sábado, março 24, 2012

ursos polares em desertos



a sensação de estar perdido numa conversa, numa música ou num local é decerto igual ao que um urso polar sente se o largarem do nada no meio de um deserto.

as âncoras culturais, de espaço e de tempo, são um pouco o índice do livro que construímos ao longo da nossa vida. se nos arrancam essas páginas andamos a saltar apressadamente de capítulo em capítulo, mais rápido que o coelho da alice, imaginando que o chão nos treme sob os pés.

se isso é mau como princípio de vida... estar perdido apenas de tempos em tempos não é obrigatoriamente negativo. ajuda a encontrar e ajuda a desenhar novas derivadas, ajuda a pôr novos carimbos na nossa equação, e quem sabe até a resolvê-la.

lembro-me frequentemente da sensação de perda numa viela (ela própria perdida) das ruas de mumbai. de sentir que ia caminhando, seguindo os cheiros, as cores, o ensurdecedor barulho saindo das várias casas, os pedidos de 'pare aqui, entre ali' e de ter quase entrado em modo de epifania do quão caótico um momento se pode tornar. libertar os cinco sentidos nesse vórtex de primitivismo selvagem encaminha os eixos para uma espécie de alinhamento que quase leva a encontrar o sexto sentido. depois há de novo a luz. neste caso entrar por uma porta, sentar numa mesa suja, encostada a um canto, ignorar todos os olhos postos na pessoa que é estranha a este ambiente, usar as rudimentares palavras em hindi para pedir um prato de lentilhas com especiarias e um lassi doce. mergulhar no sabor da refeição, que traz a história da humanidade agarrada em cada colherada e em cada movimento de sucção da palhinha. sorrir a quem passa, ver que acalmaram a curiosidade e que voltaram à sua vida normal de almoço, à sua conversa. sobre o que será que conversam eles? perco-me a imaginar. agora trocámos de papéis, agora sou eu que os adivinho.

por mais línguas que inventem, por mais dialectos que escrevam, por mais sons diferentes que sejam emitidos, a imaginação é algo que será sempre transversal ao ser humano. e tenho para mim que na torre de babel só não se entenderam o suficiente para a construir porque gastaram demasiado tempo a tentar comunicar por palavras e tempo a menos a tentar comunicar com o coração.

quarta-feira, março 21, 2012

partida, largada, fugida .



a placa das partidas tem o ar sensaborão do branco e do preto, mas quem a cheira de perto sabe que nela se perdem todos outros mundos e destinos, que navegam por corpos como baldes de adrenalina lançados sem pedido de autorização.

o toque da pele dá a certeza da direcção. inventam tantas portas mas quando uma mão toca na outra, e os olhos se cruzam por microsegundos, o mundo todo desaba, as pernas fraquejam, e o íman do destino é mais forte do que aquele castelo que quisemos trazer lá de longe e que colámos toscamente na porta do frigorífico.

os pontos de encontro desencontram-se dos caminhos perdidos. os megafones anunciam partidas mas os nossos olhos só vêem chegadas. cheira a borracha de bagagens e a perfume de hospedeiras mas o nosso nariz só cheira nozes moscadas, praias mascadas, águas mergulhadas e sóis bebidos. lá longe, onde as árvores brincam às construções na areia, e as algas fingem que são tenebrosos tubarões, há um sol que nasce, outro sol que se põe, e horas para ser vividas entre um e outro, para cima e para baixo, como se fôssemos aquele canalizador baixote de bigode que saltava em busca da princesa. no paraíso não há princesas antecipadas. elas aparecem. nascem dos vermelhos com que se pinta o céu e com que se pintam os lábios. e as unhas também, estamos uns mãos-largas com o vermelho. da leve e discreta brisa que teima em ondular os cabelos e dos grãos de areia que sorrateiramente descansam na palma das mãos e assim navegam em caravelas de desejo até às faces acabadas de corar.

mesmo quando o céu desaba é para renovar. corremos na chuva e rimos do tempo. brincamos aos avessos e chovemos no molhado. porque o sorriso é coisa para ter mais energia que um relâmpago. e a energia é aquilo que levamos da vida.

domingo, março 11, 2012

salada de palavras



os rodados marcados na terra são sempre a prova do que por ali passou. paro sempre para inspeccionar provas do tempo, recente ou passado. fósseis de caracol ou rodados de jipe também fazem parte do adn de um lugar, provavelmente bem mais que as coordenadas dadas por satélite.

inventam-se aparelhos que dão (dizem eles) com uma precisão de milímetros a localização de um ponto na terra. irónico como há tanta precisão para definir onde estamos e tão pouca para perceber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. talvez sejam idiossincrasias de domingo à tarde com sol, doce luz a encher-me os olhos e vida a correr-me nas veias.

prendi-me há pouco por momentos nos olhos de um animal que claramente ficou surpreendido com a minha investigação. quer-me parecer que vive ali naquele local, que a sua vidinha passa por aquele parque, pedindo emprestado, sem prazo de devolução, uma ou outra dádiva dos turistas que se sentam na esplanada depois de uma manhã de jardim botânico. na sua postura de carteirista da vida não olha as vítimas nos olhos, pegando no troféu e afastando-se para os seus vegetálicos aposentos arbustados de privacidade. pedi-lhe os olhos. tentou fugir como quem não se quer comprometer. conversámos durante uns bons minutos e acabou por ceder. e nos olhos consegue-se ler tudo. os olhos deviam trazer isbn e código de barras porque nunca vi outro lugar nos animais (de duas, quatro, oito patas, as que vos apetecer...) que fale tanto, ainda que sem sair do silêncio.

perdido na salada de palavras e vida, que ali estavam contidas, sorri. depois fiz-lhe uma festa, ronronei por vê-lo ronronar, espreguicei-me, esse acto de esgar de vontade e levantei-me para continuar o meu caminho. ele ficou parado, a olhar-me, cá para mim a tentar perceber quem é vítima e ladrão no meio desta história toda.

sábado, março 10, 2012

as máquinas dependem todas de uma fonte de energia . até o coração .



escreve-se muito sobre o amor.
escreve-se demasiado sobre o amor.
será que se escreve efectivamente sobre o amor?
não se escreve quase nada de jeito sobre o amor.

não contem que seja eu que venha fazer isso. tenho mais jeito para ler em esplanadas, enquanto bebo goles de café e me perco a olhar para as gaivotas na sua vidinha, do que para eloquência em temáticas amorosas.
o vosso azar é que as gaivotas foram de fim-de-semana e estou sem moedas para comprar café, restando-me apenas a caneta e o papel do moleskine. esperem. está aqui o computador também. vou salvar a amazónia (e um ou outro bocado de monsanto) e usar antes as teclas.

não houve jamais um homem ou mulher que compreendesse o amor. nem jamais haverá. tal como ninguém sabe onde o universo começa ou termina. achando-nos na inteligência de tudo saber, cometemos o erro de frequentemente achar que os limites do universo, o amor, ou a razão pela qual a torrada cai sempre com o lado da manteiga para baixo, não nos escapam à compreensão.

erro. é bom compreender. mas é melhor ainda viver. o amor existe para ser vivido. tal como o universo existe para ser vivido. a história da torrada e da manteiga já não é bem assim, mas fica para outro dia que eu não gosto de falar de manteiga em textos que vacilam deslizantemente para o campo magnético do amor.

todo o tempo que é perdido a discutir o geral é fascinante. porque uns amam devagar demais. outros amam depressa demais. uns param demasiado para pensar. outros deviam parar para pensar. uns sabem gostar. outros não sabem gostar. o amor morre. o amor vive. paremos.

paremos, não para pensar, mas para aproveitar melhor o tempo, porque esse não pára e, vulgarmente, ri-se de quem não o sabe usar. dêem as mãos e sorriam mais vezes. discutam a forma das nuvens mais vezes. sintam que adormeceram com a vossa metade e que acordaram com a vossa metade. a vida está cheia de detalhes e a teimosia continua a ser em falar da forma em vez de mergulhar no conteúdo.

