domingo, março 17, 2013

o dow jones e não sei quê

' compras-me um bilhete de autocarro? '
' para onde vais? '
' tanto me faz, só preciso de ir lá para dentro porque tem aquecimento. '

uma coisa terrível. este ano não podemos ir de férias para a riviera maya. isto da crise deixa-nos de rastos. é trabalhar, trabalhar, trabalhar e nem temos tempo para aproveitar esta vida tão curta. ainda no outro dia o meu mais novo me pediu este novo ipad mini e eu 'ó filho, ó filho', lá lhe tive de explicar que a altura não está fácil para ninguém e que tinha de continuar a brincar com o ipad antigo. claro que lhes custa. os colegas todos têm um novo e eles nada. os colegas continuam a ir de férias para as caraíbas, ilhas caimão ou que é, parece que o pai aproveita para ir lá ver de umas contas, e que anda muito ansioso com o destino que o dinheiro anda a levar. mas é uma maçada. ando sem cabeça para nada. tive de ir pôr o mercedes à revisão e fiquei três dias sem carro. andei de metro e vi que as pessoas andam mesmo desanimadas. isto não se faz a ninguém. estão a tirar-nos o direito às coisas mais básicas, não sei bem como vamos sobreviver a tanta austeridade.

' compras-me um cachorro quente? não como nada há mais de 48 horas. '
' mas olha que fumar também não te faz nada bem. '
' eu sei. mas só tenho um cobertor e quando fumo cigarros gastos sinto que pelo menos me entra algum ar quente para os pulmões. '

quarta-feira, março 13, 2013

diz ' tração '

cansei-me dos textos direitinhos porque estava imenso vento e não tinha mais forças para lutar.

o coelho gigante cor-de-rosa estava mais do que de acordo comigo. achei um bocado estranha aquela atitude dele de não parar de se rir a cada pessoa que passava junto de nós no banco de jardim. levantei uma das minhas sobrancelhas num gesto quase digno de ser premiado com um óscar e perguntei-lhe o que tinha assim tanta piada.

justificou-se durante uns cinco minutos. dos primeiros quatro minutos não vos consigo dizer grande coisa porque estava a dar trincadelas em cenouras gigantes e a mastigá-las enquanto falava. além de ser um gesto de pouca educação, dificulta consideravelmente que quem está a ouvir um coelho gigante consiga entender patavina do que ele está para ali a dizer.

no último minuto (entre o final do quarto e o final do quinto minuto, portanto) explicou-me que as pessoas eram todas muito parecidas e que isso lhe dava imensa vontade de rir. parece que na outra dimensão, onde ele vive noventa e nove por cento do tempo (se quiserem aplicar à vossa mania das vinte e quatro horas é questão de fazer as contas), os coelhos são todos diferentes. na fábrica dos coelhos existe uma máquina, segundo ele são quatro computadores gigantes interligados (têm anti-vírus e tudo!), que garante que cada novo coelho fabricado sai com uma cor diferente de todos os outros.

fiquei a pensar nisto durante algum tempo, sobretudo porque me pareceu problemático manter para sempre um número de combinações admissível para continuar a ter sempre coelhos com cor original. isto justificava no mínimo um controlo. foi assim que lhe sugeri que se criasse uma polícia do tom, responsável por identificar dois coelhos com uma cor eventualmente igual de modo a abater um deles e garantir a exclusividade dessa cor.

foi aprovado em assembleia e tem sido executado com uma quase perturbante perfeição. às vezes sinto-me um pouco mal por ser responsável por uma ou outra morte naquela dimensão, mas a verdade é que os coelhos gigantes que viajam entre dimensões são extremamente faladores.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

ficamos à rasca sem metas

quem subiu à montanha mais alta? quem o conseguiu no menor tempo possível? quem o fez com as botas mais leves? qual o homem que foi até ao mais profundo que da terra se consegue alcançar? quem descobriu o caminho marítimo para a índia?

temos um vício maior em estabelecer metas do que algumas estrelas do rock em pó de cores claras.

a verdade é que dependemos do conforto de, pelo menos, saber para onde vamos. se o vasco da gama dissesse que ia só ao deus dará ninguém lhe financiava a viagem. se o joão garcia dissesse que queria subir até meio do evereste não havia cá bancos nem publicidades. o mesmo para tudo o resto. sem meta não há tanto lucro em fama.

por isso subimos. por isso descemos. por isso tentamos ir mais alto do que já se foi e mais fundo do que alguém alguma vez possa ter imaginado. cilindramos o tempo na tentativa do mais, do maior, do que está para lá do que há e não paramos nem microsegundos para apreciar o que está entre o ponto de arranque e a meta.

depois, por momentos, sentamo-nos à beira de um rio. impregnamo-nos do barulho do silêncio. olhamos os peixes, tentamos perceber quão caótico é o seu ordenado circuito ou quão ordenado é o seu caótico circuito. vimos os pássaros saltitar entre pedras, deitar a cabeça de lado e olhar para nós com o habitual olhar inquisitivo com que quem voa olha para quem não o sabe fazer. o pássaro provavelmente pergunta-se como é que um tipo com ar de quem tudo acha que sabe não consegue sequer descolar os pés do chão mais do que uns segundos. ri-se ironicamente do mesmo tipo por nem sequer se maravilhar a cada momento com o que o avanço do seu pensamento permitiu, já que voa naqueles pássaros de ferro com a naturalidade com que bebe água ou se alimenta, e jamais vangloria a liberdade de o conseguir fazer. no meio deste riso irónico, flecte as pernas, contrai todas as fibras musculares do seu corpo de ave e levanta vôo, lançando-se em Zs que se cruzam com Ss e que parecem tudo menos preocupados com a meta.

os corações também respiram

tem a ver com o jeito como o cabelo te cai sobre os ombros. com as ondas que a tua respiração dispara em direcção ao meu agitado coração e o faz tremer, com aquela força da terra que treme para fazer chocar placas com placas e tectonicamente dar novos pedaços de mundo ao mundo. tem a ver com o teu sorriso, com tudo o que tem o teu sorriso, com a capacidade que o teu sorriso tem de me desarmar. o teu sorriso é como um exército que caça um homem solitário. por mais que ele fuja, por mais que finja que há vales desconhecidos e montes mais altos do que a visão alcança, acaba por ser preso como peixe em rede e saltar como quem quer fugir. mas na verdade aceita a captura. não são dentes, não são lábios, não é língua, é uma orquestra, são todos juntos, afinados, perfeitos, imperfeitos de tão perfeitos, o teu toque como maestro.

