sábado, maio 12, 2012

somos como legos, mas não é suposto ser só do pescoço para baixo .

as pessoas acham sempre que vão chegar ao encaixe das almas só através do encaixe dos corpos.

se é verdade que os instintos que nos movem são na sua base animalescos e primitivos, também é verdade que aprendemo, uns melhor que outros, ao longo do tempo, a controlar esses instintos e a canalizar toda a energia que daí provém para vários fins. quem pretende fazer casas com sólidas traves de aço e um telhado muito bonito mas se esquece, entretanto, que as paredes e a decoração também fazem parte do pacote completo, corre o risco de acabar como ermita solitário, sentado no perene cimento de uma casa desabitada, onde tudo podia morar mas nada mora.

tanto o calor como o frio me trazem de volta a percepção da perda generalizada do momento, por estes dias que correm. a pressa de chegar não sabemos ainda bem onde tem tendência a roubar-nos a capacidade de criar polaroids com os olhos, e de manter preso no pensamento o momento em que lentamente removemos aquela migalha que ficou presa no canto da boca da outra pessoa. ou quando oferecemos o casaco porque a noite está um pouco mais fria do que se anunciou. quando nos ajoelhamos para apanhar o (inserir um milhão de possível objectos) que caiu da sua mala enquanto ela procurava o telemóvel. gestos pequenos. gestos sem importância. mas gestos que são e eram do tempo em que amar era muito mais do que fazer vistos numa checklist vendida e imposta pela pressa de ser feliz, esquecendo-nos que para ser feliz não é preciso pressa, é preciso é dedicação ao que se sente.

sábado, maio 05, 2012

porque a vida também é parvoíce .

aqui vai uma dose consistente de parvoíce através das minhas criações para o Salão Neurótico .

"ONU"





"a amiga alga"




"anjelica houston"




"ases pelos ares"




"atingir os nirvana"




"o cacto das botas"



"cair o carmo e a trindade"
(ideia da Sara Bettencourt)




"chet baker"




"chuchar expresso"



"dodge viper"



"hashtag"




"icy dead people"





"justin beaver"



"khalid bolo-de-arroz"




"kim kong"




"los angeles leicas"




"luís filipe vieira"




"olavo bivaque"



"ovnibeja"




"paco bandeira"



"passas para mim no rossio"




"pente house"
(ideia da Sara Bettencourt)




"rolling scones"




"sean pen"





"tom cruise"
(ideia da Vera Rodrigues)



"trabalho pro bono"


sábado, abril 28, 2012

nevoeiros feitos saunas

a nossa mania de olhar para as coisas sem ser do tamanho que são deixa-nos sempre no limiar do risco de não conseguir ver tudo o que elas comportam.

aos nossos olhos o nevoeiro são apenas nuvens que decidiram ser um pouco mais pesadas e assentar sobre a terra como uma camada de chantilly se acomoda num bolo, toldando o caminho, dificultando a distância, humidificando o pensamento e as ideias. tenho para mim que o nevoeiro é um método de concentração. grita por todas as gotas "concentrem-se, vá, não olhem lá para o fundo que não dá para ver. hoje é para olhar para esse canteiro aí ao pé e dar atenção às joaninhas a trepar plantas".

diz a tradição popular que se sonha mais quando há nevoeiro. diz a minha experiência que isso é bem capaz de ser verdade. diz a minha imaginação que isso faz todo o sentido, desde que se assuma que as moléculas de água são óptimos vagões de transporte de sonho e que, em dias de nevoeiro, a linha de caminhos de ferro dos sonhos se encontra em todo o seu esplendor. deve haver qualquer nuance científica para isto, mas eu hoje ainda nem comi os meus cereais, por isso deixem-se lá de ciência tão cedo.

outra hipótese é bem mais macrocósmica. imagino gigantes (meio invisíveis aos nossos olhos) que vivem universo fora e que usam a terra como o seu spa. os oceanos como jacuzzi. as montanhas como banquinhos. e o nevoeiro, provavelmente, corresponde à sua sauna. acho que vou tentar confirmar se isto não será verdade. mas só depois de comer os cereais.

segunda-feira, abril 23, 2012

mil folhas

a leitura é um hábito que se cultiva desde quase tão cedo como aquele outro hábito que envolve o diafragma e os pulmões, o que serve para manter as funções vitais em forma. já se inventaram muitas formas de arte e expressão cultural, e várias dessas têm em mim um fã acérrimo e um eterno seguidor. mas nada ultrapassa o etéreo de paixão que de um livro pode brotar.

um livro trata-se como se de uma relação apaixonada se tratasse. olha-se de longe, chama a atenção, aproximamo-nos pé ante pé, a primeira vista transforma-se no primeiro cheiro, no primeiro manusear. a tinta das letras olha para nós com olhos de piedade, emanando "compra-me" por todos os poros da folha de papel. olhos que são de treta, porque sabem bem que no que separa capa de contra-capa se encontra um turbilhão de vida, um vértice de histórias, uma lupa para vidas e mais vidas e tempos e mais tempos.

ninguém é obrigado a ler. eu acredito no livre arbítrio. mas quem não se conseguir apaixonar por um livro não sabe o que perde. perde a capacidade de ver com aquilo que se esconde atrás da retina, o mundo que pode vir num objecto. sendo que o que está atrás da retina ainda é para ser banhado em pós de coração e regado com mais uma ou duas colheres de sopa de experiência pessoal.

lembro-me da primeira vez que li sobre a caixa de pandora. lembro-me igualmente de achar que cada livro, isolado, individual, cheio de personalidade, era ele próprio uma caixa de pandora. encostado numa estante de uma livraria ou de braço dado com outros livros num lugar lá de casa, espera paciente e pacificamente o seu dia. acumula toda a sua energia, guarda todos os seus segredos. no momento em que o detector de metais do acaso nos leva até ao seu cerne metálico, é puxado da estante, com um leve toque é-lhe limpado o pó da capa, e a abertura da primeira página traz a certeza de que o caos aí está, pronto para começar, para nos fazer viajar para outro lugar e para, com toda a certeza, nos dar o poder da metamorfose. isto porque ainda está para vir o livro que não me torne uma pessoa diferente uma vez que acabe de o ler.

domingo, abril 15, 2012

os tempos em que o efémero nasceu

eram os verões do início dos anos noventa. alguns de vocês que estão a ler ainda nem nascidos eram, não passavam de projectos de cruzamento de material genético nas cabeças e gónadas dos vossos pais. sesimbra era uma terra com menos casas, com menos gente, com mais barcos, com água mais limpa. os meus dias eram passados a descer e subir a colina. para a praça, para a praia, para o almoço, para a praia da tarde (ó se a água tinha sempre carneirinhos que se adivinhavam cá de cima), para o jantar, para o passeio da noite. entre postas de cherne grelhado no carvão, brisas do mar e barcos de doce de amêndoa, a vida era ela própria doce como as sobremesas e o grande objectivo de vida era um dia conseguir nadar até aos barcos.

pelo meio de tudo isto uma certeza. o walkman da sony, recebido como presente no fim da quarta classe, era um dos meus melhores amigos. nele cabiam as várias colecções de música gravadas em cassete no espólio lá de casa. uma delas tinha como destino acabar de exaustão. nunca nenhuma cassete deve ter sido ouvida tantas vezes como o terceiro greatest hits dos queen no meu walkman. era um contínuo de mudar lado a, lado b, lado a e siga. o bohemian rhapsody do início já patinava de tanto uso. o prazer de sentir o stereo dos enormes phones a meio do another one bites the dust, quando um som espacial e especial navegava da direita para a esquerda e me enchia de tridimensionalidade. a praia e o verão sabe-me a isso. o cheiro do mar na pele e a imagem das minhas enormes pestanas cheias de sal caminham ao lado dos acordes dos queen e da voz inigualável do freddie. essa era a altura da música que não morre. os queen, os the smiths ou os beatles, por mais voltas que o mundo dê, serão intemporais.