o vosso coração precisa da arquitectura correcta para funcionar. como todas as máquinas. mas isso não chega. nunca vi nada funcionar sem combustível (energia cinética também conta, não vá aparecer aqui algum preciosista da física). e o coração não é excepção. hoje, quando forem tentar desconstruir o amor, com o objectivo de criar um livro de instruções, saiam em vez disso para a rua e sorriam para o céu da noite. na volta ainda vêem uma aurora boreal e percebem que os pincéis para colorir a felicidade já vêm connosco de origem. basta querer utilizá-los.

sexta-feira, março 09, 2012

aleatório escreve-se com x ou com ch ?



a vantagem dos pensamentos aleatórios é que começam aqui e acabam ninguém sabe muito bem onde. acredito que os pássaros também voem assim. têm a mania de inventar que não. que voam em bando. muito organizados. que com jeitinho até escrevem YMCA no céu ao som da música. mas isso é tudo uma farsa. há é decerto um pássaro mais esperto que os outros. consegue convencer o resto do bando a voar para um lado qualquer ficando com o caminho livre para arrastar a asa à senhora dona passarinho da sua eleição. nem usei o feminino de pássaro porque vocês têm mentes maldosas e retorcidas e isto é praticamente uma casa de família sem a parte da família.

felizmente o pássaro deve ser um bicho com pouca memória. tirando o papagaio que traz um gravador instalado. já os outros, vão voando voando, e a meio esquecem-se de para onde estavam a voar. entram em stress e quem paga são os capots dos carros, vítimas de tiros mais certeiros do que certas indirectas que ninguém percebe.

mesmo voando sem saber para onde vão os pássaros são felizes. porque andam no céu. brincam à chuva. vêem o arco-íris de perto. sorriem de bico aberto às auroras boreais. ficam com pele de galinha (?!) ao ver passar um pássaro daqueles de ferro a fazer fiu-fiu. e comem minhocas. como aquelas que usam para fazer o hamburger mais tenrinho.

eu sei que a história das minhocas não passa de um mito. mas os mitos não são mais do que brincadeiras que deixamos passear na mente para que a felicidade possa ser servida numa bandeja de prata com toalhete de limão para refrescar as mãos. e que bem que sabe ser feliz.

domingo, março 04, 2012

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .




gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes.

foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu.

no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfera que habitamos. pensou sobre isso o júlio verne, tipo cheio de imaginação, e um ou outro geólogo, que se dedica a fazer buracos e tentar perceber o que existe abaixo de nós. no fundo continuamos sem ter grandes certezas. imagino que tenha havido uma reunião das pessoas espertas e se tenha discutido se deveríamos ir ao centro da terra ou à lua. após dias e dias de discussão, os sábios, exaustos, decidiram que escavar dá muito trabalho, que o chão é rijo, e que a melhor opção seria começar a pensar em foguetões e dispará-los em todas as direcções.

outra característica bem nossa é não saber dar bem conta das coisas que descobrimos. desta vez na lua não havia ouro ou prata para saquear, muito menos indígenas para fecundar. portanto ficámos um pouco sem saber o que fazer ali. já olharam bem para a lua? com aquele aspecto desolado, as pedras todas desarrumadas e tudo com ar de ter sido atropelado pela noite anterior e estar fora do sítio?

já se perguntaram porque é que a lua tem um aspecto tão desorganizado? de certeza que todas as manhãs fazem essa pergunta. eu pensei. e cheguei à conclusão de que a lua está naquele chiqueiro porque só doze seres humanos lá puseram os pés e nenhum deles era mulher...

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

os estendais estão em vias de extinção .


os estendais prédio fora. quilos de roupa ali lutando para secar. aquilo que para nós é um acto normal para uma peça de roupa pode ser bem traumático. há quem argumente que é como se a roupa estivesse a tomar banho. a roupa responde 'experimentem tomar banho num programa que vos roda e torce durante cinquenta e tal minutos e depois falamos'. um feitiozinho, a roupa, às vezes, pffff.

feitios de peça de roupa à parte (tenho de passar a beber leite ao pequeno-almoço em vez de absinto), a verdade é que, no passado, a compensação por passar todo esse tempo dentro de um cilindro de alta rotação era de seguida serem alegremente penduradas num estendal, sustentadas por duas ou mais molas, e ali ficar, de largo sorriso na... gola, vá, a apreciar o sol, a ver quem passa ou a espiar a vida dos vizinhos do prédio em frente. para quem vinha de fora era toda uma imagem de marca de um país - 'roupa pendurada em janelas'. nunca pensei muito sobre isso, dada a naturalidade que isso constituía no quotidiano de um português, até ser chamado à atenção por quem vinha de fora e se encantava com este acto tão nosso de 'embelezar' fachadas e traseiras com roupa para enxugar. (tão nosso é extensível ao sul da europa, já que nápoles ou outras também são rainhas na arte do estendal)

depois tudo mudou. apareceram as máquinas de secar e o avanço civilizacional ditou que os estendais fossem desaparecendo. e até que as leis estabelecessem que era proibido pendurar roupa na fachada dos prédios, por motivos estéticos. foram-se os pingos de água que nos acertavam teimosamente na cabeça quando caminhávamos debaixo de janelas. as molas recolheram à base e acabaram a ser usadas para fechar pacotes de queijo ralado, açúcar ou farinha.

imagino que algures, perdido entre dimensões que ninguém sabe sequer muito bem dimensionar, exista uma espécie de jardim zoológico das coisas que se foram perdendo. de certeza que têm lá uma jaula para os estendais, com uma tabuleta a dizer "em vias de extinção". acreditem que sim, fica ali como quem vai para o pavilhão dos telefones de discar e vira à direita junto ao zx-spectrum.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

aprende-se muito a olhar para uma aranha enquanto desenha a sua teia .



o tempo é uma coisa com que adoramos brincar e da qual adoramos falar. desta vez não estou a falar daquele da meteorologia, que esse hoje está demasiado chuvoso, amuei com ele e foi para a caixa dos tabus até se pôr na ordem.

falo do outro, aquele que passa, ou que fica, que move ponteiros de relógio sempre numa direcção, desde que a pilha ou a corda ajudem. a dimensão que damos ao tempo, quase sempre para dizer que o temos em pouca quantidade, fez-me pensar que o tempo depende muito do uso que se lhe dá. se o lamarck tem perdido (ou será ganho?) tempo a pensar nisto, podia ter dado um belo filósofo em vez de passar só por biólogo estudioso da evolução das espécies.

o ser humano é capaz de gastar horas a olhar para um quadrado junto à parede, que emite fotões, reconhecidos sob a forma de várias cores, e sons, sob a forma de várias notas, onde nada do que lá se passa acrescenta um pinchavelho ao mundo. nem ao de quem olha, nem ao de quem no mundo vive. pura distracção, defendem alguns. puro descanso, defendem outros.

da última vez que me lembro de ter pensado sobre isso, descanso ou distracção não rimavam com estupidificação. bom, distracção até rimava, mas fazem para aí tantos acordos ortográficos que com boa vontade consegue dar-se um jeitinho a isso.

e o tempo é mesmo aquilo que fazemos dele. como decidimos aproveitá-lo. aprende-se tanto a olhar para uma aranha enquanto desenha a sua teia. mas provavelmente quase toda a gente acha isso estúpido. o que a aranha se deve rir de tal sobranceria.

no fundo, acho que brincamos com o tempo como se tivessemos de origem, para lhe aplicar, a máquina do senhor do 'querida ampliei os míudos', mas acabando por cair na tentação de polvilhar muito mais o tempo com a do filme original dessa série em que o trapalhão cientista os encolhia.

domingo, fevereiro 19, 2012

uma questão de arquitectura .




num dos meus episódios favoritos do seinfeld o jerry é confrontado pelo pai do míudo-bolha, um jovem com um problema imunitário que tem de viver dentro de uma bolha, longe de qualquer tipo possível de micróbio. no dia seguinte era o aniversário deste jovem e o seu principal ídolo era o jerry, por isso o pai pede encarecidamente que o artista lhe faça uma visita, para o fazer feliz. a custo ele acaba por aceitar, conduzindo atrás do carro do george costanza para ir até casa do bubble-boy. nisto perde-se do george e não dá com a casa. já o george consegue lá chegar e para fazer tempo, enquanto jerry não chega, acaba por jogar trivial pursuit com o bubble-boy (que revelou uma personalidade bem diferente do que seria de esperar) e um erro de impressão num dos cartões gera acesa discussão entre os dois (eu ponho o link da cena em baixo, para vos fazer felizes).

