sábado, janeiro 14, 2012
falavam na rádio
os mercados estavam numa espécie de pânico. tinha caído um por cento de qualquer coisa que não percebi bem o quê. magotes de gente enchia ruas e queimava lojas e carros. almas perdiam-se em sobressalto e os meus olhos não ouviam bem a explicação.
fechei-os e deixei-me voar. seguir aquela linha branca que o avião deixa no céu e mergulhar na natureza de blocos de nuvens em explosão feroz. lembro-me que nadei com os raios e me esfoliei com blocos de gelo enquanto via os unicórnios em modo selvagem a correr à minha volta. assentei o tapete onde repousava e sorri para a lua, que se mostrava lá para cima dos choques de neutrões com beijos de lábios fechados.
por fim saltei para o abismo do cheiro a canela que a terra tem quando chove, e corri pelo meio da tempestade até perder a noção do molhado. quando os pensamentos estão quentes como uma baguete acabada de sair do forno não há chuva ou gelo que os consiga infectar de mal-estar. dei mais uma ou duas voltas pelas redondezas, com dois linces por uma trela e um leopardo à solta, resmungando com a falta de bifes do lombo na sua dieta actual.
lá ao fundo caía mais um por cento. mas eu continuava deliciado com as manchas do leopardo e os seus sons de amuo.
no fundo recuso-me a aceitar os limites que me vendem de que há uma linha entre o sonho e a realidade. essa linha? cada um que a trace.
sexta-feira, janeiro 13, 2012
rodelas de gengibre com um toque de pó de estrelas
por mais que esperem por carimbos eles não chegam sob a forma de tinta. imprimem-se através da pele, tatuando partes específicas do coração ou entranham-se em sabores frutados de línguas que brincam ao jogo da serpente manhosa. à volta há édens. daqueles que, em vez de macieiras e casais puros nus, têm serpentes já com anos e anos de maçãs comidas, preocupando-se com a dose de carvão que enche os fornos que adornam as paredes do éden, e não com a conversão dos inconversíveis.
vê-se uma luz que ninguém percebe bem se é clara ou escura, porque os olhos estão maioritariamente fechados. quem sabe ver sem ter de separar as pestanas, delicia-se a contemplar com as mãos, a decifrar com a face, a tirar texturas com joelhos. o sétimo sentido está sempre ao rubro junto à fronteira do infinito.
o barulho das luzes torna-se cada vez mais fugaz, entre o cheiro das especiarias que decora a pele molhada por uma calda que parece vir de uma lata qualquer comprada num canto de uma loja gourmet refundida atrás de um portão de ferro. guardada por gárgulas, também elas despidas, e com ar de quem ri como uma hiena. a hiena não sabe porque ri, dizem. provavelmente dizem mas não sabem.
quinta-feira, janeiro 12, 2012
o doce tango entre o hemisfério esquerdo e o direito
não sei há quanto tempo nos separámos realmente do macaco, e deixámos a nobre arte de grafitar paredes de cavernas de borla e por misticismo para a trocar pelo uso de pincéis, telas e casas de leilões que vivem da continuidade do que foram bois desenhados em grutas. se pego neste ponto sensível é porque o recurso à pretensa pre-história (pretensa porque já consegui viajar no tempo até à Idade Média, mas para trás disso ninguém vai porque como se sabe a portagem é para cima de cara) nos faz ver que o cérebro direito sempre esteve em evidência desde o início. ainda antes de pensar o suficiente para talhar pedras numa forma cilíndrica, e arraçar objectos de roda, já o homem exprimia a sua chico-espertice a desenhar, a criar armas para a caça ou a desenvolver esquemas de sobrevivência. se é verdade que já há algum cérebro esquerdo ao barulho (vulgo inteligência racional no seu sentido clássico) o comportamento tinha também muito de artista.
todos estes anos passados, mudados os pincéis ou os campos de caça, a epifania continua para mim a ser alcançada no momento em que conseguimos pôr os hemisférios esquerdo e direito a dançar uma espécie de tango perfeito, em que se seduzem mutuamente e em que aplicam, com a intensidade máxima que conseguem atingir, a sua capacidade de comportamento solidário. quando esse tango atinge o auge, conseguimos finalmente ver. nem precisamos bem dos sentidos todos. ou até temos mais do que aqueles que nos vendem que existem. o reflexo de um raio de sol num qualquer cristal de quartzo pode então parecer explicar-nos ao mesmo tempo a teoria da relatividade e o im blau. porque quem só se esforça por dominar uma das forças cai irremediavelmente no erro de não as deixar guiar a dança. e toda a gente sabe quão mal visto fica um mau dançarino.
quarta-feira, janeiro 11, 2012
ode à loucura e ao desvio
pondo alguma ordem (ou será desordem?) no que quero escrever, é magnífico como noventa e nove vírgula nove nove nove nove por cento da mole que habita este planeta encarrila em organizar em gavetas perfeitinhas o caos próprio do pensamento e da personalidade, na mesma mania mecanística e maquinística das carruagens de ferro que encarrilam no sítio devido quando atravessam países e países. por definição de normalidade entende-se aquilo que a maior parte da multidão é.
os loucos são obviamente diferentes. mas o curioso é que os diferentes também contam como loucos. o desvio é sempre visto como uma agressão. o querer sentir ou experimentar de outra maneira é sempre visto como um crime, como estupidez, como insensatez, ou como qualquer outra coisa, acabada em 'ez' ou não acabada em 'ez', que permita que o bolo do círculo forme um conjunto que olha com ar reprovador para o indelicado ostentador de uma realidade fora do círculo.
se há coisa que ainda não conseguiram condicionar, excepto nos livros de ficção científica, é o livre arbítrio. lamento, mas não conseguiram. não me falem de exemplos, porque eles não existem. os escravos? horrível e lamentável situação, mas podem a qualquer momento pegar numa pedra e esfolar o escravador até ao último grito. os fiéis devotos? não lhes tiraram o livre arbítrio, quando muito abdicaram dele.
sendo o livre arbítrio omnipresente (em qualquer universo, em qualquer casa de botão ou do tabuleiro do monopoly) era interessante que, a pouco e pouco, o círculo desse conjunto se fosse fechando, e cada vez mais indivíduos conseguissem perceber que bem mais importante do que os anos que alguém leva da vida é a vida que leva desses anos (a frase não é minha, é do lincoln, não o carro, mas sim o tipo de barbicha que aparece nas notas de cinco dólares).
ah, e já agora, todo o tempo que se perde a condenar aquilo que supostamente é a loucura ou o desvio, acreditem que era tão mais bem utilizado a aproveitar para olhar para as coisas com olhos de ver, a ver a luz que emana de um livro numa estante ou as vinte cores, e não sete, que o arco-íris tem.
no dia em que morrerem, muito mais importante do que levarem ou não a etiqueta de louco, é terem a certeza de que morrem felizes, parte do conjunto ainda mais infinitamente minesimal dos montes de moléculas que atravessam a terra e a água desta rocha mais-ou-menos esférica, que é a terceira a contar do sol (contagem para quem vem de lá, já agora).
parabéns a 'nocês'
como forma de comemoração, em jeito de expansão, os posts passarão a ser publicados paralelamente numa página de facebook.
