sábado, janeiro 28, 2012

a vida e os buracos de várias cores

a minha paixão por astronomia desde tenra idade (tão tenra como uma posta mirandesa) levou-me a desde muito cedo achar apaixonante o conceito tenebroso do buraco negro, que suga toda a matéria e de onde nada pode escapar. mas mais fascinante ainda a deliciosa possiblidade dos buracos brancos, hipotéticos espelhos dos buracos negros, lugares onde nenhuma matéria pode entrar mas de onde toda a matéria pode sair. a teoria diz ainda que isto possibilita de facto que alguém entre num buraco negro e seja transportado para um buraco branco, aleatório, noutro ponto qualquer do universo instantaneamente. e estamos a falar em viajar para outro lugar e/ou tempo. os velhos do restelo, combatentes do sonho, mesmo que astrofísicos, respondem a isto com “sim, mas a desintegração das moléculas durante a viagem jamais permitiria que um ser vivo sobrevivesse a esta forma de teletransporte”.

deve ser gente muito enfadonha, esta. que não acredita em viagens no tempo e no espaço. os antepassados destes amigos de certeza que eram gente que defendia que isso de fazer pedras circulares nunca ia dar em nada. que pôr amontoados de madeira no mar com umas velas agarradas ia correr mal na certa. e que metal a descolar em direcção ao sol só se fosse para ter uma morte garantida em regime de catapulta.

felizmente os sonhadores vencem tudo isto. conseguem perceber que há espaço para um parque de campismo na superfície do sol. que o terreno de marte é extremamente jeitoso para fazer caminhadas ao fim da tarde, estando mesmo a jeito para vêr o pôr da terra através do reflexo de sol. que os anéis de saturno são para ser aproveitados como montanha russa, em qualquer dia da semana, de qualquer dia do ano. ou que as planícies de saturno estão mesmo a pedir caipirinhas e partilha de carinhos nas horas de maior calor. que lá... são todas.

sobretudo sabem que, mais tarde ou mais cedo, vamos ganhar coragem e entrar num buraco negro. vamos sair muito muito muito longe de dentro de um qualquer buraco branco, com um sorriso não-desintegrado na cara e a dizer que aquela foi uma pequena viagem para o homem mas uma vertiginosa descoberta do universo para a humanidade.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

as três dimensões. mais a quarta que ninguém percebe muito bem.

sempre tive para mim que o micro-cosmos e o macro-cosmos não se entendem muito bem. e nós, pessoas cheias de mania que tudo sabemos e que tudo descobrimos, sempre pouco cientes de que não sabemos nada e que descobrimos muito pouco, inventámos formas de, pelo menos, conseguir destapar ligeiramente o véu a ambos.

nas costas do microscópio largámos toda a responsabilidade de olhar para o que é infinitamente pequeno. não lidamos é bem com o conceito de infinito, portanto, quando os globos oculares se aproximam das lentes, vêem o retrato, isso sim, do que é finito e pequeno.

o telescópio, por sua vez, foi inventado para olhar para as estrelas. para cima, para baixo, para os lados, mas para as estrelas. e também para os planetas, mas esses são restos de estrelas, parentes próximos. lamento desiludir todos os voyeurs que os usam para observar as vizinhas do bairro a trocar de roupa ao lusco-fusco, mas de facto foram pensados para ver para lá da atmosfera.

na sua grande maioria este pensamento tem o condão de nos satisfazer. vemos o pequeno. vemos o grande. olhem para nós que somos tão bons. aí é que está. não no sermos tão bons, mas sim no "olhem para nós". quem nos garante que, ao andarmos entretidos a achar que somos o player de tamanho médio entre micro e macro-cosmos, não somos nós apenas um adicional acidente no caminho bem maior. recorrendo à minha imaginação, mais fértil que as margens do nilo, consigo ter a imagem perfeita de seres gigantescos que olham para nós com a sua espécie de microscópio e não nos definem com mais pomposidade do que nós definimos uma bactéria. tal como consigo imaginar toda uma família a residir numa das curvas de um qualquer ADN de um qualquer ser muito muito pequeno a olhar para cima e achar que a membrana da célula é o fim do universo.

no fundo, tal como nós, o micro-cosmos e o macro-cosmos deve estar cheio de espertos. que ainda não sabem, mas no fundo... não sabem nada.

terça-feira, janeiro 24, 2012

até os pássaros brincam no meio da neve

o céu azul eléctrico.

aquele céu que não se decide entre o branco e o preto. cinzento-escuro não é para ele de certeza, também. quer anunciar. quer uma cor que chame. que avise que o que vem aí é para ser visto. o céu podia pagar um anúncio na televisão ou no jornal. mas em vez disso pinta-se de azul eléctrico.

abaixo dele, na sua azáfama, milhares de cabeças rodam, apontando os olhos para cima, deixando de apenas olhar, para passar a ver. depois, a pouco e pouco, sentem. o azul eléctrico a viajar. o pó dourado que o envolve a migrar muito lentamente, naquela marcha em que quente e frio se misturam, num abraço de lã e pele.

o céu sorri. conseguiu a atenção que queria. agora sim, estão todos atentos, o espectáculo pode começar. não, não há tempo sequer para sete pancadinhas, vamos já começar que se faz tarde. a agenda do céu é ocupada. não se pode prender a inutilidades.

abrem-se os canhões. festejam os soldados. a neve cai. desce em piruetas do etéreo ao presente. usa escorregas perdidos em telhados. repousa em camas de relva. beija as folhas caducas, gastas de toda a sua beleza do outono. mas sobretudo, vejo que cada floco põe o ar orgulhoso e inchado de um actor principal. reconhece as mãos sedentas de brincadeira das crianças, a felicidade dos gorros que hibernaram todo um verão e o profissionalismo da malha das luvas, unida em exército para proteger toda uma mão.

o espectáculo branco avança. está agora na fase de imitar a areia do deserto. o céu ri cada vez mais alto. pergunta se alguém já viu um espectáculo mais lindo do que este. questiona-se porque é que nunca o convidam para encenar aberturas de jogos olímpicos ou de jogos menos olímpicos, mas com aberturas dignas de um céu.

olha para o relógio e parte. há mais um espectáculo para começar uns quilómetros a sudeste. o espectáculo tem de continuar.

domingo, janeiro 22, 2012

dono de pedaços de céu

hoje acordei com vontade de devorar o mundo à dentada. contemplar prados durante horas, pegar em montanhas com o toque gentil de duas mãos, elevar árvores à boca tapando a cortina de sol que alumia o dia e finalmente poder deixar fluir mundo pelos cantos dos lábios e pelos cantos das línguas, num festival de amor entre papilas gustativas e concentrados de natureza.

esta vontade encaixa no universo como duas peças de puzzle. daqueles para dois aos quatro anos. tão evidentes que não há como não conseguir fazê-los. dizem dois aos quatro anos, mas hão-de experimentar pôr a caixa do puzzle dentro do útero de gestação e vão ver se quando a criança nasce o puzzle não vem logo impecável. "nasceu, é um menino lindo de três quilogramas e duzentos gramas. e traz a torre eiffel já feita. não se enganou nas peças do puzzle que fazem o céu nem nada. que apgar extraordinário."

o céu é sempre difícil nos puzzles. a tendência é dizer que as peças são todas azuis e iguais. desafio-vos a olhar para cima num dia de céu limpo, nuvens à parte (faz de conta que foram de férias para outro lugar. um resort. que as nuvens gostam muito de pulseira no braço e regime de tudo-incluído), e afirmar que o céu é todo igual. jamais. o céu é todo diferente. tem espaços próprios, tem desenhos multi-facetados, tem cercas que definem os espaços de cada um dos seus donos. há quem acredite que até cemitérios tem. eu pelo menos estou sempre a ouvir dizer que quem morre e se portou bem vai para o céu. quando era pequeno achava que isto era regime de catapulta. o que dava um funeral lindo. agora cresci e já sei que não. realmente vamos todos para o céu quando morremos. a atmosfera é feita de nós e nós somos feitos de atmosfera.