toda esta longa introdução para dizer que na vida, como nos cartões de trivial pursuit, pequenos erros podem gerar grandes discussões ou mal-entendidos. quando a convicção choca com a evidência os danos colaterais são quase uma inevitabilidade. no caso do trivial é completamente diferente se o erro de impressão vem no princípio do jogo ou na pergunta que dá o sexto queijinho. no caso da vida também.

quando esquadrinhamos o que somos, organizamos a nossa vida como uma cidade. as avenidas principais, embelezadas, decoradas, arboreadas e espampanantes, vivem em regime de comensalismo (quase sempre) com as vielas e travessas escondidas, onde os segredos e os desejos propositada ou não-propositadamente abafados se revelam, se desenrolam, se escondem e aparecem.

os erros de cálculo no desenho da nossa cidade causam caos de diferentes magnitudes conforme sejam feitos sobre a avenida de seis faixas ou sobre as vielas escuras e sinistras (uma ou outra destra). qual deles o mais importante? digam-me vocês, porque cada um decide onde mora o seu sexto queijinho.

Link para o vídeo da cena: http://youtu.be/_SULQSL4Cd0?hd=1

não é mania de ser do contra, eu gosto é de sardinhas .

a minha opinião sobre o dia de são valentim é mundialmente conhecida. bem, mundialmente talvez não, mas há milhões de pessoas que a sabem de cor. o quê? não posso dizer milhões? pronto, a verdade é que além de mim sabe a minha opinião um vizinho da prima de uma amiga minha, que uma vez ficou trancado comigo no elevador e me ouviu a falar disso.

não me chateiam as manifestações do amor. eu sou muito favorável ao amor, à expressão do amor e até à impressão do amor. o amor é para ser vivido, dado e recebido. o que me deixa a pulga atrás da orelha (de tal modo que já vou para aí na terceira bisnaga de fenistil) é que a convenção tome conta da espontaneidade, e toda a maralha embarque no dia-dos-namorados-porque-sim. vamos lá ver uma coisa, o que é que 14 de fevereiro tem de tão especial que justifique um menu de restaurante diferente, um chorrilho de peluches, um debaste de flores e uma quasi-crise diabética mundial de tanto chocolate? pois. nada. é um dia como outro qualquer. como diz alguém que me é muito querido, onde se vê a beleza disto tudo é nos outros trezentos e sessenta cinco (ou seis) dias do ano.

não pensem que este meu vudu vertiginoso é só contra o pobre do cupido nesta data. tenho é a mania de enveredar pelo caminho do mal e recusar-me a bater palmas ou gritar o nome do meu clube só porque o speaker do estádio acha que é boa ideia tratar sessenta e cinco mil pessoas como se fossem focas a fazer habilidades. e no fim de tudo isso... nem sequer ganham uma sardinha.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

partir o azar dá sete mil anos de espelhos



o velho lugar-comum de que quem tem sorte ao jogo tem azar ao amor (acredito que a recíproca também se aplique) terá sido inventada quase de certeza por um campeão de poker solitário ou por um don juan que nem em dois números do euromilhões (da altura, eu sei que não havia euromilhões na idade média ou lá quando isto foi inventado) acertava.

a superstição é mais uma dessas bengalas que a humanidade tanto gosta de inventar para passar o tempo. os medos, as ansiedades, os receios e as incertezas, são todos muito mais assustadores a nu. vestidos com a farda do disfarce passam por tradições, por mensagens que passaram de boca-em-boca, por ideias comuns que foram ficando. umas mais fantasiosas que outras, as superstições estão por todo o lado. os maias não deviam encontrar sinal de fatalidade do destino num chapéu de chuva deixado em cima de uma mesa, tal como um habitante de uma cidade moderna não sua e treme ao ver a lua eclipsar-se. talvez o pobre do gato preto sempre tenha tido essa sina, mas isso é conversa que fica para outro dia.

claro que as tais bengalas são tão permanentes que essa mesma humanidade nunca tenta atirá-las para o lado e perguntar-se se consegue caminhar sem ajudas. acredito (e a minha convicção pessoal deve valer mesmo muito menos do que tanta convicção colectiva junta) que o tempo gasto a temer o destino era bem melhor utilizado a sorrir para o arco-íris, a nadar dentro de água até ao pôr-do-sol ou até a passar de boca-em-boca outras coisas que não mensagens de desgraça.

um dia, vamos todos acordar e perceber que o que aconteceu não foi obra da sorte ou do azar, mas sim da eterna desordem, que se continua a rir de quem a tenta fechar explicativamente numa redoma quando nem uma redoma de jeito sabe criar.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

multas a mais em sítios a menos

só multam o que não deve ser multado. só taxam o que não deve ser taxado. não estimulam sequer o que deve ser estimulado.

é um mundo cheio de conceitos trocados. quem terá sido a primeira alma iluminada que achou que a forma de o mundo ser um sítio melhor era rebocar o carro a alguém porque não pôs uma ou duas moedas dentro de uma máquina sem vida? ou de onde terá saído a proposta peregrina para cobrar um extra sobre o preço real das coisas? se o leite custa tanto e levá-lo ao sítio X custa outro tanto, porque é que alguém que não produz leite, não transporta o leite e não entrega o leite ganha direito a viver à custa de todo esse circuito?

depois, claro está, não há gente nem recursos suficientes para controlar o que realmente importa. não vejo quem despedaça corações ser multado como se em cima de uma passadeira tivesse estacionado. não registo funcionários da emel do sentimento com ar carrancudo a rebocar oportunidades a quem não se sabe comportar. e não se paga imposto sobre o desinteresse, sobre personalidades amorfas ou sobre rios poluídos. muito menos dá vinte anos de cadeia ter mau gosto musical.

o mundo dos sonhos deve ter sido inventado com esse propósito. lá cada um define as suas taxas, define quem infringe, define quem é castigado. somos réus, juízes e advogados do nosso próprio circo de feras. quem o criou teve esse bom gosto. podia ter adicionado o bom gosto de o fazer durar mais tempo que o mundo real. pelo menos em certos dias.

terça-feira, janeiro 31, 2012

sobre aquele sítio onde levam as pessoas a ver os aviões

o centro do mundo é bem capaz de estar geograficamente lá naquela zona meio esquisita cheia de níquel e coisas que tal. nunca ninguém lá foi, tirando o júlio verne em imaginação, mas a minha ideia é que o centro do mundo deve ser qualquer coisa assemelhada de uma pilha. é melhor nunca o deixarem destapado ao sol, porque eu já fiz isso com pilhas das outras e garanto-vos que é coisa que baba.

fora do geográfico, tenho a certeza que o centro do mundo está nos aeroportos. nos vários. é um centro descentrado que se descentra tão harmoniosamente que chega a parecer estar centrado.

nenhum outro lugar brinda de forma tão fugaz o cruzamento de gente que chega com gente que parte. nenhum outro lugar tem gente a chorar de alegria no andar de baixo enquanto outros choram de tristeza no lugar de cima. nenhum outro lugar representa tão bem este formigueiro arraçado de colmeia, onde os seres humanos brincam ao toca e foge, às verdades, às consequências, aos beijos de ocasião e à ocasião do beijo.

a vida de um aeroporto é como a vida de uma sopa cósmica. destrói-se e reconstrói-se a cada momento. explode e implode ao som de tons doces misturados com razrrrs de motores potentes que teimam em invadir o céu idos da terra e re-invadir a terra regressados do céu.