não sou saudosista ao ponto de achar que não se faz boa música hoje em dia. apesar de as notas serem apenas sete (sem contar com bemóis, sustenidos e escalas) é claro que se continua a fazer muito boa música. mas hoje os tempos são diferentes. as bandas dependem de hits no youtube, de presenças em festivais, de cinquenta minutos para dar tudo e de um fim de fama que é quase tão rápido como a subida para esse pedestal. dependem do momento, dependem do fenómeno, deixaram de estar assentes na terra com pilares fortes, próprios de quem sabe muito de música e cria legiões de fãs dessa maneira. posso ser só eu, mas duvido que daqui a vinte anos alguém esteja a escrever um texto a dizer que se lembra de uma música qualquer da rihanna enquanto descreve o sal nas pestanas. esperemos para ver...

o amor anda de mãos dadas com a dedicação

a recomendação é para que se chegue cedo. a enchente diária de turistas é garantida. em qualquer altura do ano. a confusão de agra, uma cidade bem "agra-e-doce", é atravessada pelo rio yamuna, majestoso na altura em que ali chego, no fim da época das monções. inunda os campos de água, fecundando-os de vida. a vigiar de perto o curso do yamuna encontra-se aquele que é provavelmente o monumento mais famoso do subcontinente indiano, o taj mahal. se há locais do mundo que nos causam demasiada expectativa, desiludindo no momento da descoberta, este não é certamente um deles, sendo tão ou mais impressionante do que os nossos melhores sonhos imaginaram.

para lá chegar fintam-se as ruas dos bairros envolventes. chovem convites para entrar em mais uma casa de tapetes. ou ali na outra que vende toscas miniaturas dos monumentos. de onde somos? israel? espanha? itália? entre, entre, não paga para ver, oferecemos-lhe chá, sem pedir nada em troca. chovem também algumas gotas de água do céu, na madrugada que traz o sol e o resto de algumas nuvens que ficaram da monção. o cheiro da terra molhada mistura-se com o das especiarias e em conjunto voam na humidade teimosa que preenche qualquer centímetro cúbico da atmosfera indiana.

por fim entra-se no complexo do taj mahal. o espelho de água em frente do monumento obriga à fotografia da praxe. várias. infindáveis. vistas tantas vezes antes em revistas e livros e guias e tudo e tudo e tudo e tanta vontade de chegar a todo o lado do mundo e este é tanto um dos que mais queria. depois do mergulho turístico vem o mergulho mais doce, o da história deste lugar. o imperador mogul shah jahan, perdido de dor pela morte da sua mulher (a terceira, mas a favorita) aquando do nascimento do seu décimo quarto filho, resolveu construir um monumento fúnebre em sua homenagem. para isso condenou milhares e milhares de escravos a anos seguidos de sangue, suor e lágrimas, numa épica epopeia de vinte e um anos. as pedras vieram de todos os cantos do mundo, da bélgica ao afeganistão, numa operação logística sem comparação à época.

para adensar a trama, pouco tempo antes da inauguração do majestoso monumento, o filho de shah jahan levou a cabo um golpe de estado para tomar o poder do império mogul, condenando o seu pai a prisão perpétua no forte de agra, a cerca de dois quilómetros do local do taj mahal. reza assim a história (pouco confirmada) que o homem que investiu vinte e um anos na obra que homenageava o amor da sua vida, viu este a ser concluído pelas frestas de uma pequena janela, numa ínfima cela do forte de agra. ainda assim, espero que tenha sorrido, porque o amor muitas vezes vale mais pelo quente que causa no coração do que pela concretização física que daí possa vir.



(foto tirada por mim em 15 de setembro de 2010, agra, índia)

sábado, abril 14, 2012

a descida do avião

a descolagem de um avião é um bonito hino à engenharia e ao engenho humano. sentimos o corpo colar-se à cadeira, os motores gritam alto como quem prepara a investida numa batalha, as rodas rodam mais rápido que elas próprias, as asas concentram-se com toda a força e o aparelho acelera pista fora. imagino-o sempre de ohos cerrados, concentrado, conquistador. finalmente as leis da física decidem que as correntes de ar que roçam as asas vão mudar a forma como se brinca a este jogo e geram o impulso que leva o avião a descolar. colam-se então as paredes do estômago, a inclinação do corredor da aeronave mostra que há um meio termo entre o horizontal e o vertical e aí vamos nós. gosto muito de descolar por esse mesmo motivo. é como uma composição musical triunfante. uma declaração de intenções ao universo e um cruzar de espadas com a atmosfera.

mas o que que eu gosto mesmo é de aterrar. porque na descida faço de conta que não há engenharia e engenho humano e imagino que sou tão somente um pássaro, que, planando, encontrou o seu destino e gentilmente vai descer na sua direcção. podia fazê-lo como águia que caça um rato depois de o marcar lá do alto. mas prefere, em vez disso, descer gentilmente e aprender a noção dos tamanhos. a delícia é ver que os quadrados indistintos acastanhados se tornam em verdes, castanhos, rios e estradas. gentilmente pontos brancos ganham a forma de armazéns e de casas. a pouco e pouco as formigas que acabaram de aparecer mostram que afinal são carros, movendo-se em todas as direcções. e é neste micro-cosmos que mergulhamos. deixamos lá em cima a visão de um mundo parado e sossegado para voltar a ter a convicção do corropio e da passagem do tempo. sei que estou de volta quando consigo distinguir figuras humanas. sorrio, na certeza de uma vez mais ter voado, desafiado as graves leis da gravidade, que nos mantêm de pés tão bem assentes na terra mas que ao mesmo tempo estariam prestes a contrariar uma aeronave que não se decida a carburar o caminho.

nisto as rodas tocam na pista. ouve-se o chiar do impacto. em breves segundos o nariz desce e a parte da frente poisa também, como se do gesto final de um bailado se tratasse. findos os amantes, voltam os motores. estridentes novamente, agora ao serviço da travagem. e eu gosto sempre de imaginar que estes motores são a ovação de pé da plateia a mais um vôo nos céus de uma espécie que afinal nem tem asas.

sexta-feira, abril 13, 2012

o beijo

isto dos dias internacionais do tudo-e-mais-alguma-coisa dava-me para ter um tema para escrever por dia. em que momento se perdeu a espontaneidade deste mundo, e se decidiu dedicar a celebrar algo em dias específicos, gostava eu de saber. não sei se o dia internacional do beijo implica comemoração específica ou particular, ou se a dose em que hoje os beijos são servidos tem mais um terço do que o habitual por ser o seu dia.

o beijo não só é para uso frequente como é intemporal. imune a dias. às vezes até imune a noites. a quantidade de informações sensoriais acumuladas na língua e nos lábios mostram a importância que a própria biologia deu ao beijo. a troca é mais que táctil. o conhecimento é sinuoso, navegador, partindo-se à descoberta de uma envolvência que é própria de cada beijo. não há dois beijos iguais. e há decerto mais beijos que genes. cruzamentos de beijos ao longo da história geram tantos outros. emparelhados, desemparelhados, igualmente belos. aprende-se a beijar como se aprende a andar de bicicleta. não se esquece jamais. aperfeiçoa-se enquanto se conhece. com o tempo o beijo ganha tons de cartão de identidade e vale mais que as cores que dançam na retina.

e quanto à dúvida de beijar de olhos abertos ou de olhos fechados, experimentem antes beijar de coração aberto e a questão responde-se a si própria antes de ser sequer colocada.

quinta-feira, abril 12, 2012

o mal dos super-heróis é serem demasiado super

as crianças identificam-se com os super-heróis. na inocência e pensamento sonhador, próprios da infância, sonham ser como (inserir o nome de um qualquer super-herói presentemente num momento de grande fama) e imaginam-se no dia-a-dia com os poderes dos seus ídolos. no meu tempo achávamos que podíamos ser o super-homem, o batman, o capitão américa, o he-man ou alguns outros. bom, eu também sonhava ser o alf, mas sou um caso patológico e isso não vem agora à discussão.