por isso somos donos de pedaços de céu. no dia em que olharem com força, concentrados, para um pedaço de céu, conseguem ver os sorrisos da gente que ali mora, os carrosséis de alegria perdidos em cabelos soltos ao vento, as bancas de algodão doce disfarçadas de nuvens, outras vezes delas próprias, os polícias sinaleiros decididos, e com bigode, claro, a pedir a asteróides que se desviem e a satélites que se comportem como máquinas crescidas.

re-penso. afinal não somos só donos de pedaços de céu. somos também dos aromas, dos cheiros e das cores. todas. até o azul que parece sempre igual esbatido numa tosca peça de puzzle, feito para crianças dos dois aos quatro anos, mas que no fundo é a metáfora em cartão daquilo que cozinhamos nós próprios durante toda uma vida.

as fábricas das coisas

lembro-me como se fosse hoje de como os meus olhos irradiavam alegria quando, sendo ainda uma amostra de gente, estava a ler um livro do petzi em que ele vai ao pólo norte e descobre que as auroras boreais são feitas rodando uma manivela. claro que é muito difícil chegar à sala onde são feitas as auroras boreais. está no topo de uma montanha, fechada ainda a mais do que sete chaves, e guardada pelo seu proprietário privado, o rei do pólo norte.

se é verdade que o tempo passou por mim, não passou contudo pelos meus olhos, que continuam a irradiar da mesma forma quando trabalham em solidariedade com a minha imaginação e se perdem de mãos dadas na construção de argumentos que expliquem o porquê das coisas.

nunca fui de engolir a teoria de que as coisas são o que são porque sim. 'porque sim' nunca me pareceu resposta para nada. se tudo fosse 'porque sim' não havia lugar à imaginação. era uma espécie de sanatório privado da mente, impartilhável de tão louco. procurar as rodas dentadas que estão por trás do mostrador (lindo) do relógio é um modo de vida. não tenho descanso enquanto não encontrar mais e mais fábricas das coisas.

quero ver o igloo gigante onde produzem todo o gelo do mundo. a casa das máquinas que está na base do vulcão, de onde todos os dias saem trabalhadores furibundos, por volta das seis da tarde, com o permanente queixume de 'está lá um calor que não se pode'. de certeza que há fábricas para isto tudo. cheias de operários. mais não seja operários da mente. a navegar em neurónios em vez de vagões. a alimentar-se de electricidade em vez de sandes de carne assada.

podia parar para pensar se a fantasia faz bem. mas, além de não conseguir parar, tenho isso como um dado mais do que adquirido. as auroras vão continuar a encher o céu da noite de cor, sorrindo para a lava que os vulcões expelem e para o gelo que brinca aos pontos de solidificação. mais dia menos dia chegamos às rodas dentadas. até lá, aproveitemos para viver felizes no mostrador.

sábado, janeiro 21, 2012

vamos falar do tempo?

os dias de chuva e frio têm o condão de ir buscar o mais uterino que existe em cada um de nós.

é romântico (e nalguns casos sincero) dizer que adoramos correr à chuva, saltar de poça em poça ou amar a e na natureza. mas esse ideal cinematico-fantasioso é bonito com chuva tropical. com nuvens a rodopiar elecricidade e palmeiras em fúria. sabe o nosso corpo que umas horas depois tudo seca e o ciclo da vida vai-se repetir sem parar.

quando falamos de chuva fria, que o vento arrasta pelos colarinhos, a brincadeira já não é tão inocente. raramente se associa a prazer. gera dias incómodos, em que ou assumimos a molha ou perdemos a capacidade de resistir e acabamos por ceder a mil engenhos de combate à chuva, que mais nos fazem parecer soldados, em pleno campo de guerra contra a força sobrenatural da natureza. voltamos feridos da batalha, com varetas saídas de tecidos, casacos encharcados, calças com um degradé inesperado de ganga escura e ganga clara e calçado com ar de ter passado o dia num parque aquático.

pior ainda é o facto de essa chuva entrar directamente no cérebro, sem pedir licença, deixando toda a gente no auge da má disposição, resmunguice e falta de tolerância. gosto muito que o homem tenha ido à lua, mas tinha sido dinheiro mais bem gasto se tivesse sido investido a desenvolver fatos parecidos aos de astronauta para usarmos em dias destes. afinal o capacete dá ares de aquário, a integração no meio aquático seria total.

no final do dia contamos os despojos de guerra, fechamos as contas, e qual homem pre-histórico refugiado na sua caverna, ocultamo-nos do lado de lá de um vidro e sentimos a tranquilidade e a paz no calor de um chocolate quente, sentindo o sangue a subir também ele quente até à alma, enquanto lá fora a chuva teima em não parar...

sexta-feira, janeiro 20, 2012

o contraste não é só um botão no comando da televisão .

as estações do ano são meras brincadeiras de calendário. tal como os dias, os meses ou as horas, são meras convenções usadas com o mesmo fundamento com que se usa um cão para orientar um rebanho. o rebanho precisa de referências. não se questiona se precisa, mas dizem-lhe que precisa, ponto final. parágrafo. parágrafo o tanas, que eu não obedeço a ordens. agora sim.

mais do que a data no calendário, ou do que a coluna de mercúrio por trás do vidro, a natureza corrige essas megalomanias humanas da sistematização com a sua própria vontade. adora brincar ao extremo calor no outono ou à chuva durante dias a fio no verão. ri-se a ver o boletim meteorológico e a contrariá-lo. cai do sofá de regozijo quando vê seres vivos tirarem três semanas destinadas a areia e água salgada, por saber que lhes vai trocar as voltas, oferecendo-lhes afinal três semanas de programas manhosos na televisão e refreshes contínuos nas redes sociais, apenas feitos num apartamento mais junto ao mar do que o habitual.

a natureza sabe viver no seu contraste. diverte-se a viver no seu contraste. e o ser humano, se fosse esperto, deitava-se num leito de folhas caducas e abria bem os olhos para notar a vida que mora nas diferentes cores das folhas em mudança, no pólen solto ao vento a jogar à apanhada com as abelhas ou na difícil prova de escalada que um escaravelho leva a cabo na relva.

o contraste é tudo menos ordenado. com certeza que o adoro por ser caótico, por ser manivela do avesso, por ser o rio que corre ao contrário, mas por sua conta, ao seu ritmo, totalmente imune a riscos em calendários ou a cães que o dirijam para uma qualquer direcção.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

por entre as gotas da água da chuva correm os fotões que iluminam o sentir .



(picture by anuar patjane)

a frustração, o pai natal e os triciclos que se transformam em bicicletas

de vez em quando dou por mim a parar para pensar sobre determinados sentimentos humanos. depois lembro-me que devo utilizar antes os minutos das horas dos dias para correr no parque, ler ou ir dar banho ao cão, esse cão que é a vida. mas o fim do dia chega. e volto à estaca zero em relação ao sentimento, que ficou à espera de ser pensado, como se fosse um amontoado de folhas no canto do mesa, debaixo de um post-it amarelo a gritar 'urgente!'. chegado à estaca zero (e é bom as estacas ainda servirem para algo mais útil do que apenas subtrair a vida a vampiros) o processo desenvolve-se do modo pouco organizado que seria de esperar.

hoje preocupou-me a frustração. porque é que sentimos frustração. em que medida a frustração é directamente proporcional à expectativa. creio que a frustração não nos acompanha desde o momento zero. não há memórias escritas de crianças com menos de três anos, mas acredito que nessa fase as respostas sejam essencialmente viscerais. emocionais. viscero-emocionais.

a frustração só começa a aparecer quando mergulhamos no racional e passamos a criar um esquema mental do que é a expectativa. a partir desse momento é aberta a porta à frustração. a promessa não cumprida gera frustração. o resultado abaixo do esperado gera frustração. a descoberta de que afinal o pai natal não existe gera frustração.

claro que, fruto de tanto cruzamento genético ao longo de tantos milhares de anos, e de tanto embebimento em sociedade, também desenvolvemos diferentes formas de combater a frustração. o caminho mais fácil é certamente trocar apenas duas ou três letras e transformar a frustração em prostração. pelo meio há uma via com mais algumas letras do que a prostração, a procrastinação, em que apenas adiamos a resposta à frustração. por último, o caminho mais difícil, assenta em ver oportunidades na crise, de maneira a chegar às expectativas iniciais, ao invés de puxar as expectativas para um nível mais baixo e ser feliz pela redução da fasquia.

no fundo a vida pode resumir-se ao momento em que largamos o triciclo para aprender a andar de bicicleta. à primeira queda, pelo meio das lágrimas e da vitimização contra o alinhamento dos corpos celestes, o piso escorregadio ou o carro que apareceu do nada, há que tomar a opção: andar de triciclo a vida toda ou cair mais umas quantas vezes, sabendo que mais tarde poderemos ser o lance armstrong lá do bairro.

terça-feira, janeiro 17, 2012

não concordo a 100% mas anda numa percentagem lá perto

acho o texto delicioso. só não subscrevo na totalidade por alguns pormenores. nomeadamente há ler e ler, ainda mais do que há mar e mar. o fim é particularmente delicioso e está tatuado no meu coração :)

" Date a girl who reads. Date a girl who spends her money on books instead of clothes. She has problems with closet space because she has too many books. Date a girl who has a list of books she wants to read, who has had a library card since she was twelve.

