identifico tão bem com ela. mas é de certeza muito mais do que isso.
basta pôr um pé no aeroporto para me sentir de consciência em casa. basta ver ao longe a shiny pointy thing do chrysler para o meu coração ficar quente. basta aproximar-me da esquina do balthazar para a minha memória se sobressaltar em noites e noites de comunhão com esta cidade.
depois vou andando pelas ruas. falo com as pedras. falo com as pessoas. falo com as galerias, com as lojas e com os bares. falo sobretudo com carros amarelos que transportam o mundo lá dentro e falo com cortinas de fumo que saltam das profundezas e encaminham o calor que esta cidade tanto tem pelo meio do pretenso frio da época do ano.
nada nesta cidade é regular. tudo parece confuso, mas é tão imperfeitamente perfeito. tropeço em paradoxos a cada esquina, a cada sorriso, a cada gesto!
bolas, inventem uma religião para esta cidade. não sabem como eu agradecia...
domingo, julho 24, 2011
o mapa das sensações
às vezes acho que os sentimentos deviam ser como países.
abríamos à nossa frente o planisfério dos sentimentos e em cima da mesa estaria também a enciclopédia geográfica, pronta a ser consultada. em segundos conseguiríamos descobrir a capital do amor, os montes e vales da saudade, quantos rios correm na melancolia ou qual a história da ansiedade.
tenho interesse sobretudo em descobrir quem faz fronteira com quem. há dias em que tenho quase a certeza de que há conflitos à escala planetária entre alguns deles. lembro-me de um ataque feroz da ansiedade à razão algures no tempo. de um breve momento em que a paixão se armou em alemanha e trucidou a liberdade, como se esta fosse uma espécie de polónia. e ouvia-se wagner em pano de fundo.
se alguém descobrir este mapa, que me dê um toque. é que o 'jogo do risco' jogado constantemente entre os quatro lados do meu mapa era bem mais controlado se eu soubesse por onde ando a movimentar as tropas.
abríamos à nossa frente o planisfério dos sentimentos e em cima da mesa estaria também a enciclopédia geográfica, pronta a ser consultada. em segundos conseguiríamos descobrir a capital do amor, os montes e vales da saudade, quantos rios correm na melancolia ou qual a história da ansiedade.
tenho interesse sobretudo em descobrir quem faz fronteira com quem. há dias em que tenho quase a certeza de que há conflitos à escala planetária entre alguns deles. lembro-me de um ataque feroz da ansiedade à razão algures no tempo. de um breve momento em que a paixão se armou em alemanha e trucidou a liberdade, como se esta fosse uma espécie de polónia. e ouvia-se wagner em pano de fundo.
se alguém descobrir este mapa, que me dê um toque. é que o 'jogo do risco' jogado constantemente entre os quatro lados do meu mapa era bem mais controlado se eu soubesse por onde ando a movimentar as tropas.
sexta-feira, junho 03, 2011
a prova de que uma entrevista pode ser poesia...
Se fosse a vocês tirava vinte minutos dessas vossas vidas TÃO ocupadas, porque isto é uma lição de vida como se escrevem poucas. Amen.
"Manuel Hermínio Monteiro: a entrevista ao DNA em 2001
O DNA (suplemento do Diário de Notícias) de 12-05-2001 publicou aquela que penso ter sido a última entrevista dada por Manuel Hermínio Monteiro, o editor da Assírio & Alvim, que viria a morrer em Junho desse ano. Foi uma longa entrevista, conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Deixo-a aqui:
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MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO
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A conversa seguinte aconteceu numa destas tardes de sol. Do sol radioso que encharca de esperança os primeiros dias da Primavera. Manuel Hermínio Monteiro, o mítico editor da Assírio & Alvim, refastelou-se no sofá para desfiar o novelo da sua vida cheia. Como ele diz, logo no começo, a ponta pode ser a que nos aprouver que há-de sempre dar no mesmo.
Decidi começar por um lugar que cruzava as palavras e as memórias, umas e outras em catadupa. Um lugar que é talvez o mais belo recanto do Douro. E por isso de Portugal. E por isso do mundo. Conheço esse sítio há muito porque me fiz, também, em terras transmontanas. O que, como perceberão, tem a sua importância. A marca da terra, espessa, fez-me assim, fê-lo assim.
Esta é a vida de um transmontano, um transmontano de boa cepa. Calha de haver uma flor maligna que lhe traga a carne. Até ver. Como ele dizia, quando pela primeira vez o vi depois de saber, «Estou bem», embrutecendo o tronco, referindo-se à força, à robusteza.
A seguir, que é para isso que servem as introduções, têm a vida deste homem. E dentro dela a vida toda.
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Começamos por onde?
- Sei lá. Como a vida anda às voltas, pode ser por qualquer lado.
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A vida anda às voltas?
- Muitas. A minha é uma vida muito cheia.
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Podemos começar por S. Leonardo de Galafura, o recanto do Douro escolhido por Torga, que, presumo, conheça.
- Conheço. Dizem-me agora que na encosta contrária ainda há outro miradouro mais bonito, S. Salvador.
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O seu lado do Douro é o do Pinhão.
- A minha terra é mais para o interior, perto de Murça. Alijó. Do meu lado vejo Favaios, Sanfins, Vilar de Maçada.
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Nasceu na aldeia, em Parada do Pinhão. Viveu lá até que idade?
- Fiz lá a Primária. Vivi no século passado, posso dizê-lo. Vi chegar a electricidade, a rádio, a televisão.
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Era um outro tempo para o país, e sobretudo para o interior.
- A escola era uma mesa muito grande numa sala; em bancos corridos estavam numa pontinha os meninos da primeira classe e na outra ponta os da quarta, alguns já com 17/18 anos.
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Passavam directamente do campo para a escola?
- Andavam ali a arrastar. Uma vez um contou que a professora lhe tinha dito: «Se fizeres os deveres, vais amanhã dormir comigo». Ele chegou ao pé da mãe e disse: «Ó mãe, dá-me umas cuecas novas que amanhã vou dormir com a professora!» Ainda levou nas orelhas.
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A professora era quem? Uma moça da aldeia?
- Comecei com uma professora que levei até ao fim. Marcou-me muito e ainda hoje a recordo com muita saudade. Vive agora em Cascais, chama-se Lúcia. A minha professora deve ter sido das primeiras do Magistério; as outras tinham a quarta classe. Logo a seguir inaugurámos uma escola nova. Excelente, a escola, com entrada em arco, azulejos à volta, e tal.
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A professora Lúcia acompanhou a sua escolaridade primária. Onde eu queria chegar era à sua primeira relação com as palavras.
- Deve-se muito a ela. Uma relação de encantamento. O que é extraordinário é que andamos sempre à procura. Do Graal, às tantas. Antes de irmos para a escola estamos num estado absolutamente delirante. Eu já sabia os reflexivos, os pronomes, as preposições…
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Como é que já sabia?
- Era uma música. Ouvia os mais velhos e decorava.
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Ouvia-os do recreio?
- A escola era mesmo no meio da aldeia, ouvia cá de fora e depois perguntava aos mais velhos. Quando vamos para a escola, imaginamos que vamos aprender coisas. Uma ansiedade. Como depois temos quando vamos para o Liceu; julgamos que ali é que vai ser a sério. Depois, a Universidade é que vai ser a sério. Para chegar à conclusão que andamos permanentemente à procura de qualquer coisa que não existe. Tal e qual como a felicidade.
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A felicidade não existe?
- Com a idade vamos percebendo que a felicidade é uma aquisição muito delicada, muito trabalhosa. Esgaravatar uma mina, mexer muita terra, muita pedra, e depois, de vez em quando, lá aparece um bocadinho de minério. A felicidade também é assim. São momentos fulgurantes, extraordinários, mas não existe em estado puro. Nada existe nesta vida em estado puro.
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O que é que se pode retirar dessa lida diária?
- Mas é isso, é o trabalho diário, é a busca. E talvez sim, talvez se consiga. A consciência disso leva-nos a valorizar cada vez mais esses momentos, esses pedaços de cintilância. Isto vem a propósito?
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Da aldeia, dos parcos recursos.
- Como é que com pouquíssimos livros… raramente víamos um livro, uma imagem.
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Não tinham livros em casa?
- Não. E não tínhamos ainda televisão, éramos muito virgens em termos de imagens. A cultura era muito interessante; desde cantares, guitarras, uma forte tradição do teatro, festa feitas conjuntamente – havia laivos de comunitarismo permanentes. Ao mesmo tempo a aldeia fechava-se, como se um medo a rodeasse, «Fulano de tal ainda não chegou à terra?». Imaginavam-se coisas completamente loucas, derivadas também das casas onde o vento soprava pelas frestas, o soalho rangia, a luz da lareira era móvel, parecia que estávamos em empurrões de barcos. Isto a juntar àquela imaginação alucinante, como ainda é lá em cima, do maravilhoso celta; ou, para não sermos tão caros, a imaginação do próprio meio que fermenta coisas – uma vez que ainda não havia esta dispersão que há hoje.
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Qual era o seu ponto de observação e participação nesta vivência comunitária?
- Tinha uma experiência muito colectivizada porque a minha avó tinha um forno onde as pessoas iam fazer o pão e o meu avô tinha um grande alambique onde se juntava o pessoal todo, com a concertina, e mais não sei quê.
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O que representava a sua família na aldeia?
- Eram camponeses. O meu pai e a minha mãe casaram cedíssimo, a minha mãe com 16, o meu pai com 18, dois miúdos filhos de volframistas.
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Naquele tempo eram comum casarem tão cedo e terem filhos logo depois.
- Nasci um ano depois. Tive sempre os meus pais muito novos e uma família muito numerosa: muitas tias, muitas primas, em idade casadoira. Lembro-me bem dos vestidos delas, muito vaporosos, de se pentearem. A minha tia tinha raparigas que iam para lá aprender costura. Um gineceu fortíssimo, sempre a ser esmagado por abraços apertados.
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E gostava ou não?
- Às vezes apertavam-me demais, já fugia. Mas na verdade sentia-me um reizinho. São coisas que nunca mais se esquecem: a pressa para irem à missa, os dias de sol, a luz da Primavera.
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Num dia claro de Primavera, como é este, é isso que rememora?
- Lembro-me muito da minha infância. É uma espécie de película impressionável: o que fica ali registado, marca muito, muito mesmo. Tive a felicidade de ter uma infância completamente rural. O meu avô ia podar, levava-me com ele, deitava-me no casaco dele. Nessa altura, que é das primeiras ervinhas e flores, enquanto ele cantava aquelas canções, o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo, e sentia os lampejos do sol nos açudes. Para um miúdo de sete anos, isto era uma coisa fabulosa. Acordar num casaco a cheirar a tabaco – o meu avô fumava onça – e ficar a olhar. Ficar com as florzinhas em primeiro plano, ver o mundo mais rasteirinho. Nunca mais esqueci. De tal maneira que ainda hoje a maior parte dos meus sonhos são: águas límpidas, rosas, pereiras floridas, o meu pai a mostrar-me sítios por onde passávamos quando íamos à feira.
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Respira, assim, um tempo que já não existe. Como é que sai da aldeia?
- Apareceu a hipótese de ir para um colégio de Salesianos, com as duas vertentes, para padre ou não. Ficava em Arouca, num antigo convento, sinistro. Fui logo a seguir à quarta classe, com dez anos. Nunca tinha saído lá de cima, nunca tinha visto o mar.
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O seu mundo era a aldeia, e os campos à volta.
- E as romarias, e as feiras: a Sra. da Pena, a Sra. da Saudade, a Sra. Da Piedade. Adorava, adorava aquilo. Conhecia outras aldeias. Mas, naquele tempo, íamos a outra aldeia sempre com o risco de levar uma pedrada. Para irmos a Justes – as terras ali mais perto eram Justes e Vilar de Maçada, que é a terra do [José] Sócrates – fazíamos uma aventura extraordinária, com um cuidado extremo.
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Onde lhe parece que radica essa incrível rivalidade?
- Talvez sejam reminiscências de castreja, não percebo de outra maneira. Agora está melhor, há mais circulação, carros vão e vêm.
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Há a televisão.
- E as comunidades dissolveram-se, com a emigração, por exemplo. Hoje, na minha aldeia, há uma geração jovem muito civilizada, educada, que estuda e circula. Organizam-se para o teatro, para o futebol, têm um grupo coral, até já gravaram um cd. Na altura, eram ódios terríveis. Isto é uma conversa de Antropologia que dava para irmos por aí fora.
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A aldeia era visitada por almocreves, ou havia uma venda onde coincidia o café, a mercearia, a farmácia, etc?
- Existia uma economia natural, de trocas directas. Nas feiras trocavam-se sacholas por feijão.
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Os seus pais trocavam o quê?
- O que tinham: milho. O meu pai tinha algum dinheiro, mas muito pouco, porque tinha explorações de resina. Está bem que o meu avô vendia aguardente e teve muito dinheiro no tempo do volfrâmio, tinha certa produção de vinhos, e o vinho sempre se vendia. Mas imperavam as trocas directas.
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A relação era muito mais desprendida com os objectos. Quer trocas eram as suas?
- Nós só jogávamos ao botão.
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A sua primeira namorada era da aldeia?
- Sim.
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Eu recordo os quilómetros que os namorados faziam para encontrar ao domingo a namorada, que vivia noutra aldeia, para, no fim, ficarem uma hora a falar na berma da estrada.
- Uma vez inventaram-me um namoro, que nem era verdade!, em Sanfins, os sacanas, já andava no colégio Almeida Garrett. Levaram-me à fonte e tive de pagar um garrafão de vinho ao pessoal! Mergulharam-me a cabeça para ser adoptado.
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Uma praxe. E nisto já estamos no Porto.
- Depois da Primária, estive dois anos nos Salesianos, em Arouca, e depois perto de três perto de Coimbra, onde completei o quinto ano.
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Quando foi para os Salesianos, era para ser padre?