nessa fase do pensamento, vacilante entre a construção dos valores aprendidos em casa e na escola, as hipóteses da fantasia aparecem como válidas e todos nós achámos nalgum momento que conseguíamos voar de casa para a escola ou colocar o modo invisível para roubar algodão doce na feira popular. depois crescemos. e quando a vida adulta nos mostra do que é feita, quando cheiramos pela primeira vez o valor da responsabilidade, quando passamos a pagar impostos ou a poder pedir bebidas alcoólicas sem ser por intermédio de alguém mais velho, essas figuras passam a ganhar o cunho de ficção. assentamos bem os pés na terra na certeza de que o que nos leva de casa para o trabalho são veículos com rodas ou que caminham sobre carris e que o algodão doce está ao nosso alcance, sim, mas em troca de pedaços redondos de metal ou rectângulos espalmados de papel.

o que nos faz desistir de acreditar nos super-heróis? provavelmente o facto de serem demasiado super. o que os torna demasiado super não é sequer o facto de terem super-poderes. julgo que isso nós até saberíamos integrar na nossa realidade (mais ou menos alternativa). o que os torna escorregadios é terem defeitos. as fraquezas que lhes arranjas são sempre muito criativas mas pouco humanas.

porque é que nunca vemos o homem aranha ansioso porque tem de pagar o imposto municipal e uma conta da luz que não lembra a ninguém? o batman pelos cabelos porque os filhos não param de berrar e ele tem de acabar um relatório de contabilidade para entregar no dia seguinte no seu posto de função pública? e o capitão américa a ter de esperar quatro horas na loja do cidadão para renovar o passaporte? ou o he-man no ministério da administração interna para renovar a licença da espada que utiliza para tentar derrotar o skeletor?

no dia em que os super-heróis tiverem as ansiedades, os medos e as obrigações repetitivas de qualquer ser humano, talvez voltemos a acreditar que é possível voar ou invisivelmente surripiar algodão doce. até lá continuamos com dificuldade em perpetuar essa crença de infância. claro que agora aprendemos a brincar a um jogo novo, o de fingir em redes sociais que somos todos como super-heróis livres de fraquezas. mas disso falamos noutro dia, que eu agora tenho de ir a voar da janela de casa até ao trabalho.

domingo, abril 08, 2012

conversas com a lua

numa das minhas conversas com a lua perguntei-lhe como é que ela fazia para ter esse jeito tão próprio de fazer tanta gente acreditar que aquela luz é dela, quando no fundo ela é apenas um espelho da luz do sol. a lua lá me explicou vagarosamente, como é seu timbre, que foi criada mesmo para isso, para espelhar e ajudar a ser feliz. contou-me que dia a dia mete as mãos à obra, gira grandes rodas dentadas para ir gradualmente espelhando um pouco mais de luz. chega ao dia do seu máximo esplendor e gira tudo ao contrário para ir dando cada vez um pouco menos de luz. com isto, diz-me ela, ajuda a subir e descer as marés, a orientar os animais selvagens nos seus caminhos e até a influenciar quando os bebés nascem.

aplaudi o brilhantismo da lua e fiz-lhe duas ou três festas no lombo (saibam que a lua rebola de felicidade quando lhe fazem festas no lombo) mas logo me surgiu outra dúvida. então, se ela funciona como espelho da luz do sol, não poderia também funcionar como espelho da luz da terra. ficou meio baralhada, deu três piruetas no ar, espirrou (eu disse educadamente 'saúde') e atónita perguntou-me o que é isso da luz da terra. se teria algo a ver com pirilampos ou com fitoplancton fluorescente. primeiro disse-lhe que andava a ver national geographic a mais. suspirei. de seguida expliquei-lhe que não, que a luz que vem da terra vem de quem a quer emitir. que eu, por exemplo, tinha sempre raios de luz a querer sair dos meus olhos e do meu coração e que os queria enviar para outros pontos do planeta. mas os correios negam o transporte de raios de luz e fatias de amor. dizem que não passa na alfândega. se um guarda fronteiriço suspeita que há uma fatia de amor guardada dentro de um cuidadoso embrulho é logo menino para, assobiando para o lado, a guardar dentro do casaco e levar para casa, porque dá sempre jeito em qualquer ocasião.

assim, pedi à lua se me deixava usá-la como espelho e enviar os raios de luz e as fatias de amor através dela. disse-me que não via inconveniente desde que fosse só às terças, quintas e domingos, porque andava muito ocupada com outros projectos, nomeadamente ao nível do outro lado lunar. chegámos a um acordo de cavalheiros, sorrimos e cada um foi à sua vida. creio que a ouvi a trautear, ao longe, afastando-se, os acordes do "somewhere over the rainbow".

desde então uso a lua sempre que o meu coração quer enviar um ou outro raio de luz. quem diz que a distância dá conta do amor é porque claramente nunca usou a lua e anda a perder anos de vida. ou vida nos anos.

quarta-feira, abril 04, 2012

os cabos do mundo .

a predilecção do ser humano por cabos é algo de notável.

há quinhentos anos atrás o seu objectivo era dobrá-los no meio de tempestades, entrando para dentro de meia dúzia de tábuas de madeira marteladas à pressa com um quadrado de pano a dar a dar ao sabor do vento. os cabos eram de tal forma temidos que até lhes inventavam figuras humanas monstras e lhes davam nomes de miradouros de santa catarina (deixem-me acreditar que a ordem dos factos é esta, sim?).

num regime mais contemporâneo os cabos mudaram de sítio. largaram a pedra em que a água bate e tornaram-se em fios de cobre, ou de outra coisa qualquer, envoltos em borracha e com uma maníaca tendência para se enrolar. sempre achei aliás que os cabos só podem ter sido feitos à imagem dos bichos de conta, dada tamanha semelhança no que toca à 'enroladela'. estes cabos estão por todo o lado. criam uma cidade à parte, só sua, acima da outra e abaixo da outra. até ao fundo do oceano eles foram parar, para transportar megabytes de informação enquanto lancham com uma raia e gracejam com um tamboril.

engraçado, talvez, é o facto de os cabos serem sempre sinónimo de comunicação. já o eram na sua infância enquanto acidentes geográficos e continuaram quando cresceram e se modificaram para outros usos. cá para mim isto foi o fruto de anos e anos a ver como as aranhas usam os cabos (de rede) para construir o seu mundo. é. ao fim e ao cabo foi mesmo isso.

segunda-feira, abril 02, 2012

pergunta resposta .

pergunta: " oh João, tu que és cardio, achas que amamos com o coração? "

a minha resposta: " acho que devíamos amar com o coração e teimamos em amar com a cabeça..."

domingo, abril 01, 2012

entre linhas de pautas moram letras

a música tem um papel constante na minha vida. os sons mais variados conseguem a proeza de me fazer viajar sem sair do mesmo sítio. de sonhar acordado. tem mais força para os meus sentidos carregar no botão 'play' de certas músicas do que pôr uns óculos estranhos e fingir que estou a ver o mundo a três dimensões. (o que se passa com isto das três dimensões, já agora? que raio de embuste à inteligência vem a ser este? eu quando vou ver um filme quero ver um filme. descansado. em sossego. de três dimensões já é o resto do meu mundo e se eu quiser três ou mais dimensões vou para o meio da floresta ou da praia e não preciso de usar óculos adequados. tirando os de sol em certos dias.)

consigo traçar a rota da música na minha vida até aos momentos mais primitivos da minha memória. consigo associar músicas a locais, a pessoas, a fases da vida. já me apercebi que funcionam certamente como um índice do livro que é a nossa vida. quando começam a tocar, envergonhadamente, do nada, transportam-nos no tempo, trazem de volta os cheiros, os sorrisos, as lágrimas, o vento a bater na cara, o reflexo do sol no mostrador do relógio e a forma como o usávamos para brincar com o mundo.