copia-se demasiado no mundo. ideias, conceitos, modos de ser, modos de reagir, sorrisos fingidos, fingimentos sorridos, mimo, negações do que já de si negado estava, luas, sóis, luas de sóis, sóis de luas, milagres, folhas caducas, folhas persistentes. palavras, plagiam-se demasiado palavras. porque são quase todas escritas com a ponta dos dedos que vem da cabeça e raramente com os dedos que vêm do coração. quase tudo se plagia. o mais difícil é fazer isso só com o amor. por isso te digo, entre o vermelho do lusco-fusco e o amarelo torrado da manhã, ' plagia o meu amor por ti '.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

nunca deixem de ler o livro só porque sabem que acaba mal

o senso comum (o bom senso, diriam até alguns) descreveria como natural que quando somos abordados na rua por um tipo, de ar mais ou menos suspeito, que começa na hora a declamar um texto treinado sobre todas as suas desgraças e como isso o faz precisar de um ou dois dólares (ou euros ou a unidade do sítio onde estejam a ler isto, sejam criativos, sim?) para voltar para casa/apanhar o autocarro/comprar uma sopa, a resposta imediata seja o habitual 'desculpe, não tenho dinheiro', seguido de um dramático virar de costas e ida à nossa vida.

permitam-me discordar da atitude. permitam-me ainda tentar vender a ideia de que se aprende mais ficando do que partindo (desde que no limite do confortável, não me comecem já a chamar nomes com base em cenários que criam na vossa cabeça, estão muito reactivos hoje, vocês!).

a cantiga do bandido raramente é acompanhada de violência. a cantiga do bandido é o método mais frequentemente usado pelo tipo que precisa de esquemas por algum motivo (e não tendam a achar que é maldade ou ganância, porque às vezes é mesmo fome ou algum tipo de vício dos que moem), mas que não tem em si a maldade inerente para o roubo de esticão ou com armas, a perícia para o carteirismo ou o sangue frio para crimes de maior monta. assim, pelo menos os que são impregnados de alguma dose de criatividade, criam um cenário ou história e tentam dessa forma sensibilizar/enganar quem encontram rua fora.

as taxas de sucesso são variáveis mas cativa-me não só a criatividade como a maior ou menor qualidade de representação do burlão. como sempre tive uma espécie de íman para este tipo de situações não me é assim tão raro passar por uma destas. e durante todo o tempo em que a história se vai desbobinando dou por mim não só a gravar mentalmente todos os detalhes da história como a pensar que o mundo é um lugar terrivelmente injusto, já que há tanto tipo com tão pouca criatividade a ter tempo de antena e espaço mediático e alguns destes pobres diabos (que, sim, o poderão ser por culpa própria, mas na maior parte dos casos o são por culpa da situação em que vivem) andam a desperdiçar os seus talentos entre luvas de dedos rotos, por ruas frias de cidades cinzentas em que os corações são mais difíceis de abrir que uma lata de conserva sem abertura fácil.

domingo, janeiro 27, 2013

o óptimo ser inimigo do bom

há um conforto quase uterino em se fazer aquilo que se é suposto fazer. seguir as linhas da vida como elas foram traçadas, tentar continuar gerações seguindo o que vem de cima, num ritmo igual ou melhor, e continuar gerações abaixo, trazendo ao mundo quem repita o quadro. com raras excepções é essa a vida que quase todos levamos, autómatos do carrossel em que nos puseram, com uma pseudovontade de mudar, escondida por trás do conforto de em vez disso simplesmente ficar.

o risco é uma aversão aos nossos genes. fica bem assumir que se arrisca. é romântico afirmar que se mergulha de cabeça numa qualquer montanha russa ou que se muda a vida num segundo como se ela própria de uma montanha russa se tratasse. mas quase sempre esse é um risco calculado. o nosso calculismo não é diferente do do leopardo que persegue a sua presa ou do do elefante que se move em manada. a nossa tão brilhante (semi-ironia) razão até adensa a complexidade desse calculismo.

depois há o salto no escuro. há a vontade da perfeição. que tem o passo todo trocado com a satisfação. o perfeccionismo tem o condão de pintar de dourada a obsessão de tentar ser feliz. mas algures pelo meio o próprio conceito de felicidade ganha contornos de amnésico e acontece-lhe muitas vezes o mesmo que a uma torrada que ficou demasiado tempo para lá do que uma torrada merece viver dentro de uma torradeira.

ninguém descobriu até hoje a pólvora, não creio que vá portanto ser descoberta hoje, ou mesmo amanhã, mas creio que a luta pela perfeição choca tanto com a impossibilidade de plena satisfação que, em muitos casos, a aceitação passiva de uma felicidade como a que é vendida pela rua fora traria muito mais paz muito mais depressa do que andar à procura dela nos escuros cantos das casas onde vivemos.

sábado, janeiro 26, 2013

acreditar é logo um primeiro passo

não querendo correr o risco de me tornar um jean de la fontaine (até porque tenho 'jean' no nome, mas noutra língua), num destes dias de neve houve um esquilo que me deixou a pensar.

vi o dito animal saltar de uma árvore para o meio da neve e andar ali mais de vinte minutos para um lado e para o outro, para cima e para baixo, em busca de comida onde claramente ela não existia. não questionando a inteligência do animal, que eventualmente se guiaria meramente pelo instinto, não deixa de ser enternecedor vê-lo a lutar por aquilo em que acredita.

seja isso uma bolota ou uma posição sobre o que está mal no mundo.

sábado, janeiro 19, 2013

corin hewitt

recomendo, quando vos calhar ' no caminho ', a obra do corin hewitt. sendo inicialmente canalizador, foi descobrindo ao abater paredes de casas para trabalhos de restauro que no interior das paredes se encontravam os mais variados objectos possíveis e imaginários, desde malas com dinheiro, a quadros roubados, a livros, cartas de amor, e muitos outros. isso inspirou as suas criações, que pretendem mostrar várias histórias possíveis de ser contadas atrás de uma parede depois de retirada a tinta que nos separa de todo esse mundo escondido.

MOCA Cleveland, Corin Hewitt:The Hedge



reciclar tempo de vida

tempo perdido é uma coisa que não existe. porque ele não se perde, quando muito consome-se. o que há é boas e más formas de utilizar o tempo que temos, esse que varia tanto, e que chega em demasia a uns e tanto escasseia para outros.

um dos erros mais frequentemente cometidos é chorar a má utilização do tempo no passado. só esse tempo de lamento já é mais tempo mal gasto, por isso é sempre boa ideia sair da bola de neve quanto antes (não quero arriscar ver-vos no fundo do vale enrolados numa esfera com milhares de ramos de árvore, penso sempre no vosso bem).

uma das principais resoluções que fiz, ainda bem pequeno, foi prometer a mim mesmo que ia aprender pelo menos uma coisa nova por dia durante o resto da minha vida. sendo que podem estender este conceito aos vossos âmbitos profissionais, pessoais ou metafísicos, oportunidades não faltam. o princípio está lá para tentar impedir que caia no marasmo. e mesmo nos dias em que o conhecimento de algo de novo parece não poder chegar de lado nenhum há formas de o contornar. perguntem a alguém qual foi o momento da sua vida em que se sentiu mais feliz. perguntem a um agricultor se este ano foi um ano bom para as colheitas e porquê. perguntem a um enólogo porque é que a reserva deste ano é tão especial, há quanto tempo aquele terreno aluga os seus grãos à vinha, por quantas chuvas e geadas passaram aquelas uvas que agora dançam do copo para a boca.