- Digamos que tinha uma certa tendência. Por uma razão simples: numa aldeia, neste contexto de que lhe falo, o que produzia um fascínio, fascínio, fascínio, era a religiosidade.
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O que era tão fascinante?
- Para já, havia um delírio religioso, mesmo que não fosse ortodoxo. A presença da bruxaria, do sobrenatural, do Além. Antigamente vivia-se nesse mundo. E pessoas que não mentiam (homens de uma verticalidade, de uma palavra dada…) viam coisas.
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Também via coisas?
- Uma vez estendia a mão para tocar numa senhora que julgava que estava ao meu lado. Imagine o que eram aquelas eiras quando no Verão ficávamos a olhar para o céu, a imaginar o que era o mundo, a chegar lá apenas por intuição. Então, o mundo da igreja, os bastiadores dos altares…
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Chegou a ser acólito?
- Ajudar à missa? Montes de vezes.
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Não estou a vê-lo feito papinho de anjo…
- Nos Salesianos, onde cheguei todo sujo do carvão do comboio, nunca consegui ser dos bens comportados.
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Demorou quantas horas a chegar?
- A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para chegar ao Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à esoera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas de beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.
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Viu o «Rio do Ouro» do Paulo Rocha? É disso que está a falar?
- O ambiente era ainda mais denso. Entrava uma mulher com cerejas, ia de Godim à Régua: dava logo cerejas ao pessoal. Dava! Vender, vendiam bilhas de água, regueifas, todo um conjunto de coisas ao longo da linha. E um calor infernal.
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Como por lá se diz, «Nove meses de Inverno e três meses de Inferno». Para não perdermos o fio à meada, aterra no colégio sozinho. O normal era que os miúdos fizessem a quarta classe e ficassem por ali. Como é que se decidiu que continuaria os seus estudos?
- Conheciam um padre salesiano ali perto, o padre Álvaro, que perguntou ao meu pai, «Porque é que ele não vai?, tal tal tal..» Já estava decidido que ia estudar, tinha um jeitinho, portava-me bem nas aulas. Eu queria ir, e gostava, embora sofresse como um cão. Com saudades, chorava que era uma coisa doida.
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Cortou com o universo encantatório da infância.
- Diziam-me «Mas vai-te embora»; mas por outro lado cria-se uma relação com os amigos e há o orgulho, não se quer ir para trás. É um desafio. O meu avô dizia «Como é que o rapaz está lá naquela coisa dos padres?, sem lareira e sem vinho!» (sorriso).
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Davam-lhe sopas de vinho?
- Não, mas às escondidas o meu avô dava-me às vezes um bocadinho de aguardente, tinha a mania que já era um homenzinho.
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O que é que mais gostava no contacto com as palavras, de ler, de escrever?
- Ah, o que eu mais gostava era de contemplar. E ouvir os velhos.
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Pela sua professora, tinha uma paixão?
- Tem-se sempre. Ainda me lembro das saias dela!
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A sua memória é prodigiosa.
- Dessa coisas da infância, lembro-me bem, mais do que das coisas de agora. As saias, os gestos, o ir buscar as cartas do namorado ao correio.
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Os seus pais ajudavam-no nos trabalhos de casa?
- Sabiam ler e escrever, mas não me ajudavam. O meu pai adorava ensinar-me como cantavam os pássaros, a imitá-los a todos. Chegava a casa, saltava para cima dele com ramos de cerejas. A minha mãe é muito mais enérgica, ágil, nervosa, como as mulheres lá de cima.
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Há um momento, já em Lisboa, em que pensa voltar para casa, para os seus pais, depois de passar pela prisão de Caxias.
- Olhe que há muitas coisas para trás. Ainda nem passámos pelo Porto.
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Então vamos ao Porto.
- O Porto foi uma descoberta, o primeiro contacto com a cidade. Tinha muita malta cujos pais estavam em Hong Kong e que tinham motorista fardado, grandes carrões à porta.
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Impressionava-o de que maneira?
- Pela bizarria. Fascínio?, nenhum. Ao mesmo tempo era injusto: metia-me no Cabanelas e via aquela gente toda, pobre, a subir a Serra do Marão. Pobres mas muito alegres, diga-se de passagem. Não sei o que aconteceu ao povo português. Acho que foram os primeiros rádios, sabe? Até para trabalharem nas vinhas levam rádio, em vez de cantarem. Agora já nem usam rádio. No princípio a música era fundamental. Sempre fui sensível às injustiças. O Porto, o Porto ajudou-me a abrir. Era o período da Guerra Colonial, quase não havia homens nem rapazes. Os bailes eram só com raparigas.
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Como é que entra nessa roda dos bailes?
- Bailes que havia em qualquer associação, e também bailes privados. Arranjavam-se namoradas muito facilmente – estava tudo lá fora. Na minha aldeia, havia o sol de Inverno, os cães, um e outro sentados, não se via mais ninguém. A partir dos 18 anos, iam para a Guerra. Mas devo ao Porto ter-me desmamado em relação a uma série de coisas. Fiz também um esforço para sair de um certo maniqueísmo religioso em que tinha sido formado. Comecei a frequentar igrejas protestantes para ver como é que os outros pensavam.
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Era profundamente crente?
- Sim, sim. Já não muito de missas. Isso ajudou a libertar-me do que era o bem e o Mal. É um percurso que tem de se fazer sozinho. Os amigos estavam noutra. Provavelmente não tinham as mesmas inquietações que eu tinha. Reflectia muito sobre mim próprio, escrevia já bastante, e tentava perceber o que se estava a passar. E havia outra coisa: para aquela malta do Porto, não ir às putas era o mesmo que ser maricas. Fazia-lhes uma confusão do caraças. E era uma coisa que também não percebia: como é que com tanta rapariga lindíssima… Tinha essa estranha relação homem-mulher facilitada, apesar de ter passado por um colégio interno, pelo facto de ter tido uma infância de gineceu. A malta nova ia toda para a Rua do Bonjardim, para as Candeias.
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Frequentavam bordéis ou putas de rua?
- Casas, o Porto estava cheio disso. Bastava descer a Rua dos Caldeireiros a passear… O meu avô, no tempo do volfrâmio, às vezes até trazia os trabalhadores para os Caldeireiros.
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Escrevia para as raparigas?
- Ah sim, escrevia. Aconteciam-me coisas extraordinárias: entrava num comboio e apaixonava-me, entrava numa camioneta e apaixonava-me.
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Pela beleza, por aquilo que a pessoa emanava?
- Não sei. Uma vez estava a contar ao José Agostinho Baptista e ele dizia-me «Tens uma imaginação maluca». As coisas estavam num estado de pureza… Eu tinha uma felicidade interior, uma tal transparência, que isso contagiava a outra pessoa.
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Essa «imaginação» deixou de o acompanhar no amadurecimento dos anos?
- Com o passar do tempo as pessoas deixam de ter disponibilidade para viver em estado de paixão. A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder…; outra coisa era o amor, isso sim, movia-me para o cu do mundo. O resto? Brrr…
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Fala de uma relação de afecto que me parece tremendamente panteísta.
- Tinha sempre a casa com flores, mesmo quando estava a estudar e tinha pouquíssimo dinheiro: 18 escudos iam para as sécias, comprava meia-dúzia todas as semanas. Já trabalhava na Assírio, metia-me sozinho, com o saco a tira-colo e um caderninho para escrever, primeiro no barco, depois na camioneta: Costa da Caparica, quilómetros por ali fora, ficava a olhar para o mar. Fazia isto com uma regularidade extrema. A partir de determinada altura, o tempo não chegava para nada, nada!
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Responsabiliza sobretudo o tempo? Estava a pensar que naturalmente há uma inocência que se perde. As pessoas deixam de ser puras.
- Chega a uma altura em que nem damos conta de como tudo se passa. Ficamos absorvidos, e depois queremos mais, cada vez mais, e já não conseguimos parar, a não ser que aconteça qualquer coisa de muito…
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Esteve ainda um ano em Direito.
- Quando vim para Lisboa foi para fazer Direito, mas praticamente não fiz nada. Direito estava ocupado, era o tempo do Martinez.
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Porque é que vai para Direito? Ainda por cima já escrevia, já sabia que lhe interessavam as palavras.
- O que queria era ser poeta. Os poetas que lia mais, o Pascoaes, o António Patrício, alguns simbolistas, eram todos licenciados em Direito. Julgava que o Direito… Uma ingenuidade!, como aliás tinha muitas. O mundo era assim, não precisava que fosse mais complexo. Fica-me mal dizer o eu, mas há uma água límpida que ainda mantenho.
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É o seu lado aldeão.
- Não tenho ninguém a quem desejo mal, acredita? Posso não simpatizar, mas não consigo atirar uma pedra a ninguém. Nem aos de Justes! (riso)
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Os seus pais acompanhavam o seu projecto?
- Cresci sozinho, praticamente sobrevivi sozinho. No Porto, tinha muito pouco dinheiro, os meus pais também tinham muito pouco dinheiro. Tive a minha fase freak, como todos. Quer ver como é que eu era?
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Quero.
- [Mostra uma fotografia com a mulher, Manuela, em Marrocos]. Isto é nos anos imediatamente anteriores à Revolução. Tínhamos a sensação de que o mundo ia mudar e que estava ali, ao alcance da nossa mão. Estamos a dispersar-nos muito, não?
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Vamos recentrar em Lisboa, no primeiro ano de Direito.
- Não, Direito é de ignorar, é só matrícula e mais nada.
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Lisboa, depois do Porto, é um novo mundo. Ainda se identificava como um rapaz da aldeia? Pelo facto de ter estudado, a sua vida passou a ser completamente diferente da vida dos rapazes da terra.
- Na aldeia só estive dez anos, nesta altura já tinha outro tanto fora. Mas mantive uma relação muito forte com aquilo. Em Lisboa, numa primeira fase, toda a malta de Trás-os-Montes se encontrava. Desde cirurgiões a tipos do PC, a tipos da PIDE. Desde malta de Montalegre a malta de Vila Real. Juntava-se o pessoal todo ao pé do [café] Gelo.
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Discutindo a situação do país?
- Não. Era talvez puro instinto, pura defesa. Dos que não conheciam isto, dos que conheciam bem. E depois rapidamente se passou a uma fase, por que passei também, de repulsa por tudo o que era rural. Aquilo parecia-me uma piroseira do caraças, as músicas e tudo. Estive muito tempo sem lá ir.
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Porque se fascinou com uma Lisboa sofisticada?
- Julgo que foi um processo mais cultural, que começa nos livros e no que se aprende. Há coisas que irritam!, que, aliás, ainda hoje me irritam: um atavismo, um não querer saber, uma preguiça natural.
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Foi tudo hiperbolizado.
- Parecia-me atávico, justamente. E ridículo: os rapazes chegavam de bicicleta aos bailes, com óculos espelhados comprados na feira! Vinham juntos, mas depois, à frente das raparigas, atravessavam o baile para se cumprimentar. Hoje tudo isso me encanta, mas na altura achava hipócrita.
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Tinha algum amigo da escola primária?
- Sim. Que estudassem só uma rapariga e um rapaz; ela é hoje professora, e foi o único caso de chegar ao fim do curso como eu.
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Estava a tentar perceber se ter tido acesso a outros universos o demarcou das pessoas que conhecia.
- Não muito. Nunca julguei as pessoas pelo que sabiam. Nunca fiz qualquer discriminação pela pessoa ter o curso ou não ter, ser assim ou assado, ser pobre ou rico. Quer dizer, é uma coisa tão natural que o simples facto de falar nisso mete-me impressão. E nunca tive mitos, nem Marilyn Monroe, nem Jim Morrison; a única coisinha que talvez tenha tido foi pelo Che Guevara. As pessoas fascinam-me sempre muito mais. Na hora da sesta, enquanto os outros iam dormir, passava o tempo a ouvir os velhotes. Horas e horas e horas. E depois continuou, com o agostinho da Silva, que ia ouvir de vez em quando.
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Quando é que encontra o Agostinho da Silva?
- Anos 70, pouco depois de vir para cá. Um amigo disse-me «Tens de conhecer o Agostinho». Só não ia mais vezes visitá-lo por causa do cheiro dos gatos (com o cio, o cheiro é insuportável).
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A sua gata, Gueixa, cheira?
- Não, os machos é que é uma coisa terrível. Ele vivia no terceiro andar e sentia-se no fundo das escadas.
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Então, é um rapaz universitário que vai parar a Caxias. Conte lá a história, antes de aprofundarmos a relação com as letras e com a Assírio.
- No Porto já participava numas coisas pró-social. Com o Bispo do Porto e uma certa igreja mais prá-frentex, com um grupo de jovens. Havia uma espécie de reflexão, um centro na Rua do Rosário, com a Irmã Humberta; cantava umas baladas do Fanhais e do Zeca Afonso.
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Estavam ligadas para si essas duas componentes, a religiosa e a política?
- Por acaso nunca tive grande sentido político. Na faculdade deixei-me motivar pela luta anti-Guerra Colonial, mandei umas bocas e pronto. Mais nada. Fui parar a Caxias basicamente porque estava a ouvir o Zeca Afonso no Centro Nacional de Cultura. Deram-me enxertos de porrada inacreditável. Com a minha ingenuidade perguntava: «Por que é que me está a bater?»
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A sensação mais forte é o medo?
- É a de que se está nas mãos da mais completa arbitrariedade; podem-nos dar um tiro, podem fazer o que quiserem. Mas agora, estar a contar isto tudo…
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Custa-lhe?
- Não. Mas foi a primeira machadada na minha vida. Até essa altura tinha sido como um pássaro, à solta. Cortaram-me o cabelo todo, que era enorme, implicaram com as coisinhas que trazia no saco: um caderninho, umas almofadinhas bordadas que as minhas amigas me davam. Meteram-me numa cela sem um papel, sem um livro, nada nada. Um dia parecia uma eternidade. Sabe o que me fez cair na situação? Perceber que já não mandava em mim: «Tens a mania que andas aí como um pássaro?».
