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esfero, vi-te

são pedaços brancos e esféricos de poliestireno. isolados, individualmente, não têm grande uso. quando unidos e compactados perdemos a conta à quantidade de utilizações a que se prestam no dia-a-dia, ou até na noite-a-noite (bolas, nunca ninguém dá o devido valor a esta última).


por esse mesmo motivo, acho o esferovite uma óptima metáfora da sociedade. o pior é que ninguém respeita muito o esferovite. é usado e deitado fora. é quebrado por dá cá aquela palha, quando a palha não serve nem para metade do que o esferovite serve. é destruído em pedaços por crianças cegas por descobrir que presente afinal vem dentro da caixa. sodomizado por donas de casa, que apenas querem ver a brilhante misturadora sair da caixa de cartão.


claro que há esferovites mais felizes. os dos barcos, por exemplo. são uma espécie de banksy dos materiais sintéticos. toda a gente admira o seu trabalho, mas ninguém sabe quem ele é. o esferovite tem um papel fundamental em impedir que os barcos se afundem. sei que provavelmente achavam que isso era responsabilidade de pequenos anões (as redundâncias são sempre mais baratas ao domingo, perdoem-me) que esbracejavam no fundo bem fundo do casco enquanto o barco se movia. lamento desiludir-vos, mas são as tais esferas brancas. no fundo não deixam de ser pequenas. no fundo não deixam de ser anões.


só não sei se esbracejam. tenho de mergulhar um dia e ver. ou perguntar aos peixes, que são gente muito entendida nestas matérias do fundo do mar. quem ouve um peixe falar sobre a extensão da plataforma continental portuguesa pergunta-se se não deviam ter um espaço de antena ao domingo à noite num qualquer canal de televisão.


mas essas coisas não interessam. o mundo, também ele esférico, há-de continuar a seguir o seu rumo, cada vez mais cego à beleza que pode encontrar nas mais pequenas coisas. até num pedaço dessa maravilhosa invenção chamada esferovite.

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