com altos e baixos de intensidade de publicação, mantenho-me fiel à prerrogativa que me levou a começar a escrevê-lo a 11 de janeiro de 2004, trazer-vos, o mais possível, laivos de cor e originalidade ao mundo cinzento e padronizado para onde tantas vezes nos parecemos encaminhar.
a todos!
terça-feira, janeiro 10, 2012
a toupeira-com-asas
apenas para contemplar o tipo de criaturas que conseguem ir e vir entre as várias camadas da terra, sem ter de comprar bilhete em nenhum comboio ou arranjar asa-delta de aluguer. percebi que o ser mais sortudo de todos era a toupeira-com-asas.
a toupeira-com-asas tem múltiplas qualidades. consegue voar, o que lhe permite correr vales e montes e mais vales e descer por precipícios e voltar com algum prémio guardado entre os dentes. ao mesmo tempo a toupeira-com-asas pode a qualquer momento mergulhar na terra e ir furando caminhos até onde bem lhe apetecer. deve usar isto muito mais para fugir ao trânsito do que para roubar cenouras a agricultores, não sei de onde lhe vem a má fama.
embora a toupeira-com-asas não seja bela, não há bela sem senão. pus-me a pensar quão estranho seria uma toupeira com asas chamada toupeira-com-asas ter a mania de que é tão superior só porque pode a qualquer altura voar ou tornar o meio do planeta uma espécie de queijo suíço. é que eu não consigo fazer nenhuma das duas, pelo menos sem a ajuda de um para-quedas ou de uma picareta, portanto fiquei mesmo no limite de amuar, até já com um dos pés para lá do limite.
depois lembrei-me que a toupeira-com-asas não consegue ver. de que lhe serve voar sobre os mais altos montes ou chegar ao fundo do manto vulcânico se lhe falta a leica mental para guardar essas imagens e pintá-las na memória com guaches de muitas cores? porque a vida é como uma boa peça de fruta... por melhor que seja a aparência da primeira vista, o que importa é o sabor e a textura do que lá vem dentro.
a dança da sedução
penso em corpos que dançam com a sensualidade das formas cruzadas com luzes de muitos pontos do arco-íris, folgados em suor de movimento e ritmados com a força dos graves, que desperta o mais circadiano que há em cada molécula de um ser vivo. anos e anos de sedução espontânea, visceralmente inventada a partir da tentativa/erro, em tácticas de quem convence uma presa a ser caçada, desconcentrando-se por se concentrar num ponto único e baixando todas as guardas, enroscando-se em vulnerabilidade.
os cantos das sereias. os encantos das serpentes. as vontades. os repentes. tudo isto tem marcas em genes. vai passando de modo silencioso, umas vez apura-se, outras depura-se, mas o importante é que há genes em que ninguém toca e a sedução tem a perserverança do carbono quatorze.
depois paro junto ao jardim do lusco-fusco para perder o olhar em dois esquilos que brincam, e os tons laranja já perdidos em noites sem fim, fazem-me perceber que há sedução em volta. mais do que os dois esquilos vejo centenas de pirilampos, jogando o seu jogo da fluorescência. penso 'é só o fósforo a querer mostrar que é um elemento espectacular e não apenas um pauzinho, fechado numa caixa, para acender fogões ou lareiras'.
mas não, decido que é muito mais do que isso. a natureza mostra-me que a sedução sempre lá esteve. esta luz chama-me e faz-me parar, com o mesmo poder de duas mãos que me envolvam e me façam sentir que estou periclitantemente a tropeçar para outra dimensão. parece tão diferente, mas é tão igual. por isso sei que as supernovas às vezes também se tocam, e sorriem entre si, como quem rouba um beijo atrás de uma coluna de um sábado à noite.
segunda-feira, janeiro 02, 2012
deuses que te tiram da cama
adoro sobretudo algumas espécies particulares de deuses. daqueles que, em vez de andarem a brincar às tempestades, sentados em nuvens de algodão solto, preferem aninhar-se em ombros e braços, e braços e ombros, e por aí fora. esses são deuses muito mais determinados. escalpelizam a pele onde nem tem escalpe, porque querem resguardar-se no prazer de um cheiro próprio, de uma cor torrada, em zonas de fronteira da dor com o prazer.
falando com estes deuses, eles respondem-me quase sempre com um sorriso. aquele sorriso da inocência forjada de um querubim, da malícia benevolente de quem sabe que se o prazer é pecado, então o pecado é sinónimo de luz, porque treva não é de certeza.
vou continuar a visitar os deuses. são deuses com muita força. uma força que até me tira da cama. e saio de lá a poder caminhar sobre a água. ou nadar de costas sobre o vento. perdido em deuses em deusas, e dias trocados em noites como quem troca lábios e lábios de melancólica doçura.
quinta-feira, dezembro 22, 2011
há sempre estrelas no céu a dourar o meu caminho
podem lançar a hipótese de que quando as moléculas se desintegram a "alma", vamos lá, gira em espiral e se vai acomodar no céu. contem de geração em geração que um senhor de barbas lá mora e tudo comanda. imaginem deuses com oito braços, atentos e vigilantes noites fora, sobre o comum dos mortais. façam isso tudo sem se chatearem uns com os outros, de preferência.
eu cá não tenho grandes certezas sobre o que está no parágrafo acima. humildemente falta-me essa capacidade aparentemente tão universal de ter certezas sobre tanta coisa. tenho outra certeza, que me satisfaz plenamente (como era bonito ver isto escrito nos testes da primária... é quase poesia classificar um exame escrito com um advérbio de modo). a de que o céu estrelado me acalma, me preenche, me dá a paz que tantos procuram noutros amuletos ou imagens.
sentir que com a ponta dos meus dedos consigo dar piparotes em buracos negros, fingir que engulo uma supernova ou tão só regozijar-me com pedaços de matéria de ex-futura-vida a entrar atmosfera fora, enquanto nos dão a ideia de que isso dá direito a um desejo. eu peço um desejo a essa estrela cadente. que não deixe morrer as outras. que continuem a brincar às formas. o homem tem de se divertir a imaginar leões, w's, ursas, ursos e coisas que tais no céu da noite.
como eu adoro estrelas. nascidas do caos, nascidas do tudo e nascidas do nada. uma brinca durante o dia e depois repousa durante a noite. tirou o bilhete errado, o sol. anda sempre ao contrário. tem raça de guarda-nocturno. quando desce o pano da sua cena, ele sai. levanta-se o pano de novo e entra toda a sua família. quando esta se cansa de tanto teatro invertem os papéis. e assim continuam, a fingir que são um ciclo ordenado e infalível, rindo-se de quem acredita que isso é verdade.
o caos. ah, o caos!
quarta-feira, dezembro 21, 2011
when you're smiling
os meus domingos de manhã ultimamente têm esta melodia a correr-me nas veias. mudei-me para cleveland há quase dois meses. apesar do meu frequente contacto rural e nomadismo, sempre fui um menino da grande cidade, um morador em capitais, um perfeito urbano, viciado nos vícios do urbanismo e feito de sopros que se confundem ao mesmo tempo com rios, castelos, betão, azulejos ou ferro. sempre habituado ao fervor de uma cidade com programação interminável, perguntava-me como iria ser adaptar-me a um mundo totalmente novo e diferente. sobretudo num país que nós, europeus, vemos com tanta desconfiança, por motivos históricos recentes e pela nossa competitividade natural.