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Quanto tempo esteve?
- Para aí uma semana. Lá dentro apercebi-me que havia luta; nos pratos, no alumínio, escreviam coisas como «Coragem, estamos contigo», «Resiste»; na enfermaria havia coisas escritas com sangue; e havia gajos que cantavam, cantigas alentejanas.
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Quando sai quer voltar à terra. Formulou seriamente o desejo de voltar para a aldeia? Ainda se reconhecia nessa vida?
- Estava farto. Essa coisa da Aura Mediócritas, como dizia o Sá de Miranda, é uma coisa que existe muito dentro de nós. Às vezes vejo colegas meus lá em cima, a tranquilidade com que estão com os seus filhos. A felicidade é aquela coisa projectada nos outros, felizmente estamos já avisados, sabemos que não existe. Mas nos poetas acontece muito, o Pessoa então, «Ai se eu pudesse casar com a filha da minha mulher a dias». Sempre o outro como representação, encenação da felicidade. Essa busca de uma vida calma, contemplativa, às vezes assalta-me. Na altura era insólito, por ser muito novo e ter o mundo à minha disposição.
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Aos 22/23 anos vai para a Assírio como vendedor.
- É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar, mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá um escritório e deu uma mão, mais duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição do que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.
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Já tinha acabado o curso?
- Já me tinha matriculado em Sociologia em Évora!, para ver as voltas da minha vida. Fui para a Assírio para a parte de vendas, mas ali todos faziam tudo. Sabe como é que se sobrevivia? Quantas vezes fazendo bancas, para sacar algum dinheiro. Estava mesmo na penúria, penúria. Fui-me mantendo por lá, acabei o curso de História.
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Vivia desse pequeno trabalho?
- Já tinha um outro numa agência que contratava artistas: os Genesis, os Procul Harum.
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Conheceu essa malta?
- Alguma, e outra que vinha para o Casino do Estoril, de românticos a stripers. Foi o meu primeiro trabalho, quem mo arranjou foi a Maria Leonor, da rádio.
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Na Assírio assume, em 78, a coordenação editorial. Imagino que tenha correspondido a um desejo de estabilidade que grassou por todo o país, passada a agitação política.
- E a tropa. Fui para a tropa depois de completar o curso. Tinha sido já refractário, devia ter ido para os Fuzileiros antes do 25 de Abril. Não fui e andei a monte.
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Em 78 assentou arraiais na Assírio. Deixou de ser o rapaz à descoberta do mundo?
- Continuei à descoberta. Ainda fui fazer vindimas a França. Andei sempre muito à solta, parecia que o mundo todo me sorria. Nestas viagens, sozinho, amadurecia muito, fermentava.
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Na base da mochila às costas?
- Era assim mesmo, sem saber onde ia ficar. Nunca fiquei na rua.
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O que é que queria da vida? Ou tratava-se de a ir descobrindo?
- Descobrindo. Mas sempre à espera, com a sensação de que a seguir é que era. A seguir, a seguir.
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Tinha desistido do sonho de ser poeta?
- Fartei-me de escrever. Tenho ali cadernos que nunca mais acabam. Depois começa-se a publicar tanta poesia tão boa… Não sei se é muito importante.
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Realmente?
- Ah, a vaidadezinha, não tenho muito essa vaidadezinha. A vaidadezinha que tenho é colectiva, por amigos. Às vezes apetece-me escrever, é uma necessidade interior, um imperativo. Na verdade, posso não escrever poesia, mas vivência poética acho que a tenho. Escrevo coisas incríveis. Só que não as escrevo. É como se as escrevesse, andam assim por dentro. Poemas feitos. Metê-los no papel? Brrr…
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O seu olhar é eminentemente poético, marcado pela vivência rural.
- E a visão desde a infância. Ver tudo, com muita atenção. Podia escrever um livro de memórias, relatando a vivência com uma gente de que pouco se sabe, das histórias que lhes ouvi.
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Portugal não tem tradição de livros de memórias. As biografias, noutros países, vendem-se como pão quente.
- Em Portugal as biografias não pegam, não sei dizer porquê. Eu gostava de fazer, sobretudo pela vivência forte que aí tive, humanamente. É quase uma dívida que queria saldar. Podia juntar a minha experiência no Alentejo. E a minha experiência enquanto editor; podia fazer um livro extraordinário sobre os poetas que conheci, não só os poetas que publiquei, mas todos os outros: o Manuel da Fonseca que ia tanta vez à Assírio, o Rui Cinati que ia diariamente à Assírio…
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As relações que a editora mantém com alguns poetas é mítica. É verdade que vão levar o almoço diariamente a casa do Cesariny?
- É. Mas não é preciso contar isso.
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O que me interessa é perceber a relação familiar que se estabelece entre si e alguns destes autores.
- Sim, são a minha família, não há nenhuma dúvida. Mas há outros, que nem sequer são da Assírio, com os quais tenho uma relação igualmente profunda. Caso do Eugénio de Andrade: falamos dia sim, dia não.
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Pensou muito neste projecto no último ano, desde que sabe da sua doença? Mesmo que trabalhe a partir de casa e vá à Assírio ocasionalmente, imagino que esteja mais recolhido em si e nas suas memórias.
- É verdade. Mas tanto penso em fazer isso, como logo a seguir penso em não fazer. Sou muito assim. Na minha vida as coisas quando têm de acontecer, acontecem. Não falo de um deixar-se reger, de um determinismo exterior à minha vontade; mas fui ganhando alguma sabedoria, percebendo que as coisas impõem-se.
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Prefere que as coisas lhe aconteçam?
- Sim. A minha vida é feita de acasos, de circunstâncias. Nunca forcei muito as coisas, nem as relações amorosas. Suponhamos que as coisas andam num caos e que tendem para uma harmonia. Se não as precipitarmos, elas tendem para uma pacificação. Tudo, tudo o que está no universo é assim. Se calhar é a lógica da vida toda.
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Poucas foram, então, as opções de vida tomadas de forma categórica.
- Sim. No trabalho, claro, é diferente.
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A propósito dessa vida que lhe acontece, como ficou, a páginas tantas, a relação com o divino?
- É uma relação harmoniosa, sempre foi. Tenho fé, tenho. Há a perplexidade que algumas coisas inevitavelmente nos suscitam; por outro lado, há ainda tanta coisa por conhecer que é uma arrogância julgar que já estamos no fim do processo. Só posso falar da experiência própria. Não posso falar a alguém do encantamento que me dá ver um melro ali à frente no ramo, ou de uma pequena flor que me enche completamente de vida. Então neste momento actual enche a sério. Como não podia, quando era mais novo, ler um poema às pessoas que me respondiam «Lá vem este com o poema, agora com esta merda».
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Harmoniosamente foi fazendo a síntese entre a sabedoria das pessoas e da terra.
- É a mais importante.
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E o saber livresco e o que deriva do contacto com outras pessoas. Foi este o seu labor.
- Aprendi muito vendo, vendo a natureza. Isto é uma escola permanente, é uma escola permanente. O grande problema é que está a morrer a nossa sensibilidade, a nossa disponibilidade. A relação com os outros está terrível. Esta coisa do novo-riquismo, esta ansiedade desenfreada que não leva absolutamente a nada. Um punhetaço, como dizem os espanhóis. Há uma coisa infernal que retira às pessoas a sua tranquilidade, a sua liberdade. E estamos a matar aquilo que, em putos, no tempo da festividade, do amor e tal, tínhamos como capital incrível, e que era o afecto.
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Na altura já sabia disso?
- «O nosso grande capital é o amor». Era a nossa grande riqueza, o que queríamos. Depois logo nos safávamos, íamos a França, enfim. Agora precisam de não sei quantos contos para ir para a estância de neve, mais não sei quê que só vai com determinadas condições. Estamos a perder a liberdade. Mais: a perdê-la sem ter consciência disso.
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Esse conforto material em que vive agora, esta sua casa tão simpática, a casa da aldeia…
- Mas eu posso viver em qualquer sítio. Se não fosse a Manuela a arranjar a casa, algum dia tinha isto? Não, não me mexe muito. Seria uma estupidez dizer que não gosto de ter um bom carro, em vez de ter um carro a abanar por todos os lados. Agora, que não signifique hipotecar a liberdade da pessoa. Se não puder ter, não há problema, até não há problema absolutamente nenhum.
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Estas coisas ficaram mais flagrantes para si porque as pessoas ficam sacudidas quando estão doentes?
- Não, absolutamente nada. Tinha consciência delas, mas andava tão alienado que me apetecia chegar aí, ligar a televisão e ver a bonecada porque me dava o sono. Neste momento sinto-me melhor fisicamente, por incrível que pareça. A minha cabeça parece que estourava, com milhões de preocupações, permanentemente tau-tau-tau. Não tinha paz. E sinto-me tranquilo.
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Sente? Não o invade uma angústia quanto ao futuro?
- Se morrer quero ir para a minha terra.
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Foi nisso que imediatamente pensou?
- Foi. Logo. E disse-o à Manuela. Às vezes, depois das quimios, vou-me um bocadinho mais abaixo, fico mais mole e psicologicamente fico mais afectado. Agora, como hoje me sinto… Fico aqui sentado a ver os melros, de que gosto muito, os pequenos rebentos das folhas.
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Porquê os melros?
- É um pássaro muito bonito, canta extraordinariamente bem. Quando tinha seis anos, havia uma japoneira ao pé da casa dos meus avós e cantava lá um melro ao amanhecer; contam que dizia: «Ó Vó, olha o que o melro está a dizer!, o que é que está a dizer?, queres comer, queres comida?». Era eu que estava com fome.
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Teve um encontro, com um livro ou poema, que tivesse sido determinante na sua relação com a literatura?
- Quando comecei a sentir a poesia a sério, assim poesia de estremeção, foi nos Simbolistas, Gomes Leal e Camilo Pessanha. Sobretudo Pessanha, a gente dizia: «O que é isto?»
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Que verso ou poema traduziria a essência de si e que escolheria para seu epitáfio?
- Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas sobre mim, não pense que não. Muitas convulsões, muitas dúvidas. Sou um toiro. Agora estou partido. Quem é que me domava? Nem eu. Energia. Alegria. Era capaz de levar uma multidão. Era uma coisa genésica e telúrica. Ao mesmo tempo, tenho uma dose de feminilidade forte, que não enjeito. A mulher herdou uma sabedoria de muitos séculos, de velha aranha que sabe esperar, perceber o silêncio. Os homens são tipos de uma ingenuidade total, de uma generosidade inexcedível, só qualidades; e depois há qualquer coisa de bruto, de guerreiro, de incapacidade de crescimento.
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Que conversas tem com o seu pai e com a sua mãe?
- Ao meu pai gosto muito de o abraçar, estamos sempre agarrados um ao outro, «Então a poda já está feita?», «Está quase», e tal. Com a minha mãe falo das coisas da casa, das minhas irmãs, deito água na fervura. E é assim.
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As partes mais íntimas de si ficam para quem?
- São coisas que a gente digere em nós, não é? Nunca matei ninguém, não tenho nada que me atormente. (pausa) Precisávamos de ter várias vidas, não é?, para acertar com uma. Esta é muito pequena. Mesmo que a tenha vivido intensamente. Morrendo brevemente, já ganhei muita coisa. Claro que gostava de mais, de fazer isto e aquilo; mas por outro lado, mesmo 100 anos não é nada, 200 também não. Estou habituado a ver a biografia de escritores… Isso passa tudo. É uma lucidez que convém ter afinada. Sempre a tive, não é de agora. Pelo contrário, agora tenho mais ganas de viver. Mas sempre percebi o quão relativo isto era: 90 anos, 100 anos, 200 anos. Não se dá conta; julga-se que quando se for mais velho se vai saber mais e também não se sabe nada.
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Que idade tem?
- 48. "
"Manuel Hermínio Monteiro: a entrevista ao DNA em 2001
O DNA (suplemento do Diário de Notícias) de 12-05-2001 publicou aquela que penso ter sido a última entrevista dada por Manuel Hermínio Monteiro, o editor da Assírio & Alvim, que viria a morrer em Junho desse ano. Foi uma longa entrevista, conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Deixo-a aqui:
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MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO
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A conversa seguinte aconteceu numa destas tardes de sol. Do sol radioso que encharca de esperança os primeiros dias da Primavera. Manuel Hermínio Monteiro, o mítico editor da Assírio & Alvim, refastelou-se no sofá para desfiar o novelo da sua vida cheia. Como ele diz, logo no começo, a ponta pode ser a que nos aprouver que há-de sempre dar no mesmo.
Decidi começar por um lugar que cruzava as palavras e as memórias, umas e outras em catadupa. Um lugar que é talvez o mais belo recanto do Douro. E por isso de Portugal. E por isso do mundo. Conheço esse sítio há muito porque me fiz, também, em terras transmontanas. O que, como perceberão, tem a sua importância. A marca da terra, espessa, fez-me assim, fê-lo assim.
Esta é a vida de um transmontano, um transmontano de boa cepa. Calha de haver uma flor maligna que lhe traga a carne. Até ver. Como ele dizia, quando pela primeira vez o vi depois de saber, «Estou bem», embrutecendo o tronco, referindo-se à força, à robusteza.
A seguir, que é para isso que servem as introduções, têm a vida deste homem. E dentro dela a vida toda.
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Começamos por onde?
- Sei lá. Como a vida anda às voltas, pode ser por qualquer lado.
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A vida anda às voltas?
- Muitas. A minha é uma vida muito cheia.
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Podemos começar por S. Leonardo de Galafura, o recanto do Douro escolhido por Torga, que, presumo, conheça.
- Conheço. Dizem-me agora que na encosta contrária ainda há outro miradouro mais bonito, S. Salvador.
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O seu lado do Douro é o do Pinhão.
- A minha terra é mais para o interior, perto de Murça. Alijó. Do meu lado vejo Favaios, Sanfins, Vilar de Maçada.