além de roteiro, a música é um amigo. dos melhores. leio ao som da música. estudo ao som da música. escrevo ao som da música. escolho diferentes músicas consoante o tipo de texto que quero escrever. reinvento a banda sonora das letras a cada momento. assim sinto a escrita como um filme. e os filmes têm todos música. porque as notas sabem navegar, à deriva, de mãos dadas, com as imagens, como mais ninguém o consegue fazer.

sexta-feira, março 30, 2012

nevoeiro .

o nevoeiro da noite vem disfarçado de um modo de tal forma universal que chego a acreditar que as máquinas de teletransporte estão precisamente escondidas, ocultas, ali no meio. e algum defensor do sebastianismo deve ter tido a mesma suspeita que eu (ou vice-versa), daí o mito.

pedaços de água, amarrados em jeito de nuvem, descansam mais perto da terra do que é habitual. como se estivessem de visita. como se viessem de lente angular de máquina reflexa em punho, dispostas a descobrir o que se passa e quem passa no que se passa.

dizem que se sonha mais quando há nevoeiro. sonha-se de facto mais quando há nevoeiro. não deixa de ser irónico que no momento em que a visão real do exterior se torna mais turva a visão decidida do sonho se torne mais clarividente. vou ali pôr um pé em áfrica, o queixo na ásia e o tornozelo na antárctida. ou, por outras palavras, aproveitar o nevoeiro para viajar até onde bem a vontade me levar, sob a forma de sonho.

quinta-feira, março 29, 2012

sobre a beleza .

é extremamente hipócrita afirmar-se que o aspecto das pessoas não conta e que o que importa é exclusivamente ser-se bonito por dentro. como o mundo vive de hipocrisias há uma grande fatia da população (adoro imaginar a população como um bolo de chocolate) que vive nesse alegre lugar-comum. mas se é hipócrita achar que as pessoas não valorizam o aspecto dos outros como um dos factores principais nas suas escolhas é na mesma dose inocente e infantil achar que isso isoladamente lhes traz esta vida e a outra.

pode ser-se bonito por fora. como se pode ser bonito por dentro. ser bonito por dentro tem até a grande vantagem de estar ao alcance de todos, não é tão geneticamente decidido como a parte de fora. depende da personalidade, da forma como ela é talhada, dos inputs positivos e negativos, do coração e mente calejados com os burburinhos inerentes à vida. mas sempre mutável. sempre a tempo de ser adaptado.

as pessoas bonitas por fora devem viver felizes com esse facto e tentar esforçar-se ainda mais por ser bonitas por dentro, já que parte do caminho lhes está facilitado. se não conseguirem sair da roda viva de achar que uma cara laroca lhes compra o mundo vão acabar a chorar a solidão e a incompreensão. porque uma parte de fora bonita... hoje em dia até se compra. manda-se fazer. depois gasta-se com o tempo. o interior bonito não se compra, constrói-se, dá muito mais trabalho, e por isso tem muito mais valor. as máscaras duram umas horas mas o que está por trás delas dura uma vida.

o mundo da fantasia também devia ser justo .

nunca gostei de histórias estanques. se nos filmes com pessoas a sério (embora algumas estejam tão descredibilizadas que parecem pessoas a brincar) existem tantos cameos, essas maravilhosas participações especiais que raramente são mais do que marketing pessoal, os filmes de animação não deveriam ser excepção e as histórias podiam misturar-se no mundo da animação (eu sei que o shrek já tentou um bocadinho isso, vá, eu sei, mas é todo outro conceito que aqui está em causa).

chegado o momento de o lobo mau comer 'a' capuchinho vermelho, esta só lhe dizia "porque é que não comes antes a hansel e o grettel que se fartaram de comer doces e estão gordos que nem um abade?"
"não... agradeço o conselho, mas estou de dieta. o verão está a chegar e vou para um resort de lobos, quero estar em boa forma"
"e os três porquinhos?"
"que horror... bacon e presunto e coisas? então isso é que está mesmo fora de questão!"
"então e eu não sou má para a tua dieta?"
"disseram-me para fazer uma dieta de frutos vermelhos. eu não sei o que isso é e tu eras o mais vermelho que eu vi num raio de x quilómetros."
"o que são x quilómetros?"
"não sei bem... é uma forma de dizer quando não se sabe bem quantos quilómetros se quer explicitar."
"olha, e a pequena sereia?"
"não sou grande fã de peixe. acabava a comer só metade e há tanta fome no mundo que me parece mal do ponto de vista ético."
"mas eu sou uma criança... não te parece pouco ético almoçar uma criança?"
"acho que tens razão. desculpa todo este mal entendido. acho que vou comer a cinderela, que é magrinha que nem carne de aves. não se fala mais nisso."

terça-feira, março 27, 2012

"man on wire" (2008)




as provas diárias de egoísmo, imbecilidade, insensibilidade, acomodamento ou tantas outras características negativas, que são a cobertura glacé desse cupcake que é a vida, fazem-me frequentemente acreditar que o mundo é um autocarro perdido. sem condutor. ou pior que ir sem condutor... com um que bebeu demais à merenda.

depois dou de caras com histórias como a que é retratada neste documentário e volto a achar que afinal não vai tudo dentro desse autocarro. a prova de coragem, determinação, treino e originalidade da história de vida de philippe petit estão para o desânimo e a descrença nos sonhos como uma caipirinha gelada para uma tarde de verão com quarenta graus à sombra e sem brisa a soprar.

para lá de recomendado. (mesmo a quem tem medo das alturas)

razões e motivos

hoje li uma frase que me deixou a pensar durante várias horas.

era sobre o motivo de escrever. perguntava de modo directo, e indirecto, sem sequer usar pontos de interrogação, o que leva as pessoas a escrever, qual o seu destino final. primeiro senti-me indignado com o que a frase dizia. depois pensei no conteúdo da frase. finalmente acabei a dar razão à frase.

nunca duvidei que se aprende a todos os minutos que passam. nunca duvidei que a melhor massagem ao ego vem sob a forma de elogios espontâneos, pouco forçados, pouco materiais e, sobretudo, desinteressados. egos à parte (e se os egos ocupam muita da maquinaria por trás de tudo o que fazemos na vida) eu esforço-me sempre por tentar ter a humildade de olhar para as bússolas, mesmo as que me parecem feias e ferrugentas à primeira miradela, contemplá-las durante uns bons minutos (ou horas) e perceber o que é que ali está que me possa ajudar a re-orientar os eixos no sentido de um norte ou sul mais magnéticos e menos magnoegoéticos.

a frase não a digo. isto é um pouco como quantos ovos usar na receita ou como o truque da raspa de limão, o segredo ainda continua a ser a alma de muito bom negócio.

sábado, março 24, 2012

ursos polares em desertos



a sensação de estar perdido numa conversa, numa música ou num local é decerto igual ao que um urso polar sente se o largarem do nada no meio de um deserto.

as âncoras culturais, de espaço e de tempo, são um pouco o índice do livro que construímos ao longo da nossa vida. se nos arrancam essas páginas andamos a saltar apressadamente de capítulo em capítulo, mais rápido que o coelho da alice, imaginando que o chão nos treme sob os pés.

se isso é mau como princípio de vida... estar perdido apenas de tempos em tempos não é obrigatoriamente negativo. ajuda a encontrar e ajuda a desenhar novas derivadas, ajuda a pôr novos carimbos na nossa equação, e quem sabe até a resolvê-la.