cleveland é uma cidade, no geral, vítima de decadência. as únicas excepções são o galopante polo científico e universitário, de qualidade mundial e em crescimento, motivo pelo qual aqui vim parar. praticamente tudo o resto foi vítima de queda. a cidade tinha há quinze anos atrás um milhão e duzentos mil habitantes, tendo hoje em dia pouco mais de quatrocentos mil. foi-se o dinheiro. caiu a indústria. caiu o ferro, o aço, até o le bron james se foi embora e abandonou a equipa dos cavaliers. porque provavelmente há quem não saiba, uma grande parte dos magnatas americanos saiu desta cidade. exemplo crasso j.d.rockfeller, que construiu todo o seu gigantesco império do zero, nascendo e vivendo em cleveland, antes de rumar em força para nova iorque.
a breve explicação da decadência leva-me ao título deste texto. os meus domingos de manhã são passados a andar de bicicleta pelos subúrbios desta minha nova cidade. e a cada dia me maravilho de novo com o arco-íris que cada uma destas pessoas coloca nas nuvens que possam existir. a população nos suburbios é quase a cem por cento de raça negra, o que faz de mim, um claro outsider neste cenário. passo por famílias inteiras, vestidas de modo aprumado, os homens de fatos de cor garrida e as senhoras com vestidos sulistas, todos impecavelmente encaminhando-se para a missa semanal. credos aparte, estas pessoas vão numa perfeita harmonia, alheios à crise, alheios ao desemprego, alheios à desistência da luta. o mais espectacular de tudo é que não há um que dispense acenar-me, dizer-me 'bom dia', mas sobretudo sorrir-me.
re-encontrei nesta terra o valor do sorriso. achava que o natural era vivermos as nossas vidas como sempre a vivi. ir avenida abaixo a pensar em quantos milhares de euros vou gastar em coisas que não me fazem rigorosamente falta nenhuma. se olhar para alguém e sorrir na baixa de lisboa, passo por maluco ou por atrevido. aqui todos se consideram família. as pessoas são genuinamente simpáticas, e o meu filtro, que como tudo na vida pode falhar, faz-me acreditar que são genuinamente boas.
maravilho-me com este paradoxo, na terra onde supostamente imaginamos gente arrogante e sem apreço pelo mundo ou pela vida alheia. a minha nova paixão é essa: trocar sorrisos ao domingo de manhã, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
(texto escrito em Junho de 2011)
terça-feira, dezembro 20, 2011
novelos de filosofia
guardo particular cuidado para processar as palavras mais inesperadas. ninguém nos precisa de dizer "olha, tu lê com atenção esse livro do proust porque é muito interessante" ou "deves tentar interpretar bem o que o garcía marquez queria dizer com isso". para esses estamos preparados. com mais ou menos expectativa, sabemos ao que vamos. partimos vestidos de indiana jones em busca de templos perdidos no meio de infindáveis páginas. ligamos o modo alerta, e qualquer barulho no meio das linhas nos faz olhar de repente e fixar.
já no quotidiano, facilmente desligamos os detectores de informação, para nos deixarmos levar em horas a fio de comportamento zombie, em que rodamos volantes, vestimos casacos, despimos casacos, pegamos em sacos, passamos cartões, ai jesus qual é o código, ai sim o do cartão de crédito é diferente do do de débito, mas meu deus terei ainda eu saldo na conta...
facilmente perdemos pérolas onde elas realmente existem. o conhecimento popular é algo de brutal em termos de filosofia prática. posso perder anos a ler diferentes correntes de pensamento, a discutir de gregos a iluministas, que nenhum deles vai fazer nenhum comentário interessante sobre o orvalho da manhã, sobre como apanhar bem morangos, sobre o toque certo na casca de um abacate para decidir se está bom para apanhar ou não. daí eu não desligar as antenas. muitas vezes durante a minha infância tive a plena convicção de que se pusesse uma toga nos meus avós e nos sentássemos horas à volta deles a ouvir falar do ciclo da terra, das estações, dos conselhos do borda d'água, das melhores e piores colheitas... seríamos um perfeito reflexo das praças de atenas umas centenas de anos antes.
os filósofos, quanto a mim, são aquilo que a etimologia defende, amigos da sabedoria. e não me lembro de ver definido algures que havia um número mínimo de publicações escritas. por isso gosto muito do kant e da luta que teve para tentar casar emoção e razão, mas tenho cá para mim que era menino para chegar à praça e levar para casa ameixas já fora de prazo...
segunda-feira, dezembro 19, 2011
circo de pulgas
aquele senhor todo bem posto, engravatado, dá ar de empresário de razoável sucesso, encaminhando-se para mais uma reunião, onde se vai conversar muito e decidir pouco. estabelecer muitas colaborações. criar muitas pontes. desenvolver muitas ideias. homogeneizar pontos de vista. quando sair de lá, perceberá que ficou tudo na mesma. como em noventa e nove vírgula nove por cento das reuniões. por trás da imagem de empresário de pseudo-sucesso imagino os vícios e desvios de personalidade deste alguém...
perante a sociedade cada um mostra a face que consegue construir. sendo mais habilidoso, talvez consiga até mostrar a face que realmente quer mostrar. mas o conflito na parte considerável do iceberg é bem mais vasto do que isso. a repressão das emoções primárias não significa que elas não estejam lá. assim, o fulano engravatado, que vai para a reunião, pode perfeitamente ter o desejo secreto de atropelar pessoas, avenida fora, a um sábado de manhã. ou de se encher de maquilhagem às sextas à noite e ficar em casa sozinho a cantar maria callas.
e sinceramente, a história dos pensamentos viciados e das emoções reprimidas... é tão, mas tão tão tão mais interessante quando comparada com a história do quotidiano chato, repetitivo e desinteressante da maior parte dos bocados de carne com quatro membros e cabeça agarrados. no mínimo curioso, porque o conhecimento dos armários desta gente podia revelar-nos um interesse que de outra forma será totalmente inexistente.
o tipo foi-se embora. em passo acelerado. a reunião vai começar. dou-me ainda ao luxo de imaginar que tropeça à entrada da sala de reunião. que sua que nem um suíno (deve ser por isso que as palavras parecem etimologicamente primas uma da outra, verbo e substantivo) com a ansiedade e molha de cloreto de sódio as mãos dos outros participantes. enquanto lhe vão falando de outsourcing, benchmarking e downsizing, ele vai imaginando no fundo do seu ser que podia pendurar todos aqueles indivíduos por um gancho, de pernas para o ar, e desenhar hieroglifos nas suas peles, com uma faca de cortar presunto. fininho.
sei que a minha imaginação é tendencialmente demasiado fértil. mas no meu circo de pulgas, sou eu que mando na história. e só vai ao espectáculo quem quiser. o bilhete até é de borla.
sexta-feira, dezembro 16, 2011
esfero, vi-te
por esse mesmo motivo, acho o esferovite uma óptima metáfora da sociedade. o pior é que ninguém respeita muito o esferovite. é usado e deitado fora. é quebrado por dá cá aquela palha, quando a palha não serve nem para metade do que o esferovite serve. é destruído em pedaços por crianças cegas por descobrir que presente afinal vem dentro da caixa. sodomizado por donas de casa, que apenas querem ver a brilhante misturadora sair da caixa de cartão.
