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mil folhas

a leitura é um hábito que se cultiva desde quase tão cedo como aquele outro hábito que envolve o diafragma e os pulmões, o que serve para manter as funções vitais em forma. já se inventaram muitas formas de arte e expressão cultural, e várias dessas têm em mim um fã acérrimo e um eterno seguidor. mas nada ultrapassa o etéreo de paixão que de um livro pode brotar.

um livro trata-se como se de uma relação apaixonada se tratasse. olha-se de longe, chama a atenção, aproximamo-nos pé ante pé, a primeira vista transforma-se no primeiro cheiro, no primeiro manusear. a tinta das letras olha para nós com olhos de piedade, emanando "compra-me" por todos os poros da folha de papel. olhos que são de treta, porque sabem bem que no que separa capa de contra-capa se encontra um turbilhão de vida, um vértice de histórias, uma lupa para vidas e mais vidas e tempos e mais tempos.

ninguém é obrigado a ler. eu acredito no livre arbítrio. mas quem não se conseguir apaixonar por um livro não sabe o que perde. perde a capacidade de ver com aquilo que se esconde atrás da retina, o mundo que pode vir num objecto. sendo que o que está atrás da retina ainda é para ser banhado em pós de coração e regado com mais uma ou duas colheres de sopa de experiência pessoal.

lembro-me da primeira vez que li sobre a caixa de pandora. lembro-me igualmente de achar que cada livro, isolado, individual, cheio de personalidade, era ele próprio uma caixa de pandora. encostado numa estante de uma livraria ou de braço dado com outros livros num lugar lá de casa, espera paciente e pacificamente o seu dia. acumula toda a sua energia, guarda todos os seus segredos. no momento em que o detector de metais do acaso nos leva até ao seu cerne metálico, é puxado da estante, com um leve toque é-lhe limpado o pó da capa, e a abertura da primeira página traz a certeza de que o caos aí está, pronto para começar, para nos fazer viajar para outro lugar e para, com toda a certeza, nos dar o poder da metamorfose. isto porque ainda está para vir o livro que não me torne uma pessoa diferente uma vez que acabe de o ler.

Comentários

Anónimo disse…
Também adoro ler e a sensação de ficar apaixonada por um livro é óptima! Qual o livro que mais gostaste, no qual te envolveste mais e tiveste aquela sensação de perda no final?
essa é uma pergunta tão difícil, Paula :)

mas já escrevi sobre um que se podia incluir nessa categoria. aqui:

http://thoughloversbelostloveshallnot.blogspot.com/2011/11/rayuela-de-julio-cortazar.html
Anónimo disse…
Olha que nao é, eu ainda me lembro de alguns dos melhores que li:
plot against america - philip roth
Midaq alley - nagib mafouz
The god of small things - (alguém indiano)
cronicas do passaro de corda - do japones do kafa à beira mar

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