lembro-me frequentemente da sensação de perda numa viela (ela própria perdida) das ruas de mumbai. de sentir que ia caminhando, seguindo os cheiros, as cores, o ensurdecedor barulho saindo das várias casas, os pedidos de 'pare aqui, entre ali' e de ter quase entrado em modo de epifania do quão caótico um momento se pode tornar. libertar os cinco sentidos nesse vórtex de primitivismo selvagem encaminha os eixos para uma espécie de alinhamento que quase leva a encontrar o sexto sentido. depois há de novo a luz. neste caso entrar por uma porta, sentar numa mesa suja, encostada a um canto, ignorar todos os olhos postos na pessoa que é estranha a este ambiente, usar as rudimentares palavras em hindi para pedir um prato de lentilhas com especiarias e um lassi doce. mergulhar no sabor da refeição, que traz a história da humanidade agarrada em cada colherada e em cada movimento de sucção da palhinha. sorrir a quem passa, ver que acalmaram a curiosidade e que voltaram à sua vida normal de almoço, à sua conversa. sobre o que será que conversam eles? perco-me a imaginar. agora trocámos de papéis, agora sou eu que os adivinho.

por mais línguas que inventem, por mais dialectos que escrevam, por mais sons diferentes que sejam emitidos, a imaginação é algo que será sempre transversal ao ser humano. e tenho para mim que na torre de babel só não se entenderam o suficiente para a construir porque gastaram demasiado tempo a tentar comunicar por palavras e tempo a menos a tentar comunicar com o coração.

quarta-feira, março 21, 2012

partida, largada, fugida .



a placa das partidas tem o ar sensaborão do branco e do preto, mas quem a cheira de perto sabe que nela se perdem todos outros mundos e destinos, que navegam por corpos como baldes de adrenalina lançados sem pedido de autorização.

o toque da pele dá a certeza da direcção. inventam tantas portas mas quando uma mão toca na outra, e os olhos se cruzam por microsegundos, o mundo todo desaba, as pernas fraquejam, e o íman do destino é mais forte do que aquele castelo que quisemos trazer lá de longe e que colámos toscamente na porta do frigorífico.

os pontos de encontro desencontram-se dos caminhos perdidos. os megafones anunciam partidas mas os nossos olhos só vêem chegadas. cheira a borracha de bagagens e a perfume de hospedeiras mas o nosso nariz só cheira nozes moscadas, praias mascadas, águas mergulhadas e sóis bebidos. lá longe, onde as árvores brincam às construções na areia, e as algas fingem que são tenebrosos tubarões, há um sol que nasce, outro sol que se põe, e horas para ser vividas entre um e outro, para cima e para baixo, como se fôssemos aquele canalizador baixote de bigode que saltava em busca da princesa. no paraíso não há princesas antecipadas. elas aparecem. nascem dos vermelhos com que se pinta o céu e com que se pintam os lábios. e as unhas também, estamos uns mãos-largas com o vermelho. da leve e discreta brisa que teima em ondular os cabelos e dos grãos de areia que sorrateiramente descansam na palma das mãos e assim navegam em caravelas de desejo até às faces acabadas de corar.

mesmo quando o céu desaba é para renovar. corremos na chuva e rimos do tempo. brincamos aos avessos e chovemos no molhado. porque o sorriso é coisa para ter mais energia que um relâmpago. e a energia é aquilo que levamos da vida.

domingo, março 11, 2012

salada de palavras



os rodados marcados na terra são sempre a prova do que por ali passou. paro sempre para inspeccionar provas do tempo, recente ou passado. fósseis de caracol ou rodados de jipe também fazem parte do adn de um lugar, provavelmente bem mais que as coordenadas dadas por satélite.

inventam-se aparelhos que dão (dizem eles) com uma precisão de milímetros a localização de um ponto na terra. irónico como há tanta precisão para definir onde estamos e tão pouca para perceber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. talvez sejam idiossincrasias de domingo à tarde com sol, doce luz a encher-me os olhos e vida a correr-me nas veias.

prendi-me há pouco por momentos nos olhos de um animal que claramente ficou surpreendido com a minha investigação. quer-me parecer que vive ali naquele local, que a sua vidinha passa por aquele parque, pedindo emprestado, sem prazo de devolução, uma ou outra dádiva dos turistas que se sentam na esplanada depois de uma manhã de jardim botânico. na sua postura de carteirista da vida não olha as vítimas nos olhos, pegando no troféu e afastando-se para os seus vegetálicos aposentos arbustados de privacidade. pedi-lhe os olhos. tentou fugir como quem não se quer comprometer. conversámos durante uns bons minutos e acabou por ceder. e nos olhos consegue-se ler tudo. os olhos deviam trazer isbn e código de barras porque nunca vi outro lugar nos animais (de duas, quatro, oito patas, as que vos apetecer...) que fale tanto, ainda que sem sair do silêncio.

perdido na salada de palavras e vida, que ali estavam contidas, sorri. depois fiz-lhe uma festa, ronronei por vê-lo ronronar, espreguicei-me, esse acto de esgar de vontade e levantei-me para continuar o meu caminho. ele ficou parado, a olhar-me, cá para mim a tentar perceber quem é vítima e ladrão no meio desta história toda.

sábado, março 10, 2012

as máquinas dependem todas de uma fonte de energia . até o coração .



escreve-se muito sobre o amor.
escreve-se demasiado sobre o amor.
será que se escreve efectivamente sobre o amor?
não se escreve quase nada de jeito sobre o amor.

não contem que seja eu que venha fazer isso. tenho mais jeito para ler em esplanadas, enquanto bebo goles de café e me perco a olhar para as gaivotas na sua vidinha, do que para eloquência em temáticas amorosas.
o vosso azar é que as gaivotas foram de fim-de-semana e estou sem moedas para comprar café, restando-me apenas a caneta e o papel do moleskine. esperem. está aqui o computador também. vou salvar a amazónia (e um ou outro bocado de monsanto) e usar antes as teclas.

não houve jamais um homem ou mulher que compreendesse o amor. nem jamais haverá. tal como ninguém sabe onde o universo começa ou termina. achando-nos na inteligência de tudo saber, cometemos o erro de frequentemente achar que os limites do universo, o amor, ou a razão pela qual a torrada cai sempre com o lado da manteiga para baixo, não nos escapam à compreensão.

erro. é bom compreender. mas é melhor ainda viver. o amor existe para ser vivido. tal como o universo existe para ser vivido. a história da torrada e da manteiga já não é bem assim, mas fica para outro dia que eu não gosto de falar de manteiga em textos que vacilam deslizantemente para o campo magnético do amor.

todo o tempo que é perdido a discutir o geral é fascinante. porque uns amam devagar demais. outros amam depressa demais. uns param demasiado para pensar. outros deviam parar para pensar. uns sabem gostar. outros não sabem gostar. o amor morre. o amor vive. paremos.

paremos, não para pensar, mas para aproveitar melhor o tempo, porque esse não pára e, vulgarmente, ri-se de quem não o sabe usar. dêem as mãos e sorriam mais vezes. discutam a forma das nuvens mais vezes. sintam que adormeceram com a vossa metade e que acordaram com a vossa metade. a vida está cheia de detalhes e a teimosia continua a ser em falar da forma em vez de mergulhar no conteúdo.

o vosso coração precisa da arquitectura correcta para funcionar. como todas as máquinas. mas isso não chega. nunca vi nada funcionar sem combustível (energia cinética também conta, não vá aparecer aqui algum preciosista da física). e o coração não é excepção. hoje, quando forem tentar desconstruir o amor, com o objectivo de criar um livro de instruções, saiam em vez disso para a rua e sorriam para o céu da noite. na volta ainda vêem uma aurora boreal e percebem que os pincéis para colorir a felicidade já vêm connosco de origem. basta querer utilizá-los.

sexta-feira, março 09, 2012

aleatório escreve-se com x ou com ch ?



a vantagem dos pensamentos aleatórios é que começam aqui e acabam ninguém sabe muito bem onde. acredito que os pássaros também voem assim. têm a mania de inventar que não. que voam em bando. muito organizados. que com jeitinho até escrevem YMCA no céu ao som da música. mas isso é tudo uma farsa. há é decerto um pássaro mais esperto que os outros. consegue convencer o resto do bando a voar para um lado qualquer ficando com o caminho livre para arrastar a asa à senhora dona passarinho da sua eleição. nem usei o feminino de pássaro porque vocês têm mentes maldosas e retorcidas e isto é praticamente uma casa de família sem a parte da família.