claro que há esferovites mais felizes. os dos barcos, por exemplo. são uma espécie de banksy dos materiais sintéticos. toda a gente admira o seu trabalho, mas ninguém sabe quem ele é. o esferovite tem um papel fundamental em impedir que os barcos se afundem. sei que provavelmente achavam que isso era responsabilidade de pequenos anões (as redundâncias são sempre mais baratas ao domingo, perdoem-me) que esbracejavam no fundo bem fundo do casco enquanto o barco se movia. lamento desiludir-vos, mas são as tais esferas brancas. no fundo não deixam de ser pequenas. no fundo não deixam de ser anões.
só não sei se esbracejam. tenho de mergulhar um dia e ver. ou perguntar aos peixes, que são gente muito entendida nestas matérias do fundo do mar. quem ouve um peixe falar sobre a extensão da plataforma continental portuguesa pergunta-se se não deviam ter um espaço de antena ao domingo à noite num qualquer canal de televisão.
mas essas coisas não interessam. o mundo, também ele esférico, há-de continuar a seguir o seu rumo, cada vez mais cego à beleza que pode encontrar nas mais pequenas coisas. até num pedaço dessa maravilhosa invenção chamada esferovite.
quinta-feira, dezembro 15, 2011
eclipses
" então ontem não veio para a rua ver o eclipse? "
" qual? o da lua? "
" sim, o da lua! foi às 2h30, de madrugada! "
" não, esse não gosto, só o do sol! "
" só o do sol? então porquê? "
" porque o da lua não tem piada nenhuma. há tantas noites em que a lua desaparece. não percebo porquê o fascínio de ver a lua a desaparecer... "
o fascínio com os eclipses deve ser tão antigo como a existência da vida na terra. se é verdade que os da lua são, para além de relativamente frequentes, muito sensaborões, os do sol já têm todo outro sabor especial. basta vermos o desatino caótico em que fica a vida durante um eclipe do sol. os animais, durante um eclipse total, largam os pastos e desatam a correr desenfreadamente na direcção dos seus abrigos, em pânico sem perceber bem como é que o dia acabou tão depressa e sem avisar, como habitualmente faz. até o organismo humano, pelo menos a parte dele que é alheia a essas brincadeiras do racional e do pensamento, reage a um eclipse solar alterando a produção de hormonas, caso estejamos ao ar livre, interpretando o dia como chegando ao fim.
adoro este conceito de micro-jetlag que dura cinco minutos. imagino os planetas em conferência, a decidir como vão girar nos próximos milénios, e algum de repente tem a ideia de que engraçado engraçado era trocar as voltas ao dia, torná-lo noite por uns instantes, e registar com uma máquina fotográfica do tamanho de um marte toda a confusão gerada por esse pequeno micro-desvio ao padrão normal.
decerto podemos arrastar os eclipses para lugares mais profundos do que apenas o céu. imagino como seria um eclipse da água, revoltando-se por nunca ter direito a eclipsar-se. porque é que a água não há de ter direito a desaparecer durante cinco minutos, para se esconder de tudo e de todos? menos fantasioso que o da água, é o eclipse particular dos sentimentos.
a esse assistimos diariamente. olhem à vossa volta, e vão com certeza ver amor tapado por ambição. bondade tapada por avareza. prazer tapado por convenção social. o que mais há são eclipses. e para ver estes nem sequer é preciso comprar daqueles óculos especiais na farmácia...
quarta-feira, dezembro 14, 2011
he and the devil
escrever sobre a morte é consideravelmente mais difícil do que escrever sobre a vida. não que tenha pejo em fazê-lo. já o fiz algumas vezes e continuarei a desafiar a ausência de vida com os mesmos pincéis com que devoro a presença explosiva da mesma.
creio que o ponto mais sensível em relação à morte é tentar perceber o limbo final. entre os crentes, os não-crentes, os anti-crentes e os pseudo-crentes, ninguém se decide se afinal há um túnel, com ou sem luz lá no fim. não há consenso em relação a elevadores com dupla direcção nuvens-centro da terra. não há memória fotográfica de prados verdes com gente vestida de branco (por acaso, não sei porque é que a imagem de céu das pessoas é uma espécie de sensation white gigante... será que o tiesto e o armin van buuren têm lugar garantido no céu à custa dessa brincadeira?). nem tão pouco de grutas profundas, com rios de fogo e seres vestidos de vermelho e preto, com corninhos, caudas pontiagudas e tridentes. se bem que neste último estou mais a imaginar o tom waits e os prodigy em mash-up e a ideia é mais agradável do que milhares com ar celestial a dançar por montes verdes fora e a ouvir o "in and out" mas tocado numa harpa...
gil scott heron era um poço de talento. talvez não reconhecido por todos (gostos não se discutem), mas um daqueles artistas que não precisam de qualquer adereço ou ajuste de equalizador no photoshop das melodias. scott heron era em primeiro lugar um poeta. um excelente poeta. a música era "apenas" o veículo dessa sua forma de expressão. deixo-vos, em palavras do próprio, a perfeita lucidez com que ele imaginava o momento da morte. que chegou para ele, como chega para todos. mas nalguns casos chega mesmo cedo demais...
" Standing in the ruins of another black man's life
Or flying through the valley separating day and night
"I am death!" cried the vulture for the people of the light
Karon brought his raft from the sea that sails on souls
And saw the scavenger departing, taking warm hearts to the cold
He knew the ghetto was a haven for the meanest preacher ever known
In the wilderness of heartbreak and a desert of despair
Evil's clarion of justice shrieks a cry of naked terror
Taking babies from their mamas, leaving grief beyond compare
So if you see the vulture coming, flying circles in your mind
Remember there is no escaping for he will follow close behind
Only promise me a battle, battle for your soul and mine
And mine "
poema retirado do videoclip de "Me and the Devil"
terça-feira, dezembro 13, 2011
porque é que as nuvens são feitas de algodão doce?
tentei descobrir porque é que as nuvens são feitas de algodão doce.
mesmo aquelas muito escuras, de certeza que só o são assim porque a senhora da feira deixou o fuso que enrola o açúcar aquecer demais e ficou tudo queimado. apesar de tudo há algum engenho nesta arte, porque máquinas grandes o suficiente para fazer toda esta enormidade não são nada fáceis de esconder. chego a acreditar que há prédios mascarados de prédios só para manter secreta a produção em larga escala de nuvens, doces como os céus em que pontificam.
todas as outras voltas que as nuvens dão, são brinquedos de criança. nada assusta verdadeiramente. o que são flocos de branco, cinza ou azul eléctrico ao pé de tantas outras coisas muito mais impressionantes?
um tornado é um menino, ao pé da força que tem o mar, quando invade a areia sem permissão e lhe impõe a sua força e o seu sal. ou a água que cai deste algodão e é capaz de escavar rochas e fazer de alguns canyons grandes, só porque é essa a sua vontade de escorrer.
para não falar das outras forças, aquelas que nos prendem horas a fio entre lábios brilhantes e olhos propositadamente sombreados. entre sardas perdidas e caracóis soltos. perante essas o céu até desaba, mas no fundo como se lhe desse aquela fraqueza nas pernas de quem tem de falar para uma plateia de milhares de pessoas e não controla a ansiedade.