Find a girl who reads. You’ll know that she does because she will always have an unread book in her bag.She’s the one lovingly looking over the shelves in the bookstore, the one who quietly cries out when she finds the book she wants. You see the weird chick sniffing the pages of an old book in a second hand book shop? That’s the reader. They can never resist smelling the pages, especially when they are yellow.

She’s the girl reading while waiting in that coffee shop down the street. If you take a peek at her mug, the non-dairy creamer is floating on top because she’s kind of engrossed already. Lost in a world of the author’s making. Sit down. She might give you a glare, as most girls who read do not like to be interrupted. Ask her if she likes the book.

Buy her another cup of coffee.

Let her know what you really think of Murakami. See if she got through the first chapter of Fellowship. Understand that if she says she understood James Joyce’s Ulysses she’s just saying that to sound intelligent.

Ask her if she loves Alice or she would like to be Alice.

It’s easy to date a girl who reads. Give her books for her birthday, for Christmas and for anniversaries. Give her the gift of words, in poetry, in song. Give her Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Let her know that you understand that words are love. Understand that she knows the difference between books and reality but by god, she’s going to try to make her life a little like her favorite book. It will never be your fault if she does.
She has to give it a shot somehow.

Lie to her. If she understands syntax, she will understand your need to lie. Behind words are other things: motivation, value, nuance, dialogue. It will not be the end of the world.

Fail her. Because a girl who reads knows that failure always leads up to the climax. Because girls who understand that all things will come to end. That you can always write a sequel. That you can begin again and again and still be the hero. That life is meant to have a villain or two.

Why be frightened of everything that you are not? Girls who read understand that people, like characters, develop. Except in the Twilightseries.

If you find a girl who reads, keep her close. When you find her up at 2 AM clutching a book to her chest and weeping, make her a cup of tea and hold her. You may lose her for a couple of hours but she will always come back to you. She’ll talk as if the characters in the book are real, because for a while, they always are.
You will propose on a hot air balloon. Or during a rock concert. Or very casually next time she’s sick. Over Skype.

You will smile so hard you will wonder why your heart hasn’t burst and bled out all over your chest yet. You will write the story of your lives, have kids with strange names and even stranger tastes. She will introduce your children to the Cat in the Hat and Aslan, maybe in the same day. You will walk the winters of your old age together and she will recite Keats under her breath while you shake the snow off your boots.

Date a girl who reads because you deserve it. You deserve a girl who can give you the most colorful life imaginable. If you can only give her monotony, and stale hours and half-baked proposals, then you’re better off alone. If you want the world and the worlds beyond it, date a girl who reads.

Or better yet, date a girl who writes. "

Rosemarie Urquico

segunda-feira, janeiro 16, 2012

stay off your windows, go to the basement.

os fenómenos da natureza e os fenómenos da criação estão tão bem ligados entre si como o queijo parmesão quando derrete no meio da massa acabada de sair do forno.

nesta esfera toscamente esculpida varia a intensidade ou o foco desse conglomerado. na minha terra de sempre entretia-me a ver um feijão dar origem a um feijoeiro numa simples bola de algodão, sedenta de água para fazer crescer o seu protegido rebento.

aqui a natureza tem um modo elegantemente violento de brincar à criação. a ferocidade do que estou a ver pela janela faz-me pensar que estou a observar o momento da origem do mundo e da vida, e nem sequer tenho de pagar bilhete.

por entre as sirenes contínuas, os sons do gelo a bater com violência nas janelas (até este ironicamente a ver a sua queda fora de época) e o vento que ameaça árvores resistentes a tantos anos de tantas outras coisas, fico no meu canto a pensar como isto é belo e essencial.

o riso e o choro parecem combinar-se num só, sob a forma de tempestade. se o leonardo aqui estivesse sentado concordaria que o enigma da gioconda não é mais do que a tradução em pintura de toda esta turbulência de incertezas que nos penteia a imaginação e nos deixa a sede de tudo descobrir, assumundo issso como sentido da vida.

imagino como deve ser difícil domar todas estas reacções químicas. bem mais difícil ainda domar o significado do que vem dentro, abaixo e acima delas. os azotos andam doidos a chocar com hidrogénios. não porque estejam em combustão para fazer andar carros, barcos ou aviões. estão a chocar porque é assim que eles sabem funcionar. é assim que eles sabem criar.

chamam-lhe tornado e avisam que a luz vai faltar em breves minutos.

irónico. olho lá para fora e juro que nunca vi tanta luz na vida.

(texto escrito em 25 de agosto de 2011)

domingo, janeiro 15, 2012

agá dois oooooh

adorava assistir à consulta de psicanálise de uma gota de água.

ninguém dá muito valor aos blocos dessa coisa sem cor ou cheiro que faz tanto parte da nossa vida que até faz parte de nós. e está em maioria. daquelas que dá para mudar a constituição e tudo. sim, a água tem a capacidade de mudar a nossa constituição, sem sequer precisar de assinatura do presidente da república.

claro que a falta de cor e de cheiro são rapidamente contornados pela nossa inexorável capacidade de destruir tudo aquilo que criamos, mas sobretudo aquilo que já cá estava antes de nós próprios estarmos criados.

a nossa luta com a água é milenar. agora estamos particularmente aptos a dar-lhe sabores e cores. do ponto de vista comercial nunca percebi muito bem uma água com sabor. sabe sempre a garrafa de sumo lavada à pressa com água. nem é sumo nem é água. mas quem sou eu para me perder nos caminhos do marketing?

prendo-me, isso sim, com a curiosidade de imaginar o id, ego e super-ego de uma gota de água. estava ontem a vê-las cair do céu, e a pensar quão díspares são as suas personalidades. umas vinham aos salpicos, outras a cair com a força de pedras, e por último caíram algumas mesmo sob a forma de pedras. não deve ser fácil a estabilidade para um ser químico que tão depressa é líquido, como sólido ou gasoso. eu cá não gostava nada de ter essa facilidade. se é verdade que me dava jeito evaporar na altura de pagar os impostos, seria bastante desagradável solidifcar quando estivesse a correr para fugir de um rinoceronte. a menos que pudesse escolher por mim quando havia mudança de estado e para qual. assim 'tá bem.

lá re-caímos nós no mesmo (além de abusarmos das redundâncias como de costume). por mais voltas que dê nunca deixaremos de ter a mania que queremos e podemos controlar tudo. o universo vai-se rindo de nós, fazendo razias irónicas de asteróides, como quem goza com o seu primo inocente que nunca viu as luzes da cidade. um dia ainda vamos perceber quão escravas as nossas moléculas são de poderosas super-novas e re-fazer a escala de valores no mesmo tempo em que se faz uma prova dos nove.

até prova em contrário vou continuar a reflectir sobre a gota de água deitada no divã, a divagar depressa sobre os seus problemas de labilidade de estado. e isso chega para me fazer feliz.

o fabuloso mundo da parte de trás

aposta-se tudo na fachada.

nas casas, como na vida, quem tenha de se decidir a decorar com pompa e circunstância uma das faces do cubo (ou cubo alargado), pensa sempre no sítio por onde as pessoas vão entrar, ou para onde vão olhar de relance quando por ali andarem. usam colunas, batentes dourados, tintas caras, nalguns lados até seres humanos com ar de capitão reformado da marinha ali pontificam para embelezar o cenário.