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Nasceu na aldeia, em Parada do Pinhão. Viveu lá até que idade?
- Fiz lá a Primária. Vivi no século passado, posso dizê-lo. Vi chegar a electricidade, a rádio, a televisão.
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Era um outro tempo para o país, e sobretudo para o interior.
- A escola era uma mesa muito grande numa sala; em bancos corridos estavam numa pontinha os meninos da primeira classe e na outra ponta os da quarta, alguns já com 17/18 anos.
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Passavam directamente do campo para a escola?
- Andavam ali a arrastar. Uma vez um contou que a professora lhe tinha dito: «Se fizeres os deveres, vais amanhã dormir comigo». Ele chegou ao pé da mãe e disse: «Ó mãe, dá-me umas cuecas novas que amanhã vou dormir com a professora!» Ainda levou nas orelhas.
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A professora era quem? Uma moça da aldeia?
- Comecei com uma professora que levei até ao fim. Marcou-me muito e ainda hoje a recordo com muita saudade. Vive agora em Cascais, chama-se Lúcia. A minha professora deve ter sido das primeiras do Magistério; as outras tinham a quarta classe. Logo a seguir inaugurámos uma escola nova. Excelente, a escola, com entrada em arco, azulejos à volta, e tal.
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A professora Lúcia acompanhou a sua escolaridade primária. Onde eu queria chegar era à sua primeira relação com as palavras.
- Deve-se muito a ela. Uma relação de encantamento. O que é extraordinário é que andamos sempre à procura. Do Graal, às tantas. Antes de irmos para a escola estamos num estado absolutamente delirante. Eu já sabia os reflexivos, os pronomes, as preposições…
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Como é que já sabia?
- Era uma música. Ouvia os mais velhos e decorava.
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Ouvia-os do recreio?
- A escola era mesmo no meio da aldeia, ouvia cá de fora e depois perguntava aos mais velhos. Quando vamos para a escola, imaginamos que vamos aprender coisas. Uma ansiedade. Como depois temos quando vamos para o Liceu; julgamos que ali é que vai ser a sério. Depois, a Universidade é que vai ser a sério. Para chegar à conclusão que andamos permanentemente à procura de qualquer coisa que não existe. Tal e qual como a felicidade.
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A felicidade não existe?
- Com a idade vamos percebendo que a felicidade é uma aquisição muito delicada, muito trabalhosa. Esgaravatar uma mina, mexer muita terra, muita pedra, e depois, de vez em quando, lá aparece um bocadinho de minério. A felicidade também é assim. São momentos fulgurantes, extraordinários, mas não existe em estado puro. Nada existe nesta vida em estado puro.
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O que é que se pode retirar dessa lida diária?
- Mas é isso, é o trabalho diário, é a busca. E talvez sim, talvez se consiga. A consciência disso leva-nos a valorizar cada vez mais esses momentos, esses pedaços de cintilância. Isto vem a propósito?
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Da aldeia, dos parcos recursos.
- Como é que com pouquíssimos livros… raramente víamos um livro, uma imagem.
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Não tinham livros em casa?
- Não. E não tínhamos ainda televisão, éramos muito virgens em termos de imagens. A cultura era muito interessante; desde cantares, guitarras, uma forte tradição do teatro, festa feitas conjuntamente – havia laivos de comunitarismo permanentes. Ao mesmo tempo a aldeia fechava-se, como se um medo a rodeasse, «Fulano de tal ainda não chegou à terra?». Imaginavam-se coisas completamente loucas, derivadas também das casas onde o vento soprava pelas frestas, o soalho rangia, a luz da lareira era móvel, parecia que estávamos em empurrões de barcos. Isto a juntar àquela imaginação alucinante, como ainda é lá em cima, do maravilhoso celta; ou, para não sermos tão caros, a imaginação do próprio meio que fermenta coisas – uma vez que ainda não havia esta dispersão que há hoje.
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Qual era o seu ponto de observação e participação nesta vivência comunitária?
- Tinha uma experiência muito colectivizada porque a minha avó tinha um forno onde as pessoas iam fazer o pão e o meu avô tinha um grande alambique onde se juntava o pessoal todo, com a concertina, e mais não sei quê.
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O que representava a sua família na aldeia?
- Eram camponeses. O meu pai e a minha mãe casaram cedíssimo, a minha mãe com 16, o meu pai com 18, dois miúdos filhos de volframistas.
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Naquele tempo eram comum casarem tão cedo e terem filhos logo depois.
- Nasci um ano depois. Tive sempre os meus pais muito novos e uma família muito numerosa: muitas tias, muitas primas, em idade casadoira. Lembro-me bem dos vestidos delas, muito vaporosos, de se pentearem. A minha tia tinha raparigas que iam para lá aprender costura. Um gineceu fortíssimo, sempre a ser esmagado por abraços apertados.
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E gostava ou não?
- Às vezes apertavam-me demais, já fugia. Mas na verdade sentia-me um reizinho. São coisas que nunca mais se esquecem: a pressa para irem à missa, os dias de sol, a luz da Primavera.
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Num dia claro de Primavera, como é este, é isso que rememora?
- Lembro-me muito da minha infância. É uma espécie de película impressionável: o que fica ali registado, marca muito, muito mesmo. Tive a felicidade de ter uma infância completamente rural. O meu avô ia podar, levava-me com ele, deitava-me no casaco dele. Nessa altura, que é das primeiras ervinhas e flores, enquanto ele cantava aquelas canções, o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo, e sentia os lampejos do sol nos açudes. Para um miúdo de sete anos, isto era uma coisa fabulosa. Acordar num casaco a cheirar a tabaco – o meu avô fumava onça – e ficar a olhar. Ficar com as florzinhas em primeiro plano, ver o mundo mais rasteirinho. Nunca mais esqueci. De tal maneira que ainda hoje a maior parte dos meus sonhos são: águas límpidas, rosas, pereiras floridas, o meu pai a mostrar-me sítios por onde passávamos quando íamos à feira.
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Respira, assim, um tempo que já não existe. Como é que sai da aldeia?
- Apareceu a hipótese de ir para um colégio de Salesianos, com as duas vertentes, para padre ou não. Ficava em Arouca, num antigo convento, sinistro. Fui logo a seguir à quarta classe, com dez anos. Nunca tinha saído lá de cima, nunca tinha visto o mar.
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O seu mundo era a aldeia, e os campos à volta.
- E as romarias, e as feiras: a Sra. da Pena, a Sra. da Saudade, a Sra. Da Piedade. Adorava, adorava aquilo. Conhecia outras aldeias. Mas, naquele tempo, íamos a outra aldeia sempre com o risco de levar uma pedrada. Para irmos a Justes – as terras ali mais perto eram Justes e Vilar de Maçada, que é a terra do [José] Sócrates – fazíamos uma aventura extraordinária, com um cuidado extremo.
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Onde lhe parece que radica essa incrível rivalidade?
- Talvez sejam reminiscências de castreja, não percebo de outra maneira. Agora está melhor, há mais circulação, carros vão e vêm.
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Há a televisão.
- E as comunidades dissolveram-se, com a emigração, por exemplo. Hoje, na minha aldeia, há uma geração jovem muito civilizada, educada, que estuda e circula. Organizam-se para o teatro, para o futebol, têm um grupo coral, até já gravaram um cd. Na altura, eram ódios terríveis. Isto é uma conversa de Antropologia que dava para irmos por aí fora.
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A aldeia era visitada por almocreves, ou havia uma venda onde coincidia o café, a mercearia, a farmácia, etc?
- Existia uma economia natural, de trocas directas. Nas feiras trocavam-se sacholas por feijão.
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Os seus pais trocavam o quê?
- O que tinham: milho. O meu pai tinha algum dinheiro, mas muito pouco, porque tinha explorações de resina. Está bem que o meu avô vendia aguardente e teve muito dinheiro no tempo do volfrâmio, tinha certa produção de vinhos, e o vinho sempre se vendia. Mas imperavam as trocas directas.
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A relação era muito mais desprendida com os objectos. Quer trocas eram as suas?
- Nós só jogávamos ao botão.
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A sua primeira namorada era da aldeia?
- Sim.
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Eu recordo os quilómetros que os namorados faziam para encontrar ao domingo a namorada, que vivia noutra aldeia, para, no fim, ficarem uma hora a falar na berma da estrada.
- Uma vez inventaram-me um namoro, que nem era verdade!, em Sanfins, os sacanas, já andava no colégio Almeida Garrett. Levaram-me à fonte e tive de pagar um garrafão de vinho ao pessoal! Mergulharam-me a cabeça para ser adoptado.
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Uma praxe. E nisto já estamos no Porto.
- Depois da Primária, estive dois anos nos Salesianos, em Arouca, e depois perto de três perto de Coimbra, onde completei o quinto ano.
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Quando foi para os Salesianos, era para ser padre?
- Digamos que tinha uma certa tendência. Por uma razão simples: numa aldeia, neste contexto de que lhe falo, o que produzia um fascínio, fascínio, fascínio, era a religiosidade.
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O que era tão fascinante?
- Para já, havia um delírio religioso, mesmo que não fosse ortodoxo. A presença da bruxaria, do sobrenatural, do Além. Antigamente vivia-se nesse mundo. E pessoas que não mentiam (homens de uma verticalidade, de uma palavra dada…) viam coisas.
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Também via coisas?
- Uma vez estendia a mão para tocar numa senhora que julgava que estava ao meu lado. Imagine o que eram aquelas eiras quando no Verão ficávamos a olhar para o céu, a imaginar o que era o mundo, a chegar lá apenas por intuição. Então, o mundo da igreja, os bastiadores dos altares…
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Chegou a ser acólito?
- Ajudar à missa? Montes de vezes.
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Não estou a vê-lo feito papinho de anjo…
- Nos Salesianos, onde cheguei todo sujo do carvão do comboio, nunca consegui ser dos bens comportados.
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Demorou quantas horas a chegar?
- A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para chegar ao Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à esoera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas de beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.
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Viu o «Rio do Ouro» do Paulo Rocha? É disso que está a falar?
- O ambiente era ainda mais denso. Entrava uma mulher com cerejas, ia de Godim à Régua: dava logo cerejas ao pessoal. Dava! Vender, vendiam bilhas de água, regueifas, todo um conjunto de coisas ao longo da linha. E um calor infernal.
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Como por lá se diz, «Nove meses de Inverno e três meses de Inferno». Para não perdermos o fio à meada, aterra no colégio sozinho. O normal era que os miúdos fizessem a quarta classe e ficassem por ali. Como é que se decidiu que continuaria os seus estudos?
- Conheciam um padre salesiano ali perto, o padre Álvaro, que perguntou ao meu pai, «Porque é que ele não vai?, tal tal tal..» Já estava decidido que ia estudar, tinha um jeitinho, portava-me bem nas aulas. Eu queria ir, e gostava, embora sofresse como um cão. Com saudades, chorava que era uma coisa doida.
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Cortou com o universo encantatório da infância.
- Diziam-me «Mas vai-te embora»; mas por outro lado cria-se uma relação com os amigos e há o orgulho, não se quer ir para trás. É um desafio. O meu avô dizia «Como é que o rapaz está lá naquela coisa dos padres?, sem lareira e sem vinho!» (sorriso).
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Davam-lhe sopas de vinho?
- Não, mas às escondidas o meu avô dava-me às vezes um bocadinho de aguardente, tinha a mania que já era um homenzinho.
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O que é que mais gostava no contacto com as palavras, de ler, de escrever?
- Ah, o que eu mais gostava era de contemplar. E ouvir os velhos.
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Pela sua professora, tinha uma paixão?
- Tem-se sempre. Ainda me lembro das saias dela!
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A sua memória é prodigiosa.
- Dessa coisas da infância, lembro-me bem, mais do que das coisas de agora. As saias, os gestos, o ir buscar as cartas do namorado ao correio.
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Os seus pais ajudavam-no nos trabalhos de casa?
- Sabiam ler e escrever, mas não me ajudavam. O meu pai adorava ensinar-me como cantavam os pássaros, a imitá-los a todos. Chegava a casa, saltava para cima dele com ramos de cerejas. A minha mãe é muito mais enérgica, ágil, nervosa, como as mulheres lá de cima.
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Há um momento, já em Lisboa, em que pensa voltar para casa, para os seus pais, depois de passar pela prisão de Caxias.
- Olhe que há muitas coisas para trás. Ainda nem passámos pelo Porto.
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Então vamos ao Porto.
- O Porto foi uma descoberta, o primeiro contacto com a cidade. Tinha muita malta cujos pais estavam em Hong Kong e que tinham motorista fardado, grandes carrões à porta.
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Impressionava-o de que maneira?
- Pela bizarria. Fascínio?, nenhum. Ao mesmo tempo era injusto: metia-me no Cabanelas e via aquela gente toda, pobre, a subir a Serra do Marão. Pobres mas muito alegres, diga-se de passagem. Não sei o que aconteceu ao povo português. Acho que foram os primeiros rádios, sabe? Até para trabalharem nas vinhas levam rádio, em vez de cantarem. Agora já nem usam rádio. No princípio a música era fundamental. Sempre fui sensível às injustiças. O Porto, o Porto ajudou-me a abrir. Era o período da Guerra Colonial, quase não havia homens nem rapazes. Os bailes eram só com raparigas.
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Como é que entra nessa roda dos bailes?
- Bailes que havia em qualquer associação, e também bailes privados. Arranjavam-se namoradas muito facilmente – estava tudo lá fora. Na minha aldeia, havia o sol de Inverno, os cães, um e outro sentados, não se via mais ninguém. A partir dos 18 anos, iam para a Guerra. Mas devo ao Porto ter-me desmamado em relação a uma série de coisas. Fiz também um esforço para sair de um certo maniqueísmo religioso em que tinha sido formado. Comecei a frequentar igrejas protestantes para ver como é que os outros pensavam.
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Era profundamente crente?