na verdade é isso. o céu vive alguns dias com um enorme nó, bem apertado, na garganta. as nuvens são gravatas ou laços, que adocicam o seu infinito e disfarçam as revoluções que se passam mais abaixo, nas forças que realmente centrifugam. e centrípetam. alternadamente. sem parar.
domingo, dezembro 11, 2011
saltar ao eixo
quando de vez em quando apanho uma nuvem para andar a brincar aos holofotes por cima de serras, lagos, casas e eslapilos, fico sempre com vontade de dar um pontapé no eixo da terra, só por mera diversão.
sei que posso perfeitamente parar a rotação da terra. ou até bem mais engraçado, pôr a galáxia à volta a rodar à mesma velocidade que a terra gira, e rir-me do desespero alheio ao ver que o dia nunca teria fim para uns e nunca teria princípio para outros. brincar com os astros é quase tão bom como uma sangria de champagne e frutos silvestres, servida num jarro que vem a transpirar de gula, numa qualquer noite de um qualquer dia de verão.
perco-me a imaginar seitas sem fim a anunciar que o mundo agora ia mesmo acabar, que estava escrito nas estrelas. tretas. como é que podem achar que sabem ler os textos das estrelas, quando a tinta que é usada para esses livros já está muitas vezes apagada há centenas de anos? claro que como as palavras são quase tão persistentes como a raiz de um salgueiro, prestam-se a voar através de universos e dias e noites para se mostrarem a quem olha para elas. através de telescópios complexos, no topo de montanhas. ou então apenas de mão dada, deitado na relva, pelo meio de uma tarefa muito mais interessante, que é descobrir no celeste da noite estrelas cadentes e imaginar principezinhos montados nelas.
os profidicuos dos seres humanos, acham que conseguem reduzir tudo a equações. inventar formas de explicar tudo de um modo matemático, organizado, com muitas raízes quadradas, exponenciais e um ou outro integral, mas não daqueles que são fibra nos cereais. pobres coitados, enquanto escrevinham mais um menos na folha quadriculada, um pirilampo voa do lado de fora da janela e ri-se de quem algum dia acreditou que é possível pôr ordem no caos. é que isso sim... seria o fim do mundo...
sexta-feira, dezembro 09, 2011
mercado dos sentimentos
dentro deste mercado ouve-se perguntar:
“ não quer levar um bocadinho de saudade? hoje está aqui que é uma maravilha! saudade tenra como já não se faz ”
“ não, obrigadinho, deixe lá. já levo aqui trezentos e cinquenta de nostalgia. depois são sentimentos a mais para o fim de semana ”
“ então e euforia? se leva nostalgia, porque é que não a salteia e acompanha aqui com esta euforiazinha que está mais fresca do que a manhã?”
“ hmm, e quanto custa?”
“ olhe, só porque é para si faço-lhe a cinco beijos o quilo!”
“ oh, muito obrigado. ponha lá meio quilo então, que dias não são dias”.
e andamos nisto. durante as vinte e seis horas e oitenta três minutos que o dia tem. num passo vamos da banca da raiva em pó ao gratinado de ódio. descendo as escadas (cuidado para não escorregarem, porque alguém desajeitado entornou uma caixa de avareza há coisa de cinco minutos), chegamos à zona favorita de todos, onde o cheiro do amor se envolve com a textura do prazer e a imaculada da bondade joga à apanhada com a fugitiva luxúria.
bolas, esqueci-me da carteira! alguém tem um beijo ou abraço que me empreste?
terça-feira, dezembro 06, 2011
ensaio sobre o mutismo
dizia ele que o truque do silêncio numa música é não haver banda. tragam a voz, e podemos nós próprios sentir o som de qualquer instrumento. ouvi-lo em surdina, cheirá-lo em tons elevados, devorá-lo em compassos incertos.
será o mesmo com as palavras não cantadas?
como seria um mundo em que ninguém conseguisse falar? não preciso de perguntar o mesmo em relação a um onde ninguém conseguisse ouvir, porque essa é um pouco a história da nossa actualidade. mas, e um mundo do silêncio puro da emissão?
sem esdrúxulas, graves ou agudas. sem ditongos. zero onomatopeias. ausência de ditados. sons deitados para sempre. mutismo completo. seria a escrita suficiente? seria um papel à nossa frente a forma ideal de deitar cá para fora as vontades, ansiedades, liberdades e todas as outras ades?
por mais valor que dê à escrita, a visão não chega. o tacto ajuda, mas o som é uma espécie de reino do butão no mundo das sensações. as palavras podem ser maravilhosas, mas a forma como são ditas tem uma grande quota parte no pormaior que leva ao desarme. é o que faz cair da cadeira. é o que se enrola nos cabelos e os prende para o pescoço na direcção de um beijo que é quase magneticamente garantido na confiança das palavras.
não haver banda pode servir para um excerto do lynch. mas na minha cabeça o som funciona como uma espécie de ave de rapina. paira horas a fio no seu vôo. raramente pára. quando pára é para descer vertiginosamente. por segundos. que parecem por vezes horas. mas são cúmplices com a explosão de palavras ao invés de casados com o mutismo.
segunda-feira, dezembro 05, 2011
a máquina de lavar memórias é da ariston ou da aeg?
tenho a certeza que sim. o homem inventa tudo. mas o homem que tem h grande, não levem a mal. só não me apetece usar maiúsculas, porque pagam um imposto muitíssimo mais caro. se até se conseguiu que andássemos no céu sentados numa cadeira a voar, ou arranjar aspiradores que andam sozinhos pela casa a aspirar (embora estes últimos não vão sozinhos ao frigorífico buscar cervejas, o que é uma infelicidade)... é, deve ser apenas uma questão de semanas ou meses até arranjar tal espécime de electrodoméstico.
claro que uma máquina destas tem de ser programada com muito cuidado. porque o programa para lavar memórias boas e memórias más será tão diferente como um escaravelho o é de uma noz caramelizada. ninguém quer andar por aí a misturar memórias na máquina. já imaginaram quão trágico poderia ser debotar más memórias para uma límpida e clara recordação simpática?
por vocês não sei. mas eu cá não quero a saída em falso do ricardo na final do euro a pingar por cima da visão do mont-saint-michel ao longe. muito menos me apetecia ver uma agradável noite de verão sarapintalgada com restos de um dedo entalado numa porta por mero azar.
no entretanto vou acumulando memórias. podem ser boas ou más. mas enquanto não há máquina, vai ter de ir dando para limpar a seco. amaciam-se a elas próprias sem aditivos, e gozam daquele cheiro típico, a passado. que para mim é um cheiro igual aquele que emana das folhas quando a capa e a contra-capa resolvem brincar aos avessos e se tentam tocar pelo lado mais improvável.
domingo, dezembro 04, 2011
sopa de letras
aprendemos a ouvir, a olhar e a andar antes de aprender a falar. passamos por aquela fase de tamanha curiosidade em que olhamos para tudo como quem se maravilha com algo que vê pela primeira vez. o que é verdade. de repente aprendemos a falar, começando por balbuciar e finalmente juntando palavras para começar a nossa busca do sentido da vida.