felizmente o pássaro deve ser um bicho com pouca memória. tirando o papagaio que traz um gravador instalado. já os outros, vão voando voando, e a meio esquecem-se de para onde estavam a voar. entram em stress e quem paga são os capots dos carros, vítimas de tiros mais certeiros do que certas indirectas que ninguém percebe.

mesmo voando sem saber para onde vão os pássaros são felizes. porque andam no céu. brincam à chuva. vêem o arco-íris de perto. sorriem de bico aberto às auroras boreais. ficam com pele de galinha (?!) ao ver passar um pássaro daqueles de ferro a fazer fiu-fiu. e comem minhocas. como aquelas que usam para fazer o hamburger mais tenrinho.

eu sei que a história das minhocas não passa de um mito. mas os mitos não são mais do que brincadeiras que deixamos passear na mente para que a felicidade possa ser servida numa bandeja de prata com toalhete de limão para refrescar as mãos. e que bem que sabe ser feliz.

domingo, março 04, 2012

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .




gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes.

foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu.

no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfera que habitamos. pensou sobre isso o júlio verne, tipo cheio de imaginação, e um ou outro geólogo, que se dedica a fazer buracos e tentar perceber o que existe abaixo de nós. no fundo continuamos sem ter grandes certezas. imagino que tenha havido uma reunião das pessoas espertas e se tenha discutido se deveríamos ir ao centro da terra ou à lua. após dias e dias de discussão, os sábios, exaustos, decidiram que escavar dá muito trabalho, que o chão é rijo, e que a melhor opção seria começar a pensar em foguetões e dispará-los em todas as direcções.

outra característica bem nossa é não saber dar bem conta das coisas que descobrimos. desta vez na lua não havia ouro ou prata para saquear, muito menos indígenas para fecundar. portanto ficámos um pouco sem saber o que fazer ali. já olharam bem para a lua? com aquele aspecto desolado, as pedras todas desarrumadas e tudo com ar de ter sido atropelado pela noite anterior e estar fora do sítio?

já se perguntaram porque é que a lua tem um aspecto tão desorganizado? de certeza que todas as manhãs fazem essa pergunta. eu pensei. e cheguei à conclusão de que a lua está naquele chiqueiro porque só doze seres humanos lá puseram os pés e nenhum deles era mulher...

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

os estendais estão em vias de extinção .


os estendais prédio fora. quilos de roupa ali lutando para secar. aquilo que para nós é um acto normal para uma peça de roupa pode ser bem traumático. há quem argumente que é como se a roupa estivesse a tomar banho. a roupa responde 'experimentem tomar banho num programa que vos roda e torce durante cinquenta e tal minutos e depois falamos'. um feitiozinho, a roupa, às vezes, pffff.

feitios de peça de roupa à parte (tenho de passar a beber leite ao pequeno-almoço em vez de absinto), a verdade é que, no passado, a compensação por passar todo esse tempo dentro de um cilindro de alta rotação era de seguida serem alegremente penduradas num estendal, sustentadas por duas ou mais molas, e ali ficar, de largo sorriso na... gola, vá, a apreciar o sol, a ver quem passa ou a espiar a vida dos vizinhos do prédio em frente. para quem vinha de fora era toda uma imagem de marca de um país - 'roupa pendurada em janelas'. nunca pensei muito sobre isso, dada a naturalidade que isso constituía no quotidiano de um português, até ser chamado à atenção por quem vinha de fora e se encantava com este acto tão nosso de 'embelezar' fachadas e traseiras com roupa para enxugar. (tão nosso é extensível ao sul da europa, já que nápoles ou outras também são rainhas na arte do estendal)

depois tudo mudou. apareceram as máquinas de secar e o avanço civilizacional ditou que os estendais fossem desaparecendo. e até que as leis estabelecessem que era proibido pendurar roupa na fachada dos prédios, por motivos estéticos. foram-se os pingos de água que nos acertavam teimosamente na cabeça quando caminhávamos debaixo de janelas. as molas recolheram à base e acabaram a ser usadas para fechar pacotes de queijo ralado, açúcar ou farinha.

imagino que algures, perdido entre dimensões que ninguém sabe sequer muito bem dimensionar, exista uma espécie de jardim zoológico das coisas que se foram perdendo. de certeza que têm lá uma jaula para os estendais, com uma tabuleta a dizer "em vias de extinção". acreditem que sim, fica ali como quem vai para o pavilhão dos telefones de discar e vira à direita junto ao zx-spectrum.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

aprende-se muito a olhar para uma aranha enquanto desenha a sua teia .



o tempo é uma coisa com que adoramos brincar e da qual adoramos falar. desta vez não estou a falar daquele da meteorologia, que esse hoje está demasiado chuvoso, amuei com ele e foi para a caixa dos tabus até se pôr na ordem.

falo do outro, aquele que passa, ou que fica, que move ponteiros de relógio sempre numa direcção, desde que a pilha ou a corda ajudem. a dimensão que damos ao tempo, quase sempre para dizer que o temos em pouca quantidade, fez-me pensar que o tempo depende muito do uso que se lhe dá. se o lamarck tem perdido (ou será ganho?) tempo a pensar nisto, podia ter dado um belo filósofo em vez de passar só por biólogo estudioso da evolução das espécies.

o ser humano é capaz de gastar horas a olhar para um quadrado junto à parede, que emite fotões, reconhecidos sob a forma de várias cores, e sons, sob a forma de várias notas, onde nada do que lá se passa acrescenta um pinchavelho ao mundo. nem ao de quem olha, nem ao de quem no mundo vive. pura distracção, defendem alguns. puro descanso, defendem outros.

da última vez que me lembro de ter pensado sobre isso, descanso ou distracção não rimavam com estupidificação. bom, distracção até rimava, mas fazem para aí tantos acordos ortográficos que com boa vontade consegue dar-se um jeitinho a isso.

e o tempo é mesmo aquilo que fazemos dele. como decidimos aproveitá-lo. aprende-se tanto a olhar para uma aranha enquanto desenha a sua teia. mas provavelmente quase toda a gente acha isso estúpido. o que a aranha se deve rir de tal sobranceria.

no fundo, acho que brincamos com o tempo como se tivessemos de origem, para lhe aplicar, a máquina do senhor do 'querida ampliei os míudos', mas acabando por cair na tentação de polvilhar muito mais o tempo com a do filme original dessa série em que o trapalhão cientista os encolhia.

domingo, fevereiro 19, 2012

uma questão de arquitectura .




num dos meus episódios favoritos do seinfeld o jerry é confrontado pelo pai do míudo-bolha, um jovem com um problema imunitário que tem de viver dentro de uma bolha, longe de qualquer tipo possível de micróbio. no dia seguinte era o aniversário deste jovem e o seu principal ídolo era o jerry, por isso o pai pede encarecidamente que o artista lhe faça uma visita, para o fazer feliz. a custo ele acaba por aceitar, conduzindo atrás do carro do george costanza para ir até casa do bubble-boy. nisto perde-se do george e não dá com a casa. já o george consegue lá chegar e para fazer tempo, enquanto jerry não chega, acaba por jogar trivial pursuit com o bubble-boy (que revelou uma personalidade bem diferente do que seria de esperar) e um erro de impressão num dos cartões gera acesa discussão entre os dois (eu ponho o link da cena em baixo, para vos fazer felizes).

toda esta longa introdução para dizer que na vida, como nos cartões de trivial pursuit, pequenos erros podem gerar grandes discussões ou mal-entendidos. quando a convicção choca com a evidência os danos colaterais são quase uma inevitabilidade. no caso do trivial é completamente diferente se o erro de impressão vem no princípio do jogo ou na pergunta que dá o sexto queijinho. no caso da vida também.

quando esquadrinhamos o que somos, organizamos a nossa vida como uma cidade. as avenidas principais, embelezadas, decoradas, arboreadas e espampanantes, vivem em regime de comensalismo (quase sempre) com as vielas e travessas escondidas, onde os segredos e os desejos propositada ou não-propositadamente abafados se revelam, se desenrolam, se escondem e aparecem.

os erros de cálculo no desenho da nossa cidade causam caos de diferentes magnitudes conforme sejam feitos sobre a avenida de seis faixas ou sobre as vielas escuras e sinistras (uma ou outra destra). qual deles o mais importante? digam-me vocês, porque cada um decide onde mora o seu sexto queijinho.

