Avançar para o conteúdo principal

por alguma coisa saímos da idade da pedra

sempre me intrigou o fenómeno do bife na pedra.

imagino o homem pré-histórico, saído da sua caverna, sem grandes jornais para ler ou sites da internet para pôr as notícias em dia, a ter de passar o tempo a caçar (um misto de necessidade alimentar e diversão). não tendo ainda dado conta do fogo, terá havido um primeiro indivíduo com dentição mais sensível que se revoltou e disse "não! isto assim não! acho impossível ter de comer estes nacos de búfalo todos crus, eu não tenho dentes de sabre e o meu primeiro nome não é tigre!". vai daí, o indignado, descobriu que os calhaus do lado de fora da caverna, por volta do meio-dia, em dias de verão, estavam a ferver de uma maneira que queima pés. sentindo os seus pés a arder teve a brilhante ideia de colocar um naco de carne em cima desses mesmos calhaus e assim foi inventado o primeiro bife na pedra.

ora, julgo, embora possa estar enganado, que depois disso já passaram uns quantos anos. não só foi inventado o fogo como até foi descoberto o gás. e a electricidade. passou a haver maravilhosas e múltiplas formas de cozinhar a carne sem ter de recorrer ao método mais ancestral de todos.

daí eu ter dificuldade em entender que na moderna sociedade haja quem realmente paga para comer o bife dessa forma. será revivalismo? serão estas as mesmas pessoas que vão a óbidos ver as mesmas reconstituições históricas todos os anos? serão pessoas com graves distúrbios psicológicos que vão para o restaurante com a intenção de se auto-mutilarem na fervente pedra e acabam por desistir da ideia quando lhes cheira a almoço?

são tudo questões que ficam por responder. até lá estou a criar mais dois ou três conceitos do género para tentar enganar os paspalhos clientes desta forma de alimentação. uma chama-se "garoupa na grelha de carvão" - levo para a mesa meio bidon recortado (a forma tradicional), cheio de carvão lá dentro, uma grelha e o peixe, e o cliente toma conta do assunto e enche a sala de fumo e cheiro a peixe. a outra é "bolo de amêndoa no alguidar" - forneço ao simpático cliente um alguidar e trago-lhe em vários tupperwares farinha, fermento, açúcar, ovos, raspa de limão e amêndoa. e uma batedeira, vá. e empresto um forno, num acto de insensata e altruísta loucura.

note-se que não tenho nada contra quem gosta de bife na pedra. só temo é que sejam pessoas que acabem por comprar terrenos na lua ou por convidar para entrar em casa aquelas senhoras que andam aos pares e que garantem trazer a palavra do senhor. tenham lá cuidado com isso.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

pedras

acho muito simpático da parte do fernando guardar todas as pedras do caminho para um dia construir um castelo, mas aqueles de nós que as têm nos rins apreciavam outro tipo de eficácia diferente de apenas contemplá-las durante o passeio diário para abater barriga. com tanto heterónimo ao barulho, pasmo-me que o fernando, pessoa de bem, não tenha dado vida a um ente que se tornasse urologista e arranjasse maneira de ajudar a prevenir várias noites em posição fetal a namorar com o chão frio da casa de banho. diz o povo que as cólicas renais são piores que as dores de parto, mas o povo não pensa no facto de quase metade da população não poder atestar essa comparação. é provável que seja o povo feminino, e esse sim pode saber das duas, como sabe de tudo o resto, sempre em demasia, que o conhecimento verteu todo para o segundo cromossoma x. enquanto um brufen beija um ben-u-ron e abraça outro, vou continuar aqui no meu canto, meio revoltado com o fernando, enquanto pesquiso qual o valor da p...

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .

gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes. foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu. no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfe...

seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático

nunca acreditei em sonhos. pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo. o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos. quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado ape...