a meta essencial dessa fase está, quanto a mim, no dia em que aprendemos a ler. não sei como há quem não goste de ler. compreendo, respeito, mas não me entra na cabeça. a capacidade de ler as palavras dos outros (ou até de reflectir sobre o que nós próprios escrevemos) é o que nos dá a independência como ser humano único e diferente. e não ficamos nunca sequer dependentes das palavras alheias, é um erro pensar que sim. a nossa linha, a nossa filosofia, a nossa política, a nossa religião, são uma espécie de sopa, cujos ingredientes nos cabe acrescentar.
caso optemos por renegar à leitura, aí sim caímos na eterna dependência. de ter outros que pensam por nós, que decidem por nós, que pedem apenas para assinar aquela espécie de X naquela linha, e que não nos preocupemos que está tudo tratado.
a nossa sopa deve ter muito mais do que isso. devemos saber que ingredientes odiamos, e para isso temos de os provar, a maior variedade possível. não menos importante, descortinar os nossos favoritos, bem como a dose em que os queremos ver lá. sejam exóticos, eróticos, hipnóticos ou anedóticos, são os nossos ingredientes e quem melhor para os seleccionar?
e nunca jamais comam sopa só porque é hora da refeição. as coisas são para saborear. tal como já dizia o jovem da frase lá de cima, que nasceu em stratford-upon-avon, onde de certeza lhe deram muita sopa...
sábado, dezembro 03, 2011
fronteiras
naquela fronteira entre o estar cá e o estar lá, temos muito poucas certezas. sentimos que o corpo se torna mais leve, os sons mais difusos, as sensações mais indistintas. passamos tantas vezes por aquele repelão, uma espécie de queda em que acordamos de novo de repente para perceber que afinal está tudo bem. chego a acreditar que esse momento acontece por uma espécie de destino errado. acordamos para corrigir a rota e contornar as baixas pressões turbulentas, da melhor forma que conseguirmos.
depois seguimos noite fora. sonhamos a cores, a preto e branco, em tons de sépia, em português, inglês ou noutra língua qualquer. alguns de nós até se levantam ou falam alto, tal é a intensidade com que conseguem viver a sua vida paralela nesta doce dimensão do sonho.
mas o que para mim melhor caracteriza o momento em que largamos a certeza dos lençóis e enfrentamos de frente o sonho (eu e a redundância somos quase melhores amigos) é uma espécie de salto no precipício, uma entrada num abismo para o qual olhamos com o interesse de quem quer ver, mais do que olhar.
e vamos com pressa. sem paragens para beber um café ou para ir à casa de banho...
o que se percebe. estamos a fazer o check-in para entrar no mundo dos sonhos. queremos chegar rápido para ter lugar à janela.
sexta-feira, dezembro 02, 2011
o mundo tem o passo curioso de um gigante anão
depois de esborratar paredes de cavernas com sangue de animais, aquele pedaço de massa encefálica guardado por meia dúzia de ossos que assenta em cima da coluna cervical, descobriu não só formas de aquecer as patas dos animais para se refastelar, mas também a maravilhosa arte da escrita.
seja papiro, papel ou parede, pouco importa, porque essa arte permitiu abandonar a solidão mental e partilhá-la com quem quer, e com quem não quer, ouvi-la com os olhos.
nada há de mais perfeito do que a carta. a carta leva o cheiro das pessoas. a carta leva os nervos naquela perna do a, a paixão na força com que damos ar de final ao ponto, o desespero com que o 'teu' sai tremido da ponta da tinta, permanente, da china, à-prova-de-água ou à prova de tudo, pouco importa. vai num envelope tosco, sujeito à tortura de milhares de carimbos, tratada como um escravo dos tempos antigos, mas tem por patrão final o seu destinatário certo.
perderam-se as cartas, eu sei. somos mestres do disfarce. nestas teclas pretas até pode cair whiskey ou perfume, que o mundo nunca saberá. o backspace é um fugitivo do amarfanhar a folha e voltar a escrever. as palavras podem ser sempre re-feitas e podemos brincar com elas de formas diferentes. tão mais fácil usar o sinal de menor e um três do que desenhar um coração perfeito no papel. é que nem todos nascemos com os dotes de desenho do leonardo, aviso-vos já.
adoro cartas. não adoro que se tenham perdido as cartas. mas mais importante do que a forma, é o conteúdo. enquanto as minhas palavras puderem atravessar oceanos e prender-se nos lábios e nos cabelos certos, pouco me importa que quem as leve seja a fedex, o cabo que está no fundo do atlântico ou um pombo-correio.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
mórbido é uma palavra como outra qualquer
eu adoro cemitérios.
um cemitério tem tudo aquilo que nos permite pensar sobre a vida. tem a morte como pseudo-motivo de existência. mas para mim isso é combustão para pensar na vida. cada campa, cada gaveta, cada bloco de pedra, conta uma história. no mínimo. porque na grande maioria dos casos conta milhares delas. a homenagem que lá fica escrita raramente o traduz. paralelipipedos de mármore com 'destes que tanto te amam' cunhado com escopo não dizem muito sobre a pessoa. é. só isso é que não gosto nos cemitérios. que os que ficam vivos despersonalizem aqueles cujos (meros) ossos ali são deixados. seria tão mais lindo porem "para o antónio, que comia sempre mais um prato de caracóis do que os outros todos" ou "para a luísa, que era a última a sair da água, nos dias quentes de verão, combatendo com o sol para ver quem se conseguia esconder da água mais tarde".
além do mais são sítios bonitos. desenhados para transmitir calma. com árvores e pedras e relvados. aprende-se mais sobre uma localidade no cemitério do que em muitos dos outros lugares. pelos apelidos. pelos anos em que morreu mais gente. pela arquitectura de cada campa. quase pela forma como o saibro foi aplicado e para que lado tende mais a acumular-se. curioso, num cemitério até se aprende de que lado o vento sopra.
não tenho intenção de ir para um. mas os cemitérios são sítios lindos. se tivesse que escolher um sítio desenhado pelo homem que mais se aproxima de um livro escrito, é um cemitério sem dúvida.
vou-me retirar antes que me acusem de necrofilia. se entendem por necrofilia ter o prazer de viver tão intensamente que olhar a morte de cima e conversar com as pedras que a querem representar é algo de perfeitamente natural, então sim... sou capaz de encaixar no perfil. mas naquele aterro de almas, o fenómeno da vida dá-se a todo o instante, os átomos separam-se, as ligações quebram-se, para outras se formarem, para nova criação, quase como se de pequenos vulcões de pedra estivéssemos a falar...
quarta-feira, novembro 30, 2011
caro céu
percebo que por vezes fiques um pouco revoltado com esta mania do ser humano de tentar explorar os teus limites. toda essa raiva que descarregas quando sentes que algo não corre da forma que pensaste, é compreensível. no entanto, tens de saber relativizar as coisas...
tu és infinito. com tanto espaço que tens, para quê andar a embirrar apenas porque meia dúzia (para ti são menos do que micro-formigas) de conjuntos de lata te atravessam todos os dias, cheios de pessoas que vão à procura de sonhos, vão de volta à família, vão fingir que são de um planeta diferente no seu próprio planeta ou vão apenas em trabalho para levar todos estes? mesmo os satélites e foguetões, são menos incómodos para o teu todo do que aquele bocadinho de pó que entra para o olho com o vento e ali fica a irritar horas a fio.
