Avançar para o conteúdo principal

percursos

todos passam por ti como quem te despreza. vêem o teu aspecto pobre e envelhecido, essa camisa gasta e as botas de quem já teve melhores dias na vida. olham de esguelha para o teu caminhar trôpego sobre a neve. as marcas que deixas na neve, parecem de quem claudica, mas só tu sabes que são marcas de guerra. de guerras, aliás. daquelas a sério, como aparecem nos filmes, e das outras, que se seguem a essas e são ainda piores. para as primeiras ainda fizeram de conta que te preparavam. para as segundas ninguém te deu qualquer conselho, ninguém te leu os planos, não te puseram uma metralhadora às costas, muito menos te mandaram seguir pelo pântano fora. mas tu seguiste, como é óbvio. tinhas um daqueles caminhos curiosos, que não têm trás. no fundo, os caminhos nunca têm trás, só têm frente, mas as pessoas também teimam em achar que há frente, trás e lados em tudo.

quando eu paro e olho para ti, sentado nesse limbo onde o passeio finge que se torna estrada, pergunto-me se olhas os carros que passam, ou se são eles que te olham a ti. imagino que o teu refúgio na contemplação da estrada tem muito a ver com o facto de os carros irem para lá e virem para cá. no fundo um efeito doppler contínuo, como tu gostavas que a tua vida tivesse sido e nunca ninguém deixou.

não reparas que te estou a observar e levantas-te, penosa e vagarosamente. arrastas-te na direcção não sabes bem do quê. deixas-te guiar pela brisa da tarde, pelo crepúsculo do dia, pelo gélido do frio que se adensa com a noite, e lanças-te em mais um caminho que sabes tão bem que nunca terminará porque já está terminado. sentes-te estranhamente leve.

o teu corpo jaz sob uma pele pálida e a ganhar tonalidades arroxeadas. ninguém repara. o vento continua a soprar. a neve cai. a música toca ao longe e tu continuas a caminhar, afastando-te da imagem do teu corpo, com a mesma naturalidade com que todos os dias a levavas contigo no final do dia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

pedras

acho muito simpático da parte do fernando guardar todas as pedras do caminho para um dia construir um castelo, mas aqueles de nós que as têm nos rins apreciavam outro tipo de eficácia diferente de apenas contemplá-las durante o passeio diário para abater barriga. com tanto heterónimo ao barulho, pasmo-me que o fernando, pessoa de bem, não tenha dado vida a um ente que se tornasse urologista e arranjasse maneira de ajudar a prevenir várias noites em posição fetal a namorar com o chão frio da casa de banho. diz o povo que as cólicas renais são piores que as dores de parto, mas o povo não pensa no facto de quase metade da população não poder atestar essa comparação. é provável que seja o povo feminino, e esse sim pode saber das duas, como sabe de tudo o resto, sempre em demasia, que o conhecimento verteu todo para o segundo cromossoma x. enquanto um brufen beija um ben-u-ron e abraça outro, vou continuar aqui no meu canto, meio revoltado com o fernando, enquanto pesquiso qual o valor da p...

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .

gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes. foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu. no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfe...

quando me falta o ar

sei que ainda não sabes, porque ainda não tens idade para saber, mas há mais de trinta anos que me questiono sobre o que é a felicidade e como encontrar o mapa para lá chegar . procurei nos bancos de jardim, nos bancos da faculdade, desde casa até ao outro lado do mundo, de polo a polo, e nunca encontrei quem a conseguisse definir para mim nem quem soubesse que travessas tens de cruzar para dar de caras com o tal mapa .  sempre me pareceu que provavelmente a vais encontrar nas pequenas coisas, mais do que nas grandes . vais deparar com um mundo em que cada vez menos se liga ao que quer que seja e que se acha que ter é ser, que ter é saber, ignorando que um sorriso vale mais que estofos de pele e mãos entrelaçadas ao pôr-do-sol batem um relógio que reage ao toque e fala contigo .  soube finalmente há vinte e seis dias o que é a verdadeira felicidade e sei desde há vinte seis dias o que é verdadeiramente o medo . nunca pensei ir descobrir o que eram ambos quase ao mesmo te...