adoro a mística da parte de trás de um prédio ou vivenda. é onde se desiste da decoração mas mora a honestidade do ser. entre relvas mal cortadas e plantas exoticamente deixadas ao acaso vivem-se os momentos da infância e ouve-se o grito de que é hora de ir jantar ou tomar banho. ali, escondido do mundo, escondido de tudo, é possível sonhar, entre um joelho que fica preto da terra ou aquela comichão da comunhão com a natureza, em que uma formiga insiste em trepar pela pele acima.

também nos blocos de betão isto mantém validade. por exemplo com o parque de estacionamento transformado em campo da bola, com carros a fazer de balizas e vidros de carros a fazer de cartão vermelho. ou, mais por estas bandas, com as escadas de emergência, que conseguem transformar um poço urbano hipoteticamente vazio em algo próximo de uns bastidores de palco, mostrando com ferro desnudado a verticalidade de uma espécie de roupa interior da habitação.

de certeza que a porta da imaginação mora mais facilmente no lado das traseiras. não imagino a alice a sair pela porta da frente, e ainda menos o coelho apressado a usar elevadores, ao invés do esqueleto orgânico que mora no sítio das coisas esquecidas.

sábado, janeiro 14, 2012

falavam na rádio

ouvia-os ao longe.

os mercados estavam numa espécie de pânico. tinha caído um por cento de qualquer coisa que não percebi bem o quê. magotes de gente enchia ruas e queimava lojas e carros. almas perdiam-se em sobressalto e os meus olhos não ouviam bem a explicação.

fechei-os e deixei-me voar. seguir aquela linha branca que o avião deixa no céu e mergulhar na natureza de blocos de nuvens em explosão feroz. lembro-me que nadei com os raios e me esfoliei com blocos de gelo enquanto via os unicórnios em modo selvagem a correr à minha volta. assentei o tapete onde repousava e sorri para a lua, que se mostrava lá para cima dos choques de neutrões com beijos de lábios fechados.

por fim saltei para o abismo do cheiro a canela que a terra tem quando chove, e corri pelo meio da tempestade até perder a noção do molhado. quando os pensamentos estão quentes como uma baguete acabada de sair do forno não há chuva ou gelo que os consiga infectar de mal-estar. dei mais uma ou duas voltas pelas redondezas, com dois linces por uma trela e um leopardo à solta, resmungando com a falta de bifes do lombo na sua dieta actual.

lá ao fundo caía mais um por cento. mas eu continuava deliciado com as manchas do leopardo e os seus sons de amuo.

no fundo recuso-me a aceitar os limites que me vendem de que há uma linha entre o sonho e a realidade. essa linha? cada um que a trace.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

rodelas de gengibre com um toque de pó de estrelas

na fronteira do infinito não serve de nada ter visto ou passaporte. os guardas são outros. em vez de fardas vestem vestidos pretos, perigosamente decotados, e trocam botas engraxadas por saltos altos de cores garridas, que não são mais do que portais da extremidade da perfeita arquitectura que se segue.

por mais que esperem por carimbos eles não chegam sob a forma de tinta. imprimem-se através da pele, tatuando partes específicas do coração ou entranham-se em sabores frutados de línguas que brincam ao jogo da serpente manhosa. à volta há édens. daqueles que, em vez de macieiras e casais puros nus, têm serpentes já com anos e anos de maçãs comidas, preocupando-se com a dose de carvão que enche os fornos que adornam as paredes do éden, e não com a conversão dos inconversíveis.

vê-se uma luz que ninguém percebe bem se é clara ou escura, porque os olhos estão maioritariamente fechados. quem sabe ver sem ter de separar as pestanas, delicia-se a contemplar com as mãos, a decifrar com a face, a tirar texturas com joelhos. o sétimo sentido está sempre ao rubro junto à fronteira do infinito.

o barulho das luzes torna-se cada vez mais fugaz, entre o cheiro das especiarias que decora a pele molhada por uma calda que parece vir de uma lata qualquer comprada num canto de uma loja gourmet refundida atrás de um portão de ferro. guardada por gárgulas, também elas despidas, e com ar de quem ri como uma hiena. a hiena não sabe porque ri, dizem. provavelmente dizem mas não sabem.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

que manchete gostava de ver amanhã nos jornais ?

o doce tango entre o hemisfério esquerdo e o direito

anos e anos de evolução do ser humano no planeta terra (boa, começo por cometer o triplo erro de cair na nossa típica fraqueza de necessitar da dimensão tempo, espaço e massa para não sentir a vertigem do desconhecido) levaram-nos a desenvolver aquilo que é geralmente considerado como o sistema nervoso mais diferenciado da escala animal. basicamente sabemos que temos uma linha de raciocínio (bom, talvez com excepção do futre nos finais de tarde de alguns dias) e achamos que a capacidade de pensar de modo complexo nos coloca no trono do reino animal. o leão bem pode achar que é o rei da selva, que o do planeta está há muito definido.

não sei há quanto tempo nos separámos realmente do macaco, e deixámos a nobre arte de grafitar paredes de cavernas de borla e por misticismo para a trocar pelo uso de pincéis, telas e casas de leilões que vivem da continuidade do que foram bois desenhados em grutas. se pego neste ponto sensível é porque o recurso à pretensa pre-história (pretensa porque já consegui viajar no tempo até à Idade Média, mas para trás disso ninguém vai porque como se sabe a portagem é para cima de cara) nos faz ver que o cérebro direito sempre esteve em evidência desde o início. ainda antes de pensar o suficiente para talhar pedras numa forma cilíndrica, e arraçar objectos de roda, já o homem exprimia a sua chico-espertice a desenhar, a criar armas para a caça ou a desenvolver esquemas de sobrevivência. se é verdade que já há algum cérebro esquerdo ao barulho (vulgo inteligência racional no seu sentido clássico) o comportamento tinha também muito de artista.

todos estes anos passados, mudados os pincéis ou os campos de caça, a epifania continua para mim a ser alcançada no momento em que conseguimos pôr os hemisférios esquerdo e direito a dançar uma espécie de tango perfeito, em que se seduzem mutuamente e em que aplicam, com a intensidade máxima que conseguem atingir, a sua capacidade de comportamento solidário. quando esse tango atinge o auge, conseguimos finalmente ver. nem precisamos bem dos sentidos todos. ou até temos mais do que aqueles que nos vendem que existem. o reflexo de um raio de sol num qualquer cristal de quartzo pode então parecer explicar-nos ao mesmo tempo a teoria da relatividade e o im blau. porque quem só se esforça por dominar uma das forças cai irremediavelmente no erro de não as deixar guiar a dança. e toda a gente sabe quão mal visto fica um mau dançarino.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

ode à loucura e ao desvio

adoro as convenções. a bem ver odeio-as. mas como adoro a ironia apeteceu-me começar o meu texto com uma ironia. gosto tanto da ironia. mas sobretudo de quando alguém não a entende e eu repito a minha piada parva (poderei eu chamar a isso uma piarva?) de que "irony" não é só um relógio da swatch. acabo de fazer publicidade e agradeço que a famosa marca suíça me transfira o respectivo valor para a conta. obrigado.

pondo alguma ordem (ou será desordem?) no que quero escrever, é magnífico como noventa e nove vírgula nove nove nove nove por cento da mole que habita este planeta encarrila em organizar em gavetas perfeitinhas o caos próprio do pensamento e da personalidade, na mesma mania mecanística e maquinística das carruagens de ferro que encarrilam no sítio devido quando atravessam países e países. por definição de normalidade entende-se aquilo que a maior parte da multidão é.

os loucos são obviamente diferentes. mas o curioso é que os diferentes também contam como loucos. o desvio é sempre visto como uma agressão. o querer sentir ou experimentar de outra maneira é sempre visto como um crime, como estupidez, como insensatez, ou como qualquer outra coisa, acabada em 'ez' ou não acabada em 'ez', que permita que o bolo do círculo forme um conjunto que olha com ar reprovador para o indelicado ostentador de uma realidade fora do círculo.