nunca te vi ficar tão irascível com cometas ou cometas-like. e esses atravessam-te com violência e sem pedir autorização. serás tu, céu, não mais que um míudo mimado e sem coragem de enfrentar esses monstros debaixo da tua cama? e que cama é essa, céu? não consigo imaginar que transportadora se dignaria a entregar algo tão grande num sítio tão infinitamente distante. acredito que o teu código postal são vários códigos postais ao quadrado, não sei mesmo se ao cubo.
eu também me irritava se andassem por aí a dizer que um homem de barbas com um tridente vivia em mim, mas o que podemos nós fazer em relação a isso? ou pegas num raio e dás cabo desse faux pas global ou tens de aprender a viver com isso. sim, eu sei que já vives com isso desde os tempos das cavernas, mas também não precisas de ser sempre tão impaciente!
acalma-te céu. nós queremos-te é aí. sim, aí precisamente! para poder continuar aqui deitado na relva, a contemplar-te na sintonia do doce sabor do dia com os mil significados que essas nuvens que sopras podem ter, na minha cabeça e na cabeça de todos aqueles que contemplas aí do alto. e preso num beijo, mesmo de olhos fechados, sinto o calor do teu azul avermelhado, da tua transformação da noite, nesse paradoxo constante em que brincas durante trezentos e sessenta e cinco dias por ano, onde há muito mais do que trezentos e sessenta e cinco anos por dia.
teu.
terça-feira, novembro 29, 2011
porque nostalgia não é só o nome de uma rádio
não faz mal não nos lembrarmos desses nove meses, porque a vida se encarrega de nos fazer sentir repetidamente a mesma sensação. o que eram úteros passam a ser grupos, o que era líquido amniótico passam a ser amigos e aqueles vasos que nos traziam nutrientes passam no fundo a ser a intensidade da vida que vivemos.
ontem, hoje e amanhã, acabamos por criar um determinado grupo, com o qual nos identificamos, criamos laços fortes, temos uma rede forte, quase sem buracos à vista, e a vida logo se encarrega de nos fazer ter de mudar de rumo, mudar de sítio, e recomeçar tudo de novo. mais uma vez perdemos o conforto, o amortecimento, a tranquilidade do conhecido.
a cada novo parto, damos um salto no desconhecido, para dentro daquele poço negro cujo destino é uma incógnita. sendo português, tenho a habitual nostalgia que nos está tatuada nos genes.
passo estas últimas horas nos sítios que me viram crescer. olho para a árvore do jardim que trepei com cinco anos, para o pátio da minha escola primária, para os ferros do gradeamento da preparatória e da secundária e para a estátua do sousa martins em frente à faculdade. finto as árvores e esplanadas de picoas, as janelas em andares altos que me dão sempre lisboa a ver, a feira do livro onde já fui tão feliz parece dizer-me um adeus e a minha varanda em santa apolónia fica meio amuada com a partida.
o bom disto tudo é que, apesar de estarmos sempre a nascer de novo, não nos apagam a memória a cada novo parto. por isso ficam muito fortes as pessoas que nos unem, são o nosso suporte constante, e qualquer que seja a rede construída, são esses que funcionam como pilares inegáveis da nossa personalidade única e inclonável.
se ser português é ser nostálgico e escrever todas estas "potencialmente-interpretáveis-como" lamechices, também é ao mesmo tempo saber que os mesmos genes estão tatuados com a vontade de embarcar nestas caravelas de agora, com duas asas e uma cauda, e tentar provar por esse mundo fora que nós somos muito mais do que aquele sítio simpático onde os peixes se comem envoltos em sal e as mulheres usam muitas saias.
por isso, parto. mais um. mais uma vez. não troco dias por noites, nem europas por américas. quero tudo. ao mesmo tempo. parafraseando as palavras ditas pela voz da fergie, o que não pensei jamais vir a fazer, em relação a viver a vida do modo mais intenso possível, apenas tenho a dizer que "i'm addicted, and i just can't get enough".
até já!
(texto escrito na véspera da viagem transatlântica)
segunda-feira, novembro 28, 2011
definição do amor
Miguel Esteves Cardoso – 28-11-2011
" Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser jun...tos.
...
O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO... e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe.
...
O IPO consegue ser uma segunda casa. Nenhum outro hospital consegue ser isso. Podem ser hospitais muito bons. Mas não são como uma casa. O IPO é. Há uma alegria, um humor, uma dedicação e uma solidariedade, bem-educada e generosa, que não poderiam ser mais diferentes da nossa atitude e maneira de ser - resignada, fatalista e piegas - que são o default institucional da nacionalidade portuguesa. É graxa? Para que tratem bem a Maria João? Talvez seja. Mas é merecida. Até porque toda a gente que os três IPO de Portugal tratam é tratada como se tivesse direito a todas as regalias. Há muitos elogios que, não obstante serem feitos para nos beneficiarem, não deixam de ser absolutamente justos e justificados.
Este é um deles. Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim. "
diamantes perdidos nos himalaias
durante tempo e tempo a fio, que com um monge budista parece sempre tempo a menos, explicou-me que duas correntes completamente opostas existem sobre a matéria. os 'contra' defendem que tatuar o corpo é criar uma marca definitiva, indo totalmente contra o princípio de desprendimento material, extensível ao próprio corpo. os 'pro' contrariam, dizendo que tatuar o corpo é a prova mais fantástica e evidente de desprendimento físico e que a prática deve ser incentivada.
como eles são budistas, falam sobre isto horas e não acabam fulos de raiva. discutem com argumentos nos olhos e nas línguas e não com duas pedras na mão.
de facto concordo mais com uma das correntes. tal como li recentemente escrito pelo josé luís peixoto, são pobres de espírito aqueles que acham que fazer uma tatuagem é mau porque fica para sempre, porque é uma coisa que não se pode mudar. podem não querer fazer uma, e isso merece o respeito de todo e qualquer fervoroso adepto do livre arbítrio, como eu sou. mas desenganem-se se acham que pigmentos de tinta na derme são mais definitivos do que o dia em que morreu o nosso pai ou a nossa mãe, do que o nascimento do filho tão desejado, do que o fim daquele curso, do que aquele emprego pelo qual lutámos a ferro e fogo e um pouco mais de ferro, ou todas as outras situações que nos formatam como seres vivos e não-vivos.
a vida são marcas. não importa de quê ou como. uma linha desenhada no ombro marca-me do mesmo modo que o cheiro do risotto de frutos do mar em portofino num final de uma tarde de verão. se trouxerem o chardonnay fresquinho, até o bebo nas duas ocasiões com idêntico prazer.
não somos mais do que um molde, e se fugirmos a todo e qualquer tipo de marca, vamos embora tão puros e tão não-trabalhados, que nunca teremos sequer descoberto se, por baixo daquela pedra tosca e romba, havia um diamante à espera de ser delapidado.
domingo, novembro 27, 2011
não são só quatro rodas e uns eixos
deve ser muito mais bonito fazer-se um texto sobre carros quando se anda a conduzir um aston martin ou um lexus, mas cada um é para o que nasce e eu e o meu carro estamos assim um para o outro.