vejo parte do mundo preocupada, e com muita razão, por nos estarmos a tornar couch potatoes (batatas de sofá, vá, vulgo "procrastinar no sofá dias a fio"), e com o impacto que isso tem na nossa saúde física, mas preocupa-me ainda mais a batatização da nossa vontade de conhecer e aprender. durante milhares de anos houve tanta vontade de aprender mais e mais e hoje em dia apresentam-nos um mundo cujo objectivo principal é estupidificar as nossas ambições de vida e tornar-nos seres cada vez mais passivos que tudo aceitam e nada questionam. vejam lá isso, para bem de todos nós.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

por alguma coisa saímos da idade da pedra

sempre me intrigou o fenómeno do bife na pedra.

imagino o homem pré-histórico, saído da sua caverna, sem grandes jornais para ler ou sites da internet para pôr as notícias em dia, a ter de passar o tempo a caçar (um misto de necessidade alimentar e diversão). não tendo ainda dado conta do fogo, terá havido um primeiro indivíduo com dentição mais sensível que se revoltou e disse "não! isto assim não! acho impossível ter de comer estes nacos de búfalo todos crus, eu não tenho dentes de sabre e o meu primeiro nome não é tigre!". vai daí, o indignado, descobriu que os calhaus do lado de fora da caverna, por volta do meio-dia, em dias de verão, estavam a ferver de uma maneira que queima pés. sentindo os seus pés a arder teve a brilhante ideia de colocar um naco de carne em cima desses mesmos calhaus e assim foi inventado o primeiro bife na pedra.

ora, julgo, embora possa estar enganado, que depois disso já passaram uns quantos anos. não só foi inventado o fogo como até foi descoberto o gás. e a electricidade. passou a haver maravilhosas e múltiplas formas de cozinhar a carne sem ter de recorrer ao método mais ancestral de todos.

daí eu ter dificuldade em entender que na moderna sociedade haja quem realmente paga para comer o bife dessa forma. será revivalismo? serão estas as mesmas pessoas que vão a óbidos ver as mesmas reconstituições históricas todos os anos? serão pessoas com graves distúrbios psicológicos que vão para o restaurante com a intenção de se auto-mutilarem na fervente pedra e acabam por desistir da ideia quando lhes cheira a almoço?

são tudo questões que ficam por responder. até lá estou a criar mais dois ou três conceitos do género para tentar enganar os paspalhos clientes desta forma de alimentação. uma chama-se "garoupa na grelha de carvão" - levo para a mesa meio bidon recortado (a forma tradicional), cheio de carvão lá dentro, uma grelha e o peixe, e o cliente toma conta do assunto e enche a sala de fumo e cheiro a peixe. a outra é "bolo de amêndoa no alguidar" - forneço ao simpático cliente um alguidar e trago-lhe em vários tupperwares farinha, fermento, açúcar, ovos, raspa de limão e amêndoa. e uma batedeira, vá. e empresto um forno, num acto de insensata e altruísta loucura.

note-se que não tenho nada contra quem gosta de bife na pedra. só temo é que sejam pessoas que acabem por comprar terrenos na lua ou por convidar para entrar em casa aquelas senhoras que andam aos pares e que garantem trazer a palavra do senhor. tenham lá cuidado com isso.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

uma questão de prioridades

há muita coisa que me deixa indignado. mas uma das que mais indignado me deixa é a humanidade ter as suas prioridades todas trocadas.

não consigo conceber que o homem já tenha ido à lua mas ainda não tenha tratado com cuidado um assunto de muitíssimo maior importância - o equilibrismo de café.

se o meu objectivo fosse ser equilibristo-malabarista ter-me-ia inscrito no chapitô ou trabalhava no circo atlas em vez de ir tomar o pequeno-almoço a um qualquer café. fico sempre na dúvida se estou ali para tomar pacatamente a primeira refeição do dia ou para participar numa versão renovada dos gladiadores americanos. peço um galão, que chega todo garboso no seu copo alto, e pespegam com o dito num pequeno e ridiculamente instável pires. entretanto dão-me outro pequeno prato com um croissant em equilíbrio instável. pego nesses dois companheiros e inicio a desafiante prova de atravessar toda uma sala cheia de gente plena da sua fúria matinal, aquela raiva de quem tem pressa de ir fazer o que não gosta, que se acotovela entre si, dificultando o meu objectivo final de alcançar uma mesa (esta habitualmente decorada de migalhas como se de uma obra de arte se tratasse).

concentrem-se nisto, senhores. arranjem luvas que colem ao copo do galão. pacotinhos de vidro para transportar o casamento de leite e café quentes no seu interior. ou um pires que funcione em regime de pega-monstros. agora fazerem-me pagar para provas de equilibrismo é que não tem jeito nenhum.

(p.s.: eu não tomo o pequeno-almoço fora de casa. muito menos servem galões nos estados unidos da américa. ó arte, a quanto obrigas!) 

quarta-feira, janeiro 16, 2013

tudo são puzzles

nunca fui dos maiores fãs dos tradicionais puzzles. por mais elevada que seja a inteligência espacial de quem num ápice consegue juntar milhares de recortadas peças, para no fim formar uma fotografia, a mim parece-me uma considerável perda de tempo, quando se conseguiria obter muito mais facilmente a mesma fotografia com menos luta. isto porque trezentas peças azuis, praticamente iguais, que correspondem, em teoria, a pedaços de "céu", podem ser um desafio, mas também podem roçar a tortura.

o conceito do puzzle, no entanto, fascina-me. fascina-me porque acaba por ser uma metáfora de tudo aquilo que temos, fazemos e procuramos na vida. é a imagem de que tudo é formado por pequenas peças e que o nosso conhecimento de todas as coisas, palpáveis e não palpáveis, é muitas vezes essa fotografia final, que nas nossas naturais limitações não dá para obter logo de caras, e só juntando todas (ou quase todas) as peças é possível ter uma imagem mais clara daquilo que na verdade estamos a observar.

e tanto é um puzzle de várias peças um filme ou um livro como uma planta ou um animal. no fundo porque a tudo atribuímos códigos e o nosso jogo do conhecimento não é mais do que uma dança entre codificação e descodificação. e entre dias e noites, entre sóis e luas, vamos montando todo outro puzzle, aquele em que nós próprios vivemos, tentando juntar as peças boas, pôr de lado as peças más, e sobretudo reposicionar todas aquelas que, por algum acaso, andávamos com a mania de deixar no sítio errado.

terça-feira, janeiro 08, 2013

a insustentável estupefacção pela ausência de vidas extra

tive a sorte de crescer ao mesmo tempo que os vídeojogos cresciam. numa época em que o triunvirato da diversão, felizmente, se dividia entre bons livros, brincadeiras de rua e os referidos vídeojogos.

