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Mensagens

meio vivo meio alive

quis a coincidência das datas da minha passagem anual por terras lusas que este ano eu conseguisse ir ao alive. é melhor chamar-lhe só "alive" que a confusão entre optimus e nos ainda gera alguma guerra civil. tenho dificuldade em definir o meu festival favorito em portugal, porque todos têm coisas que me agradam. o sudoeste é imbatível na localização em plena costa vicentina, o super bock super rock costuma ter dos meus cartazes favoritos e também tem a praia do meco por perto, e o alive tem uma localização também ela fantástica, que permite fazer vida de lisboa durante o dia e no pos-festival, e assistir a uma data de concertos com vista para o tejo. sendo que estes festivais são para todas as idades, uma boa forma de não irem para lá a sentir que são velhos é irem vestidos de uma forma que não vos faça parecer velhos. no primeiro dia, por circunstância de outras voltas, fui para algés de camisa branca, com ar de pai, e na fila de entrada para o festival perguntava...

régua de felicidade

" és feliz? " se vos fizerem esta pergunta, o mais provável é começarem a patinar e gaguejar enquanto tentam responder honestamente. acabam por dar uma resposta remendada, feita às três pancadas, e isso acontece, acima de tudo, pela falta de coragem que temos para parar de vez em quando e pensar na resposta a esta pergunta. uns imaginarão a felicidade brilhando como diamantes, com postais de ilhas paradisíacas, águas claras e lagostas crepitantes a sair da grelha, enquanto vão polindo o brilho ao seu carro de luxo. outros cairão no pseudo-romantismo de abraçar uma felicidade primitiva, o amor e uma cabana, as estrelas tão bonitas lá no céu e para que precisamos do mundo e para que precisa o mundo de nós (até serem mordidos por um animal venenoso e irem a correr aflitos para o hospital). a felicidade propriamente dita é impossível de definir. é ler e ver e ouvir, para entender que há milhares de anos que gente que sabe e gosta de pensar se questiona sobre isso, se...

as pessoas e a cómoda

a vida tem a mania de se compartimentalizar. são estados atrás de estados na infância, são fases atrás de fases na adolescência, são saltos de ponto para ponto na vida adulta. são muitos anos passados à face da terra (na verdade são sempre muito poucos) em que tanto pessoas como coisas fluem por nós. aparecem e desaparecem da nossa vida como incandescentes meteoritos quando invadem a atmosfera. para tudo isto, e sem ser por vontade própria, desenhamos dezenas ou centenas de gavetas, destinadas a cada um destes encontros vida fora. umas gavetas são abertas uma vez e logo fechadas para a eternidade. outras são abertas quando calha, e quando de lá salta a pessoa que ali esteve fechada anos a fio, é instantânea a corrente eléctrica que salta da gaveta para a nossa pele e acaba a aquecer o coração. outras gavetas há que trancamos a sete chaves e, ainda assim, vamos confirmar se não há hipótese de quem lá prendemos sair pela parte de trás do móvel.  penso muito na ironia das pal...

dar voltas à pista

hoje entrei no supermercado e um senhor de nobre idade fez-me sinal. precisava de ajuda para pôr o saco das compras ao ombro, porque problemas nas articulações o impediam de ter força e amplitude de movimento para conseguir completar uma tarefa tão simples. os dias passam no calendário como carros e pilotos a dar voltas à pista. as articulações gastam-se que nem pneus, a memória vai-se que nem combustível e as mudanças saltam freneticamente para cima e para baixo como se fossem estados de espírito. volta após volta vamos segurando a força dos Gs que nem uns corajosos, fingimos não notar o cheiro a queimado vindo das rodas e fintamos as poças de óleo que nem uns fitipaldis . esquecemo-nos com demasiada frequência de parar nas boxes . bem sei que a pista chama e promete glória, mas o reabastecimento é tão essencial como o músculo de feições estranhas que bate dentro do peito. sobre a pista que é a vida ninguém sabe bem o que é o pódio. mais uma razão para apreciar o caminho,...

lição de hoje

se há coisa que aprendi bastante nos domingos de manhã da minha infância foi como a natureza funciona. também aprendi que a feira do relógio tinha um rico pão com chouriço e que cair em cima da cal dos campos de futebol pelados queimava a pele, mas isso talvez não tenha tanta importância para o assunto de hoje. bebendo pelos olhos todos os programas que o ecrã teimava em expulsar, fosse a vida selvagem inglesa ou o outro a esconder-se atrás de arbustos, aprendi várias lições que ficaram para a vida. uma delas tinha a ver com o padrão de acasalamento das zebras. as zebras, sejam macho ou fêmea, têm uma característica engraçada, a de perderem a atracção por uma zebra do sexo oposto que faça a corte a todas as zebras que se mexem (e mesmo a uma ou outra mais estática do que uma múmia egípcia). quando isso acontece, não só perdem a atracção como a cor das suas listas até se pode inverter. as listas brancas passam a pretas e vice-versa, é a forma que a natureza tem de metaforicamente a...

take two

a música não era nada de especial. o vocalista parecia ter não álcool no sangue mas sim sangue no álcool e a voz tremia-lhe mais do que uma casa construída em cima do anel de fogo. a luz era morna, sobretudo comparada com a tua pele. falámos horas a fio de quão tudo é relativo, da temperatura das peles ao movimento dos girassóis atrás da estrela todo o dia. discutimos alegremente a falsidade do céu azul, pintado às escondidas para nos dar uma sensação de conforto. que não existe. que é inventado em becos cósmicos, como quem rouba um beijo enquanto um candeeiro se acende e apaga, incerto sobre a energia que lhe corre nas veias. ou nos fusíveis. uma das duas. fiz um esforço hercúleo para me concentrar nas palavras, enquanto a minha atenção se prendia nos teus cabelos, os meus olhos se enrolavam no teu pescoço e o coração dava pulos capazes de ir à medalha de ouro nos jogos olímpicos. as noites frias. as noites quentes. depende. tudo. depende tudo de tanta coisa. e no fundo d...

o valor da opinião

eu ainda sou do tempo (já começamos mal) em que a opinião era uma coisa difícil de difundir. para ter tempo de antena num jornal ou para ter um livro publicado era preciso ter qualidade à prova de bala. ou uma boa cunha. mas apesar de tudo, em geral, o critério "qualidade" tinha tendência a prevalecer. num ápice veio esta maravilhosa democratização em que todos temos direito a blogs, podemos publicar livros de borla online e dão-nos colunas em jornais diários como quem oferece jornais de qualidade duvidosa no metro e nas filas de trânsito. uma coisa que tinha tudo para ser boa, abrindo o mundo a mais opiniões e pontos de vista, tem sido, na minha modesta opinião, um semi-desastre. e o "semi" é só porque pelo meio do imenso ruído se descobrem pessoas e opiniões de muito valor, que nunca teriam atingido a ribalta na apertada meritocracia do passado. mas para encontrar essas trufas é preciso escavar em tanta terra vazia que chega a ser desesperante. toda ...