o caos organizado do aeroporto é tudo isso. e tão bom de observar como uma chuva de estrelas numa noite limpa de verão. ambos são espectáculos de migração. só as personagens é que diferem e o encenador acaba por ser/não ser (riscar o que não interessa) o mesmo.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

colchões de água

os colchões de água são tipos perigosos. não só porque correm o risco de inundar o chão de um quarto se alguma coisa correr mal, como porque funcionam à laia de sensação desconhecida. pelo menos da primeira vez. sentar ou deitar num colchão de água é igual ao momento em que as nossas pernas entram numas escadas rolantes desligadas e sentem a insegurança de algo que não está no sítio certo. o corpo questiona-se, os sensores da rotina tremem de medo e a estranheza paira durante os curtos segundos que antecedem a habituação. quem tem o hábito de saltar para cima (dos colchões, não das escadas rolantes, mas que raio de tara é essa?) deles pode sentir ainda mais na pele o choque da pele com o bailado da água que vive dentro do colchão. depois habitua-se. depois é bom. depois é diferente.

a vida, como não podia deixar de ser, adora imitar colchões. de água e dos outros. os corpos estão por demais habituados a fazer os mesmos caminhos, a conhecer as mesmas pessoas, a dormir no conforto dos cobertores conhecidos e a viver na floresta de cujas plantas se conhece tão bem o cheiro. sair do caminho principal não é fácil, não é prático e não é tranquilo. somos como elefantes em lojas de porcelana. outras vezes como elefantes saltando suavemente de nenúfar em nenúfar. tudo isso envolve a mesma insegurança, o mesmo salto no abismo, o mesmo jogo de brincar com outros sentidos que não aqueles que nos são vendidos de origem na loja dos nascimentos.

mas o risco, por vezes, muitas vezes, paga o medo. porque os colchões podem ser de água. mas raramente rompem. e se rompem, que seja por bem.

domingo, janeiro 29, 2012

o encanto perdido dos sítios eles próprios esquecidos

os sítios aparentemente perdidos guardam segredos que não polvilham sob a forma de tinta qualquer mapa de tesouro.

os sítios achados têm muitas vezes algo de fantástico para visitar. algo de extremamente belo. algo que faz milhões, biliões, triliões de almas deslocar-se no passo rápido do viajante de ocasião para planar sobre essa beleza contada. e assim se chega, se vê e se parte. a visita a esses lugares tem a tónica daqueles vôos de treino, em que o avião faz a aproximação à pista, toca ao de leve no asfalto, sentindo o cheiro da terra como se de uma borrifadela de perfume se tratasse, e logo deriva o ângulo para subir na direcção de outras luas. esse toca-e-foge permanente marca o nosso dia-a-dia, o nosso noite-a-noite, e até muita da nossa fuga ao dia-a-dia, quando visitamos alguns desses lugares.

os sítios perdidos não têm essa ambição de corresponder a qualquer expectativa. os sítios perdidos, vendidos como fora de mão, entrecruzados em rotas de decadência, deixam-se ficar. são a terra com perfume que não augura ser borrifado sobre nada. o seu encanto emana da sua própria natureza perdida. engraçado como alguns desses lugares são usados por vezes em anedotas ou situações anedoctais como exemplo de fora-de-mão, de desinteresse, de fim-do-mundo. não será o fim do mundo um bom lugar para encontrar para esse próprio mundo um fim?

entre uma praia totalmente deserta, namorando árvores despidas pela rigidez de um inverno que se quer tão rigoroso como um triângulo ditatorialmente equilátero, um lago semi-gelado insinua-se com pequenos rios que brincam ao jogo da aproximação. pequenas trutas viajam saltando ali ao fundo, imunes à pressão que nunca pediram. talvez discordem do rumo a tomar, porque vejo que nadam em direcções diferentes. o sol sorri de braços calorosamente abertos para as margens e cria aquele maravilhoso espelho grátis que só ele sabe criar na natureza pura.

do outro lado do rio três veados olham curiosos para mim, perguntando-se, a meu ver, o que estou eu ali a fazer, neste fim do mundo, onde apenas os veados brincam com as raízes e as trutas nadam livremente na água gelada. porque não estarei eu onde todos os outros estão neste momento, no princípio do mundo, a aguardar quarenta e oito minutos numa fila de mais pessoas do que ovas têm as trutas, para fazer o meu papel nessa roda dentada de que o mundo depende?

sorrio do fundo do coração para o outro lado do rio, na esperança de os fazer compreender que hoje sinto ali, perdido no meio do nada, aquilo que raramente, se alguma vez, se encontra no meio do tudo.

muitas florestas para poucas árvores

querer ser demasiado abrangente num tema é perigoso e indelicado.

sempre achei que essa é das falhas mais frequentes em hollywood. todos sentados numa reunião de brainstorming (sempre me perguntei se brainstorming envolverá pedras de gelo a cair e raios no céu, mas talvez tenha pouca importância aqui para o texto, oh well...) de um qualquer grande estúdio. ideias. precisam de ideias para um novo filme. alguma alma pseudo-brilhante sugere fazer um filme sobre mulheres. todos pegam naquela folha padrão, polvilhada de fill-in-the-blankets (na verdade é "fill-in-the-blanks" mas eu sou mais a favor de entrar para dentro de cobertores que de espaços em branco. chamem-me maniento), e decidem fazer mais uma repetição da mesma história envolvendo mulheres, relações, mulheres, ralações, sexo, pseudo-sexo, sexo implícito, glamour, choro e riso.

com isto tentam abranger a complexidade que envolve "a" mulher, achando que isso se pode minimalizar a noventa singelos minutos. erradíssimo. há quem escreva sobre elas a vida toda e nem assim o consiga. e muitos acabam mais depressa nos braços da fada do absinto do que abraçados ao absinto sentimental dos braços de uma mulher.

a minha sugestão para quem argumenta é que passem a dar mais atenção ao detalhe. que saiam do fácil e mergulhem no difícil. que façam um filme de noventa minutos só sobre a pequena cova que repousa no pescoço. mesmo isso já é pedir tanto. já é ser tão ambicioso. conhecer uma mulher é uma tarefa para várias vidas. conhecer os seus detalhes pode ser tarefa para uma tarde de chá quente, lareira e vontade de reflexão in vivo.

porque as florestas são lindas vistas de longe. e de cima. mas só junto de uma árvore, deitado no chão, a ver o sol entrar tímido pelo meio das folhas, consigo namorar com o que me dizem as raizes, com a história que me conta o tronco, com os pequenos cogumelos que teimam em funguisticamente querer viver em regime de cumplicidade com um outro ser. e o detalhe é tão vasto. e tem tanto para contar.

sábado, janeiro 28, 2012

a vida e os buracos de várias cores

a minha paixão por astronomia desde tenra idade (tão tenra como uma posta mirandesa) levou-me a desde muito cedo achar apaixonante o conceito tenebroso do buraco negro, que suga toda a matéria e de onde nada pode escapar. mas mais fascinante ainda a deliciosa possiblidade dos buracos brancos, hipotéticos espelhos dos buracos negros, lugares onde nenhuma matéria pode entrar mas de onde toda a matéria pode sair. a teoria diz ainda que isto possibilita de facto que alguém entre num buraco negro e seja transportado para um buraco branco, aleatório, noutro ponto qualquer do universo instantaneamente. e estamos a falar em viajar para outro lugar e/ou tempo. os velhos do restelo, combatentes do sonho, mesmo que astrofísicos, respondem a isto com “sim, mas a desintegração das moléculas durante a viagem jamais permitiria que um ser vivo sobrevivesse a esta forma de teletransporte”.

deve ser gente muito enfadonha, esta. que não acredita em viagens no tempo e no espaço. os antepassados destes amigos de certeza que eram gente que defendia que isso de fazer pedras circulares nunca ia dar em nada. que pôr amontoados de madeira no mar com umas velas agarradas ia correr mal na certa. e que metal a descolar em direcção ao sol só se fosse para ter uma morte garantida em regime de catapulta.

felizmente os sonhadores vencem tudo isto. conseguem perceber que há espaço para um parque de campismo na superfície do sol. que o terreno de marte é extremamente jeitoso para fazer caminhadas ao fim da tarde, estando mesmo a jeito para vêr o pôr da terra através do reflexo de sol. que os anéis de saturno são para ser aproveitados como montanha russa, em qualquer dia da semana, de qualquer dia do ano. ou que as planícies de saturno estão mesmo a pedir caipirinhas e partilha de carinhos nas horas de maior calor. que lá... são todas.