dos livros não preciso de falar porque das maiores vantagens competitivas do mundo é saber e gostar de ler. se houver dinheiro compram-se, se não houver vai-se a uma biblioteca, mas não há qualquer desculpa (pelo menos para nós, os felizardos do mundo ocidental) para dizer que não se aprendeu mais sobre mais coisas porque não se teve oportunidade para isso. quando muito pode escassear o tempo, mas já há muito tempo concluí que o tempo (ou a falta dele) depende mais da forma como organizamos a sua qualidade do que da importância que pomos na sua quantidade.

as brincadeiras de rua são outro pilar importante do mergulho nas nossas raízes animais. somos seres vivos nascidos da natureza e à natureza vamos parar. tornámo-nos tão brilhantes na engenharia das nossas vidas que nos fechámos em cidades de betão e nos refugiámos em cubículos de escassa dimensão, onde habitam no chão madeiras cujo nome dizemos pomposamente sem que a maior parte de nós tenha sequer tocado num tronco de uma árvore das que acabam debaixo dos nossos caseiros pés. não é suposto. não defendo que voltemos a viver em cavernas, mas devia ser um direito adquirido (e um dever de espécie) poder ir à praia e não ter de desviar sacos de plástico no mar, enfiar uma beata apagada nos dedos dos pés, pelo meio da areia, ou ter de pagar, hoje em dia, para que uma criança possa brincar numa floresta, fechada e controlada (a floresta e a criança), onde vai poder saltar ainda menos do que aquilo que nós podíamos saltar.

por último os vídeojogos. oiço toda a gente dizer que os filmes da disney e as histórias de príncipes e princesas nos elevaram em demasia as expectativas para a vida adulta, mas não enveredo bem por aí. talvez quem tenha umas orelhas grandes se consiga identificar com os problemas do quotidiano do dumbo, mas não sou grande apologista dessa corrente. os vídeojogos, quando apareceram, e à medida que se foram desenvolvendo, tinham que sobreviver através da criatividade e do argumento, já que os meios tecnológicos não eram nem de perto comparáveis com os que hoje existem. obrigavam-nos mais a pensar e menos a disparar. forçavam-nos a imaginar uma história em vez de ficarmos embevecidos com a tridimensionalidade das personagens e da pixelizada paisagem. traziam contudo também uma série de falsas expectativas. damos por nós a crescer e a descobrir que a história das vidas extra é uma farsa, que raramente temos 'continues' e que, imaginem bem, mesmo que limpemos (metaforicamente, gente violenta) do nosso caminho quem não nos quer bem, eles não desaparecem permanentemente daquele lugar.

no fundo deve ser bom crescer em qualquer época e eu não passo de uma espécie de velho dos marretas. mas não posso deixar de sentir que este mundo em que vivemos cada vez tem mais, e por isso mesmo cada vez tem menos.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

as ruínas

acho incrível a importância que é dada a tudo o que são castelos, templos, antas, dolmens, caras gigantes em ilhas do pacífico, etc., que se catapultam para fenómeno turístico porque são ruínas de algo que já foi grande.

acho incrível sobretudo a nossa vontade de atravessar o mundo, e largar fundos, para tudo isso visitar, quando cada um de nós carrega no coração ruínas de si próprio e raramente as visita. o senso comum tende a achar que o que digo não é verdade, e que nos lembramos sempre, em sofrimento (então se formos portugueses o sofrimento é barrado com molho de hipérbole), de todas as coisas más que atentaram contra a vida desse nosso órgão tão importante. mas essa é só metade da história.

em abono da verdade o que fazemos é olhar para as clareiras, para os prédios caídos, e para a imagem do que foi. e aqui falo da ilha da páscoa como falo do coração. falta-nos o exercício de re-imaginar o que era. olhar para os templos incas como se estivessem acabados de inaugurar e cheios de gente a andar para cima e para baixo a acartar caldeirões de chocolate líquido. imaginar as pirâmides de gizé a acabar de receber a última pedra do seu vértice sob um calor abrasador enquanto alguém acabava de enrolar o falecido faraó em quantidades inimagináveis de papel renova. ou parar para lembrar toda a vida, coisas boas e más, com que o nosso coração foi antes invadido.

ser especialista a olhar para como ficou não é igual a saber ver o que foi. e muito menos ajuda a saltar para o que virá a ser.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

altas resoluções

tenho para mim que temos de ser mais drásticos nas medidas coercivas para controlar as resoluções de ano novo.

a trinta e um de dezembro de cada ano vejo toda a gente a prometer que vai perder peso, que vai trabalhar e concentrar-se mais, e que vai fazer tudo e mais um par de botas para ter um ano melhor. trezentos e sessenta e cinco dias depois geralmente leio o mesmo, o que me faz acreditar que, das duas umas, ou isto é por ciclos (e as resoluções funcionam para os primeiros seis meses e vão ao ar nos seis seguintes) ou então a humanidade é dotada de uma espectacular capacidade de prometer que vai fazer coisas mas de um terrível deficit de vontade slash concentração para acompanhar tanto wishful thinking. (slash como em "barra", não como em guitarrista dos guns n' roses)

várias coisas poderiam ser feitas para melhorar o prognóstico das resoluções de ano novo. calma. sei que por momentos acharam que ia sugerir aumentar mais dois ou três impostos e reduzir-vos os salários se não cumprissem os pressupostos a que se propõem (raramente uma expressão com tantos P's foi usada na blogosfera), mas a verdade é que deixo essa "criatividade" para outros.

a minha ideia passa por cada pessoa arranjar um anão, vesti-lo de cabedal justo da cabeça aos pés e dar-lhe um chicote. ele andaria atrás de cada um de vocês e chicotear-vos-ia (dois hífens também é raro aparecerem, este blog é melhor que a wikipédia) cada vez que não estivessem a cumprir a promessa. já sei. alguns estão a achar que esta ideia é demasiado kinky. nesse caso podem sempre substituir o anão por um marreco, se se sentem mais confortáveis.

tenham um ano feliz e daqui a um ano contem-me se resultou.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

breaking news: o mundo não acabou.

começo a desiludir-me com o mundo.

primeiro descubro a falcatrua do pai natal (deixemos assim para que as crianças pensem que foi um escândalo de lavagem de dinheiro), de seguida explicam-me que não há glutões que limpem as nódoas da roupa e em cima de tudo isto, fazendo de cereja podre no topo do bolo passado de prazo, descubro que as previsões sobre o fim do mundo afinal não se cumpriram.

com a agravante de já não ser a primeira vez que isto acontece. parece-me claro, e vários estudos mostram (daqueles científicos, tão científicos que até se usam balões de vidro e sai fumo e coisas dessas upa upa) que isto não passa de uma enorme conspiração montada entre os vendedores de lanternas e de latas de conserva para melhorar as vendas de tempos a tempos.

a verdade é que o mundo de facto hoje acabou. para muitos. como acaba todos os dias. desceram à terra, subiram ao vento, começam agora a decompôr e a obedecer ao milagre da multiplicação dos átomos e das moléculas. que quais peças de lego vão juntar-se de novo e dar origem a mais vida. a toda a hora. num ritmo inexorável e violentamente delicioso. a ajudar o mundo que acabou a tornar-se no mundo que vai começar.

