Avançar para o conteúdo principal

tudo são puzzles

nunca fui dos maiores fãs dos tradicionais puzzles. por mais elevada que seja a inteligência espacial de quem num ápice consegue juntar milhares de recortadas peças, para no fim formar uma fotografia, a mim parece-me uma considerável perda de tempo, quando se conseguiria obter muito mais facilmente a mesma fotografia com menos luta. isto porque trezentas peças azuis, praticamente iguais, que correspondem, em teoria, a pedaços de "céu", podem ser um desafio, mas também podem roçar a tortura.

o conceito do puzzle, no entanto, fascina-me. fascina-me porque acaba por ser uma metáfora de tudo aquilo que temos, fazemos e procuramos na vida. é a imagem de que tudo é formado por pequenas peças e que o nosso conhecimento de todas as coisas, palpáveis e não palpáveis, é muitas vezes essa fotografia final, que nas nossas naturais limitações não dá para obter logo de caras, e só juntando todas (ou quase todas) as peças é possível ter uma imagem mais clara daquilo que na verdade estamos a observar.

e tanto é um puzzle de várias peças um filme ou um livro como uma planta ou um animal. no fundo porque a tudo atribuímos códigos e o nosso jogo do conhecimento não é mais do que uma dança entre codificação e descodificação. e entre dias e noites, entre sóis e luas, vamos montando todo outro puzzle, aquele em que nós próprios vivemos, tentando juntar as peças boas, pôr de lado as peças más, e sobretudo reposicionar todas aquelas que, por algum acaso, andávamos com a mania de deixar no sítio errado.

Comentários

Mary disse…
Qual será o puzzle de ontem, hoje e amanhã? " a vida é um enigmático puzzle"

Mensagens populares deste blogue

pedras

acho muito simpático da parte do fernando guardar todas as pedras do caminho para um dia construir um castelo, mas aqueles de nós que as têm nos rins apreciavam outro tipo de eficácia diferente de apenas contemplá-las durante o passeio diário para abater barriga. com tanto heterónimo ao barulho, pasmo-me que o fernando, pessoa de bem, não tenha dado vida a um ente que se tornasse urologista e arranjasse maneira de ajudar a prevenir várias noites em posição fetal a namorar com o chão frio da casa de banho. diz o povo que as cólicas renais são piores que as dores de parto, mas o povo não pensa no facto de quase metade da população não poder atestar essa comparação. é provável que seja o povo feminino, e esse sim pode saber das duas, como sabe de tudo o resto, sempre em demasia, que o conhecimento verteu todo para o segundo cromossoma x. enquanto um brufen beija um ben-u-ron e abraça outro, vou continuar aqui no meu canto, meio revoltado com o fernando, enquanto pesquiso qual o valor da p...

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .

gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes. foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu. no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfe...

seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático

nunca acreditei em sonhos. pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo. o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos. quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado ape...