se há coisa que ainda não conseguiram condicionar, excepto nos livros de ficção científica, é o livre arbítrio. lamento, mas não conseguiram. não me falem de exemplos, porque eles não existem. os escravos? horrível e lamentável situação, mas podem a qualquer momento pegar numa pedra e esfolar o escravador até ao último grito. os fiéis devotos? não lhes tiraram o livre arbítrio, quando muito abdicaram dele.

sendo o livre arbítrio omnipresente (em qualquer universo, em qualquer casa de botão ou do tabuleiro do monopoly) era interessante que, a pouco e pouco, o círculo desse conjunto se fosse fechando, e cada vez mais indivíduos conseguissem perceber que bem mais importante do que os anos que alguém leva da vida é a vida que leva desses anos (a frase não é minha, é do lincoln, não o carro, mas sim o tipo de barbicha que aparece nas notas de cinco dólares).

ah, e já agora, todo o tempo que se perde a condenar aquilo que supostamente é a loucura ou o desvio, acreditem que era tão mais bem utilizado a aproveitar para olhar para as coisas com olhos de ver, a ver a luz que emana de um livro numa estante ou as vinte cores, e não sete, que o arco-íris tem.

no dia em que morrerem, muito mais importante do que levarem ou não a etiqueta de louco, é terem a certeza de que morrem felizes, parte do conjunto ainda mais infinitamente minesimal dos montes de moléculas que atravessam a terra e a água desta rocha mais-ou-menos esférica, que é a terceira a contar do sol (contagem para quem vem de lá, já agora).

parabéns a 'nocês'

o oranginalidade tem o prazer de comemorar hoje precisamente oito anos. oito anos em que tanto se passou que é engraçado perceber como este blog cresceu comigo.

como forma de comemoração, em jeito de expansão, os posts passarão a ser publicados paralelamente numa página de facebook.

com altos e baixos de intensidade de publicação, mantenho-me fiel à prerrogativa que me levou a começar a escrevê-lo a 11 de janeiro de 2004, trazer-vos, o mais possível, laivos de cor e originalidade ao mundo cinzento e padronizado para onde tantas vezes nos parecemos encaminhar.

a todos!

terça-feira, janeiro 10, 2012

a toupeira-com-asas

um dia sentei-me num precipício cujo fundo era o centro da terra ou ainda mais longe do que isso.

apenas para contemplar o tipo de criaturas que conseguem ir e vir entre as várias camadas da terra, sem ter de comprar bilhete em nenhum comboio ou arranjar asa-delta de aluguer. percebi que o ser mais sortudo de todos era a toupeira-com-asas.

a toupeira-com-asas tem múltiplas qualidades. consegue voar, o que lhe permite correr vales e montes e mais vales e descer por precipícios e voltar com algum prémio guardado entre os dentes. ao mesmo tempo a toupeira-com-asas pode a qualquer momento mergulhar na terra e ir furando caminhos até onde bem lhe apetecer. deve usar isto muito mais para fugir ao trânsito do que para roubar cenouras a agricultores, não sei de onde lhe vem a má fama.

embora a toupeira-com-asas não seja bela, não há bela sem senão. pus-me a pensar quão estranho seria uma toupeira com asas chamada toupeira-com-asas ter a mania de que é tão superior só porque pode a qualquer altura voar ou tornar o meio do planeta uma espécie de queijo suíço. é que eu não consigo fazer nenhuma das duas, pelo menos sem a ajuda de um para-quedas ou de uma picareta, portanto fiquei mesmo no limite de amuar, até já com um dos pés para lá do limite.

depois lembrei-me que a toupeira-com-asas não consegue ver. de que lhe serve voar sobre os mais altos montes ou chegar ao fundo do manto vulcânico se lhe falta a leica mental para guardar essas imagens e pintá-las na memória com guaches de muitas cores? porque a vida é como uma boa peça de fruta... por melhor que seja a aparência da primeira vista, o que importa é o sabor e a textura do que lá vem dentro.

a dança da sedução

a natureza tem caminhos próprios para mostrar ao mundo que sedução não é mais do que a definição universal de algo que chama.

penso em corpos que dançam com a sensualidade das formas cruzadas com luzes de muitos pontos do arco-íris, folgados em suor de movimento e ritmados com a força dos graves, que desperta o mais circadiano que há em cada molécula de um ser vivo. anos e anos de sedução espontânea, visceralmente inventada a partir da tentativa/erro, em tácticas de quem convence uma presa a ser caçada, desconcentrando-se por se concentrar num ponto único e baixando todas as guardas, enroscando-se em vulnerabilidade.

os cantos das sereias. os encantos das serpentes. as vontades. os repentes. tudo isto tem marcas em genes. vai passando de modo silencioso, umas vez apura-se, outras depura-se, mas o importante é que há genes em que ninguém toca e a sedução tem a perserverança do carbono quatorze.

depois paro junto ao jardim do lusco-fusco para perder o olhar em dois esquilos que brincam, e os tons laranja já perdidos em noites sem fim, fazem-me perceber que há sedução em volta. mais do que os dois esquilos vejo centenas de pirilampos, jogando o seu jogo da fluorescência. penso 'é só o fósforo a querer mostrar que é um elemento espectacular e não apenas um pauzinho, fechado numa caixa, para acender fogões ou lareiras'.

mas não, decido que é muito mais do que isso. a natureza mostra-me que a sedução sempre lá esteve. esta luz chama-me e faz-me parar, com o mesmo poder de duas mãos que me envolvam e me façam sentir que estou periclitantemente a tropeçar para outra dimensão. parece tão diferente, mas é tão igual. por isso sei que as supernovas às vezes também se tocam, e sorriem entre si, como quem rouba um beijo atrás de uma coluna de um sábado à noite.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

deuses que te tiram da cama

mesmo um niilista sabe que é bem verdade que há deuses com capacidades poderosas. eu conheço alguns e tenho provas bem mais fortes disso do que se tivesse imagens divinas a aparecer-me numa torrada do pequeno-almoço.

adoro sobretudo algumas espécies particulares de deuses. daqueles que, em vez de andarem a brincar às tempestades, sentados em nuvens de algodão solto, preferem aninhar-se em ombros e braços, e braços e ombros, e por aí fora. esses são deuses muito mais determinados. escalpelizam a pele onde nem tem escalpe, porque querem resguardar-se no prazer de um cheiro próprio, de uma cor torrada, em zonas de fronteira da dor com o prazer.

falando com estes deuses, eles respondem-me quase sempre com um sorriso. aquele sorriso da inocência forjada de um querubim, da malícia benevolente de quem sabe que se o prazer é pecado, então o pecado é sinónimo de luz, porque treva não é de certeza.

vou continuar a visitar os deuses. são deuses com muita força. uma força que até me tira da cama. e saio de lá a poder caminhar sobre a água. ou nadar de costas sobre o vento. perdido em deuses em deusas, e dias trocados em noites como quem troca lábios e lábios de melancólica doçura.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

há sempre estrelas no céu a dourar o meu caminho

há muitas teorias sobre quem está no céu. mas as estrelas, pontificam lá de certeza.

podem lançar a hipótese de que quando as moléculas se desintegram a "alma", vamos lá, gira em espiral e se vai acomodar no céu. contem de geração em geração que um senhor de barbas lá mora e tudo comanda. imaginem deuses com oito braços, atentos e vigilantes noites fora, sobre o comum dos mortais. façam isso tudo sem se chatearem uns com os outros, de preferência.

eu cá não tenho grandes certezas sobre o que está no parágrafo acima. humildemente falta-me essa capacidade aparentemente tão universal de ter certezas sobre tanta coisa. tenho outra certeza, que me satisfaz plenamente (como era bonito ver isto escrito nos testes da primária... é quase poesia classificar um exame escrito com um advérbio de modo). a de que o céu estrelado me acalma, me preenche, me dá a paz que tantos procuram noutros amuletos ou imagens.

sentir que com a ponta dos meus dedos consigo dar piparotes em buracos negros, fingir que engulo uma supernova ou tão só regozijar-me com pedaços de matéria de ex-futura-vida a entrar atmosfera fora, enquanto nos dão a ideia de que isso dá direito a um desejo. eu peço um desejo a essa estrela cadente. que não deixe morrer as outras. que continuem a brincar às formas. o homem tem de se divertir a imaginar leões, w's, ursas, ursos e coisas que tais no céu da noite.