- Sim, sim. Já não muito de missas. Isso ajudou a libertar-me do que era o bem e o Mal. É um percurso que tem de se fazer sozinho. Os amigos estavam noutra. Provavelmente não tinham as mesmas inquietações que eu tinha. Reflectia muito sobre mim próprio, escrevia já bastante, e tentava perceber o que se estava a passar. E havia outra coisa: para aquela malta do Porto, não ir às putas era o mesmo que ser maricas. Fazia-lhes uma confusão do caraças. E era uma coisa que também não percebia: como é que com tanta rapariga lindíssima… Tinha essa estranha relação homem-mulher facilitada, apesar de ter passado por um colégio interno, pelo facto de ter tido uma infância de gineceu. A malta nova ia toda para a Rua do Bonjardim, para as Candeias.
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Frequentavam bordéis ou putas de rua?
- Casas, o Porto estava cheio disso. Bastava descer a Rua dos Caldeireiros a passear… O meu avô, no tempo do volfrâmio, às vezes até trazia os trabalhadores para os Caldeireiros.
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Escrevia para as raparigas?
- Ah sim, escrevia. Aconteciam-me coisas extraordinárias: entrava num comboio e apaixonava-me, entrava numa camioneta e apaixonava-me.
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Pela beleza, por aquilo que a pessoa emanava?
- Não sei. Uma vez estava a contar ao José Agostinho Baptista e ele dizia-me «Tens uma imaginação maluca». As coisas estavam num estado de pureza… Eu tinha uma felicidade interior, uma tal transparência, que isso contagiava a outra pessoa.
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Essa «imaginação» deixou de o acompanhar no amadurecimento dos anos?
- Com o passar do tempo as pessoas deixam de ter disponibilidade para viver em estado de paixão. A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder…; outra coisa era o amor, isso sim, movia-me para o cu do mundo. O resto? Brrr…
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Fala de uma relação de afecto que me parece tremendamente panteísta.
- Tinha sempre a casa com flores, mesmo quando estava a estudar e tinha pouquíssimo dinheiro: 18 escudos iam para as sécias, comprava meia-dúzia todas as semanas. Já trabalhava na Assírio, metia-me sozinho, com o saco a tira-colo e um caderninho para escrever, primeiro no barco, depois na camioneta: Costa da Caparica, quilómetros por ali fora, ficava a olhar para o mar. Fazia isto com uma regularidade extrema. A partir de determinada altura, o tempo não chegava para nada, nada!
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Responsabiliza sobretudo o tempo? Estava a pensar que naturalmente há uma inocência que se perde. As pessoas deixam de ser puras.
- Chega a uma altura em que nem damos conta de como tudo se passa. Ficamos absorvidos, e depois queremos mais, cada vez mais, e já não conseguimos parar, a não ser que aconteça qualquer coisa de muito…
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Esteve ainda um ano em Direito.
- Quando vim para Lisboa foi para fazer Direito, mas praticamente não fiz nada. Direito estava ocupado, era o tempo do Martinez.
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Porque é que vai para Direito? Ainda por cima já escrevia, já sabia que lhe interessavam as palavras.
- O que queria era ser poeta. Os poetas que lia mais, o Pascoaes, o António Patrício, alguns simbolistas, eram todos licenciados em Direito. Julgava que o Direito… Uma ingenuidade!, como aliás tinha muitas. O mundo era assim, não precisava que fosse mais complexo. Fica-me mal dizer o eu, mas há uma água límpida que ainda mantenho.
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É o seu lado aldeão.
- Não tenho ninguém a quem desejo mal, acredita? Posso não simpatizar, mas não consigo atirar uma pedra a ninguém. Nem aos de Justes! (riso)
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Os seus pais acompanhavam o seu projecto?
- Cresci sozinho, praticamente sobrevivi sozinho. No Porto, tinha muito pouco dinheiro, os meus pais também tinham muito pouco dinheiro. Tive a minha fase freak, como todos. Quer ver como é que eu era?
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Quero.
- [Mostra uma fotografia com a mulher, Manuela, em Marrocos]. Isto é nos anos imediatamente anteriores à Revolução. Tínhamos a sensação de que o mundo ia mudar e que estava ali, ao alcance da nossa mão. Estamos a dispersar-nos muito, não?
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Vamos recentrar em Lisboa, no primeiro ano de Direito.
- Não, Direito é de ignorar, é só matrícula e mais nada.
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Lisboa, depois do Porto, é um novo mundo. Ainda se identificava como um rapaz da aldeia? Pelo facto de ter estudado, a sua vida passou a ser completamente diferente da vida dos rapazes da terra.
- Na aldeia só estive dez anos, nesta altura já tinha outro tanto fora. Mas mantive uma relação muito forte com aquilo. Em Lisboa, numa primeira fase, toda a malta de Trás-os-Montes se encontrava. Desde cirurgiões a tipos do PC, a tipos da PIDE. Desde malta de Montalegre a malta de Vila Real. Juntava-se o pessoal todo ao pé do [café] Gelo.
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Discutindo a situação do país?
- Não. Era talvez puro instinto, pura defesa. Dos que não conheciam isto, dos que conheciam bem. E depois rapidamente se passou a uma fase, por que passei também, de repulsa por tudo o que era rural. Aquilo parecia-me uma piroseira do caraças, as músicas e tudo. Estive muito tempo sem lá ir.
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Porque se fascinou com uma Lisboa sofisticada?
- Julgo que foi um processo mais cultural, que começa nos livros e no que se aprende. Há coisas que irritam!, que, aliás, ainda hoje me irritam: um atavismo, um não querer saber, uma preguiça natural.
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Foi tudo hiperbolizado.
- Parecia-me atávico, justamente. E ridículo: os rapazes chegavam de bicicleta aos bailes, com óculos espelhados comprados na feira! Vinham juntos, mas depois, à frente das raparigas, atravessavam o baile para se cumprimentar. Hoje tudo isso me encanta, mas na altura achava hipócrita.
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Tinha algum amigo da escola primária?
- Sim. Que estudassem só uma rapariga e um rapaz; ela é hoje professora, e foi o único caso de chegar ao fim do curso como eu.
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Estava a tentar perceber se ter tido acesso a outros universos o demarcou das pessoas que conhecia.
- Não muito. Nunca julguei as pessoas pelo que sabiam. Nunca fiz qualquer discriminação pela pessoa ter o curso ou não ter, ser assim ou assado, ser pobre ou rico. Quer dizer, é uma coisa tão natural que o simples facto de falar nisso mete-me impressão. E nunca tive mitos, nem Marilyn Monroe, nem Jim Morrison; a única coisinha que talvez tenha tido foi pelo Che Guevara. As pessoas fascinam-me sempre muito mais. Na hora da sesta, enquanto os outros iam dormir, passava o tempo a ouvir os velhotes. Horas e horas e horas. E depois continuou, com o agostinho da Silva, que ia ouvir de vez em quando.
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Quando é que encontra o Agostinho da Silva?
- Anos 70, pouco depois de vir para cá. Um amigo disse-me «Tens de conhecer o Agostinho». Só não ia mais vezes visitá-lo por causa do cheiro dos gatos (com o cio, o cheiro é insuportável).
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A sua gata, Gueixa, cheira?
- Não, os machos é que é uma coisa terrível. Ele vivia no terceiro andar e sentia-se no fundo das escadas.
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Então, é um rapaz universitário que vai parar a Caxias. Conte lá a história, antes de aprofundarmos a relação com as letras e com a Assírio.
- No Porto já participava numas coisas pró-social. Com o Bispo do Porto e uma certa igreja mais prá-frentex, com um grupo de jovens. Havia uma espécie de reflexão, um centro na Rua do Rosário, com a Irmã Humberta; cantava umas baladas do Fanhais e do Zeca Afonso.
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Estavam ligadas para si essas duas componentes, a religiosa e a política?
- Por acaso nunca tive grande sentido político. Na faculdade deixei-me motivar pela luta anti-Guerra Colonial, mandei umas bocas e pronto. Mais nada. Fui parar a Caxias basicamente porque estava a ouvir o Zeca Afonso no Centro Nacional de Cultura. Deram-me enxertos de porrada inacreditável. Com a minha ingenuidade perguntava: «Por que é que me está a bater?»
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A sensação mais forte é o medo?
- É a de que se está nas mãos da mais completa arbitrariedade; podem-nos dar um tiro, podem fazer o que quiserem. Mas agora, estar a contar isto tudo…
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Custa-lhe?
- Não. Mas foi a primeira machadada na minha vida. Até essa altura tinha sido como um pássaro, à solta. Cortaram-me o cabelo todo, que era enorme, implicaram com as coisinhas que trazia no saco: um caderninho, umas almofadinhas bordadas que as minhas amigas me davam. Meteram-me numa cela sem um papel, sem um livro, nada nada. Um dia parecia uma eternidade. Sabe o que me fez cair na situação? Perceber que já não mandava em mim: «Tens a mania que andas aí como um pássaro?».
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Quanto tempo esteve?
- Para aí uma semana. Lá dentro apercebi-me que havia luta; nos pratos, no alumínio, escreviam coisas como «Coragem, estamos contigo», «Resiste»; na enfermaria havia coisas escritas com sangue; e havia gajos que cantavam, cantigas alentejanas.
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Quando sai quer voltar à terra. Formulou seriamente o desejo de voltar para a aldeia? Ainda se reconhecia nessa vida?
- Estava farto. Essa coisa da Aura Mediócritas, como dizia o Sá de Miranda, é uma coisa que existe muito dentro de nós. Às vezes vejo colegas meus lá em cima, a tranquilidade com que estão com os seus filhos. A felicidade é aquela coisa projectada nos outros, felizmente estamos já avisados, sabemos que não existe. Mas nos poetas acontece muito, o Pessoa então, «Ai se eu pudesse casar com a filha da minha mulher a dias». Sempre o outro como representação, encenação da felicidade. Essa busca de uma vida calma, contemplativa, às vezes assalta-me. Na altura era insólito, por ser muito novo e ter o mundo à minha disposição.
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Aos 22/23 anos vai para a Assírio como vendedor.
- É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar, mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá um escritório e deu uma mão, mais duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição do que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.
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Já tinha acabado o curso?
- Já me tinha matriculado em Sociologia em Évora!, para ver as voltas da minha vida. Fui para a Assírio para a parte de vendas, mas ali todos faziam tudo. Sabe como é que se sobrevivia? Quantas vezes fazendo bancas, para sacar algum dinheiro. Estava mesmo na penúria, penúria. Fui-me mantendo por lá, acabei o curso de História.
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Vivia desse pequeno trabalho?
- Já tinha um outro numa agência que contratava artistas: os Genesis, os Procul Harum.
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Conheceu essa malta?
- Alguma, e outra que vinha para o Casino do Estoril, de românticos a stripers. Foi o meu primeiro trabalho, quem mo arranjou foi a Maria Leonor, da rádio.
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Na Assírio assume, em 78, a coordenação editorial. Imagino que tenha correspondido a um desejo de estabilidade que grassou por todo o país, passada a agitação política.
- E a tropa. Fui para a tropa depois de completar o curso. Tinha sido já refractário, devia ter ido para os Fuzileiros antes do 25 de Abril. Não fui e andei a monte.
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Em 78 assentou arraiais na Assírio. Deixou de ser o rapaz à descoberta do mundo?
- Continuei à descoberta. Ainda fui fazer vindimas a França. Andei sempre muito à solta, parecia que o mundo todo me sorria. Nestas viagens, sozinho, amadurecia muito, fermentava.
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Na base da mochila às costas?
- Era assim mesmo, sem saber onde ia ficar. Nunca fiquei na rua.
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O que é que queria da vida? Ou tratava-se de a ir descobrindo?
- Descobrindo. Mas sempre à espera, com a sensação de que a seguir é que era. A seguir, a seguir.
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Tinha desistido do sonho de ser poeta?
- Fartei-me de escrever. Tenho ali cadernos que nunca mais acabam. Depois começa-se a publicar tanta poesia tão boa… Não sei se é muito importante.
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Realmente?
- Ah, a vaidadezinha, não tenho muito essa vaidadezinha. A vaidadezinha que tenho é colectiva, por amigos. Às vezes apetece-me escrever, é uma necessidade interior, um imperativo. Na verdade, posso não escrever poesia, mas vivência poética acho que a tenho. Escrevo coisas incríveis. Só que não as escrevo. É como se as escrevesse, andam assim por dentro. Poemas feitos. Metê-los no papel? Brrr…
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O seu olhar é eminentemente poético, marcado pela vivência rural.
- E a visão desde a infância. Ver tudo, com muita atenção. Podia escrever um livro de memórias, relatando a vivência com uma gente de que pouco se sabe, das histórias que lhes ouvi.
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Portugal não tem tradição de livros de memórias. As biografias, noutros países, vendem-se como pão quente.
- Em Portugal as biografias não pegam, não sei dizer porquê. Eu gostava de fazer, sobretudo pela vivência forte que aí tive, humanamente. É quase uma dívida que queria saldar. Podia juntar a minha experiência no Alentejo. E a minha experiência enquanto editor; podia fazer um livro extraordinário sobre os poetas que conheci, não só os poetas que publiquei, mas todos os outros: o Manuel da Fonseca que ia tanta vez à Assírio, o Rui Cinati que ia diariamente à Assírio…
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As relações que a editora mantém com alguns poetas é mítica. É verdade que vão levar o almoço diariamente a casa do Cesariny?
- É. Mas não é preciso contar isso.
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O que me interessa é perceber a relação familiar que se estabelece entre si e alguns destes autores.
- Sim, são a minha família, não há nenhuma dúvida. Mas há outros, que nem sequer são da Assírio, com os quais tenho uma relação igualmente profunda. Caso do Eugénio de Andrade: falamos dia sim, dia não.
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Pensou muito neste projecto no último ano, desde que sabe da sua doença? Mesmo que trabalhe a partir de casa e vá à Assírio ocasionalmente, imagino que esteja mais recolhido em si e nas suas memórias.