sobretudo sabem que, mais tarde ou mais cedo, vamos ganhar coragem e entrar num buraco negro. vamos sair muito muito muito longe de dentro de um qualquer buraco branco, com um sorriso não-desintegrado na cara e a dizer que aquela foi uma pequena viagem para o homem mas uma vertiginosa descoberta do universo para a humanidade.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

as três dimensões. mais a quarta que ninguém percebe muito bem.

sempre tive para mim que o micro-cosmos e o macro-cosmos não se entendem muito bem. e nós, pessoas cheias de mania que tudo sabemos e que tudo descobrimos, sempre pouco cientes de que não sabemos nada e que descobrimos muito pouco, inventámos formas de, pelo menos, conseguir destapar ligeiramente o véu a ambos.

nas costas do microscópio largámos toda a responsabilidade de olhar para o que é infinitamente pequeno. não lidamos é bem com o conceito de infinito, portanto, quando os globos oculares se aproximam das lentes, vêem o retrato, isso sim, do que é finito e pequeno.

o telescópio, por sua vez, foi inventado para olhar para as estrelas. para cima, para baixo, para os lados, mas para as estrelas. e também para os planetas, mas esses são restos de estrelas, parentes próximos. lamento desiludir todos os voyeurs que os usam para observar as vizinhas do bairro a trocar de roupa ao lusco-fusco, mas de facto foram pensados para ver para lá da atmosfera.

na sua grande maioria este pensamento tem o condão de nos satisfazer. vemos o pequeno. vemos o grande. olhem para nós que somos tão bons. aí é que está. não no sermos tão bons, mas sim no "olhem para nós". quem nos garante que, ao andarmos entretidos a achar que somos o player de tamanho médio entre micro e macro-cosmos, não somos nós apenas um adicional acidente no caminho bem maior. recorrendo à minha imaginação, mais fértil que as margens do nilo, consigo ter a imagem perfeita de seres gigantescos que olham para nós com a sua espécie de microscópio e não nos definem com mais pomposidade do que nós definimos uma bactéria. tal como consigo imaginar toda uma família a residir numa das curvas de um qualquer ADN de um qualquer ser muito muito pequeno a olhar para cima e achar que a membrana da célula é o fim do universo.

no fundo, tal como nós, o micro-cosmos e o macro-cosmos deve estar cheio de espertos. que ainda não sabem, mas no fundo... não sabem nada.

terça-feira, janeiro 24, 2012

até os pássaros brincam no meio da neve

o céu azul eléctrico.

aquele céu que não se decide entre o branco e o preto. cinzento-escuro não é para ele de certeza, também. quer anunciar. quer uma cor que chame. que avise que o que vem aí é para ser visto. o céu podia pagar um anúncio na televisão ou no jornal. mas em vez disso pinta-se de azul eléctrico.

abaixo dele, na sua azáfama, milhares de cabeças rodam, apontando os olhos para cima, deixando de apenas olhar, para passar a ver. depois, a pouco e pouco, sentem. o azul eléctrico a viajar. o pó dourado que o envolve a migrar muito lentamente, naquela marcha em que quente e frio se misturam, num abraço de lã e pele.

o céu sorri. conseguiu a atenção que queria. agora sim, estão todos atentos, o espectáculo pode começar. não, não há tempo sequer para sete pancadinhas, vamos já começar que se faz tarde. a agenda do céu é ocupada. não se pode prender a inutilidades.

abrem-se os canhões. festejam os soldados. a neve cai. desce em piruetas do etéreo ao presente. usa escorregas perdidos em telhados. repousa em camas de relva. beija as folhas caducas, gastas de toda a sua beleza do outono. mas sobretudo, vejo que cada floco põe o ar orgulhoso e inchado de um actor principal. reconhece as mãos sedentas de brincadeira das crianças, a felicidade dos gorros que hibernaram todo um verão e o profissionalismo da malha das luvas, unida em exército para proteger toda uma mão.

o espectáculo branco avança. está agora na fase de imitar a areia do deserto. o céu ri cada vez mais alto. pergunta se alguém já viu um espectáculo mais lindo do que este. questiona-se porque é que nunca o convidam para encenar aberturas de jogos olímpicos ou de jogos menos olímpicos, mas com aberturas dignas de um céu.

olha para o relógio e parte. há mais um espectáculo para começar uns quilómetros a sudeste. o espectáculo tem de continuar.

domingo, janeiro 22, 2012

dono de pedaços de céu

hoje acordei com vontade de devorar o mundo à dentada. contemplar prados durante horas, pegar em montanhas com o toque gentil de duas mãos, elevar árvores à boca tapando a cortina de sol que alumia o dia e finalmente poder deixar fluir mundo pelos cantos dos lábios e pelos cantos das línguas, num festival de amor entre papilas gustativas e concentrados de natureza.

esta vontade encaixa no universo como duas peças de puzzle. daqueles para dois aos quatro anos. tão evidentes que não há como não conseguir fazê-los. dizem dois aos quatro anos, mas hão-de experimentar pôr a caixa do puzzle dentro do útero de gestação e vão ver se quando a criança nasce o puzzle não vem logo impecável. "nasceu, é um menino lindo de três quilogramas e duzentos gramas. e traz a torre eiffel já feita. não se enganou nas peças do puzzle que fazem o céu nem nada. que apgar extraordinário."

o céu é sempre difícil nos puzzles. a tendência é dizer que as peças são todas azuis e iguais. desafio-vos a olhar para cima num dia de céu limpo, nuvens à parte (faz de conta que foram de férias para outro lugar. um resort. que as nuvens gostam muito de pulseira no braço e regime de tudo-incluído), e afirmar que o céu é todo igual. jamais. o céu é todo diferente. tem espaços próprios, tem desenhos multi-facetados, tem cercas que definem os espaços de cada um dos seus donos. há quem acredite que até cemitérios tem. eu pelo menos estou sempre a ouvir dizer que quem morre e se portou bem vai para o céu. quando era pequeno achava que isto era regime de catapulta. o que dava um funeral lindo. agora cresci e já sei que não. realmente vamos todos para o céu quando morremos. a atmosfera é feita de nós e nós somos feitos de atmosfera.

por isso somos donos de pedaços de céu. no dia em que olharem com força, concentrados, para um pedaço de céu, conseguem ver os sorrisos da gente que ali mora, os carrosséis de alegria perdidos em cabelos soltos ao vento, as bancas de algodão doce disfarçadas de nuvens, outras vezes delas próprias, os polícias sinaleiros decididos, e com bigode, claro, a pedir a asteróides que se desviem e a satélites que se comportem como máquinas crescidas.

re-penso. afinal não somos só donos de pedaços de céu. somos também dos aromas, dos cheiros e das cores. todas. até o azul que parece sempre igual esbatido numa tosca peça de puzzle, feito para crianças dos dois aos quatro anos, mas que no fundo é a metáfora em cartão daquilo que cozinhamos nós próprios durante toda uma vida.

as fábricas das coisas

lembro-me como se fosse hoje de como os meus olhos irradiavam alegria quando, sendo ainda uma amostra de gente, estava a ler um livro do petzi em que ele vai ao pólo norte e descobre que as auroras boreais são feitas rodando uma manivela. claro que é muito difícil chegar à sala onde são feitas as auroras boreais. está no topo de uma montanha, fechada ainda a mais do que sete chaves, e guardada pelo seu proprietário privado, o rei do pólo norte.

se é verdade que o tempo passou por mim, não passou contudo pelos meus olhos, que continuam a irradiar da mesma forma quando trabalham em solidariedade com a minha imaginação e se perdem de mãos dadas na construção de argumentos que expliquem o porquê das coisas.

nunca fui de engolir a teoria de que as coisas são o que são porque sim. 'porque sim' nunca me pareceu resposta para nada. se tudo fosse 'porque sim' não havia lugar à imaginação. era uma espécie de sanatório privado da mente, impartilhável de tão louco. procurar as rodas dentadas que estão por trás do mostrador (lindo) do relógio é um modo de vida. não tenho descanso enquanto não encontrar mais e mais fábricas das coisas.

quero ver o igloo gigante onde produzem todo o gelo do mundo. a casa das máquinas que está na base do vulcão, de onde todos os dias saem trabalhadores furibundos, por volta das seis da tarde, com o permanente queixume de 'está lá um calor que não se pode'. de certeza que há fábricas para isto tudo. cheias de operários. mais não seja operários da mente. a navegar em neurónios em vez de vagões. a alimentar-se de electricidade em vez de sandes de carne assada.

podia parar para pensar se a fantasia faz bem. mas, além de não conseguir parar, tenho isso como um dado mais do que adquirido. as auroras vão continuar a encher o céu da noite de cor, sorrindo para a lava que os vulcões expelem e para o gelo que brinca aos pontos de solidificação. mais dia menos dia chegamos às rodas dentadas. até lá, aproveitemos para viver felizes no mostrador.

sábado, janeiro 21, 2012

vamos falar do tempo?

os dias de chuva e frio têm o condão de ir buscar o mais uterino que existe em cada um de nós.