como eu adoro estrelas. nascidas do caos, nascidas do tudo e nascidas do nada. uma brinca durante o dia e depois repousa durante a noite. tirou o bilhete errado, o sol. anda sempre ao contrário. tem raça de guarda-nocturno. quando desce o pano da sua cena, ele sai. levanta-se o pano de novo e entra toda a sua família. quando esta se cansa de tanto teatro invertem os papéis. e assim continuam, a fingir que são um ciclo ordenado e infalível, rindo-se de quem acredita que isso é verdade.

o caos. ah, o caos!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

when you're smiling

já dizia o fantástico louis armstrong que " when you're smiling the whole world smiles with you ".

os meus domingos de manhã ultimamente têm esta melodia a correr-me nas veias. mudei-me para cleveland há quase dois meses. apesar do meu frequente contacto rural e nomadismo, sempre fui um menino da grande cidade, um morador em capitais, um perfeito urbano, viciado nos vícios do urbanismo e feito de sopros que se confundem ao mesmo tempo com rios, castelos, betão, azulejos ou ferro. sempre habituado ao fervor de uma cidade com programação interminável, perguntava-me como iria ser adaptar-me a um mundo totalmente novo e diferente. sobretudo num país que nós, europeus, vemos com tanta desconfiança, por motivos históricos recentes e pela nossa competitividade natural.

cleveland é uma cidade, no geral, vítima de decadência. as únicas excepções são o galopante polo científico e universitário, de qualidade mundial e em crescimento, motivo pelo qual aqui vim parar. praticamente tudo o resto foi vítima de queda. a cidade tinha há quinze anos atrás um milhão e duzentos mil habitantes, tendo hoje em dia pouco mais de quatrocentos mil. foi-se o dinheiro. caiu a indústria. caiu o ferro, o aço, até o le bron james se foi embora e abandonou a equipa dos cavaliers. porque provavelmente há quem não saiba, uma grande parte dos magnatas americanos saiu desta cidade. exemplo crasso j.d.rockfeller, que construiu todo o seu gigantesco império do zero, nascendo e vivendo em cleveland, antes de rumar em força para nova iorque.

a breve explicação da decadência leva-me ao título deste texto. os meus domingos de manhã são passados a andar de bicicleta pelos subúrbios desta minha nova cidade. e a cada dia me maravilho de novo com o arco-íris que cada uma destas pessoas coloca nas nuvens que possam existir. a população nos suburbios é quase a cem por cento de raça negra, o que faz de mim, um claro outsider neste cenário. passo por famílias inteiras, vestidas de modo aprumado, os homens de fatos de cor garrida e as senhoras com vestidos sulistas, todos impecavelmente encaminhando-se para a missa semanal. credos aparte, estas pessoas vão numa perfeita harmonia, alheios à crise, alheios ao desemprego, alheios à desistência da luta. o mais espectacular de tudo é que não há um que dispense acenar-me, dizer-me 'bom dia', mas sobretudo sorrir-me.

re-encontrei nesta terra o valor do sorriso. achava que o natural era vivermos as nossas vidas como sempre a vivi. ir avenida abaixo a pensar em quantos milhares de euros vou gastar em coisas que não me fazem rigorosamente falta nenhuma. se olhar para alguém e sorrir na baixa de lisboa, passo por maluco ou por atrevido. aqui todos se consideram família. as pessoas são genuinamente simpáticas, e o meu filtro, que como tudo na vida pode falhar, faz-me acreditar que são genuinamente boas.

maravilho-me com este paradoxo, na terra onde supostamente imaginamos gente arrogante e sem apreço pelo mundo ou pela vida alheia. a minha nova paixão é essa: trocar sorrisos ao domingo de manhã, como se fosse a coisa mais natural do mundo.



(texto escrito em Junho de 2011)

terça-feira, dezembro 20, 2011

novelos de filosofia

tenho o terrível defeito de nunca deixar as palavras entrar por um ouvido e sair pelo outro, sem as prender para instantâneo ou posterior processamento. defeito, sobretudo, porque o meu armazém mental deve parecer-se com aquelas cidades de construção de electrónica dos chineses, em que noventa e cinco por cento do espaço é ocupado por lixo tóxico, e apenas nuns cinco por cento desta pilha há fábricas de onde saem bonitos aparelhos, que dão novos mundos ao mundo e novos dígitos às contas de silicon valley, shangai e por aí fora.

guardo particular cuidado para processar as palavras mais inesperadas. ninguém nos precisa de dizer "olha, tu lê com atenção esse livro do proust porque é muito interessante" ou "deves tentar interpretar bem o que o garcía marquez queria dizer com isso". para esses estamos preparados. com mais ou menos expectativa, sabemos ao que vamos. partimos vestidos de indiana jones em busca de templos perdidos no meio de infindáveis páginas. ligamos o modo alerta, e qualquer barulho no meio das linhas nos faz olhar de repente e fixar.

já no quotidiano, facilmente desligamos os detectores de informação, para nos deixarmos levar em horas a fio de comportamento zombie, em que rodamos volantes, vestimos casacos, despimos casacos, pegamos em sacos, passamos cartões, ai jesus qual é o código, ai sim o do cartão de crédito é diferente do do de débito, mas meu deus terei ainda eu saldo na conta...

facilmente perdemos pérolas onde elas realmente existem. o conhecimento popular é algo de brutal em termos de filosofia prática. posso perder anos a ler diferentes correntes de pensamento, a discutir de gregos a iluministas, que nenhum deles vai fazer nenhum comentário interessante sobre o orvalho da manhã, sobre como apanhar bem morangos, sobre o toque certo na casca de um abacate para decidir se está bom para apanhar ou não. daí eu não desligar as antenas. muitas vezes durante a minha infância tive a plena convicção de que se pusesse uma toga nos meus avós e nos sentássemos horas à volta deles a ouvir falar do ciclo da terra, das estações, dos conselhos do borda d'água, das melhores e piores colheitas... seríamos um perfeito reflexo das praças de atenas umas centenas de anos antes.

os filósofos, quanto a mim, são aquilo que a etimologia defende, amigos da sabedoria. e não me lembro de ver definido algures que havia um número mínimo de publicações escritas. por isso gosto muito do kant e da luta que teve para tentar casar emoção e razão, mas tenho cá para mim que era menino para chegar à praça e levar para casa ameixas já fora de prazo...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

circo de pulgas

sentado num banco, fisicamente parado, mas com a cabeça em turbilhão, observo o mundo a girar à minha volta, perdendo-me nos milhões de histórias possíveis para os milhões de pessoas que vão passando. são muitas as combinações possíveis. tantas, tantas, que até são mais arranjos que combinações (sim, tinha esta pérola de matemática do décimo segundo ano guardada para usar num qualquer texto de futuro).

aquele senhor todo bem posto, engravatado, dá ar de empresário de razoável sucesso, encaminhando-se para mais uma reunião, onde se vai conversar muito e decidir pouco. estabelecer muitas colaborações. criar muitas pontes. desenvolver muitas ideias. homogeneizar pontos de vista. quando sair de lá, perceberá que ficou tudo na mesma. como em noventa e nove vírgula nove por cento das reuniões. por trás da imagem de empresário de pseudo-sucesso imagino os vícios e desvios de personalidade deste alguém...

perante a sociedade cada um mostra a face que consegue construir. sendo mais habilidoso, talvez consiga até mostrar a face que realmente quer mostrar. mas o conflito na parte considerável do iceberg é bem mais vasto do que isso. a repressão das emoções primárias não significa que elas não estejam lá. assim, o fulano engravatado, que vai para a reunião, pode perfeitamente ter o desejo secreto de atropelar pessoas, avenida fora, a um sábado de manhã. ou de se encher de maquilhagem às sextas à noite e ficar em casa sozinho a cantar maria callas.

e sinceramente, a história dos pensamentos viciados e das emoções reprimidas... é tão, mas tão tão tão mais interessante quando comparada com a história do quotidiano chato, repetitivo e desinteressante da maior parte dos bocados de carne com quatro membros e cabeça agarrados. no mínimo curioso, porque o conhecimento dos armários desta gente podia revelar-nos um interesse que de outra forma será totalmente inexistente.