- É verdade. Mas tanto penso em fazer isso, como logo a seguir penso em não fazer. Sou muito assim. Na minha vida as coisas quando têm de acontecer, acontecem. Não falo de um deixar-se reger, de um determinismo exterior à minha vontade; mas fui ganhando alguma sabedoria, percebendo que as coisas impõem-se.
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Prefere que as coisas lhe aconteçam?
- Sim. A minha vida é feita de acasos, de circunstâncias. Nunca forcei muito as coisas, nem as relações amorosas. Suponhamos que as coisas andam num caos e que tendem para uma harmonia. Se não as precipitarmos, elas tendem para uma pacificação. Tudo, tudo o que está no universo é assim. Se calhar é a lógica da vida toda.
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Poucas foram, então, as opções de vida tomadas de forma categórica.
- Sim. No trabalho, claro, é diferente.
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A propósito dessa vida que lhe acontece, como ficou, a páginas tantas, a relação com o divino?
- É uma relação harmoniosa, sempre foi. Tenho fé, tenho. Há a perplexidade que algumas coisas inevitavelmente nos suscitam; por outro lado, há ainda tanta coisa por conhecer que é uma arrogância julgar que já estamos no fim do processo. Só posso falar da experiência própria. Não posso falar a alguém do encantamento que me dá ver um melro ali à frente no ramo, ou de uma pequena flor que me enche completamente de vida. Então neste momento actual enche a sério. Como não podia, quando era mais novo, ler um poema às pessoas que me respondiam «Lá vem este com o poema, agora com esta merda».
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Harmoniosamente foi fazendo a síntese entre a sabedoria das pessoas e da terra.
- É a mais importante.
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E o saber livresco e o que deriva do contacto com outras pessoas. Foi este o seu labor.
- Aprendi muito vendo, vendo a natureza. Isto é uma escola permanente, é uma escola permanente. O grande problema é que está a morrer a nossa sensibilidade, a nossa disponibilidade. A relação com os outros está terrível. Esta coisa do novo-riquismo, esta ansiedade desenfreada que não leva absolutamente a nada. Um punhetaço, como dizem os espanhóis. Há uma coisa infernal que retira às pessoas a sua tranquilidade, a sua liberdade. E estamos a matar aquilo que, em putos, no tempo da festividade, do amor e tal, tínhamos como capital incrível, e que era o afecto.
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Na altura já sabia disso?
- «O nosso grande capital é o amor». Era a nossa grande riqueza, o que queríamos. Depois logo nos safávamos, íamos a França, enfim. Agora precisam de não sei quantos contos para ir para a estância de neve, mais não sei quê que só vai com determinadas condições. Estamos a perder a liberdade. Mais: a perdê-la sem ter consciência disso.
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Esse conforto material em que vive agora, esta sua casa tão simpática, a casa da aldeia…
- Mas eu posso viver em qualquer sítio. Se não fosse a Manuela a arranjar a casa, algum dia tinha isto? Não, não me mexe muito. Seria uma estupidez dizer que não gosto de ter um bom carro, em vez de ter um carro a abanar por todos os lados. Agora, que não signifique hipotecar a liberdade da pessoa. Se não puder ter, não há problema, até não há problema absolutamente nenhum.
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Estas coisas ficaram mais flagrantes para si porque as pessoas ficam sacudidas quando estão doentes?
- Não, absolutamente nada. Tinha consciência delas, mas andava tão alienado que me apetecia chegar aí, ligar a televisão e ver a bonecada porque me dava o sono. Neste momento sinto-me melhor fisicamente, por incrível que pareça. A minha cabeça parece que estourava, com milhões de preocupações, permanentemente tau-tau-tau. Não tinha paz. E sinto-me tranquilo.
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Sente? Não o invade uma angústia quanto ao futuro?
- Se morrer quero ir para a minha terra.
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Foi nisso que imediatamente pensou?
- Foi. Logo. E disse-o à Manuela. Às vezes, depois das quimios, vou-me um bocadinho mais abaixo, fico mais mole e psicologicamente fico mais afectado. Agora, como hoje me sinto… Fico aqui sentado a ver os melros, de que gosto muito, os pequenos rebentos das folhas.
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Porquê os melros?
- É um pássaro muito bonito, canta extraordinariamente bem. Quando tinha seis anos, havia uma japoneira ao pé da casa dos meus avós e cantava lá um melro ao amanhecer; contam que dizia: «Ó Vó, olha o que o melro está a dizer!, o que é que está a dizer?, queres comer, queres comida?». Era eu que estava com fome.
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Teve um encontro, com um livro ou poema, que tivesse sido determinante na sua relação com a literatura?
- Quando comecei a sentir a poesia a sério, assim poesia de estremeção, foi nos Simbolistas, Gomes Leal e Camilo Pessanha. Sobretudo Pessanha, a gente dizia: «O que é isto?»
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Que verso ou poema traduziria a essência de si e que escolheria para seu epitáfio?
- Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas sobre mim, não pense que não. Muitas convulsões, muitas dúvidas. Sou um toiro. Agora estou partido. Quem é que me domava? Nem eu. Energia. Alegria. Era capaz de levar uma multidão. Era uma coisa genésica e telúrica. Ao mesmo tempo, tenho uma dose de feminilidade forte, que não enjeito. A mulher herdou uma sabedoria de muitos séculos, de velha aranha que sabe esperar, perceber o silêncio. Os homens são tipos de uma ingenuidade total, de uma generosidade inexcedível, só qualidades; e depois há qualquer coisa de bruto, de guerreiro, de incapacidade de crescimento.
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Que conversas tem com o seu pai e com a sua mãe?
- Ao meu pai gosto muito de o abraçar, estamos sempre agarrados um ao outro, «Então a poda já está feita?», «Está quase», e tal. Com a minha mãe falo das coisas da casa, das minhas irmãs, deito água na fervura. E é assim.
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As partes mais íntimas de si ficam para quem?
- São coisas que a gente digere em nós, não é? Nunca matei ninguém, não tenho nada que me atormente. (pausa) Precisávamos de ter várias vidas, não é?, para acertar com uma. Esta é muito pequena. Mesmo que a tenha vivido intensamente. Morrendo brevemente, já ganhei muita coisa. Claro que gostava de mais, de fazer isto e aquilo; mas por outro lado, mesmo 100 anos não é nada, 200 também não. Estou habituado a ver a biografia de escritores… Isso passa tudo. É uma lucidez que convém ter afinada. Sempre a tive, não é de agora. Pelo contrário, agora tenho mais ganas de viver. Mas sempre percebi o quão relativo isto era: 90 anos, 100 anos, 200 anos. Não se dá conta; julga-se que quando se for mais velho se vai saber mais e também não se sabe nada.
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Que idade tem?
- 48. "
sábado, maio 28, 2011
o contínuo descontínuo
hoje li que uma sonda espacial a vários milhares (seriam milhões? ou mais?) de anos-luz da terra foi atingida por uma descarga de positrões emitida por uma tempestade eléctrica (vulgo mega-trovoada) a decorrer nesse momento na namíbia.
isso fez-me pensar uma vez mais sobre o valor das moléculas que a todos nos formam. agora acredito ainda mais piamente que quando espirro estou a emitir vibrações para andrómeda. que quando salto no ar estou a desviar a ionosfera o suficiente para fazer com que aquele meteorito não caísse no meio de oklahoma, mas sim num campo de milho ali perto.
depois vejo as tuas moléculas. tão juntas e alinhadas que me parece impossível que uma explosão de uma bilha de gás em plutão as mova do sítio. pergunto-me se os seres imperfeitamente perfeitos conseguem quebrar este contínuo de matéria e ser imunes ao que quer que seja que os envolva (vou ser multado pela emel da língua portuguesa por usar demasiados 'q's nesta frase). no fundo, provavelmente, quando a matéria de alguém assim for reciclada, vai ser vendida como conjunto de átomos de primeira qualidade, figurando nas prateleiras de uma qualquer loja gourmet de derivados de azoto. ao mesmo tempo, a de muitos outros, será desviada por tempestadas eléctricas ou condenada a um rateio ao desbarato numa qualquer margem de um qualquer rio de um qualquer mundo.
isso fez-me pensar uma vez mais sobre o valor das moléculas que a todos nos formam. agora acredito ainda mais piamente que quando espirro estou a emitir vibrações para andrómeda. que quando salto no ar estou a desviar a ionosfera o suficiente para fazer com que aquele meteorito não caísse no meio de oklahoma, mas sim num campo de milho ali perto.
depois vejo as tuas moléculas. tão juntas e alinhadas que me parece impossível que uma explosão de uma bilha de gás em plutão as mova do sítio. pergunto-me se os seres imperfeitamente perfeitos conseguem quebrar este contínuo de matéria e ser imunes ao que quer que seja que os envolva (vou ser multado pela emel da língua portuguesa por usar demasiados 'q's nesta frase). no fundo, provavelmente, quando a matéria de alguém assim for reciclada, vai ser vendida como conjunto de átomos de primeira qualidade, figurando nas prateleiras de uma qualquer loja gourmet de derivados de azoto. ao mesmo tempo, a de muitos outros, será desviada por tempestadas eléctricas ou condenada a um rateio ao desbarato numa qualquer margem de um qualquer rio de um qualquer mundo.
quinta-feira, maio 19, 2011
desalinho
doces, suaves e frutados.
é o que eu diria dos teus cabelos. sim, podes argumentar que são só cabelos. para mim são muito mais do que isso. são florestas tropicais nunca antes exploradas, com gnomos perdidos e orangotangos imitadores. são lençóis de água caminhando escondidos sobre a terra, com um brilho que desconfio ser do tão badalado elixir da vida. toda uma vida aí se passa. imagino milhões de pequenos operários cuja função de vida é manter o teu cabelo assim, como está neste momento. e é com peso na consciência que o desalinho, imagino-os todos a cair em desespero, a saltar para uma morte certa, a perder a função da sua vida. mas logo me passa, porque ele de novo ganha curvas fatais e percebo que é a perfeita demonstração de quão bela é a natureza. não é mais nem é menos que uma estrela cadente em noite de verão ou uma aurora boreal em noite de inverno. com a diferença que está aqui. que o posso tocar. e ter a certeza que eu também posso mudar a natureza, nem que seja por um momento...

picture by me as well
é o que eu diria dos teus cabelos. sim, podes argumentar que são só cabelos. para mim são muito mais do que isso. são florestas tropicais nunca antes exploradas, com gnomos perdidos e orangotangos imitadores. são lençóis de água caminhando escondidos sobre a terra, com um brilho que desconfio ser do tão badalado elixir da vida. toda uma vida aí se passa. imagino milhões de pequenos operários cuja função de vida é manter o teu cabelo assim, como está neste momento. e é com peso na consciência que o desalinho, imagino-os todos a cair em desespero, a saltar para uma morte certa, a perder a função da sua vida. mas logo me passa, porque ele de novo ganha curvas fatais e percebo que é a perfeita demonstração de quão bela é a natureza. não é mais nem é menos que uma estrela cadente em noite de verão ou uma aurora boreal em noite de inverno. com a diferença que está aqui. que o posso tocar. e ter a certeza que eu também posso mudar a natureza, nem que seja por um momento...

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sábado, abril 09, 2011
sóis
vivo enfrascado em ideias nos dias que passam. têm tanta consistência como as placas tectónicas para os lados do chile. o país, não a praça.
gostava de virar o sentido às coisas todas, mas por mais que procure não consigo encontrar a alavanca. não me podem dar um dia que comece com o sol a pôr-se e acabe com ele a nascer? ficaria sentado na doca da baía, a ver os barcos, que agora saíam em vez de entrar. marinheiros perdidos, com astrolábios que pareciam atingidos por um qualquer bug do ano-não dois mil. aviões em desespero perante rotas, sem perceber que de barriga para o ar chegariam ao mesmo lugar que era esperado. e pessoas em pânico, o mundo ao contrário, o que fazer? ninguém nos ensinou isso na escola. só aprendemos a viver o mundo direito, somos tão avessos ao avesso. se a escada rolante está avariada, até as pernas fraquejam quando lá entram porque não estão habituadas aquela imobilidade. muito menos arriscar subi-las ao contrário. isso fazem as crianças, ainda a viver na imaginação sem regras, e logo levam nas orelhas e já não comem gelado à conta disso...
mas enquanto não encontro essa alavanca, gostava pelo menos de saber como será o pôr-da-terra visto do sol?
gostava de virar o sentido às coisas todas, mas por mais que procure não consigo encontrar a alavanca. não me podem dar um dia que comece com o sol a pôr-se e acabe com ele a nascer? ficaria sentado na doca da baía, a ver os barcos, que agora saíam em vez de entrar. marinheiros perdidos, com astrolábios que pareciam atingidos por um qualquer bug do ano-não dois mil. aviões em desespero perante rotas, sem perceber que de barriga para o ar chegariam ao mesmo lugar que era esperado. e pessoas em pânico, o mundo ao contrário, o que fazer? ninguém nos ensinou isso na escola. só aprendemos a viver o mundo direito, somos tão avessos ao avesso. se a escada rolante está avariada, até as pernas fraquejam quando lá entram porque não estão habituadas aquela imobilidade. muito menos arriscar subi-las ao contrário. isso fazem as crianças, ainda a viver na imaginação sem regras, e logo levam nas orelhas e já não comem gelado à conta disso...
mas enquanto não encontro essa alavanca, gostava pelo menos de saber como será o pôr-da-terra visto do sol?
terça-feira, março 29, 2011
morte à simetria. lenta, por favor.
escrevo com a pena que se transformou em caneta que se transformou em dedos que carregam em teclas.
escrevo com a sensação de quem flutua por cima de um mundo maior, feito de beleza e de desequilíbrio. tomara o dia em que se assuma que a simetria é o expoente máximo do pior que o homem consegue criar. a natureza prova isso das melhores formas. não há simetria que quando mudada de escala não seja assimétrica. a definição nasce precisamente da assimetria.
