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Mensagens

sóis

vivo enfrascado em ideias nos dias que passam. têm tanta consistência como as placas tectónicas para os lados do chile. o país, não a praça. gostava de virar o sentido às coisas todas, mas por mais que procure não consigo encontrar a alavanca. não me podem dar um dia que comece com o sol a pôr-se e acabe com ele a nascer? ficaria sentado na doca da baía, a ver os barcos, que agora saíam em vez de entrar. marinheiros perdidos, com astrolábios que pareciam atingidos por um qualquer bug do ano-não dois mil. aviões em desespero perante rotas, sem perceber que de barriga para o ar chegariam ao mesmo lugar que era esperado. e pessoas em pânico, o mundo ao contrário, o que fazer? ninguém nos ensinou isso na escola. só aprendemos a viver o mundo direito, somos tão avessos ao avesso. se a escada rolante está avariada, até as pernas fraquejam quando lá entram porque não estão habituadas aquela imobilidade. muito menos arriscar subi-las ao contrário. isso fazem as crianças, ainda a viver na imag...

morte à simetria. lenta, por favor.

escrevo com a pena que se transformou em caneta que se transformou em dedos que carregam em teclas. escrevo com a sensação de quem flutua por cima de um mundo maior, feito de beleza e de desequilíbrio. tomara o dia em que se assuma que a simetria é o expoente máximo do pior que o homem consegue criar. a natureza prova isso das melhores formas. não há simetria que quando mudada de escala não seja assimétrica. a definição nasce precisamente da assimetria. percebo a paixão por linhas direitas. é o mesmo conforto de achar que está alguém num pedestal num edifício de pedra, que olha por vocês, e que corrige os vossos erros, vos apara os erros e vos aplaude as virtudes. mas as linhas direitas são nauseantes. as linhas direitas estão sempre a pedir para levar com aquela borrachinha do paint brush, que eu uso mentalmente para apagar o que não gosto. para mim, tudo o que me apaixona é assimétrico. até o wassily, com a sua mestria, pegou em formas geométricas e baralhou-as como quem atira os ...

o que nos foge entre os dedos

fico perdido. parado nesta encruzilhada. por mais voltas que dê, venho com demasiada frequência parar a este cruzamento em que para um lado vejo a seta do futuro e para o outro a placa tosca do passado. em primeiro lugar, adorava saber que lugar (estava para usar um pleonasmo desde as quatro da tarde) é este onde me encontro. há quem lhe chame presente, mas eu sou levado a crer que presente é coisa que não existe. existe só como homónimo, sobretudo nesta altura do ano. porque, tirando isso, foge entre os dedos como outra coisa qualquer. o presente nunca o é. mas também não está bem definido que eu não possa voltar ao passado ou acelerar o meu caminho ao futuro. ninguém define essas regras. criam-se tantas comissões para tudo e mais alguma coisa, e o tempo continua a brincar ao deus dará (se calhar até só a brincar ao dará), sem que nenhuma entidade reguladora o obrigue a apresentar contas e a explicar porque faz o que faz e como faz. na volta acabaria como tudo o resto. corrupto e ve...

senti o natal chegar sob a forma de um termo

não ligo a toda esta agitação à minha volta. noto que está a chegar o natal porque enfeitam as ruas com estas luzes bonitas e vejo passar senhoras e senhores cheios de sacos, cheios não sei muito bem do quê. a loja aqui mais perto põe uma música diferente do resto do ano, em que senhores estrangeiros falam de como o natal é uma altura bonita, com quente nas lareiras, amor entre as pessoas e bonecos de neve. o meu calendário é outro. o meu advento é mais irregular. conto os dias consoante está frio ou quente, não conforme os dias que passam desde o início de dezembro. e no natal está frio. muito frio. por isso conto que estou no natal quando vejo a mistura de chuva, frio e luzes. ontem deitei-me no sítio do costume, enroscado da forma do costume, mal tapado entre as caixas de cartão e as duas ou três mantas rotas que consegui tirar de uma esquina há uns meses. preparei-me para mais uma noite de luta com a hipotermia e os meus dedos estavam gelados ainda o sol não se tinha posto. uma v...

adoro este jogo do faz de conta que merecemos todos caixas de ferrero rocher

o natal. sem dúvida que é uma época com os seus altos e baixos. revisitamos a família, fazemos jantares de amigos, revemos o love actually e o home alone e aproveitamos, umas horas que seja, para ficar no quente do enrolado do sofá, a brincar às lareiras, verdadeiras ou fictícias. mas o natal traz o pior da relativização humana. a teoria que é vendida às crianças de que o pai natal só traz prendas para as que se portaram bem é uma treta quase tão grande como a de girar tudo à volta da terra. convençam-se de uma coisa, o problema não é não existir pai natal, o problema é brincarmos todos nesta época ao jogo do faz de conta que todos são bonzinhos e merecem uma caixa de ferrero rocher. decerto que o pior dos violadores dos direitos humanos consegue construir uma pirâmide só com caixas de ferrero rocher. porque as recebe. porque dar presentes é social. faz parte do que nos é incutido desde novos, e é visto como uma pre-obrigação. quem não dá, nunca o não faz por convicção. é sempre assu...

a alegoria da taberna

estávamos caídos num silêncio nu. perdidos entre o grau de um qualquer abafado que deslizou pelo tubo que serve para alimentar e o fumo intenso do tabaco perdido, antes fora mascado. nas paredes memórias antigas, esquissos de noites melhores, sinais de noites piores, palavras toscas riscadas toscamente, figuras de estilo que o eram sem o ser. pedimos mais um. e mais outro. e depois ainda mais outro. ficámos sentados no êxtase de quem vê o mundo à sua frente. vimos romanos, fenícios, vândalos, lábios, olhos, outros lábios, promessas, desastres, confidências e pecados. éramos ali, todas as noites (e algumas noites ate' chegaram a ser dias) confidentes de um mundo que ali passava. com um gesto pacífico mandávamos seguir. ouvíamos outro. e mais outro. a confissão da vida sem um castigo no retorno. sem obrigações de penitência. pelo preço de um sorriso. um dia um de nós decidiu levantar o seu corpo torpe e cambalear ate' à porta da rua. escalou os dois degraus, a porta de madeira ...

uma caça ao tesouro diferente

desde que o Homem e' Homem que tenta expressar o que sente através da arte. Desenhava primeiro em paredes de cavernas, com sangue de animais. ai' tenho a certeza que não era expressão artística, tão so' apenas visão de futuro e de como aquela caverna se viria a tornar desse modo um interessantíssimo polo turístico com milhares de bilhetes vendidos para la' entrar. continuou-se depois durante milhares (quais milhares, muito mais, centenas!) de anos com modos de pintar mais elaborados, e formas diferentes, quer seja esculpindo, escrevendo, compondo, quer tudo o resto. que haja muito resto. mas, de facto, a necessidade fundamental e' expressar. no fundo expressam-se a beleza, alegria, tristeza, raiva, paixão, todos os sentimentos, concentrando-se num pincel, lápis, caneta ou escopo e polvilhando de vida uma peça que se quer imortal. a conclusão e' q o Homem não consegue guardar para si próprio o que sente. felizmente. mas a beleza esta' em toda a parte e por ...