o tipo foi-se embora. em passo acelerado. a reunião vai começar. dou-me ainda ao luxo de imaginar que tropeça à entrada da sala de reunião. que sua que nem um suíno (deve ser por isso que as palavras parecem etimologicamente primas uma da outra, verbo e substantivo) com a ansiedade e molha de cloreto de sódio as mãos dos outros participantes. enquanto lhe vão falando de outsourcing, benchmarking e downsizing, ele vai imaginando no fundo do seu ser que podia pendurar todos aqueles indivíduos por um gancho, de pernas para o ar, e desenhar hieroglifos nas suas peles, com uma faca de cortar presunto. fininho.

sei que a minha imaginação é tendencialmente demasiado fértil. mas no meu circo de pulgas, sou eu que mando na história. e só vai ao espectáculo quem quiser. o bilhete até é de borla.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

esfero, vi-te

são pedaços brancos e esféricos de poliestireno. isolados, individualmente, não têm grande uso. quando unidos e compactados perdemos a conta à quantidade de utilizações a que se prestam no dia-a-dia, ou até na noite-a-noite (bolas, nunca ninguém dá o devido valor a esta última).


por esse mesmo motivo, acho o esferovite uma óptima metáfora da sociedade. o pior é que ninguém respeita muito o esferovite. é usado e deitado fora. é quebrado por dá cá aquela palha, quando a palha não serve nem para metade do que o esferovite serve. é destruído em pedaços por crianças cegas por descobrir que presente afinal vem dentro da caixa. sodomizado por donas de casa, que apenas querem ver a brilhante misturadora sair da caixa de cartão.


claro que há esferovites mais felizes. os dos barcos, por exemplo. são uma espécie de banksy dos materiais sintéticos. toda a gente admira o seu trabalho, mas ninguém sabe quem ele é. o esferovite tem um papel fundamental em impedir que os barcos se afundem. sei que provavelmente achavam que isso era responsabilidade de pequenos anões (as redundâncias são sempre mais baratas ao domingo, perdoem-me) que esbracejavam no fundo bem fundo do casco enquanto o barco se movia. lamento desiludir-vos, mas são as tais esferas brancas. no fundo não deixam de ser pequenas. no fundo não deixam de ser anões.


só não sei se esbracejam. tenho de mergulhar um dia e ver. ou perguntar aos peixes, que são gente muito entendida nestas matérias do fundo do mar. quem ouve um peixe falar sobre a extensão da plataforma continental portuguesa pergunta-se se não deviam ter um espaço de antena ao domingo à noite num qualquer canal de televisão.


mas essas coisas não interessam. o mundo, também ele esférico, há-de continuar a seguir o seu rumo, cada vez mais cego à beleza que pode encontrar nas mais pequenas coisas. até num pedaço dessa maravilhosa invenção chamada esferovite.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

eclipses

num filme que vi recentemente, gente simples discutia o porquê de se querer ver um eclipse:
" então ontem não veio para a rua ver o eclipse? "
" qual? o da lua? "
" sim, o da lua! foi às 2h30, de madrugada! "
" não, esse não gosto, só o do sol! "
" só o do sol? então porquê? "
" porque o da lua não tem piada nenhuma. há tantas noites em que a lua desaparece. não percebo porquê o fascínio de ver a lua a desaparecer... "


o fascínio com os eclipses deve ser tão antigo como a existência da vida na terra. se é verdade que os da lua são, para além de relativamente frequentes, muito sensaborões, os do sol já têm todo outro sabor especial. basta vermos o desatino caótico em que fica a vida durante um eclipe do sol. os animais, durante um eclipse total, largam os pastos e desatam a correr desenfreadamente na direcção dos seus abrigos, em pânico sem perceber bem como é que o dia acabou tão depressa e sem avisar, como habitualmente faz. até o organismo humano, pelo menos a parte dele que é alheia a essas brincadeiras do racional e do pensamento, reage a um eclipse solar alterando a produção de hormonas, caso estejamos ao ar livre, interpretando o dia como chegando ao fim.


adoro este conceito de micro-jetlag que dura cinco minutos. imagino os planetas em conferência, a decidir como vão girar nos próximos milénios, e algum de repente tem a ideia de que engraçado engraçado era trocar as voltas ao dia, torná-lo noite por uns instantes, e registar com uma máquina fotográfica do tamanho de um marte toda a confusão gerada por esse pequeno micro-desvio ao padrão normal.


decerto podemos arrastar os eclipses para lugares mais profundos do que apenas o céu. imagino como seria um eclipse da água, revoltando-se por nunca ter direito a eclipsar-se. porque é que a água não há de ter direito a desaparecer durante cinco minutos, para se esconder de tudo e de todos? menos fantasioso que o da água, é o eclipse particular dos sentimentos.


a esse assistimos diariamente. olhem à vossa volta, e vão com certeza ver amor tapado por ambição. bondade tapada por avareza. prazer tapado por convenção social. o que mais há são eclipses. e para ver estes nem sequer é preciso comprar daqueles óculos especiais na farmácia...

quarta-feira, dezembro 14, 2011

he and the devil

escrever sobre a morte é consideravelmente mais difícil do que escrever sobre a vida. não que tenha pejo em fazê-lo. já o fiz algumas vezes e continuarei a desafiar a ausência de vida com os mesmos pincéis com que devoro a presença explosiva da mesma.


creio que o ponto mais sensível em relação à morte é tentar perceber o limbo final. entre os crentes, os não-crentes, os anti-crentes e os pseudo-crentes, ninguém se decide se afinal há um túnel, com ou sem luz lá no fim. não há consenso em relação a elevadores com dupla direcção nuvens-centro da terra. não há memória fotográfica de prados verdes com gente vestida de branco (por acaso, não sei porque é que a imagem de céu das pessoas é uma espécie de sensation white gigante... será que o tiesto e o armin van buuren têm lugar garantido no céu à custa dessa brincadeira?). nem tão pouco de grutas profundas, com rios de fogo e seres vestidos de vermelho e preto, com corninhos, caudas pontiagudas e tridentes. se bem que neste último estou mais a imaginar o tom waits e os prodigy em mash-up e a ideia é mais agradável do que milhares com ar celestial a dançar por montes verdes fora e a ouvir o "in and out" mas tocado numa harpa...


gil scott heron era um poço de talento. talvez não reconhecido por todos (gostos não se discutem), mas um daqueles artistas que não precisam de qualquer adereço ou ajuste de equalizador no photoshop das melodias. scott heron era em primeiro lugar um poeta. um excelente poeta. a música era "apenas" o veículo dessa sua forma de expressão. deixo-vos, em palavras do próprio, a perfeita lucidez com que ele imaginava o momento da morte. que chegou para ele, como chega para todos. mas nalguns casos chega mesmo cedo demais...


" Standing in the ruins of another black man's life

Or flying through the valley separating day and night

"I am death!" cried the vulture for the people of the light

Karon brought his raft from the sea that sails on souls

And saw the scavenger departing, taking warm hearts to the cold

He knew the ghetto was a haven for the meanest preacher ever known

In the wilderness of heartbreak and a desert of despair

Evil's clarion of justice shrieks a cry of naked terror

Taking babies from their mamas, leaving grief beyond compare

So if you see the vulture coming, flying circles in your mind

Remember there is no escaping for he will follow close behind

Only promise me a battle, battle for your soul and mine

And mine "


poema retirado do videoclip de "Me and the Devil"

http://youtu.be/OET8SVAGELA?hd=1

terça-feira, dezembro 13, 2011

porque é que as nuvens são feitas de algodão doce?

tentei descobrir porque é que as nuvens são feitas de algodão doce.


mesmo aquelas muito escuras, de certeza que só o são assim porque a senhora da feira deixou o fuso que enrola o açúcar aquecer demais e ficou tudo queimado. apesar de tudo há algum engenho nesta arte, porque máquinas grandes o suficiente para fazer toda esta enormidade não são nada fáceis de esconder. chego a acreditar que há prédios mascarados de prédios só para manter secreta a produção em larga escala de nuvens, doces como os céus em que pontificam.