na verdade as notícias são essas. estejam atentos, que o mundo hoje acabou de começar.

domingo, dezembro 02, 2012

a liberdade da prisão

acendeste o cigarro e por trás de ti tocavam os stones, a dizer que mem sempre consegues tudo aquilo que queres.

mal sabiam eles, pensei eu, que nunca se perderam nos teus cabelos, que nunca moraram nos teus olhos e que nunca navegaram no teu pescoço.

comparei a tua luz com a que vinha do tecto. comparei o calor do teu peito com o calor da ponta do cigarro. ficavas sempre a ganhar. eras rainha de copas num baralho só de dois de paus e eu rendia-me à minha simplicidade de ser sempre joker neste mundo pouco preparado para trazer os jokers a jogo.

quando sorrias, o espaço à volta parecia ter sido vítima de uma bomba de neutrões, e sabes como eu sempre me perdi irremediavelmente por sorrisos devastadores. sorrisos daqueles que te fazem viajar em segundos da porta de casa à porta do comboio de um país distante. que trazem canela, açafrão, gengibre, não em pó, mas sim disfarçados nas pequenas covas que o canto dos teus lábios definia.

contemplava-te como um quadro, pintava-te como se fosse o teu dalí e ficávamos a brincar ao surrealismo sem ligar às horas e regras do mundo real. tenho ideia que os relógios pararam, com os ponteiros no momento em que os braços estão levantados para cima. expliquei-te que na publicidade os relógios vêm sempre com os ponteiros nas duas e dez para ligar sensações positivas ao produto em causa. sorriste uma vez mais, como sorrias sempre que do nada me saíam estas coisas que não interessam nem ao menino jesus nem a muitos outros meninos não-jesus.

o que me importa é que te fez sorrir. e assim continuou o ponteiro, parado, imóvel, alheio a nós e nós alheios a tudo.


segunda-feira, novembro 26, 2012

o espírito da época

é bonito e popular chegar a um ou dois meses do natal e lembrar o ' espírito da época '.

não contrariando essa ideia, eu sempre fui mais defensor de transformar o espírito da época em época do espírito. sei que o natal está pensado para nos fazer sentir melhor. dar e receber presentes passa por aí. o prazer e alegria de rasgar papel e desfazer laços. a expectativa de encontrar um sorriso e um ar de satisfação em quem recebe o que comprámos para oferecer. o problema destas vontades é quando elas são passageiras e instituídas.

durante todo o ano fazemos coisas bem e mal. durante todo o ano somos boas e más pessoas. durante todo o ano nos arrependemos de coisas que fazemos, que não fazemos e que nos fazem. e trabalhamos, ou devíamos trabalhar, constantemente, sem rendição para construir um ser humano melhor.

não me preocupa que as pessoas tenham tendência a ser boas nesta altura do ano. preocupa-me que durante o resto do ano, e sobretudo nos detalhes que prendem a existência do quotidiano, não tenham idêntico cuidado voluntário.

por mais bonito que seja oferecer uma camisola de lã ou a nova consola da nintendo, quando chegar a meio de janeiro não se esqueçam de segurar a porta à pessoa que vem atrás. ou de parar em passadeiras. vão ver que o vosso sorriso vai ser mais verdadeiro e o vosso coração deixa de ter de hibernar até ao novembro seguinte.

sábado, novembro 24, 2012

perguntas e respostas (em inglês Q & A é mais chique)

duvido que os interlocutores se entendam sempre.

duvido que alguma vez tenham conseguido o equilíbrio perfeito, mas cada vez estamos pior. isto porque vivemos no tempo do imediato, do agora, onde o que acontece vale mais do que o que aconteceu e quando muito pode ser ponte para o que ainda vai acontecer. a densidade das coisas tem a mesma solidez das moléculas de água no momento imediatamente anterior à evaporação.

na terra das importâncias passageiras as perguntas e respostas são das que mais sofrem com isto. sempre reflecti bastante (mas depois adormeço e tenho de voltar ao início) sobre o porquê de fazer perguntas quando não se quer respostas. basta ligar num qualquer telejornal (vejam um filme de terror ou comam uma peça de fruta, que vos faz melhor) para questionar o real interesse por trás de cada questão.

sim, entendo que não haja tempo (ó deuses do olimpo! que sempre arranjaram tempo para tudo e agora não há tempo para nada, ainda que na verdade não haja falta de tempo mas sim de organização) para permitir que determinado convidado se perca na resposta, derive, e filosofe em demasia. se calhar devia haver, mas, enfim, admitamos que esse é um dado adquirido. o que perturba é que quase sempre me parece que quem pergunta não tem qualquer interesse na resposta e busca apenas a emissão da pergunta. a prova disso é que interrompe, destrói e demove o raciocínio alheio. se a ideia é perguntar para obter a resposta que se quer ouvir e no tempo que se quer ouvir é fácil hoje em dia programar robots que o façam. e levá-los como convidados. "aqui o Dr. R2D2 para falar de violência doméstica". "hoje temos connosco o Dr. C3PO para dar a sua opinião sobre a crise dos metais".

não me entendam mal, a interrupção e a disrupção são fundamentais, quando são construtivas. não quando são repetitivas e desadequadas. aí são meros instrumentos de agravamento de um dos principais males desta cada vez mais cruel sociedade. perguntar quando não se quer saber a resposta, em condições, é o mesmo que comprar pão para depois o deitar fora porque está com bolor e passou de prazo.

se fosse hoje em dia imagino que quando o pitágoras fosse a dizer "e então descobri que a soma do quadrado dos catetos é igual à..." alguém o interromperia para ir mostrar o ronaldo a atrapalhar-se com palavras relacionadas com a ausência de caspa.




terça-feira, novembro 20, 2012

a inspiração adora jantar com notas musicais

ainda estou para saber quem decidiu que o sexto sentido feminino é a intuição. e também ainda estou para saber quem é que deixou um saco de lixo à porta do elevador do meu prédio. mas hoje preocupa-me mais saber quem se meteu nessas andanças de achar que percebia o que ia para lá dos cinco sentidos.

sempre adorei o sexto sentido feminino mas nunca desvalorizo os seus outros cinco, habitualmente astutos que nem o animal selvagem que todos somos (ou sabemos ser).

uma das coisas mais fascinantes dos sentidos é virem de origem como uma espécie de naipes de jogo de cartas. existem todos isolados, mas (em certos jogos, vá, não quero irritar nerds das cartas ou idosos que passam as tardes no jardim), atingem a sua beleza máxima quando formam  uma equipa e quando o seu conjunto representa mais que a soma das partes.

claro que o maestro desta orquestra está lá para os lados onde o descartes achava que a alma e a razão se encontravam. mas, como em tantas outras coisas, este maestro não trabalha esfomeado, e precisa de ir buscar o seu alimento ao outro lado do eixo, o que não tem razão, mas tem mania. nomeadamente a mania de bater aí entre quarenta a cem vezes por minuto. tirando quando se exalta ou quando resolve acalmar demasiado.