percebo a paixão por linhas direitas. é o mesmo conforto de achar que está alguém num pedestal num edifício de pedra, que olha por vocês, e que corrige os vossos erros, vos apara os erros e vos aplaude as virtudes. mas as linhas direitas são nauseantes. as linhas direitas estão sempre a pedir para levar com aquela borrachinha do paint brush, que eu uso mentalmente para apagar o que não gosto.
para mim, tudo o que me apaixona é assimétrico. até o wassily, com a sua mestria, pegou em formas geométricas e baralhou-as como quem atira os dados para cima de uma mesa. aqueles que se dedicaram a desenhar senhoras direitas e com chapéus de plumas ou desinteressantes maçãs dentro de um prato, tenho para mim que um dia se vão afundar no pântano do esquecimento, numa espécie de sismo global que tudo mudará.
o que nos foge entre os dedos

fico perdido. parado nesta encruzilhada. por mais voltas que dê, venho com demasiada frequência parar a este cruzamento em que para um lado vejo a seta do futuro e para o outro a placa tosca do passado. em primeiro lugar, adorava saber que lugar (estava para usar um pleonasmo desde as quatro da tarde) é este onde me encontro. há quem lhe chame presente, mas eu sou levado a crer que presente é coisa que não existe.
existe só como homónimo, sobretudo nesta altura do ano. porque, tirando isso, foge entre os dedos como outra coisa qualquer. o presente nunca o é. mas também não está bem definido que eu não possa voltar ao passado ou acelerar o meu caminho ao futuro. ninguém define essas regras. criam-se tantas comissões para tudo e mais alguma coisa, e o tempo continua a brincar ao deus dará (se calhar até só a brincar ao dará), sem que nenhuma entidade reguladora o obrigue a apresentar contas e a explicar porque faz o que faz e como faz.
na volta acabaria como tudo o resto. corrupto e vendido. e nesse dia eu nem perceberia bem que estava no cruzamento de sempre. a placa tosca teria sido trocada por um diamante qualquer e o caminho sinuoso adiante era agora uma alcatifa horrível, pejada de ácaros e que nem no barroco era bonita.
pensando bem, vou deixar o tempo continuar assim. a fluir por ele. a viajar sem regra. a esconder os buracos negros, os menos negros e até os que não têm cor. é verdade que me foge entre os dedos, mas antes isso que estar claustrofobicamente fechado dentro de uma ampulheta. por mais bonita que ela fosse...
terça-feira, fevereiro 22, 2011
senti o natal chegar sob a forma de um termo
não ligo a toda esta agitação à minha volta. noto que está a chegar o natal porque enfeitam as ruas com estas luzes bonitas e vejo passar senhoras e senhores cheios de sacos, cheios não sei muito bem do quê. a loja aqui mais perto põe uma música diferente do resto do ano, em que senhores estrangeiros falam de como o natal é uma altura bonita, com quente nas lareiras, amor entre as pessoas e bonecos de neve.
o meu calendário é outro. o meu advento é mais irregular. conto os dias consoante está frio ou quente, não conforme os dias que passam desde o início de dezembro. e no natal está frio. muito frio. por isso conto que estou no natal quando vejo a mistura de chuva, frio e luzes.
ontem deitei-me no sítio do costume, enroscado da forma do costume, mal tapado entre as caixas de cartão e as duas ou três mantas rotas que consegui tirar de uma esquina há uns meses. preparei-me para mais uma noite de luta com a hipotermia e os meus dedos estavam gelados ainda o sol não se tinha posto. uma vez vieram falar-me em deuses e eu não consegui parar de me rir. como posso eu acreditar em deuses, quando todas as portas me foram fechadas, sobretudo as da rua, sobretudo em dias frios?
por volta da meia-noite surgiu-me um anjo vindo do nada. sim, ontem acreditei em anjos. trazia-me um termo, com sopa quente, que não me soube a sopa de legumes, mas sim a um creme de diamantes com toque de felicidade e lágrimas de alegria. sorvi a primeira coisa que comia nos últimos dez dias, acho que o quente me desceu directamente ao coração. e tentei olhar para quem tinha enchido a minha noite do tão famoso calor de que os senhores estrangeiros falam nas músicas de natal. já tinha ido embora, seguia pela rua a encher de luz as trevas do natal de tantos outros.
e ali e então fez sentido ser natal. e, sem descobrir se existem ou não deuses, tive pelo menos a certeza de que existem pessoas boas. com B grande, já agora.
o meu calendário é outro. o meu advento é mais irregular. conto os dias consoante está frio ou quente, não conforme os dias que passam desde o início de dezembro. e no natal está frio. muito frio. por isso conto que estou no natal quando vejo a mistura de chuva, frio e luzes.
ontem deitei-me no sítio do costume, enroscado da forma do costume, mal tapado entre as caixas de cartão e as duas ou três mantas rotas que consegui tirar de uma esquina há uns meses. preparei-me para mais uma noite de luta com a hipotermia e os meus dedos estavam gelados ainda o sol não se tinha posto. uma vez vieram falar-me em deuses e eu não consegui parar de me rir. como posso eu acreditar em deuses, quando todas as portas me foram fechadas, sobretudo as da rua, sobretudo em dias frios?
por volta da meia-noite surgiu-me um anjo vindo do nada. sim, ontem acreditei em anjos. trazia-me um termo, com sopa quente, que não me soube a sopa de legumes, mas sim a um creme de diamantes com toque de felicidade e lágrimas de alegria. sorvi a primeira coisa que comia nos últimos dez dias, acho que o quente me desceu directamente ao coração. e tentei olhar para quem tinha enchido a minha noite do tão famoso calor de que os senhores estrangeiros falam nas músicas de natal. já tinha ido embora, seguia pela rua a encher de luz as trevas do natal de tantos outros.
e ali e então fez sentido ser natal. e, sem descobrir se existem ou não deuses, tive pelo menos a certeza de que existem pessoas boas. com B grande, já agora.
sexta-feira, dezembro 24, 2010
adoro este jogo do faz de conta que merecemos todos caixas de ferrero rocher
o natal.
sem dúvida que é uma época com os seus altos e baixos. revisitamos a família, fazemos jantares de amigos, revemos o love actually e o home alone e aproveitamos, umas horas que seja, para ficar no quente do enrolado do sofá, a brincar às lareiras, verdadeiras ou fictícias.
mas o natal traz o pior da relativização humana. a teoria que é vendida às crianças de que o pai natal só traz prendas para as que se portaram bem é uma treta quase tão grande como a de girar tudo à volta da terra. convençam-se de uma coisa, o problema não é não existir pai natal, o problema é brincarmos todos nesta época ao jogo do faz de conta que todos são bonzinhos e merecem uma caixa de ferrero rocher. decerto que o pior dos violadores dos direitos humanos consegue construir uma pirâmide só com caixas de ferrero rocher. porque as recebe. porque dar presentes é social. faz parte do que nos é incutido desde novos, e é visto como uma pre-obrigação. quem não dá, nunca o não faz por convicção. é sempre assumido como um esquecimento. na pior das hipóteses.
não estou ácido hoje. só acho que devíamos aproveitar esta época de proclamada paz e harmonia, para a organizar na entropia de discriminar quem merece um ferrero rocher ou quem merece uma folha em branco. ou nem isso, que até pode ser uma forma de arte.
eu sonho com um natal branco. mas branco de neve. não de branqueamento de um ano de falta de valores, tapado à pressa com uma mão cheia de azevinho e o primeiro livro que estava na prateleira do top de vendas da bertrand.
sem dúvida que é uma época com os seus altos e baixos. revisitamos a família, fazemos jantares de amigos, revemos o love actually e o home alone e aproveitamos, umas horas que seja, para ficar no quente do enrolado do sofá, a brincar às lareiras, verdadeiras ou fictícias.
mas o natal traz o pior da relativização humana. a teoria que é vendida às crianças de que o pai natal só traz prendas para as que se portaram bem é uma treta quase tão grande como a de girar tudo à volta da terra. convençam-se de uma coisa, o problema não é não existir pai natal, o problema é brincarmos todos nesta época ao jogo do faz de conta que todos são bonzinhos e merecem uma caixa de ferrero rocher. decerto que o pior dos violadores dos direitos humanos consegue construir uma pirâmide só com caixas de ferrero rocher. porque as recebe. porque dar presentes é social. faz parte do que nos é incutido desde novos, e é visto como uma pre-obrigação. quem não dá, nunca o não faz por convicção. é sempre assumido como um esquecimento. na pior das hipóteses.
não estou ácido hoje. só acho que devíamos aproveitar esta época de proclamada paz e harmonia, para a organizar na entropia de discriminar quem merece um ferrero rocher ou quem merece uma folha em branco. ou nem isso, que até pode ser uma forma de arte.
eu sonho com um natal branco. mas branco de neve. não de branqueamento de um ano de falta de valores, tapado à pressa com uma mão cheia de azevinho e o primeiro livro que estava na prateleira do top de vendas da bertrand.
quinta-feira, novembro 25, 2010
a alegoria da taberna
estávamos caídos num silêncio nu. perdidos entre o grau de um qualquer abafado que deslizou pelo tubo que serve para alimentar e o fumo intenso do tabaco perdido, antes fora mascado. nas paredes memórias antigas, esquissos de noites melhores, sinais de noites piores, palavras toscas riscadas toscamente, figuras de estilo que o eram sem o ser.
pedimos mais um. e mais outro. e depois ainda mais outro. ficámos sentados no êxtase de quem vê o mundo à sua frente. vimos romanos, fenícios, vândalos, lábios, olhos, outros lábios, promessas, desastres, confidências e pecados. éramos ali, todas as noites (e algumas noites ate' chegaram a ser dias) confidentes de um mundo que ali passava. com um gesto pacífico mandávamos seguir. ouvíamos outro. e mais outro. a confissão da vida sem um castigo no retorno. sem obrigações de penitência. pelo preço de um sorriso.
um dia um de nós decidiu levantar o seu corpo torpe e cambalear ate' à porta da rua. escalou os dois degraus, a porta de madeira gasta e arrastou-se pela calçada. voltou um dia depois. tinha visto um outro mundo. toda uma nova maravilha. falou-nos de malabaristas, de castelos, de monstros estranhos com trela e com guizo, de máquinas que transportavam pessoas e tinham uma espécie de rodas, de fumo, de nevoeiro, de tanta coisa... queria convencer-nos a acordar e de uma vez ir e conhecer.
rimo-nos quase em uníssono. que nevoeiro mais perfeito que aquele que os nossos olhos tinham permanentemente? para quê ver castelos, quando o baralho de cartas que ali tínhamos construía um em segundos? os malabarismos estavam por conta do empregado quando pedíamos mais um copo. e monstros estranhos éramos todos nós. uns com mais trela que os outros. felizes e inebriados na felicidade de quem vê o mundo la' de fora sem ter que escalar os dois degraus e atravessar a porta de madeira gasta.

(picture by me)
pedimos mais um. e mais outro. e depois ainda mais outro. ficámos sentados no êxtase de quem vê o mundo à sua frente. vimos romanos, fenícios, vândalos, lábios, olhos, outros lábios, promessas, desastres, confidências e pecados. éramos ali, todas as noites (e algumas noites ate' chegaram a ser dias) confidentes de um mundo que ali passava. com um gesto pacífico mandávamos seguir. ouvíamos outro. e mais outro. a confissão da vida sem um castigo no retorno. sem obrigações de penitência. pelo preço de um sorriso.
um dia um de nós decidiu levantar o seu corpo torpe e cambalear ate' à porta da rua. escalou os dois degraus, a porta de madeira gasta e arrastou-se pela calçada. voltou um dia depois. tinha visto um outro mundo. toda uma nova maravilha. falou-nos de malabaristas, de castelos, de monstros estranhos com trela e com guizo, de máquinas que transportavam pessoas e tinham uma espécie de rodas, de fumo, de nevoeiro, de tanta coisa... queria convencer-nos a acordar e de uma vez ir e conhecer.
rimo-nos quase em uníssono. que nevoeiro mais perfeito que aquele que os nossos olhos tinham permanentemente? para quê ver castelos, quando o baralho de cartas que ali tínhamos construía um em segundos? os malabarismos estavam por conta do empregado quando pedíamos mais um copo. e monstros estranhos éramos todos nós. uns com mais trela que os outros. felizes e inebriados na felicidade de quem vê o mundo la' de fora sem ter que escalar os dois degraus e atravessar a porta de madeira gasta.