é romântico (e nalguns casos sincero) dizer que adoramos correr à chuva, saltar de poça em poça ou amar a e na natureza. mas esse ideal cinematico-fantasioso é bonito com chuva tropical. com nuvens a rodopiar elecricidade e palmeiras em fúria. sabe o nosso corpo que umas horas depois tudo seca e o ciclo da vida vai-se repetir sem parar.

quando falamos de chuva fria, que o vento arrasta pelos colarinhos, a brincadeira já não é tão inocente. raramente se associa a prazer. gera dias incómodos, em que ou assumimos a molha ou perdemos a capacidade de resistir e acabamos por ceder a mil engenhos de combate à chuva, que mais nos fazem parecer soldados, em pleno campo de guerra contra a força sobrenatural da natureza. voltamos feridos da batalha, com varetas saídas de tecidos, casacos encharcados, calças com um degradé inesperado de ganga escura e ganga clara e calçado com ar de ter passado o dia num parque aquático.

pior ainda é o facto de essa chuva entrar directamente no cérebro, sem pedir licença, deixando toda a gente no auge da má disposição, resmunguice e falta de tolerância. gosto muito que o homem tenha ido à lua, mas tinha sido dinheiro mais bem gasto se tivesse sido investido a desenvolver fatos parecidos aos de astronauta para usarmos em dias destes. afinal o capacete dá ares de aquário, a integração no meio aquático seria total.

no final do dia contamos os despojos de guerra, fechamos as contas, e qual homem pre-histórico refugiado na sua caverna, ocultamo-nos do lado de lá de um vidro e sentimos a tranquilidade e a paz no calor de um chocolate quente, sentindo o sangue a subir também ele quente até à alma, enquanto lá fora a chuva teima em não parar...

sexta-feira, janeiro 20, 2012

o contraste não é só um botão no comando da televisão .

as estações do ano são meras brincadeiras de calendário. tal como os dias, os meses ou as horas, são meras convenções usadas com o mesmo fundamento com que se usa um cão para orientar um rebanho. o rebanho precisa de referências. não se questiona se precisa, mas dizem-lhe que precisa, ponto final. parágrafo. parágrafo o tanas, que eu não obedeço a ordens. agora sim.

mais do que a data no calendário, ou do que a coluna de mercúrio por trás do vidro, a natureza corrige essas megalomanias humanas da sistematização com a sua própria vontade. adora brincar ao extremo calor no outono ou à chuva durante dias a fio no verão. ri-se a ver o boletim meteorológico e a contrariá-lo. cai do sofá de regozijo quando vê seres vivos tirarem três semanas destinadas a areia e água salgada, por saber que lhes vai trocar as voltas, oferecendo-lhes afinal três semanas de programas manhosos na televisão e refreshes contínuos nas redes sociais, apenas feitos num apartamento mais junto ao mar do que o habitual.

a natureza sabe viver no seu contraste. diverte-se a viver no seu contraste. e o ser humano, se fosse esperto, deitava-se num leito de folhas caducas e abria bem os olhos para notar a vida que mora nas diferentes cores das folhas em mudança, no pólen solto ao vento a jogar à apanhada com as abelhas ou na difícil prova de escalada que um escaravelho leva a cabo na relva.

o contraste é tudo menos ordenado. com certeza que o adoro por ser caótico, por ser manivela do avesso, por ser o rio que corre ao contrário, mas por sua conta, ao seu ritmo, totalmente imune a riscos em calendários ou a cães que o dirijam para uma qualquer direcção.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

por entre as gotas da água da chuva correm os fotões que iluminam o sentir .



(picture by anuar patjane)

a frustração, o pai natal e os triciclos que se transformam em bicicletas

de vez em quando dou por mim a parar para pensar sobre determinados sentimentos humanos. depois lembro-me que devo utilizar antes os minutos das horas dos dias para correr no parque, ler ou ir dar banho ao cão, esse cão que é a vida. mas o fim do dia chega. e volto à estaca zero em relação ao sentimento, que ficou à espera de ser pensado, como se fosse um amontoado de folhas no canto do mesa, debaixo de um post-it amarelo a gritar 'urgente!'. chegado à estaca zero (e é bom as estacas ainda servirem para algo mais útil do que apenas subtrair a vida a vampiros) o processo desenvolve-se do modo pouco organizado que seria de esperar.

hoje preocupou-me a frustração. porque é que sentimos frustração. em que medida a frustração é directamente proporcional à expectativa. creio que a frustração não nos acompanha desde o momento zero. não há memórias escritas de crianças com menos de três anos, mas acredito que nessa fase as respostas sejam essencialmente viscerais. emocionais. viscero-emocionais.

a frustração só começa a aparecer quando mergulhamos no racional e passamos a criar um esquema mental do que é a expectativa. a partir desse momento é aberta a porta à frustração. a promessa não cumprida gera frustração. o resultado abaixo do esperado gera frustração. a descoberta de que afinal o pai natal não existe gera frustração.

claro que, fruto de tanto cruzamento genético ao longo de tantos milhares de anos, e de tanto embebimento em sociedade, também desenvolvemos diferentes formas de combater a frustração. o caminho mais fácil é certamente trocar apenas duas ou três letras e transformar a frustração em prostração. pelo meio há uma via com mais algumas letras do que a prostração, a procrastinação, em que apenas adiamos a resposta à frustração. por último, o caminho mais difícil, assenta em ver oportunidades na crise, de maneira a chegar às expectativas iniciais, ao invés de puxar as expectativas para um nível mais baixo e ser feliz pela redução da fasquia.

no fundo a vida pode resumir-se ao momento em que largamos o triciclo para aprender a andar de bicicleta. à primeira queda, pelo meio das lágrimas e da vitimização contra o alinhamento dos corpos celestes, o piso escorregadio ou o carro que apareceu do nada, há que tomar a opção: andar de triciclo a vida toda ou cair mais umas quantas vezes, sabendo que mais tarde poderemos ser o lance armstrong lá do bairro.

terça-feira, janeiro 17, 2012

não concordo a 100% mas anda numa percentagem lá perto

acho o texto delicioso. só não subscrevo na totalidade por alguns pormenores. nomeadamente há ler e ler, ainda mais do que há mar e mar. o fim é particularmente delicioso e está tatuado no meu coração :)

" Date a girl who reads. Date a girl who spends her money on books instead of clothes. She has problems with closet space because she has too many books. Date a girl who has a list of books she wants to read, who has had a library card since she was twelve.

Find a girl who reads. You’ll know that she does because she will always have an unread book in her bag.She’s the one lovingly looking over the shelves in the bookstore, the one who quietly cries out when she finds the book she wants. You see the weird chick sniffing the pages of an old book in a second hand book shop? That’s the reader. They can never resist smelling the pages, especially when they are yellow.

She’s the girl reading while waiting in that coffee shop down the street. If you take a peek at her mug, the non-dairy creamer is floating on top because she’s kind of engrossed already. Lost in a world of the author’s making. Sit down. She might give you a glare, as most girls who read do not like to be interrupted. Ask her if she likes the book.

