Avançar para o conteúdo principal

Por ruelas e calçadas (Parte 2)



A escolha era simultaneamente fácil e difícil. Em frente uma rua iluminada pelos amarelentos candeeiros que pareciam tristes na noite, para a sua esquerda uma rua escura, mas que da sua penumbra irradiava a luz dos néons, anúncios de vida naquelas trevas do pecado.

Ao seu bom estilo, optou pela esquerda, parecia ser inclusive o caminho mais directo para o seu hotel. À medida que andava, Martha olhava os vários bares... nomes nórdicos maioritariamente, porque raio dar nomes de cidades tão elegantes e avançadas a estabelecimentos de qualidade duvidosa? A ausência de presença humana no local fê-la sentir-se desconfortável pela primeira vez. Se calhar devia ter optado por seguir a luz da iluminação e passear junto ao rio.

Mais à frente deparou-se com um quadro pitoresco. Para a sua esquerda, trepando a colina, uma pequena viela apresentava-se em toda a sua pequenez e silêncio. Imediatamente atraída, Martha não pensou muito tempo e abandonou por ali a rua suja que quase a fizera vomitar.

Pequenas luzinhas iluminavam este beco. Esperava que tivesse saída, senão seria uma escalada inglória. Das janelas nem um pio, das portas nem um ranger. Toda a Lisboa dormia por aqueles lados. Uma série de outros labirintos inundavam as laterais do seu caminho. Pensou, rindo para si própria, que esta cidade tinha bairros que mais pareciam formigueiros...

No segundo seguinte Martha não teve tempo de se rir. Vindo do nada, sentiu um vulto vestido de preto saltar do seu lado direito. Ainda tentou articular algum som, mas já não foi capaz. O único som que se ouviu na noite foi o gorgolejar da sua carótida, decepado que foi o seu pescoço. E o silêncio continuou na noite, e pela ruela abaixo correu um rio vermelho... em direcção ao outro...

(continua...)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

pedras

acho muito simpático da parte do fernando guardar todas as pedras do caminho para um dia construir um castelo, mas aqueles de nós que as têm nos rins apreciavam outro tipo de eficácia diferente de apenas contemplá-las durante o passeio diário para abater barriga. com tanto heterónimo ao barulho, pasmo-me que o fernando, pessoa de bem, não tenha dado vida a um ente que se tornasse urologista e arranjasse maneira de ajudar a prevenir várias noites em posição fetal a namorar com o chão frio da casa de banho. diz o povo que as cólicas renais são piores que as dores de parto, mas o povo não pensa no facto de quase metade da população não poder atestar essa comparação. é provável que seja o povo feminino, e esse sim pode saber das duas, como sabe de tudo o resto, sempre em demasia, que o conhecimento verteu todo para o segundo cromossoma x. enquanto um brufen beija um ben-u-ron e abraça outro, vou continuar aqui no meu canto, meio revoltado com o fernando, enquanto pesquiso qual o valor da p...

À terceira é de vez!!!

Como tenho muita lata... este post é na linha de dois recentes... (um deles mesmo recentíssimo, o meu último) e trata da adaptação, não de séries (porque somos muito oranginais por estas bandas e isso depois na verdade tornar-se-ia repetitivo... quer dizer... até parece que assim não...), mas sim de filmes estrangeiros, para português. São novidades muito secretas e portanto só espero que tenham bastante cuidado na divulgação das mesmas (ao dizer isto espero que as publicitem, bem como a vinda aqui ao meu "little corner", numa jogada minha à laia d'"o fruto proibido é o mais desejado"). - Tó Pegane : história de um filho de uma ex-emigrante "na França" (daí a sempre típica mescla do nome António com o Pegane do francês com quem a senhora se casou). O rapaz entra para a Força Aérea, e depois há para lá umas intrigas. Ah! Na cena mais espectacular do filme, Tó Pegan faz um cozido à portuguesa, utilizando para aquecimento dos ingredientes a barriga...

os outros

sempre achei que os outros estavam em maus lençóis. são anos e anos a ler e ouvir que só acontece aos outros, que os outros fazem isto e aquilo, que os outros não são como os não-outros. os outros nunca têm descanso, são imparáveis na energia que colocam nesse mundo bizarro, espelho daquele em que vivemos, e em que tudo sai de pernas para o ar. o que é fácil esquecer é que nós somos os outros dos outros, e que a nossa alteridade nasce no momento em que criamos a alteridade dos outros. é bem mais fácil olhar para um mundo em espelho do que para o próprio espelho, ver os descuidos dos outros em vez das rugas do nosso próprio comportamento, os desvarios alheios em vez dos nossos excessos de inconsistência. ninguém deve ser consistente a vida toda, até faz mal ao colesterol, mas, o mesmo perdão que pedimos para nós próprios, raras vezes é estendido, muito menos de óstia em punho, aos outros. a empatia é um conceito tramado porque obriga a usar muita energia, sobretudo mental, a que mais es...