Link para o vídeo da cena: http://youtu.be/_SULQSL4Cd0?hd=1

não é mania de ser do contra, eu gosto é de sardinhas .

a minha opinião sobre o dia de são valentim é mundialmente conhecida. bem, mundialmente talvez não, mas há milhões de pessoas que a sabem de cor. o quê? não posso dizer milhões? pronto, a verdade é que além de mim sabe a minha opinião um vizinho da prima de uma amiga minha, que uma vez ficou trancado comigo no elevador e me ouviu a falar disso.

não me chateiam as manifestações do amor. eu sou muito favorável ao amor, à expressão do amor e até à impressão do amor. o amor é para ser vivido, dado e recebido. o que me deixa a pulga atrás da orelha (de tal modo que já vou para aí na terceira bisnaga de fenistil) é que a convenção tome conta da espontaneidade, e toda a maralha embarque no dia-dos-namorados-porque-sim. vamos lá ver uma coisa, o que é que 14 de fevereiro tem de tão especial que justifique um menu de restaurante diferente, um chorrilho de peluches, um debaste de flores e uma quasi-crise diabética mundial de tanto chocolate? pois. nada. é um dia como outro qualquer. como diz alguém que me é muito querido, onde se vê a beleza disto tudo é nos outros trezentos e sessenta cinco (ou seis) dias do ano.

não pensem que este meu vudu vertiginoso é só contra o pobre do cupido nesta data. tenho é a mania de enveredar pelo caminho do mal e recusar-me a bater palmas ou gritar o nome do meu clube só porque o speaker do estádio acha que é boa ideia tratar sessenta e cinco mil pessoas como se fossem focas a fazer habilidades. e no fim de tudo isso... nem sequer ganham uma sardinha.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

partir o azar dá sete mil anos de espelhos



o velho lugar-comum de que quem tem sorte ao jogo tem azar ao amor (acredito que a recíproca também se aplique) terá sido inventada quase de certeza por um campeão de poker solitário ou por um don juan que nem em dois números do euromilhões (da altura, eu sei que não havia euromilhões na idade média ou lá quando isto foi inventado) acertava.

a superstição é mais uma dessas bengalas que a humanidade tanto gosta de inventar para passar o tempo. os medos, as ansiedades, os receios e as incertezas, são todos muito mais assustadores a nu. vestidos com a farda do disfarce passam por tradições, por mensagens que passaram de boca-em-boca, por ideias comuns que foram ficando. umas mais fantasiosas que outras, as superstições estão por todo o lado. os maias não deviam encontrar sinal de fatalidade do destino num chapéu de chuva deixado em cima de uma mesa, tal como um habitante de uma cidade moderna não sua e treme ao ver a lua eclipsar-se. talvez o pobre do gato preto sempre tenha tido essa sina, mas isso é conversa que fica para outro dia.

claro que as tais bengalas são tão permanentes que essa mesma humanidade nunca tenta atirá-las para o lado e perguntar-se se consegue caminhar sem ajudas. acredito (e a minha convicção pessoal deve valer mesmo muito menos do que tanta convicção colectiva junta) que o tempo gasto a temer o destino era bem melhor utilizado a sorrir para o arco-íris, a nadar dentro de água até ao pôr-do-sol ou até a passar de boca-em-boca outras coisas que não mensagens de desgraça.

um dia, vamos todos acordar e perceber que o que aconteceu não foi obra da sorte ou do azar, mas sim da eterna desordem, que se continua a rir de quem a tenta fechar explicativamente numa redoma quando nem uma redoma de jeito sabe criar.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

multas a mais em sítios a menos

só multam o que não deve ser multado. só taxam o que não deve ser taxado. não estimulam sequer o que deve ser estimulado.

é um mundo cheio de conceitos trocados. quem terá sido a primeira alma iluminada que achou que a forma de o mundo ser um sítio melhor era rebocar o carro a alguém porque não pôs uma ou duas moedas dentro de uma máquina sem vida? ou de onde terá saído a proposta peregrina para cobrar um extra sobre o preço real das coisas? se o leite custa tanto e levá-lo ao sítio X custa outro tanto, porque é que alguém que não produz leite, não transporta o leite e não entrega o leite ganha direito a viver à custa de todo esse circuito?

depois, claro está, não há gente nem recursos suficientes para controlar o que realmente importa. não vejo quem despedaça corações ser multado como se em cima de uma passadeira tivesse estacionado. não registo funcionários da emel do sentimento com ar carrancudo a rebocar oportunidades a quem não se sabe comportar. e não se paga imposto sobre o desinteresse, sobre personalidades amorfas ou sobre rios poluídos. muito menos dá vinte anos de cadeia ter mau gosto musical.

o mundo dos sonhos deve ter sido inventado com esse propósito. lá cada um define as suas taxas, define quem infringe, define quem é castigado. somos réus, juízes e advogados do nosso próprio circo de feras. quem o criou teve esse bom gosto. podia ter adicionado o bom gosto de o fazer durar mais tempo que o mundo real. pelo menos em certos dias.

terça-feira, janeiro 31, 2012

sobre aquele sítio onde levam as pessoas a ver os aviões

o centro do mundo é bem capaz de estar geograficamente lá naquela zona meio esquisita cheia de níquel e coisas que tal. nunca ninguém lá foi, tirando o júlio verne em imaginação, mas a minha ideia é que o centro do mundo deve ser qualquer coisa assemelhada de uma pilha. é melhor nunca o deixarem destapado ao sol, porque eu já fiz isso com pilhas das outras e garanto-vos que é coisa que baba.

fora do geográfico, tenho a certeza que o centro do mundo está nos aeroportos. nos vários. é um centro descentrado que se descentra tão harmoniosamente que chega a parecer estar centrado.

nenhum outro lugar brinda de forma tão fugaz o cruzamento de gente que chega com gente que parte. nenhum outro lugar tem gente a chorar de alegria no andar de baixo enquanto outros choram de tristeza no lugar de cima. nenhum outro lugar representa tão bem este formigueiro arraçado de colmeia, onde os seres humanos brincam ao toca e foge, às verdades, às consequências, aos beijos de ocasião e à ocasião do beijo.

a vida de um aeroporto é como a vida de uma sopa cósmica. destrói-se e reconstrói-se a cada momento. explode e implode ao som de tons doces misturados com razrrrs de motores potentes que teimam em invadir o céu idos da terra e re-invadir a terra regressados do céu.

o caos organizado do aeroporto é tudo isso. e tão bom de observar como uma chuva de estrelas numa noite limpa de verão. ambos são espectáculos de migração. só as personagens é que diferem e o encenador acaba por ser/não ser (riscar o que não interessa) o mesmo.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

colchões de água

os colchões de água são tipos perigosos. não só porque correm o risco de inundar o chão de um quarto se alguma coisa correr mal, como porque funcionam à laia de sensação desconhecida. pelo menos da primeira vez. sentar ou deitar num colchão de água é igual ao momento em que as nossas pernas entram numas escadas rolantes desligadas e sentem a insegurança de algo que não está no sítio certo. o corpo questiona-se, os sensores da rotina tremem de medo e a estranheza paira durante os curtos segundos que antecedem a habituação. quem tem o hábito de saltar para cima (dos colchões, não das escadas rolantes, mas que raio de tara é essa?) deles pode sentir ainda mais na pele o choque da pele com o bailado da água que vive dentro do colchão. depois habitua-se. depois é bom. depois é diferente.