Buy her another cup of coffee.

Let her know what you really think of Murakami. See if she got through the first chapter of Fellowship. Understand that if she says she understood James Joyce’s Ulysses she’s just saying that to sound intelligent.

Ask her if she loves Alice or she would like to be Alice.

It’s easy to date a girl who reads. Give her books for her birthday, for Christmas and for anniversaries. Give her the gift of words, in poetry, in song. Give her Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Let her know that you understand that words are love. Understand that she knows the difference between books and reality but by god, she’s going to try to make her life a little like her favorite book. It will never be your fault if she does.
She has to give it a shot somehow.

Lie to her. If she understands syntax, she will understand your need to lie. Behind words are other things: motivation, value, nuance, dialogue. It will not be the end of the world.

Fail her. Because a girl who reads knows that failure always leads up to the climax. Because girls who understand that all things will come to end. That you can always write a sequel. That you can begin again and again and still be the hero. That life is meant to have a villain or two.

Why be frightened of everything that you are not? Girls who read understand that people, like characters, develop. Except in the Twilightseries.

If you find a girl who reads, keep her close. When you find her up at 2 AM clutching a book to her chest and weeping, make her a cup of tea and hold her. You may lose her for a couple of hours but she will always come back to you. She’ll talk as if the characters in the book are real, because for a while, they always are.
You will propose on a hot air balloon. Or during a rock concert. Or very casually next time she’s sick. Over Skype.

You will smile so hard you will wonder why your heart hasn’t burst and bled out all over your chest yet. You will write the story of your lives, have kids with strange names and even stranger tastes. She will introduce your children to the Cat in the Hat and Aslan, maybe in the same day. You will walk the winters of your old age together and she will recite Keats under her breath while you shake the snow off your boots.

Date a girl who reads because you deserve it. You deserve a girl who can give you the most colorful life imaginable. If you can only give her monotony, and stale hours and half-baked proposals, then you’re better off alone. If you want the world and the worlds beyond it, date a girl who reads.

Or better yet, date a girl who writes. "

Rosemarie Urquico

segunda-feira, janeiro 16, 2012

stay off your windows, go to the basement.

os fenómenos da natureza e os fenómenos da criação estão tão bem ligados entre si como o queijo parmesão quando derrete no meio da massa acabada de sair do forno.

nesta esfera toscamente esculpida varia a intensidade ou o foco desse conglomerado. na minha terra de sempre entretia-me a ver um feijão dar origem a um feijoeiro numa simples bola de algodão, sedenta de água para fazer crescer o seu protegido rebento.

aqui a natureza tem um modo elegantemente violento de brincar à criação. a ferocidade do que estou a ver pela janela faz-me pensar que estou a observar o momento da origem do mundo e da vida, e nem sequer tenho de pagar bilhete.

por entre as sirenes contínuas, os sons do gelo a bater com violência nas janelas (até este ironicamente a ver a sua queda fora de época) e o vento que ameaça árvores resistentes a tantos anos de tantas outras coisas, fico no meu canto a pensar como isto é belo e essencial.

o riso e o choro parecem combinar-se num só, sob a forma de tempestade. se o leonardo aqui estivesse sentado concordaria que o enigma da gioconda não é mais do que a tradução em pintura de toda esta turbulência de incertezas que nos penteia a imaginação e nos deixa a sede de tudo descobrir, assumundo issso como sentido da vida.

imagino como deve ser difícil domar todas estas reacções químicas. bem mais difícil ainda domar o significado do que vem dentro, abaixo e acima delas. os azotos andam doidos a chocar com hidrogénios. não porque estejam em combustão para fazer andar carros, barcos ou aviões. estão a chocar porque é assim que eles sabem funcionar. é assim que eles sabem criar.

chamam-lhe tornado e avisam que a luz vai faltar em breves minutos.

irónico. olho lá para fora e juro que nunca vi tanta luz na vida.

(texto escrito em 25 de agosto de 2011)

domingo, janeiro 15, 2012

agá dois oooooh

adorava assistir à consulta de psicanálise de uma gota de água.

ninguém dá muito valor aos blocos dessa coisa sem cor ou cheiro que faz tanto parte da nossa vida que até faz parte de nós. e está em maioria. daquelas que dá para mudar a constituição e tudo. sim, a água tem a capacidade de mudar a nossa constituição, sem sequer precisar de assinatura do presidente da república.

claro que a falta de cor e de cheiro são rapidamente contornados pela nossa inexorável capacidade de destruir tudo aquilo que criamos, mas sobretudo aquilo que já cá estava antes de nós próprios estarmos criados.

a nossa luta com a água é milenar. agora estamos particularmente aptos a dar-lhe sabores e cores. do ponto de vista comercial nunca percebi muito bem uma água com sabor. sabe sempre a garrafa de sumo lavada à pressa com água. nem é sumo nem é água. mas quem sou eu para me perder nos caminhos do marketing?

prendo-me, isso sim, com a curiosidade de imaginar o id, ego e super-ego de uma gota de água. estava ontem a vê-las cair do céu, e a pensar quão díspares são as suas personalidades. umas vinham aos salpicos, outras a cair com a força de pedras, e por último caíram algumas mesmo sob a forma de pedras. não deve ser fácil a estabilidade para um ser químico que tão depressa é líquido, como sólido ou gasoso. eu cá não gostava nada de ter essa facilidade. se é verdade que me dava jeito evaporar na altura de pagar os impostos, seria bastante desagradável solidifcar quando estivesse a correr para fugir de um rinoceronte. a menos que pudesse escolher por mim quando havia mudança de estado e para qual. assim 'tá bem.

lá re-caímos nós no mesmo (além de abusarmos das redundâncias como de costume). por mais voltas que dê nunca deixaremos de ter a mania que queremos e podemos controlar tudo. o universo vai-se rindo de nós, fazendo razias irónicas de asteróides, como quem goza com o seu primo inocente que nunca viu as luzes da cidade. um dia ainda vamos perceber quão escravas as nossas moléculas são de poderosas super-novas e re-fazer a escala de valores no mesmo tempo em que se faz uma prova dos nove.

até prova em contrário vou continuar a reflectir sobre a gota de água deitada no divã, a divagar depressa sobre os seus problemas de labilidade de estado. e isso chega para me fazer feliz.

o fabuloso mundo da parte de trás

aposta-se tudo na fachada.

nas casas, como na vida, quem tenha de se decidir a decorar com pompa e circunstância uma das faces do cubo (ou cubo alargado), pensa sempre no sítio por onde as pessoas vão entrar, ou para onde vão olhar de relance quando por ali andarem. usam colunas, batentes dourados, tintas caras, nalguns lados até seres humanos com ar de capitão reformado da marinha ali pontificam para embelezar o cenário.

adoro a mística da parte de trás de um prédio ou vivenda. é onde se desiste da decoração mas mora a honestidade do ser. entre relvas mal cortadas e plantas exoticamente deixadas ao acaso vivem-se os momentos da infância e ouve-se o grito de que é hora de ir jantar ou tomar banho. ali, escondido do mundo, escondido de tudo, é possível sonhar, entre um joelho que fica preto da terra ou aquela comichão da comunhão com a natureza, em que uma formiga insiste em trepar pela pele acima.

também nos blocos de betão isto mantém validade. por exemplo com o parque de estacionamento transformado em campo da bola, com carros a fazer de balizas e vidros de carros a fazer de cartão vermelho. ou, mais por estas bandas, com as escadas de emergência, que conseguem transformar um poço urbano hipoteticamente vazio em algo próximo de uns bastidores de palco, mostrando com ferro desnudado a verticalidade de uma espécie de roupa interior da habitação.

de certeza que a porta da imaginação mora mais facilmente no lado das traseiras. não imagino a alice a sair pela porta da frente, e ainda menos o coelho apressado a usar elevadores, ao invés do esqueleto orgânico que mora no sítio das coisas esquecidas.

sábado, janeiro 14, 2012

falavam na rádio

ouvia-os ao longe.

os mercados estavam numa espécie de pânico. tinha caído um por cento de qualquer coisa que não percebi bem o quê. magotes de gente enchia ruas e queimava lojas e carros. almas perdiam-se em sobressalto e os meus olhos não ouviam bem a explicação.