quem diz que os objectos não têm sentimentos não percebe nada disto. a fuga ao materialismo puro deve, com toda a certeza, afastar-nos de sobrepor os objectos às manifestações mais profundas da emocionalidade, mas há objectos que ganham um lugar tão especial no nosso eixo coração-mente-história. é impossível não associá-los ao nosso crescimento pessoal, às alegrias da vida, aos dias difíceis, ao lugar especial, ao lugar terrível, à chuva que inundou o para-brisas e ao sol que aqueceu o couro do volante e o fez ter aquele cheiro de pos-pôr-do-sol, que puxa apenas a condução lenta até ao quarto, por entre as pestanas cheias de sal, para um banho rápido e um encaminhar para a noite.
tal como aquele urso de peluche que nos viu chorar baba e ranho ao mesmo tempo que nos viu dar pulos de alegria com o raio do jogo d'a ratoeira no dia de natal, o carro atravessa uma fase fundamental da vida.
naquele volante não estão só os botões para mudar de estação ou aquele que faz barulho e tem um nome parecido com gambuzino. está o suor do dia de maior ansiedade. estão as lágrimas dos dias de fim de ciclo. está o quente do caminho para casa após aquele beijo. está a garra de querer fingir ser um jovem piloto de um qualquer campeonato de uma qualquer categoria, para acabar a fazer um pião parvo e pouco digno.
o pedal também não é decerto só ferro e borracha. foi pontapeado no meio da fúria. foi acariciado quando o caminho se queria mais lento para que nunca mais acabasse. foi pressionado até mais não quando a morte pareceu aparecer de repente numa beira-de-ravina, ao saltar uma cabra para o meio da estrada.
o meu carro não é só um carro. não só lá vivi, como lá morei e como lá está parte de mim, e do que eu sou. fui lá não-condutor, segundo condutor e por último condutor principal. ele também foi um privilegiado, porque calcorreou uma europa de uma ponta à outra, mas foi sempre um fiel soldado, nunca desistindo, mesmo quando maltratado.
sei que ele pode partir, mas tudo parte, até nós, porque nunca paramos no momento. reserve o futuro o que reservar, voltarei sempre com facilidade a um qualquer fim de tarde perdido nos pirinéus em que podia desligar o rádio, para ouvir o prazer de um carro em comunhão com a natureza...
sábado, novembro 26, 2011
a espuma das noites
acho que isso é a prova exacta e científica de que o mundo muda a essa hora. os brilhos têm uma tangente diferente. os copos ganham uma espécie de fluorescência própria. os corpos ganham uma tendência flirtantemente diabólica. a lua faz de conta que é o sol e o sol nem esgrime a tentativa de parecer que é a lua.
fecham-se portas no momento em que se acendem luzes. os vidros partidos são espalhados por ruas, tapetes e entradas, como ânsia de homenagem ao desequilíbrio natural da falta de luz.
as palavras do meu dicionário não são só diferentes nas letras que as unem. têm cores, que durante o dia andam muito mais fugidas. há letras amarelas, azuis, verdes, encarnadas, fuchsinzento, pratadeado ou amarelilás. as que existem, as que não existem e as que estão à espera de passar a existir. porque este dicionário é escrito a cada momento, numa espécie de acordo inteligentográfico feito entre as páginas do próprio dicionário, numa noite como outra qualquer, à beira-rio, antes de os raios de sol começarem a reflectir nos vinis de outras horas.
vou só ali escrever mais duas ou três páginas e aceito ajudas. até já.
sexta-feira, novembro 25, 2011
seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático
pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo.
o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos.
quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado apenas pelo homem que inventava palavras, para ter comida na mesa e roupa para os filhos.
os sonhos não são mesmo sonhos. são futuros concretos. que podemos seguir ou não. depende apenas de cada um.
creio que a melhor forma de alguém se encontrar é perdendo-se
acho que já bati nesta tecla. mas eu adoro bater em teclas. sejam de macs ou de steinways. por isso não me escandalizo por voltar a bater-lhe.
no fim de um dia de cansaço e de trabalho infindável, nada me sabe melhor do que recolher ao meu caos. perdido entre livros espalhados no sofá, mesa e chão (só nos últimos cinco minutos já pisei o borges e lixei um dedo no palahniuk), com a discolette a entrar-me nos ouvidos patrocinada por uns phones vermelhos conspirativos, olho para os sons da escuridão e o que cheiro é o tumulto da vida.
sinto que podiam estar milhares de seres vivos em plena harmonia autista neste momento. devorar sons é para mim um hobby (sim, o acordo ortográfico que se) que me permite uma espécie de sincronização de fim do dia.
no fundo, não somos todos mais do que iPhones (com um ou outro blackberry teimoso) e adoramos regressar de vez em quando à nossa dock para voltar a ficar com a barra no verde.
e que bem que sabe ficar com a barra no verde...
quinta-feira, novembro 24, 2011
o açúcar em pó, eu e aquela cena meio redonda chamada mundo
a teoria dele é que nunca se polvilha nada com formas muito direitinhas. quem quiser perfeição fica em casa a organizar as meias por cores ou as camisas por tipo de colarinho. quem espalha o açúcar como quem lança notas de cem dólares ao ar, depois de ganhar um jogo de poker em las vegas, vê a vida de uma forma impagável.
penso em todas as estradas que ainda tenho por fazer. imagino artérias cheias de sangue pulsátil, imparável, em que eu navego consumindo tudo o que têm para me dar. desertos, florestas, montanhas, lagos. nem paro para comer. janto serras. janto lagos. de que serve fingir que há funções vitais a manter quando há tanto mundo para conhecer?
a vertigem da velocidade puxa por mais velocidade. quem acelera a sério sabe bem que quanto mais rápido vamos mais confortável é o desconforto da velocidade acima. o mundo de quem o vive devagar é tão diferente de quem o vive a mil. imagino uma estrada vivida com calma, e percebo o que daí pode ser retirado, mas é de certeza um mundo diferente. para mim, só valem centopeias impregnadas de speeds que atravessem um pátio como quem corre os cem metros, obikwelizadas que estão da vida.
por mim, pego no açúcar em pó, atiro-o ao ar e deixo-o cair sobre toda a gente numa alegre metáfora da vida imperfeitamente perfeita.
quarta-feira, novembro 23, 2011
dei por mim a pensar, daquela forma que quase sai fumo pelos ouvidos
facilmente caímos no 'ai jesus' (o da cruz, não o do benfica) da depressão profunda e contínua de quem vai para uma crise sem fim à vista e, no meio desse pânico, apenas nos vamos afundar. as crises existem desde que o homem faz trocas comerciais. não havia era imprensa, que o guttenberg devia estar ocupado a fazer macramé, mas algures no tempo os mercados devem ter dado baixos ratings à Hispania e o preço das tâmaras era incomportável por causa dos conflitos no médio oriente. nunca foi boa solução para sair de areias movediças desatar a tentar fugir à pressa e de modo não pensado.
pensava que o tipo do cabelo branco despenteado tinha dado uma lição ao mundo sobre uma coisa chamada relatividade. a análise dos problemas e a sua dimensão nunca é relativizada.
no japão passou uma onda por cima dos "mercados". e rapidamente mudaram os "fundamentals" da economia e, sobretudo, o conceito de crise...