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Mensagens

nobel da tábua de engomar

cheira-me que os inventores do prémio nobel tinham as prioridades erradas. médicos, físicos, químicos, economistas, escritores, sim senhor, tudo muito importante e tudo grandes génios, mas peçam a cada um dos vencedores para passar uma camisa a ferro e eu logo vos digo quem é o génio na sala. não há volta a dar, ao oitavo vídeo no youtube a tarefa parece simples. qual astronauta pronto a pousar em marte, ponho água, ligo o ferro, rodo o manípulo até ao algodão, tudo parece estar a correr como os vídeos prometiam e muito lentamente o grande momento aproxima-se. passado o colarinho avançamos para a parte da frente e aí tudo se começa a complicar. "houston, we have a problem". são dois ou três vincos, não parece nada por aí além. que botão é este? vapor? deve ser boa ideia. hm, em vez de vapor sai uma espécie de areia e agora a camisa está cheia de pintas. ah, o quê, tem de se limpar o sistema de ferro porque acumula resíduos? de repente a central de chernobyl ao pé disto parece...

a liberdade individual

as liberdades individuais são uma coisa engraçada de debater, desde que ninguém viole as minhas, sendo que eu sou ao mesmo tempo quem as define e quem julga se estão a ser violadas. como tal, tenho o perfeito equilíbrio de poder ser eu a definir o que são as minhas liberdades, como são para ser usufruídas e o que as fere num alto-e-pára-o-bailismo de escandalizar os santos.  só que não. porque felizmente vivemos em sociedade, e, como tal, as liberdades individuais são definidas, de um modo mais ou menos democrático, em sede própria, e de modo racional, uma vez que eu confio muito no  manel do café para tirar uma italiana perfeita, mas não sei se ele achar que o fulano x, y, ou z, muito bem que é racista e xenófobo, "mas o que vale é que diz umas verdades", o qualifica com suficiente maturidade democrática para definir por si os portões do que cada indivíduo pode ou não fazer (ainda confio menos no fulano x, y, ou z, mas isso fica para outro dia, que a sopa está quase a precis...

idade adulta

o sol começava a aparecer no horizonte, tímido, pintando o céu de tons rosa e laranja, enquanto tu descias pelo trilho, quase mais inclinado que a parte de cima do evereste. as tuas pernas reflectiam o mesmo tom laranja e a tua pele cheirava a mar. os cabelos, indecisos entre serem ondulados ou ouriços-do-mar, emanavam a alma das algas do dia anterior, e guardavam no seu interior os segredos mais profundos do oceano. olhaste para trás e sorriste, e o teu sorriso desarmou o planeta num microssegundo, foi mais poderoso do que se o não-assim-tão-pacífico anel de fogo resolvesse revoltar-se todo ao mesmo tempo, e fez o meu coração bater recordes na escala de richter. aproximei-me e contei quantos raios tinha a tua íris, e quantas cores diferentes lá moravam. cheguei à conclusão de que tinha mais raios do que pessoas há no mundo, e mais cores do que a caixa mais cara da caran d'ache.  nisto fomos atravessados pela realidade. o teu sorriso confirmava aquilo qu...

arrefecimento global

Primeiro era o verbo, mas o  verbo insistiu vezes demasiadas, martelando tanto o complemento directo, que o sujeito não se quis mais sujeitar ao que quer que fosse. As veias secaram, sobretudo as pequenas, mas depois as médias e, por fim, as grandes, e todo o coração ficou chupado, parecia uma espécie de figo deixado ao sol durante oitenta e três anos e meio.  As raízes ainda se aguentaram uns tempos. Eram regadas todos os dias com uma mistela de amor e carinho que, nos casos certos, chega para suportar uma árvore, mesmo podre, durante anos a fio. No entanto, nem sequer no escuro do chão se aguenta tudo. Uma a uma, saíram e rastejaram em direcção a um ribeiro que passava ali perto, mas não se enraizaram o suficiente e um sapo que ia a passar de bicicleta acabou com o seu sofrimento de vez. Era um império falso, por isso pouca diferença fazia quem atropelava quem. O sapo seguiu os outros sapos, era um sapal que fazia jus ao nome. Deram todos as mãos, ...

vocês sabem lá

pena que o netflix tenha uma escolha tão vasta mas não haja por lá um filme, série ou documentário que nos encaminhe para a essência da vida.  sim, há quem possa argumentar que está por lá a marie kondo a ensinar a arrumar gavetas como deve ser e mais uma série de gatos pingados a ensinar a descobrir uma casa ou um destino de férias de sonho, tudo por uma bagatela, basta oferecer de volta a dignidade.  no passado, os vendedores de sonhos andavam de terra em terra, paravam nas feiras, tinham pequenas garrafas cheias de elixir da eterna juventude, dentes de dragão, vesículas de gambozino, tudo e um par de botas para melhorar a vida. a alguém com inteligência acima da média disparava logo o alarme da charlatanice e os vendedores de ilusões eram corridos a pontapé ou encaminhados para fora dali por uma matilha de pouco amigáveis canídeos.  agora vender sonhos é chique e fácil. basta fazer upload de pratos com saturação acima da média, de imagens em espelho de ...

papel, pedra e tesoura

há meses que ando a tentar jogar ao papel, pedra e tesoura  no central park e o meu sucesso tem sido perto de zero. só tenho sido feliz na parte da pedra, já as encontrei de v ariados tamanhos e feitios, guardei-as todas para um dia fazer um castelo e  destruí um dedo mindinho entre dois seixos mais atrevidos, mas valeu a pena. o papel tem muito que se lhe diga. acho que de início entendi mal,  andei à procura do papel junto de qualquer pessoa que tivesse ar de  vir a sair da broadway. um actor muito simpático recomendou-me um  psiquiatra seu amigo e duas actrizes pouco sorridentes fugiram de mim c omo se tivesem visto a peste negra. de todos os três, a tesoura é o maior desafio. já encontrei uma de  podar, caída no relvado, mas um dobermann com ar ameaçador ladrou  mais alto que a minha vontade de aventuras.  ainda pensei trocar o jogo pelo xadrez, mas rapidamente desisti,  eram ainda mais peças para encontrar. resolvi apostar em act...

parece que foi ontem

parece que foi ontem, que os dedos abriam as páginas do atlas ao acaso e decidiam os adversários do próximo jogo, sim, desta vez pode ser um escaldante bahamas contra gronelândia, ficando tudo a jeito para essas partidas em que um só jogador fazia de vinte e dois e criava a complexa dinâmica de rematar à baliza e defender o remate ao mesmo tempo. parece que foi ontem, que adormecer era complicado, o calor, que nem a brisa do rio acalmava, entrava pela alma, e para dissuadi-lo brincavam os pés pelo enrugado das paredes, ó deus, quem se lembraria de inventar paredes rugosas e achar que isso tinha tudo para correr bem. parece que foi ontem, a vida era muito só isso, o intervalo entre campainhas, o duelo entre livros devorados e roupas suadas com tanto futebol de intervalo, as aventuras em autocarros apinhados de gente, os desafios de fazer uma chave de casa rodar, porque isso é tão difícil e pertence ao mundo dos grandes. parece que foi ontem e de repente é hoje. de repente os atlas...