a plateia pára expectante. sustém a respiração. deixa no ar aquele misto de medo e admiração enquanto a música alcança o seu êxtase. as notas musicais, se forem as certas, entram pelo ouvido, migram ao que de neurónios houver, dançam um tango com o coração, e todos juntos saltam para as pontas dos dedos, que teimam em carregar em teclas ou em agarrar canetas e fazer com que a sua tinta caia em momentos certos, espaçados, decididos, outras vezes tremidos, em linhas que, elas próprias, dançam no prazer do ensemble.

domingo, novembro 04, 2012

as coincidências estão para a vida como o fermento para os bolos

basta-me uma questão de segundos com os olhos postos numa imagem do passado para um sorriso me invadir a cara com aquela intensidade com o que sol invade os poros da pele num dia de verão.

a fotografia mostra-me um eu vinte e cinco anos menos atacado pelo tempo, com um sorriso ao mesmo tempo inocente e despreocupado de quem tem toda a vida pela frente e um nível de responsabilidade mais pequeno do que uma abelha numa colmeia.

o tempo não só muda as cores (impressionante como a resolução e o digital mudaram o modo como gravamos o presente à medida que deixa de ser passado) como deixa a descoberto todas as ironias e sinais que jamais pensámos ser possível existir.

por trás da criança, que eventualmente pensava em mil histórias para a sua colecção de playmobil e legos, está nublado, mas visível, um lugar onde vinte anos mais tarde a criança ia pôr os pés com uma bata branca, um estetoscópio, e o desejo de cumprir um sonho surgido pouco tempo depois da captação do momento. ainda mais atrás, imponente, há um sinal de betão da rua onde a não-criança se emanciparia para o mundo e viveria sozinho pela primeira vez.

podia a coincidência ter posto ainda no terço superior da imagem um avião, como símbolo tão adequado do desejo de conhecer o mundo e de partir à descoberta do que há para descobrir dentro de batas brancas e tanto, ou ainda mais, do que há fora delas.

o mundo pode ser um lugar estranho, mas enquanto continuarmos a imaginar mil histórias, sejam para a colecção de playmobil e legos, numa primeira fase, ou para adultos de carne e osso, mais tarde, reforço o sorriso que me invade a cara e continuo com vontade de invadir muitas outras caras com um sorriso igual. 

sexta-feira, novembro 02, 2012

toda uma espécie de arco-íris

entrou no café com o ar desafogado de quem não vive debaixo da água que o mundo quer à força impor. o seu casaco verde alface podia ser uma peça de artista da última colecção de moda, vendido pelos melhores estilistas custando o mesmo que custa uma casa em mais de oitenta e três por cento do mundo. não era o caso. era só um casaco, comprado de entre tantos outros, perdido num qualquer armazém de uma grande superfície, recolhido por força de um desconto apetecível e de uma vontade de estrear algo que chocasse com a força da luz.

o quadro ficava completo com umas calças amarelo torrado e uns sapatos que pareciam ser reciclados de um disco de vinil. um disco de vinil a tender para o grená, vá.

a minha primeira impressão foi que a bandeira do brasil tinha acabado de ganhar pernas e braços e decidido entrar café dentro numa súbita e inesperada publicidade turística.

não era o caso. vi que a pretensa bandeira tinha o cabelo grisalho dos oitenta/noventa anos. debaixo do festival de cor era visível a couraça da idade, as rugas da experiência, o gasto do sorriso, a definição das provações. cada ruga contando a sua história, numa espécie de conversa interminável geradora de barulho indistinto mas confortável.

após o primeiro gole do seu café suspirou. aquele suspiro que ao mesmo tempo marca presença e diz ao que se vai, porque cá se anda, para onde se vai em breve. fascinou-me a despreocupação com que a história ria de alto e preferia homenagear as várias cores do mundo, numa homenagem em arco-íris, por oposição à outra opção, que seria cinzentamente esperar o fim.

a vida tem cor. e o facto de a morte estar próxima não deveria permitir o seu desaparecimento. até porque cada um de nós terá imenso tempo livre para fazer o seu próprio luto depois do último batimento do coração.

terça-feira, outubro 30, 2012

revisão da matéria dada

é praticamente universal o estudo dos fenómenos da natureza enquanto parte dos currículos escolares (pelo menos nos sítios que possam ter um currículo escolar não creacionista). numa fase em que a formação da personalidade está em pleno ponto de ebulição, somos sujeitos a explicações, sucintas ou extensas, sobre o porquê de a natureza ser o que é e funcionar como funciona. ensinam-nos, assim, como funcionam as rodas dentadas e os ponteiros deste relógio que todos habitamos.

tal como num relógio suíço, o cerne da questão não se limita à máquina. (tantas piadas que se podiam inserir aqui envolvendo cern e suíça. mas depois achavam-me demasiado nerd e não posso correr esse risco, já gastei os meus créditos da vossa bondade ao usar um advérbio de modo logo no início do parágrafo anterior).

o que não vem nos livros, pelo menos nos da escola, é que temos de aprender a respeitar a força e a história por trás da máquina. um relógio suíço (dos originais, dos feitos à mão, dos que são caros não porque são luxo mas porque não são feitos numa fábrica de plásticos nos confins da china) conta a história do relojoeiro que o construiu com o cuidado com que o neurocirurgião corta a via nervosa certa dentro do encéfalo ou com que o piloto traz o avião à inclinação e velocidade exacta com que é suposto tocar a pista do aeroporto. há sempre mais do que apenas a reunião de ponteiros, mostrador, pilha ou corda e rodas dentadas. há história paralela, que deixa de ser paralela nas intersecções que fogem ao seu paralelismo.

a natureza sofre do mesmo mal. melhor, é abençoada com a mesma virtude. a brutalidade dos fenómenos que vemos pela janela (se não levarem a própria janela) lembra-nos que somos feitos desta matéria e que, por mais voltas que queiram dar, nascemos da natureza e à natureza voltaremos. a mesma força com que a água da chuva escava canyons ou a lentidão paciente com que a água do mar transforma rochas em areia, é a força que nos faz nascer, que nos permite viver, e que um dia nos acomodará sem pedir explicações ou sem exercer represálias.

se soubermos respeitar aquilo de que somos feitos, a natureza, geralmente, permite-nos viver na ilusão de que funciona como uma orquestra da qual somos maestro, mesmo que, na verdade, seja exactamente o contrário o que se passa.

sábado, outubro 20, 2012

o porquê de não sair da idade dos porquês




a hora da morte.

quem trabalha num hospital sabe bem o que isso significa. quem vê séries sobre o que se passa num hospital fica mal informado a respeito de muita coisa mas nesse aspecto não é totalmente desinformado. há de facto que declarar uma hora para a morte biológica. exacta. aproximada. depende. mas o mundo adora etiquetas e a hora da morte tem de ser mais uma.