fechei-os e deixei-me voar. seguir aquela linha branca que o avião deixa no céu e mergulhar na natureza de blocos de nuvens em explosão feroz. lembro-me que nadei com os raios e me esfoliei com blocos de gelo enquanto via os unicórnios em modo selvagem a correr à minha volta. assentei o tapete onde repousava e sorri para a lua, que se mostrava lá para cima dos choques de neutrões com beijos de lábios fechados.

por fim saltei para o abismo do cheiro a canela que a terra tem quando chove, e corri pelo meio da tempestade até perder a noção do molhado. quando os pensamentos estão quentes como uma baguete acabada de sair do forno não há chuva ou gelo que os consiga infectar de mal-estar. dei mais uma ou duas voltas pelas redondezas, com dois linces por uma trela e um leopardo à solta, resmungando com a falta de bifes do lombo na sua dieta actual.

lá ao fundo caía mais um por cento. mas eu continuava deliciado com as manchas do leopardo e os seus sons de amuo.

no fundo recuso-me a aceitar os limites que me vendem de que há uma linha entre o sonho e a realidade. essa linha? cada um que a trace.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

rodelas de gengibre com um toque de pó de estrelas

na fronteira do infinito não serve de nada ter visto ou passaporte. os guardas são outros. em vez de fardas vestem vestidos pretos, perigosamente decotados, e trocam botas engraxadas por saltos altos de cores garridas, que não são mais do que portais da extremidade da perfeita arquitectura que se segue.

por mais que esperem por carimbos eles não chegam sob a forma de tinta. imprimem-se através da pele, tatuando partes específicas do coração ou entranham-se em sabores frutados de línguas que brincam ao jogo da serpente manhosa. à volta há édens. daqueles que, em vez de macieiras e casais puros nus, têm serpentes já com anos e anos de maçãs comidas, preocupando-se com a dose de carvão que enche os fornos que adornam as paredes do éden, e não com a conversão dos inconversíveis.

vê-se uma luz que ninguém percebe bem se é clara ou escura, porque os olhos estão maioritariamente fechados. quem sabe ver sem ter de separar as pestanas, delicia-se a contemplar com as mãos, a decifrar com a face, a tirar texturas com joelhos. o sétimo sentido está sempre ao rubro junto à fronteira do infinito.

o barulho das luzes torna-se cada vez mais fugaz, entre o cheiro das especiarias que decora a pele molhada por uma calda que parece vir de uma lata qualquer comprada num canto de uma loja gourmet refundida atrás de um portão de ferro. guardada por gárgulas, também elas despidas, e com ar de quem ri como uma hiena. a hiena não sabe porque ri, dizem. provavelmente dizem mas não sabem.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

que manchete gostava de ver amanhã nos jornais ?

o doce tango entre o hemisfério esquerdo e o direito

anos e anos de evolução do ser humano no planeta terra (boa, começo por cometer o triplo erro de cair na nossa típica fraqueza de necessitar da dimensão tempo, espaço e massa para não sentir a vertigem do desconhecido) levaram-nos a desenvolver aquilo que é geralmente considerado como o sistema nervoso mais diferenciado da escala animal. basicamente sabemos que temos uma linha de raciocínio (bom, talvez com excepção do futre nos finais de tarde de alguns dias) e achamos que a capacidade de pensar de modo complexo nos coloca no trono do reino animal. o leão bem pode achar que é o rei da selva, que o do planeta está há muito definido.

não sei há quanto tempo nos separámos realmente do macaco, e deixámos a nobre arte de grafitar paredes de cavernas de borla e por misticismo para a trocar pelo uso de pincéis, telas e casas de leilões que vivem da continuidade do que foram bois desenhados em grutas. se pego neste ponto sensível é porque o recurso à pretensa pre-história (pretensa porque já consegui viajar no tempo até à Idade Média, mas para trás disso ninguém vai porque como se sabe a portagem é para cima de cara) nos faz ver que o cérebro direito sempre esteve em evidência desde o início. ainda antes de pensar o suficiente para talhar pedras numa forma cilíndrica, e arraçar objectos de roda, já o homem exprimia a sua chico-espertice a desenhar, a criar armas para a caça ou a desenvolver esquemas de sobrevivência. se é verdade que já há algum cérebro esquerdo ao barulho (vulgo inteligência racional no seu sentido clássico) o comportamento tinha também muito de artista.

todos estes anos passados, mudados os pincéis ou os campos de caça, a epifania continua para mim a ser alcançada no momento em que conseguimos pôr os hemisférios esquerdo e direito a dançar uma espécie de tango perfeito, em que se seduzem mutuamente e em que aplicam, com a intensidade máxima que conseguem atingir, a sua capacidade de comportamento solidário. quando esse tango atinge o auge, conseguimos finalmente ver. nem precisamos bem dos sentidos todos. ou até temos mais do que aqueles que nos vendem que existem. o reflexo de um raio de sol num qualquer cristal de quartzo pode então parecer explicar-nos ao mesmo tempo a teoria da relatividade e o im blau. porque quem só se esforça por dominar uma das forças cai irremediavelmente no erro de não as deixar guiar a dança. e toda a gente sabe quão mal visto fica um mau dançarino.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

ode à loucura e ao desvio

adoro as convenções. a bem ver odeio-as. mas como adoro a ironia apeteceu-me começar o meu texto com uma ironia. gosto tanto da ironia. mas sobretudo de quando alguém não a entende e eu repito a minha piada parva (poderei eu chamar a isso uma piarva?) de que "irony" não é só um relógio da swatch. acabo de fazer publicidade e agradeço que a famosa marca suíça me transfira o respectivo valor para a conta. obrigado.

pondo alguma ordem (ou será desordem?) no que quero escrever, é magnífico como noventa e nove vírgula nove nove nove nove por cento da mole que habita este planeta encarrila em organizar em gavetas perfeitinhas o caos próprio do pensamento e da personalidade, na mesma mania mecanística e maquinística das carruagens de ferro que encarrilam no sítio devido quando atravessam países e países. por definição de normalidade entende-se aquilo que a maior parte da multidão é.

os loucos são obviamente diferentes. mas o curioso é que os diferentes também contam como loucos. o desvio é sempre visto como uma agressão. o querer sentir ou experimentar de outra maneira é sempre visto como um crime, como estupidez, como insensatez, ou como qualquer outra coisa, acabada em 'ez' ou não acabada em 'ez', que permita que o bolo do círculo forme um conjunto que olha com ar reprovador para o indelicado ostentador de uma realidade fora do círculo.

se há coisa que ainda não conseguiram condicionar, excepto nos livros de ficção científica, é o livre arbítrio. lamento, mas não conseguiram. não me falem de exemplos, porque eles não existem. os escravos? horrível e lamentável situação, mas podem a qualquer momento pegar numa pedra e esfolar o escravador até ao último grito. os fiéis devotos? não lhes tiraram o livre arbítrio, quando muito abdicaram dele.

sendo o livre arbítrio omnipresente (em qualquer universo, em qualquer casa de botão ou do tabuleiro do monopoly) era interessante que, a pouco e pouco, o círculo desse conjunto se fosse fechando, e cada vez mais indivíduos conseguissem perceber que bem mais importante do que os anos que alguém leva da vida é a vida que leva desses anos (a frase não é minha, é do lincoln, não o carro, mas sim o tipo de barbicha que aparece nas notas de cinco dólares).

ah, e já agora, todo o tempo que se perde a condenar aquilo que supostamente é a loucura ou o desvio, acreditem que era tão mais bem utilizado a aproveitar para olhar para as coisas com olhos de ver, a ver a luz que emana de um livro numa estante ou as vinte cores, e não sete, que o arco-íris tem.

no dia em que morrerem, muito mais importante do que levarem ou não a etiqueta de louco, é terem a certeza de que morrem felizes, parte do conjunto ainda mais infinitamente minesimal dos montes de moléculas que atravessam a terra e a água desta rocha mais-ou-menos esférica, que é a terceira a contar do sol (contagem para quem vem de lá, já agora).