(picture by me)
sábado, novembro 13, 2010
uma caça ao tesouro diferente
desde que o Homem e' Homem que tenta expressar o que sente através da arte. Desenhava primeiro em paredes de cavernas, com sangue de animais. ai' tenho a certeza que não era expressão artística, tão so' apenas visão de futuro e de como aquela caverna se viria a tornar desse modo um interessantíssimo polo turístico com milhares de bilhetes vendidos para la' entrar.
continuou-se depois durante milhares (quais milhares, muito mais, centenas!) de anos com modos de pintar mais elaborados, e formas diferentes, quer seja esculpindo, escrevendo, compondo, quer tudo o resto. que haja muito resto. mas, de facto, a necessidade fundamental e' expressar. no fundo expressam-se a beleza, alegria, tristeza, raiva, paixão, todos os sentimentos, concentrando-se num pincel, lápis, caneta ou escopo e polvilhando de vida uma peça que se quer imortal.
a conclusão e' q o Homem não consegue guardar para si próprio o que sente. felizmente. mas a beleza esta' em toda a parte e por vezes não e' captada de modo universal. todos se sentam a ver o pôr-do-sol (continuo a achar que aquilo não e' o pôr-do-sol, mas sim o girar da terra), mas raro e' o q se senta a ver o saco de plástico a voar. todos ganham bolhas nos corredores do prado, mas ninguém perde um minuto a pensar no que estara' por trás da vida de um bicho de prata, que gosta tanto de livros como eu e alguns de vocês, e o prémio que recebe e' uma vil sapatada e a vida desfeita em microssegundos.
adoro arte. mas arte e' isto tudo. dalí casado com conchas da praia. kandinsky de braço dado com um andaime das obras. sartre em amena cavaqueira com o gajo de alfama e com um pirilampo que por ali passa.
esta' tudo la' sempre. so' e' preciso caçar o tesouro diferente.
continuou-se depois durante milhares (quais milhares, muito mais, centenas!) de anos com modos de pintar mais elaborados, e formas diferentes, quer seja esculpindo, escrevendo, compondo, quer tudo o resto. que haja muito resto. mas, de facto, a necessidade fundamental e' expressar. no fundo expressam-se a beleza, alegria, tristeza, raiva, paixão, todos os sentimentos, concentrando-se num pincel, lápis, caneta ou escopo e polvilhando de vida uma peça que se quer imortal.
a conclusão e' q o Homem não consegue guardar para si próprio o que sente. felizmente. mas a beleza esta' em toda a parte e por vezes não e' captada de modo universal. todos se sentam a ver o pôr-do-sol (continuo a achar que aquilo não e' o pôr-do-sol, mas sim o girar da terra), mas raro e' o q se senta a ver o saco de plástico a voar. todos ganham bolhas nos corredores do prado, mas ninguém perde um minuto a pensar no que estara' por trás da vida de um bicho de prata, que gosta tanto de livros como eu e alguns de vocês, e o prémio que recebe e' uma vil sapatada e a vida desfeita em microssegundos.
adoro arte. mas arte e' isto tudo. dalí casado com conchas da praia. kandinsky de braço dado com um andaime das obras. sartre em amena cavaqueira com o gajo de alfama e com um pirilampo que por ali passa.
esta' tudo la' sempre. so' e' preciso caçar o tesouro diferente.
quinta-feira, novembro 04, 2010
preciso tanto de danieis sa' nogueiras como de um pontape' no escroto
leio no i que aparentemente portugal tem um novo guru. da' pelo nome de 'daniel sa' nogueira' e encheu recentemente o pavilhão atlântico com oito mil pessoas para uma 'palestra espectáculo' sobre crescimento pessoal. o michael buble' e o tony carreira também o fizeram, mas dispensaram a parte da palestra e passaram logo ao espectáculo. pelo menos o michael buble'.
crescimento pessoal. por onde começar?
...
... ...
... ... ...
ok, para eu saber como ser melhor e mais realizado, pessoal e profissionalmente, parece ser suposto enveredar pelo caminho do 'personal coaching', tendo uma espécie de treinador da minha personalidade...
erro!
podem ler 'o segredo'. podem ler 'a profecia celestina'. podem ler o que quiserem. esses livros têm magia. eu sei, ja' li alguns e e' um facto. mas a magia que la' vem e' so' uma: a prova de que vocês próprios podem construir o vosso sucesso por vocês mesmos. não precisam de ter um tipo de barbas a cobrar-vos uma entrada e a falar durante duas horas para acreditar nisso.
ate' conheço um excelente 'personal coacher', chama-se 'vida'. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ganhar o euromilhões que o ganham. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ter sucesso na vossa profissão que o têm. e' trabalhando. e' lendo. e' estudando. e' aprendendo com o que vêem. com o que falam. com os outros. com os inteligentes. com os que não vos parecem inteligentes, mas que são muito mais inteligentes do que os que parecem. com os que têm histórias para contar e ninguém os ouve. o segredo esta' la'. so' e' preciso estar atento.
aprendem mais em meia hora parados a ver um carreiro de formigas do que em duas horas de daniel sa' nogueira. e não me digam que as formigas tiveram de ouvir um guru para aplicarem o conceito de eficácia. aprendem mais ao perceber que as tribos das andaman, sem livros e internet, não morreram no tsunami de ha' uns anos porque fugiram para as montanhas ao ver a linha de mare' descer do que ao ler durante meses semi-verdades globais encapotadas de ovo de colombo.
lamento, daniel sa' nogueira. não tenho nada contra ti. és um tipo esperto. podia ter-te dado para inventar o facebook e viver disso, vives das ilusões dos outros e não vejo mal nisso. o problema e' de quem tem essas ilusões em vez de gastar a energia em concretizações...
P.S.: ja' agora, se querem ficar parados duas horas a ouvir falar um homem, oiçam o dalai lama. não vos tenta converter a nada e fala-vos despretensiosamente de tudo o que faz parte da vossa vida e da vossa não-vida.

(picture by me)
crescimento pessoal. por onde começar?
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ok, para eu saber como ser melhor e mais realizado, pessoal e profissionalmente, parece ser suposto enveredar pelo caminho do 'personal coaching', tendo uma espécie de treinador da minha personalidade...
erro!
podem ler 'o segredo'. podem ler 'a profecia celestina'. podem ler o que quiserem. esses livros têm magia. eu sei, ja' li alguns e e' um facto. mas a magia que la' vem e' so' uma: a prova de que vocês próprios podem construir o vosso sucesso por vocês mesmos. não precisam de ter um tipo de barbas a cobrar-vos uma entrada e a falar durante duas horas para acreditar nisso.
ate' conheço um excelente 'personal coacher', chama-se 'vida'. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ganhar o euromilhões que o ganham. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ter sucesso na vossa profissão que o têm. e' trabalhando. e' lendo. e' estudando. e' aprendendo com o que vêem. com o que falam. com os outros. com os inteligentes. com os que não vos parecem inteligentes, mas que são muito mais inteligentes do que os que parecem. com os que têm histórias para contar e ninguém os ouve. o segredo esta' la'. so' e' preciso estar atento.
aprendem mais em meia hora parados a ver um carreiro de formigas do que em duas horas de daniel sa' nogueira. e não me digam que as formigas tiveram de ouvir um guru para aplicarem o conceito de eficácia. aprendem mais ao perceber que as tribos das andaman, sem livros e internet, não morreram no tsunami de ha' uns anos porque fugiram para as montanhas ao ver a linha de mare' descer do que ao ler durante meses semi-verdades globais encapotadas de ovo de colombo.
lamento, daniel sa' nogueira. não tenho nada contra ti. és um tipo esperto. podia ter-te dado para inventar o facebook e viver disso, vives das ilusões dos outros e não vejo mal nisso. o problema e' de quem tem essas ilusões em vez de gastar a energia em concretizações...
P.S.: ja' agora, se querem ficar parados duas horas a ouvir falar um homem, oiçam o dalai lama. não vos tenta converter a nada e fala-vos despretensiosamente de tudo o que faz parte da vossa vida e da vossa não-vida.
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terça-feira, novembro 02, 2010
NYC, a extensão filosófica do meu eu físico
Ha' cidades que não aquecem nem arrefecem. Ha' cidades boas. Ha' cidades óptimas, verdadeiramente fantásticas. E depois ha' Nova Iorque. Num patamar distinto. Uma epifania do ser a cada momento, a cada olhar, a cada passo, a cada movimento respiratório.
Mesmo a Nova Iorque turística e' uma bela cidade, capaz de encantar novos e velhos, judeus e muçulmanos, fanáticos religiosos e ateus. Mas a verdadeira cidade esconde-se atrás dos autocarros vermelhos de dois andares, que apregoam mostrar a essência de ny em quatro ou cinco horas.
Perco-me na minha cidade, e descubro-me perdendo-me. Poucas coisas me dão tanta paz como sentar-me em brooklyn a olhar o skyline do outro lado do rio. O east river corre com pressa, muita pressa. Pressa de quem quer passar pela cidade onde tudo acontece e rapidamente chegar ao mar. A pressa de milhões de gotículas de água que pensam não aguentar a pressão desta cidade. Pressão essa que e' constante. Ninguém fica indiferente.
Para la' da vertiginosa velocidade de vida da cidade, sentado no meu banco consigo olhar a calma que me envolve. Como tudo flui numa calma apressada. Dois namorados sentados partilham histórias, amores, com um pano de fundo que faz inveja a muito cineasta. Uma modelo despe-se de preconceitos enquanto e' fotografada para um novo catálogo de roupa interior. Sinto-me quase impelido a avisar os produtores dessa sessão que e' um risco tirar fotografias ali, as pessoas não se vão concentrar a cem por cento no produto a vender.
E ando. Caminho sem parar. Entro aqui, entro ali. Corro a High Line de cima a baixo, de baixo a cima. Petisco no Pastis, entro na Little Marc Jacobs. Paro quatro, cinco, seis horas na loja de vinis que se esconde do bulício dos cafés da St. Marks Place. Meia dúzia de 'nós' passam ali estas horas, a correr disco atrás de disco, a descobrir o que era a 'pacatez' inicial do Joey Negro ou a relíquia redonda dos Stardust. E saio, ando mais, entro no cafe', procuro o jardim nas traseiras, sento-me a ler e peço um copo de um Chardonnay. Como e' bom misturar os prazeres todos nos mesmos momentos... acho que fomos programados para ser assim.
A vertigem não me assusta. Antes, puxa por mim.
Desoriginalizando, 'new york, i love you'.

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Mesmo a Nova Iorque turística e' uma bela cidade, capaz de encantar novos e velhos, judeus e muçulmanos, fanáticos religiosos e ateus. Mas a verdadeira cidade esconde-se atrás dos autocarros vermelhos de dois andares, que apregoam mostrar a essência de ny em quatro ou cinco horas.
Perco-me na minha cidade, e descubro-me perdendo-me. Poucas coisas me dão tanta paz como sentar-me em brooklyn a olhar o skyline do outro lado do rio. O east river corre com pressa, muita pressa. Pressa de quem quer passar pela cidade onde tudo acontece e rapidamente chegar ao mar. A pressa de milhões de gotículas de água que pensam não aguentar a pressão desta cidade. Pressão essa que e' constante. Ninguém fica indiferente.
Para la' da vertiginosa velocidade de vida da cidade, sentado no meu banco consigo olhar a calma que me envolve. Como tudo flui numa calma apressada. Dois namorados sentados partilham histórias, amores, com um pano de fundo que faz inveja a muito cineasta. Uma modelo despe-se de preconceitos enquanto e' fotografada para um novo catálogo de roupa interior. Sinto-me quase impelido a avisar os produtores dessa sessão que e' um risco tirar fotografias ali, as pessoas não se vão concentrar a cem por cento no produto a vender.
E ando. Caminho sem parar. Entro aqui, entro ali. Corro a High Line de cima a baixo, de baixo a cima. Petisco no Pastis, entro na Little Marc Jacobs. Paro quatro, cinco, seis horas na loja de vinis que se esconde do bulício dos cafés da St. Marks Place. Meia dúzia de 'nós' passam ali estas horas, a correr disco atrás de disco, a descobrir o que era a 'pacatez' inicial do Joey Negro ou a relíquia redonda dos Stardust. E saio, ando mais, entro no cafe', procuro o jardim nas traseiras, sento-me a ler e peço um copo de um Chardonnay. Como e' bom misturar os prazeres todos nos mesmos momentos... acho que fomos programados para ser assim.
A vertigem não me assusta. Antes, puxa por mim.
Desoriginalizando, 'new york, i love you'.
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segunda-feira, novembro 01, 2010
A vida e' uma pizza quatro queijos
Primeiro que tudo um disclosure: eu adoro queijo. Quem me conhece sabe que gosto tanto de queijo que invariavelmente a minha escolha recai, mesmo em vastos menus, sobre a pizza quatro queijos. Que nunca tem quatro. Transformo-a sempre em cinco, com reforço de parmesão on-the-top.
A vida não deixa de ser como uma pizza quatro queijos. De base temos a nossa personalidade, pode ser o mozzarella ralado e o molho de tomate. Juntamos a nossa família, que e' uma espécie de emmenthal, que une os ingredientes de base. Não me esqueci da massa, respeito a massa, claro. Mas a massa e' aquilo em que nascemos, a casa, os vários mundos, os olhares trocados que contam e não contam ao mesmo tempo. Os amigos vêm como um provolone, que reforça um sabor especial, que se destaca no meio de um festival de textura e sabor.
Os amores definem a pizza. Umas vezes danish blue, outras vezes roquefort, eventualmente gorgonzola, chévre ou rodelas de queijo fumado. Variam, apaixonam, encantam, podem adorar-se ou detestar-se, às vezes num gesto quase simultâneo, confundindo sentimentos extremos como quem confunde a defesa com o ataque.
Claro que cada um faz o que quer da sua pizza. Digo, vida. Junta-lhe o fermento que quer. Acrescenta o toque de azeite de trufas que lhe pareça mais adequado. Pre-aquece o forno ou não, tudo na vida e' uma opção. E deixa os 220ºC aquecerem durante o tempo certo, às vezes de menos, outras vezes demais. O importante e' sentir a crosta. Não da ferida. Mas sim da pizza.
A vida não deixa de ser como uma pizza quatro queijos. De base temos a nossa personalidade, pode ser o mozzarella ralado e o molho de tomate. Juntamos a nossa família, que e' uma espécie de emmenthal, que une os ingredientes de base. Não me esqueci da massa, respeito a massa, claro. Mas a massa e' aquilo em que nascemos, a casa, os vários mundos, os olhares trocados que contam e não contam ao mesmo tempo. Os amigos vêm como um provolone, que reforça um sabor especial, que se destaca no meio de um festival de textura e sabor.
Os amores definem a pizza. Umas vezes danish blue, outras vezes roquefort, eventualmente gorgonzola, chévre ou rodelas de queijo fumado. Variam, apaixonam, encantam, podem adorar-se ou detestar-se, às vezes num gesto quase simultâneo, confundindo sentimentos extremos como quem confunde a defesa com o ataque.
Claro que cada um faz o que quer da sua pizza. Digo, vida. Junta-lhe o fermento que quer. Acrescenta o toque de azeite de trufas que lhe pareça mais adequado. Pre-aquece o forno ou não, tudo na vida e' uma opção. E deixa os 220ºC aquecerem durante o tempo certo, às vezes de menos, outras vezes demais. O importante e' sentir a crosta. Não da ferida. Mas sim da pizza.
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