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revisão da matéria dada

é praticamente universal o estudo dos fenómenos da natureza enquanto parte dos currículos escolares (pelo menos nos sítios que possam ter um currículo escolar não creacionista). numa fase em que a formação da personalidade está em pleno ponto de ebulição, somos sujeitos a explicações, sucintas ou extensas, sobre o porquê de a natureza ser o que é e funcionar como funciona. ensinam-nos, assim, como funcionam as rodas dentadas e os ponteiros deste relógio que todos habitamos.

tal como num relógio suíço, o cerne da questão não se limita à máquina. (tantas piadas que se podiam inserir aqui envolvendo cern e suíça. mas depois achavam-me demasiado nerd e não posso correr esse risco, já gastei os meus créditos da vossa bondade ao usar um advérbio de modo logo no início do parágrafo anterior).

o que não vem nos livros, pelo menos nos da escola, é que temos de aprender a respeitar a força e a história por trás da máquina. um relógio suíço (dos originais, dos feitos à mão, dos que são caros não porque são luxo mas porque não são feitos numa fábrica de plásticos nos confins da china) conta a história do relojoeiro que o construiu com o cuidado com que o neurocirurgião corta a via nervosa certa dentro do encéfalo ou com que o piloto traz o avião à inclinação e velocidade exacta com que é suposto tocar a pista do aeroporto. há sempre mais do que apenas a reunião de ponteiros, mostrador, pilha ou corda e rodas dentadas. há história paralela, que deixa de ser paralela nas intersecções que fogem ao seu paralelismo.

a natureza sofre do mesmo mal. melhor, é abençoada com a mesma virtude. a brutalidade dos fenómenos que vemos pela janela (se não levarem a própria janela) lembra-nos que somos feitos desta matéria e que, por mais voltas que queiram dar, nascemos da natureza e à natureza voltaremos. a mesma força com que a água da chuva escava canyons ou a lentidão paciente com que a água do mar transforma rochas em areia, é a força que nos faz nascer, que nos permite viver, e que um dia nos acomodará sem pedir explicações ou sem exercer represálias.

se soubermos respeitar aquilo de que somos feitos, a natureza, geralmente, permite-nos viver na ilusão de que funciona como uma orquestra da qual somos maestro, mesmo que, na verdade, seja exactamente o contrário o que se passa.

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