o peso carregado pela morte biológica é inexcedível. milénios de tradições e crenças, mais ou menos adaptadas, reflectem sobre a morte, sobre o que se deve seguir a curto prazo, sobre o que se vai seguir a longo prazo, sobre o modo de celebração ou luto. que são conversas para outro dia.

preocupa-me que se questione pouco a morte não-biológica. vivemos numa sociedade que tem um íman cada vez mais potente para tratar disso mais cedo. na minha humilde opinião a morte não-biológica chega no dia em que deixamos de perguntar porquê. a questão não deve perturbar a delícia, deve inversamente melhorar a sua experiência. passo a explicar-me. se vos for servida uma dose de bacalhau com natas o mais natural é ir de garfada em garfada até à garfada final. a televisão ligada ou uma conversa pouco produtiva no ar e o tempo passa num ápice. sim, sei que o princípio base da alimentação é a absorção de nutrientes que nos permitem sobreviver. mas terá de ser sempre assim? porque é que é em cada garfada de um prato de bacalhau com natas não podemos perguntar como é o ciclo de vida do bacalhau, como é o seu processo de secagem, quantas viagens faz até chegar do mar da noruega à mesa do nosso 3º direito? virá ironicamente de barco? ou de avião? ou prefere a estrada? e as natas? como foram feitas? de onde vêm? que tipo de pasto andaram as vacas em causa a frequentar? em que hora do dia é que o leite é mugido da vaca? e as batatas? por onde andaram até chegar ao prato? que agricultores as puseram na terra e quais de lá as tiraram? em que altura do ano? a que horas acordaram para o fazer? que truques usaram para fazer daquele um terreno mais fértil que as mulheres do genghis khan?

é muito fácil passar por cima de tudo isto. é tão ou mais fácil achar estranho que alguém se pergunte sobre isto em vez de comer o raio do bacalhau calado e passivo. neste ponto sou extremamente lamarckiano e garanto-vos que há orgãos que só se desenvolvem (ou mantêem desenvolvidos) se forem usados com frequência. e a resposta a estas questões não vos garante o primeiro prémio do quem quer ser milionário ou a atribuição do prémio no conceito tradiocional de inteligência (racional). mas permite-vos sem dúvida olhar para o mundo com um sorriso mais largo na cara.

sexta-feira, outubro 05, 2012

filtro para extremos


sei que o ditado diz que os extremos se tocam. isso é aplicável na política, na opinião em geral, nos clubismos ou até no protesto perante o tempo, tanto o que passa como aquele outro que teima em fazer nuvens e largar água e coisas dessas. tirando a vontade extrema de viver e de tudo experimentar, nunca consegui perceber o apelo pelo extremo. ainda mais difícil é perceber quem está nos extremos e não se apercebe de que vive com duas palas asininas, perdento tanto e ganhando tão pouco.

a pluralidade de opiniões, e de perspectivas sobre tudo o que o mundo nos oferece, é das coisas que mais aprecio. gosto de discutir com gente que pensa como eu mas ainda mais de discutir com gente que não pensa como eu. aprendo sempre tanto ou mais do que quando debato com quem tem o compasso nas mesmas linhas que as minhas, porque sair da zona de conforto ensina e flexibiliza. os tempos negros que vivemos, e as dificuldades que atravessamos, deviam ser precisamente o tempo ideal para compreender que o diálogo é como o cimento da parede das casas e que ouvir é tão importante como abrir as janelas na primavera para deixar arejar uma casa que suplicou por oxigénio todo um inverno.

o problema quando falamos com quem está nos extremos é que não há casa para construir, não há debate para pôr de pé, há preconceito e há a falta de inteligência típica de quem se acha tão inteligente que não percebe que isso é das mais básicas faltas de inteligência. uma coisa que todos deviam pensar pelo menos uma vez ao acordar e outra ao deitar, sejam académicos, adiantados mentais, políticos, não-políticos, astronautas ou agricultores, é que há sempre alguém no mundo que sabe menos do que vocês e sempre alguém no mundo que sabe mais do que vocês. esse é um bom ponto de partida. o seguinte (vamos continuar a ligar pontos como se estivéssemos a brincar com as mini-cruzadas da disney durante a infância) é entender que nem sempre o conhecimento vem de onde esperamos. às vezes aprendemos mesmo mais a olhar para o modo como as folhas mudam de cor do que a ouvir um físico quântico. outras não. varia. 

num tempo em que até as bandeiras fazem o pino, façamos também nós o pino e entendamos que estar sempre em bicos dos pés permite ver mais alto que o resto da multidão mas evita olhar para o chão e encontrar a nota de cem euros que ali está perdida. e se dá jeito uma nota de cem euros perdida nos dias que correm...

quinta-feira, setembro 20, 2012

encontros passageiros

passamos pela vida tão tão passageiramente que me pergunto porque damos o valor que damos ao definitivo? quando passamos as horas e os dias na ânsia do amanhã temos tendência a não conseguir brincar com o presente nem rir sobre o passado. é como se tivéssemos uma caixa cheia de legos de várias cores, tamanhos e formas, e não a despejássemos no chão do quarto para umas boas horas de brincadeira já a pensar no calvário (que não antónio) que será arrumar tudo de novo na caixa no final.

não é isto uma ode anti-definitivo. há coisas definitivas que são boas, estão provavelmente na fundação do prédio que acabamos por ser (ou que achamos ser e que acreditamos ter fundações). mas se o prédio tem de ter uma estrutura que resista a ventos e tempestades, os inquilinos ou a decoração das paredes pode (deve?) variar para não se eternizar uma renda que nem actualizada pode ser porque assim ficou acordado há muitos anos.

o encontro passageiro e inesperado é muitas vezes o catalizador do brilho nos olhos, aquele brilho que tende a esmorecer numa vida que cada vez mais é construída para não surpreender o próprio nem os que o rodeiam. uma conversa de cinco minutos com um desconhecido pode valer por mil conversas de interesse desconhecido com conhecidos.

experimentem baixar as guardas de vez em quando. viver num prédio é bom. mas viver num barco ou numa autocaravana também não é nada mau.

quinta-feira, agosto 02, 2012

meu filho, nasceste para isto

a NBC ter um tipo chamado Bob Costas como jornalista responsável pela natação é no mínimo épico .

espero rapidamente que arranjem um José Roda para cobrir o ciclismo e uma Manuela Peso para ver como anda a halterofilia .

segunda-feira, julho 23, 2012

sobre decadência

a observação da decadência de um ser vivo traz sempre consigo o peso de não sabermos lidar bem com as descidas . por mais que nos afirmemos corajosos e tentemos fingir que todas as coisas têm um ciclo natural a percepção do ciclo não significa que o mesmo passe a doer menos . tenham um bom dia e aproveitem a vida, porque ela passa mais rápido do que num ápice .

quarta-feira, julho 18, 2012

a ditadura dos números

o mundo mudou. só importam os números e as pessoas ficaram para segundo plano, perdidas entre ambições que lhes foram vendidas e que nem sequer sabiam que tinham mas que afinal têm e têm mesmo de lutar por aquilo que há meia hora nem sabiam que existia mas que agora é crucial. quase tão crucial como eu ter usado mais vírgulas na frase anterior, mas todo eu sou a favor de se ficar sem fôlego.

