Avançar para o conteúdo principal

O vestido

A noite era ainda uma criança, daquelas crianças que têm idade para ver bonecos animados na televisão e não têm idade para votar, quando toda a sala tinha ficado boquiaberta com o seu vestido. O vestido tinha sido passado de geração em geração, ninguém sabia muito bem a sua origem no tempo, no lugar ou na pessoa. Era um vestido pouco orientado, mas que desorientava. Tinha cheiro a Cleópatra e reflexos de Helena de Tróia. Contava a lenda que a primeira pessoa a usar o vestido tinha sido a Rainha do Reino de Muito-além-mais-além-do-que-a-vista-alcança, no dia do anúncio do noivado do seu filho, o Príncipe Eduardo, que tinha o cognome de "O Conquistador", não pelas suas proezas militares, mas sim pela sua vida de boémio.

Voltando a um passado menos pretérito e mais presente, a entrada dela na sala soltou as mais variadas exclamações. Encarnado e dourado dançavam no seu corpo como dois dançarinos exímios de tango dançavam numa sala escondida de um qualquer bairro de Buenos Aires. As formas bebiam o tecido e o tecido dissolvia-se nas formas. O governador geral estava com a cara mais encarnada do que o vestido, mas ninguém sabia se a culpa era do espanto com o vestido ou do bar aberto. A mulher do governador geral estava também com a cara mais encarnada do que o vestido, mas neste caso, a ver pelo ar com que olhava para o governador geral, a razão era mais evidente. Veio um muito idoso empregado oferecer-se para tratar de guardar o casaco dela, oferta que ela aceitou, deixando discretamente uma nota na mão do muito idoso empregado. Todos os olhos da sala continuavam postos nela.

Ficou a pensar o quanto os olhos que vêem pensam que sabem. Ficou a imaginar as teorias que todos eles estavam neste momento a magicar sobre a sua história de vida, sobre a sua origem, sobre as suas posses, sobre o seu futuro. Uns decerto a pensar que dariam tudo o que tinham para se deitarem uma noite com ela. Outros a pensar na pouca vergonha que era usar um vestido tão revelador, mesmo que cheirasse a Cleópatra, ou talvez sobretudo por cheirar a Cleópatra. Entre a inveja, a admiração e todos os outros sentimentos que viviam pelo meio, ninguém fazia ideia do que estava por dentro. Ninguém se preocupava com o que ela sentia, ninguém quereria saber quantas vezes acordava por noite, porque não saía mais, porque não se dava com mais gente. O mundo tinha-se tornado numa versão maior de um ovo Kinder, com a grande maioria a lambuzar-se deliciada com o chocolate, mas cada vez menos gente com vontade de descobrir ou brincar com o brinde.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

pedras

acho muito simpático da parte do fernando guardar todas as pedras do caminho para um dia construir um castelo, mas aqueles de nós que as têm nos rins apreciavam outro tipo de eficácia diferente de apenas contemplá-las durante o passeio diário para abater barriga. com tanto heterónimo ao barulho, pasmo-me que o fernando, pessoa de bem, não tenha dado vida a um ente que se tornasse urologista e arranjasse maneira de ajudar a prevenir várias noites em posição fetal a namorar com o chão frio da casa de banho. diz o povo que as cólicas renais são piores que as dores de parto, mas o povo não pensa no facto de quase metade da população não poder atestar essa comparação. é provável que seja o povo feminino, e esse sim pode saber das duas, como sabe de tudo o resto, sempre em demasia, que o conhecimento verteu todo para o segundo cromossoma x. enquanto um brufen beija um ben-u-ron e abraça outro, vou continuar aqui no meu canto, meio revoltado com o fernando, enquanto pesquiso qual o valor da p...

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .

gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes. foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu. no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfe...

seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático

nunca acreditei em sonhos. pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo. o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos. quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado ape...