a vida, como não podia deixar de ser, adora imitar colchões. de água e dos outros. os corpos estão por demais habituados a fazer os mesmos caminhos, a conhecer as mesmas pessoas, a dormir no conforto dos cobertores conhecidos e a viver na floresta de cujas plantas se conhece tão bem o cheiro. sair do caminho principal não é fácil, não é prático e não é tranquilo. somos como elefantes em lojas de porcelana. outras vezes como elefantes saltando suavemente de nenúfar em nenúfar. tudo isso envolve a mesma insegurança, o mesmo salto no abismo, o mesmo jogo de brincar com outros sentidos que não aqueles que nos são vendidos de origem na loja dos nascimentos.

mas o risco, por vezes, muitas vezes, paga o medo. porque os colchões podem ser de água. mas raramente rompem. e se rompem, que seja por bem.

domingo, janeiro 29, 2012

o encanto perdido dos sítios eles próprios esquecidos

os sítios aparentemente perdidos guardam segredos que não polvilham sob a forma de tinta qualquer mapa de tesouro.

os sítios achados têm muitas vezes algo de fantástico para visitar. algo de extremamente belo. algo que faz milhões, biliões, triliões de almas deslocar-se no passo rápido do viajante de ocasião para planar sobre essa beleza contada. e assim se chega, se vê e se parte. a visita a esses lugares tem a tónica daqueles vôos de treino, em que o avião faz a aproximação à pista, toca ao de leve no asfalto, sentindo o cheiro da terra como se de uma borrifadela de perfume se tratasse, e logo deriva o ângulo para subir na direcção de outras luas. esse toca-e-foge permanente marca o nosso dia-a-dia, o nosso noite-a-noite, e até muita da nossa fuga ao dia-a-dia, quando visitamos alguns desses lugares.

os sítios perdidos não têm essa ambição de corresponder a qualquer expectativa. os sítios perdidos, vendidos como fora de mão, entrecruzados em rotas de decadência, deixam-se ficar. são a terra com perfume que não augura ser borrifado sobre nada. o seu encanto emana da sua própria natureza perdida. engraçado como alguns desses lugares são usados por vezes em anedotas ou situações anedoctais como exemplo de fora-de-mão, de desinteresse, de fim-do-mundo. não será o fim do mundo um bom lugar para encontrar para esse próprio mundo um fim?

entre uma praia totalmente deserta, namorando árvores despidas pela rigidez de um inverno que se quer tão rigoroso como um triângulo ditatorialmente equilátero, um lago semi-gelado insinua-se com pequenos rios que brincam ao jogo da aproximação. pequenas trutas viajam saltando ali ao fundo, imunes à pressão que nunca pediram. talvez discordem do rumo a tomar, porque vejo que nadam em direcções diferentes. o sol sorri de braços calorosamente abertos para as margens e cria aquele maravilhoso espelho grátis que só ele sabe criar na natureza pura.

do outro lado do rio três veados olham curiosos para mim, perguntando-se, a meu ver, o que estou eu ali a fazer, neste fim do mundo, onde apenas os veados brincam com as raízes e as trutas nadam livremente na água gelada. porque não estarei eu onde todos os outros estão neste momento, no princípio do mundo, a aguardar quarenta e oito minutos numa fila de mais pessoas do que ovas têm as trutas, para fazer o meu papel nessa roda dentada de que o mundo depende?

sorrio do fundo do coração para o outro lado do rio, na esperança de os fazer compreender que hoje sinto ali, perdido no meio do nada, aquilo que raramente, se alguma vez, se encontra no meio do tudo.

muitas florestas para poucas árvores

querer ser demasiado abrangente num tema é perigoso e indelicado.

sempre achei que essa é das falhas mais frequentes em hollywood. todos sentados numa reunião de brainstorming (sempre me perguntei se brainstorming envolverá pedras de gelo a cair e raios no céu, mas talvez tenha pouca importância aqui para o texto, oh well...) de um qualquer grande estúdio. ideias. precisam de ideias para um novo filme. alguma alma pseudo-brilhante sugere fazer um filme sobre mulheres. todos pegam naquela folha padrão, polvilhada de fill-in-the-blankets (na verdade é "fill-in-the-blanks" mas eu sou mais a favor de entrar para dentro de cobertores que de espaços em branco. chamem-me maniento), e decidem fazer mais uma repetição da mesma história envolvendo mulheres, relações, mulheres, ralações, sexo, pseudo-sexo, sexo implícito, glamour, choro e riso.

com isto tentam abranger a complexidade que envolve "a" mulher, achando que isso se pode minimalizar a noventa singelos minutos. erradíssimo. há quem escreva sobre elas a vida toda e nem assim o consiga. e muitos acabam mais depressa nos braços da fada do absinto do que abraçados ao absinto sentimental dos braços de uma mulher.

a minha sugestão para quem argumenta é que passem a dar mais atenção ao detalhe. que saiam do fácil e mergulhem no difícil. que façam um filme de noventa minutos só sobre a pequena cova que repousa no pescoço. mesmo isso já é pedir tanto. já é ser tão ambicioso. conhecer uma mulher é uma tarefa para várias vidas. conhecer os seus detalhes pode ser tarefa para uma tarde de chá quente, lareira e vontade de reflexão in vivo.

porque as florestas são lindas vistas de longe. e de cima. mas só junto de uma árvore, deitado no chão, a ver o sol entrar tímido pelo meio das folhas, consigo namorar com o que me dizem as raizes, com a história que me conta o tronco, com os pequenos cogumelos que teimam em funguisticamente querer viver em regime de cumplicidade com um outro ser. e o detalhe é tão vasto. e tem tanto para contar.

sábado, janeiro 28, 2012

a vida e os buracos de várias cores

a minha paixão por astronomia desde tenra idade (tão tenra como uma posta mirandesa) levou-me a desde muito cedo achar apaixonante o conceito tenebroso do buraco negro, que suga toda a matéria e de onde nada pode escapar. mas mais fascinante ainda a deliciosa possiblidade dos buracos brancos, hipotéticos espelhos dos buracos negros, lugares onde nenhuma matéria pode entrar mas de onde toda a matéria pode sair. a teoria diz ainda que isto possibilita de facto que alguém entre num buraco negro e seja transportado para um buraco branco, aleatório, noutro ponto qualquer do universo instantaneamente. e estamos a falar em viajar para outro lugar e/ou tempo. os velhos do restelo, combatentes do sonho, mesmo que astrofísicos, respondem a isto com “sim, mas a desintegração das moléculas durante a viagem jamais permitiria que um ser vivo sobrevivesse a esta forma de teletransporte”.

deve ser gente muito enfadonha, esta. que não acredita em viagens no tempo e no espaço. os antepassados destes amigos de certeza que eram gente que defendia que isso de fazer pedras circulares nunca ia dar em nada. que pôr amontoados de madeira no mar com umas velas agarradas ia correr mal na certa. e que metal a descolar em direcção ao sol só se fosse para ter uma morte garantida em regime de catapulta.

felizmente os sonhadores vencem tudo isto. conseguem perceber que há espaço para um parque de campismo na superfície do sol. que o terreno de marte é extremamente jeitoso para fazer caminhadas ao fim da tarde, estando mesmo a jeito para vêr o pôr da terra através do reflexo de sol. que os anéis de saturno são para ser aproveitados como montanha russa, em qualquer dia da semana, de qualquer dia do ano. ou que as planícies de saturno estão mesmo a pedir caipirinhas e partilha de carinhos nas horas de maior calor. que lá... são todas.

sobretudo sabem que, mais tarde ou mais cedo, vamos ganhar coragem e entrar num buraco negro. vamos sair muito muito muito longe de dentro de um qualquer buraco branco, com um sorriso não-desintegrado na cara e a dizer que aquela foi uma pequena viagem para o homem mas uma vertiginosa descoberta do universo para a humanidade.