o mundo é dos números. por isso não te admires que um dia destes me apaixone pela perna do teu sete.

faz falta mais cor à vida

dei por mim a ler posts meus do início do blog há quase dez anos e ando a tentar perceber como é que isto passou a ser tão intimista e tão pouco irónico.

pois é. as coisas vão ter de mudar.

terça-feira, junho 19, 2012

a página em branco

a página em branco e o cursor a piscar são vendidos ao mundo como sinónimo da desgraça de quem escreve.

isso mostra bem como o mundo anda sempre tão dedicado na perseguição da quantidade e tão distraído na aplicação de crivos de qualidade. nas minhas visitas, muito selectivas, pela blogosfera, encontro tantas vezes tanto em tão pouco e outras vezes tão pouco em tanto.

com isto não sou apologista de que só os resumos sejam bons. há livros grandes que parecem pequenos e há livros pequenos que parecem enormes de tão chatos que são.

cada vez nos é oferecida mais informação, cada vez há mais vias de fazer chegar essa informação. a menos que batalhemos constantemente pela selectividade e pela criação de um limiar pessoal de qualidade na informação que queremos, vamos acabar vítimas desse paradoxo que é saber cada vez menos num mundo que permite saber cada vez mais.

sexta-feira, junho 15, 2012

na vida como nas ementas americanas

as ementas nesta terra que me acolheu têm um grave problema de complexidade. por mais agradável que seja a multiplicidade de oferta, almoçar ou jantar fora num restaurante americano é um desafio com laivos de hercúleo. escolher um entre milhares de pratos e quando acharem que a tarefa chegou ao fim ainda vem a altura de vos perguntarem como querem a carne, que molho querem, todos os acompanhamentos à disposição, e por aí fora, o que me faz sempre acreditar que para se ser empregado de mesa nos estados unidos é preciso um curso de decoranço. ou então são só actores sem sucesso em hollywood que vêm parar a esta profissão em segunda instância. há dias em que só nos apetece limitar as dúvidas a dois ou três pratos. e mesmo isso às vezes é demais.

a vida moderna sofre do mesmo trauma. vestidos do maravilhoso livre arbítrio que o tempo de agora nos trouxe, temos que, quase do berço, decidir tudo e um par de botas. o que vamos ser, o que queremos fazer, com queremos estar, o que isto, como aquilo. claro que na infância gozamos da inocência da liberdade. achamos as nossas escolhas mágicas e as nossas decisões inconsequentes. ao crescer as coisas mudam de tom. as nossas marcas deixam de ser feitas em areia e passam a ser como pegadas em cimento, muito mais difíceis de desfazer, muito mais delicadas de disfarçar.

não estou com isto a ser apologista de uma crítica a todas as oportunidades que o mundo moderno nos traz. mas há dias em que chego a pensar que um homem da idade média, condenado ao trabalho no campo toda a vida, a administrar propriedades toda a vida, a uma reclusão num mosteiro toda a vida, ou outras, sendo certo que não tinha o potencial de felicidade que nós temos, tinha na limitação das suas escolhas uma espécie de airbag contra o potencial de infelicidade que nos chega em igual (ou maior) dose.

terça-feira, junho 12, 2012

mesmo quem não acredita em santos vai lá pela parte do populares

todas as cidades são frequentemente acusadas de frias, impessoais, carreiros de formigas trabalhadoras, despidas de sentimentos, que trabalham durante o dia e fogem para os seus suburbanos refúgios quando o sol se despede. havendo alguma (muita, quiçá, em muitos dos dias) verdade nisto, há um dia especial em que um povoado como lisboa deita completamente abaixo esta estrutura.

apesar de o avançar dos tempos trazer algumas adaptações fatelas ao que é verdadeiramente a noite de doze de junho em lisboa (nunca percebi porque é que algumas casas acham excelente ideia pôr música electrónica na encosta do castelo ou porque é que algumas banquinhas vendem açaí com granola) ainda continua a ser a noite do ano em que a alma mais marialva do verdadeiro alfacinha se manifesta em todo o seu esplendor. recebendo bem quem é de fora, quem veio de fora, quem adoptou lisboa como sua, renegando ao preconceito fácil e à crítica pouco construtiva.

eu sempre me confessei um alfacinha a toda a linha. e gosto verdadeiramente de muitas outras zonas do país, pelas pessoas, pela gastronomia, pelas paisagens, pela monumentalidade. não tenho nada contra essas zonas e, aliás, só peço sempre que façam o mesmo em relação à minha cidade e às pessoas da minha cidade. 

consigo dizer ao pormenor onde estava em todos os dias doze de junho. até porque (ressalvadas excepções como o ano passado e este) o meu percurso dessa noite tem sempre um timbre parecido, os cheiros e os sabores também se repetem, e os abraços e os beijinhos sempre se multiplicam. nas noites de doze de junho não temos tempo para irritações. deixamo-nos levar pela viela, pelos degraus, pelos miradouros para onde a mole  humana nos empurra e respiramos a cidade como parte do nosso património. celebra-se uma data e um santo, mas celebra-se sobretudo a cidade. calcorreando as mesmas pedras que foram pisadas por assustados marinheiros a caminho dos barcos, por prisioneiros a caminho do cadafalso ou por eternos apaixonados a caminho de mais um encontro amoroso. 

hoje é o dia perfeito para lembrar que, em vez de julgar lisboa, é bem melhor abraçá-la e aproveitar tudo o que tem de bom.

segunda-feira, junho 11, 2012

o trânsito de vénus

sempre gostei muito de vénus. do modo como se insinua no fim das tardes de verão. da sua mania de fingir que é meio estrela, meio satélite, deixando todos à nora quanto à sua real vida como planeta. é um planeta tão audaz que até tem coragem de passar entre a terra e o sol e deixar milhões parados a vê-lo passar, como se fosse uma espécie de visita papal sideral (não que eu me desvie do meu caminho para ir ver o papa, entenda-se).

olhar para meio mundo a, literalmente, "ver vénus passar", fez-me pensar como o ser humano continua magicamente centrado nos fenómenos que não compreende muito bem. por mais interpretação que a astronomia hoje ofereça, a noite em que há chuvas de estrelas, os famigerados eclipses ou estes pequenos brindes cosmico-planetários, são recebidos com a mesma admiração com que os aztecas, os egípcios ou os homens das cavernas olhavam para eles.

é também curioso que a atitude não se estenda a outros fenómenos cujo conteúdo as pessoas desconhecem. na ciência, por exemplo, há o potencial para um igual maravilhamento. o problema é que nos fenómenos não-cósmicos há mais a mania de toda a gente achar que percebe do assunto. e que tem uma opinião. e que pode e sabe e quer discutir o assunto. preferia que olhassem para certos resultados da ciência como se de um meteorito em iminente entrada na atmosfera se tratasse. não há problema em não se saber tudo. o problema só aparece quando se quer fingir que sim.