todas as outras voltas que as nuvens dão, são brinquedos de criança. nada assusta verdadeiramente. o que são flocos de branco, cinza ou azul eléctrico ao pé de tantas outras coisas muito mais impressionantes?


um tornado é um menino, ao pé da força que tem o mar, quando invade a areia sem permissão e lhe impõe a sua força e o seu sal. ou a água que cai deste algodão e é capaz de escavar rochas e fazer de alguns canyons grandes, só porque é essa a sua vontade de escorrer.


para não falar das outras forças, aquelas que nos prendem horas a fio entre lábios brilhantes e olhos propositadamente sombreados. entre sardas perdidas e caracóis soltos. perante essas o céu até desaba, mas no fundo como se lhe desse aquela fraqueza nas pernas de quem tem de falar para uma plateia de milhares de pessoas e não controla a ansiedade.


na verdade é isso. o céu vive alguns dias com um enorme nó, bem apertado, na garganta. as nuvens são gravatas ou laços, que adocicam o seu infinito e disfarçam as revoluções que se passam mais abaixo, nas forças que realmente centrifugam. e centrípetam. alternadamente. sem parar.

domingo, dezembro 11, 2011

saltar ao eixo

quando de vez em quando apanho uma nuvem para andar a brincar aos holofotes por cima de serras, lagos, casas e eslapilos, fico sempre com vontade de dar um pontapé no eixo da terra, só por mera diversão.


sei que posso perfeitamente parar a rotação da terra. ou até bem mais engraçado, pôr a galáxia à volta a rodar à mesma velocidade que a terra gira, e rir-me do desespero alheio ao ver que o dia nunca teria fim para uns e nunca teria princípio para outros. brincar com os astros é quase tão bom como uma sangria de champagne e frutos silvestres, servida num jarro que vem a transpirar de gula, numa qualquer noite de um qualquer dia de verão.


perco-me a imaginar seitas sem fim a anunciar que o mundo agora ia mesmo acabar, que estava escrito nas estrelas. tretas. como é que podem achar que sabem ler os textos das estrelas, quando a tinta que é usada para esses livros já está muitas vezes apagada há centenas de anos? claro que como as palavras são quase tão persistentes como a raiz de um salgueiro, prestam-se a voar através de universos e dias e noites para se mostrarem a quem olha para elas. através de telescópios complexos, no topo de montanhas. ou então apenas de mão dada, deitado na relva, pelo meio de uma tarefa muito mais interessante, que é descobrir no celeste da noite estrelas cadentes e imaginar principezinhos montados nelas.


os profidicuos dos seres humanos, acham que conseguem reduzir tudo a equações. inventar formas de explicar tudo de um modo matemático, organizado, com muitas raízes quadradas, exponenciais e um ou outro integral, mas não daqueles que são fibra nos cereais. pobres coitados, enquanto escrevinham mais um menos na folha quadriculada, um pirilampo voa do lado de fora da janela e ri-se de quem algum dia acreditou que é possível pôr ordem no caos. é que isso sim... seria o fim do mundo...

sexta-feira, dezembro 09, 2011

mercado dos sentimentos

no mercado dos sentimentos, nunca há duas manhãs iguais. não podia ser de outra forma. afinal é um mercado sem compradores ou vendedores, apenas trocadores. desde que foi inventado (na minha cabeça, já só falta registar a patente) tem sido a melhor experiência-piloto de sempre. embora não goste de dar à minha experiência nomes de cães que roubam bouquets de casamento, para que fique claro.

dentro deste mercado ouve-se perguntar:
“ não quer levar um bocadinho de saudade? hoje está aqui que é uma maravilha! saudade tenra como já não se faz ”
“ não, obrigadinho, deixe lá. já levo aqui trezentos e cinquenta de nostalgia. depois são sentimentos a mais para o fim de semana ”
“ então e euforia? se leva nostalgia, porque é que não a salteia e acompanha aqui com esta euforiazinha que está mais fresca do que a manhã?”
“ hmm, e quanto custa?”
“ olhe, só porque é para si faço-lhe a cinco beijos o quilo!”
“ oh, muito obrigado. ponha lá meio quilo então, que dias não são dias”.

e andamos nisto. durante as vinte e seis horas e oitenta três minutos que o dia tem. num passo vamos da banca da raiva em pó ao gratinado de ódio. descendo as escadas (cuidado para não escorregarem, porque alguém desajeitado entornou uma caixa de avareza há coisa de cinco minutos), chegamos à zona favorita de todos, onde o cheiro do amor se envolve com a textura do prazer e a imaculada da bondade joga à apanhada com a fugitiva luxúria.

bolas, esqueci-me da carteira! alguém tem um beijo ou abraço que me empreste?

terça-feira, dezembro 06, 2011

ensaio sobre o mutismo

um clube para o silêncio. a ideia tinha de sair da cabeça do mestre david, não o beckham nem o rei de outras eras, apenas aquele que pega num rolo de película e dá novos mundos ao mundo, desertando do convencional e do terreno palpável e seguro.

dizia ele que o truque do silêncio numa música é não haver banda. tragam a voz, e podemos nós próprios sentir o som de qualquer instrumento. ouvi-lo em surdina, cheirá-lo em tons elevados, devorá-lo em compassos incertos.

será o mesmo com as palavras não cantadas?

como seria um mundo em que ninguém conseguisse falar? não preciso de perguntar o mesmo em relação a um onde ninguém conseguisse ouvir, porque essa é um pouco a história da nossa actualidade. mas, e um mundo do silêncio puro da emissão?

sem esdrúxulas, graves ou agudas. sem ditongos. zero onomatopeias. ausência de ditados. sons deitados para sempre. mutismo completo. seria a escrita suficiente? seria um papel à nossa frente a forma ideal de deitar cá para fora as vontades, ansiedades, liberdades e todas as outras ades?

por mais valor que dê à escrita, a visão não chega. o tacto ajuda, mas o som é uma espécie de reino do butão no mundo das sensações. as palavras podem ser maravilhosas, mas a forma como são ditas tem uma grande quota parte no pormaior que leva ao desarme. é o que faz cair da cadeira. é o que se enrola nos cabelos e os prende para o pescoço na direcção de um beijo que é quase magneticamente garantido na confiança das palavras.

não haver banda pode servir para um excerto do lynch. mas na minha cabeça o som funciona como uma espécie de ave de rapina. paira horas a fio no seu vôo. raramente pára. quando pára é para descer vertiginosamente. por segundos. que parecem por vezes horas. mas são cúmplices com a explosão de palavras ao invés de casados com o mutismo.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

a máquina de lavar memórias é da ariston ou da aeg?

pergunto-me não raras vezes se algum dia será inventada uma máquina de lavar onde se possam pôr as memórias.

tenho a certeza que sim. o homem inventa tudo. mas o homem que tem h grande, não levem a mal. só não me apetece usar maiúsculas, porque pagam um imposto muitíssimo mais caro. se até se conseguiu que andássemos no céu sentados numa cadeira a voar, ou arranjar aspiradores que andam sozinhos pela casa a aspirar (embora estes últimos não vão sozinhos ao frigorífico buscar cervejas, o que é uma infelicidade)... é, deve ser apenas uma questão de semanas ou meses até arranjar tal espécime de electrodoméstico.

claro que uma máquina destas tem de ser programada com muito cuidado. porque o programa para lavar memórias boas e memórias más será tão diferente como um escaravelho o é de uma noz caramelizada. ninguém quer andar por aí a misturar memórias na máquina. já imaginaram quão trágico poderia ser debotar más memórias para uma límpida e clara recordação simpática?

por vocês não sei. mas eu cá não quero a saída em falso do ricardo na final do euro a pingar por cima da visão do mont-saint-michel ao longe. muito menos me apetecia ver uma agradável noite de verão sarapintalgada com restos de um dedo entalado numa porta por mero azar.

no entretanto vou acumulando memórias. podem ser boas ou más. mas enquanto não há máquina, vai ter de ir dando para limpar a seco. amaciam-se a elas próprias sem aditivos, e gozam daquele cheiro típico, a passado. que para mim é um cheiro igual aquele que emana das folhas quando a capa e a contra-capa resolvem brincar aos avessos e se tentam tocar pelo lado mais improvável.