Avançar para o conteúdo principal

o fabuloso mundo da parte de trás

aposta-se tudo na fachada.

nas casas, como na vida, quem tenha de se decidir a decorar com pompa e circunstância uma das faces do cubo (ou cubo alargado), pensa sempre no sítio por onde as pessoas vão entrar, ou para onde vão olhar de relance quando por ali andarem. usam colunas, batentes dourados, tintas caras, nalguns lados até seres humanos com ar de capitão reformado da marinha ali pontificam para embelezar o cenário.

adoro a mística da parte de trás de um prédio ou vivenda. é onde se desiste da decoração mas mora a honestidade do ser. entre relvas mal cortadas e plantas exoticamente deixadas ao acaso vivem-se os momentos da infância e ouve-se o grito de que é hora de ir jantar ou tomar banho. ali, escondido do mundo, escondido de tudo, é possível sonhar, entre um joelho que fica preto da terra ou aquela comichão da comunhão com a natureza, em que uma formiga insiste em trepar pela pele acima.

também nos blocos de betão isto mantém validade. por exemplo com o parque de estacionamento transformado em campo da bola, com carros a fazer de balizas e vidros de carros a fazer de cartão vermelho. ou, mais por estas bandas, com as escadas de emergência, que conseguem transformar um poço urbano hipoteticamente vazio em algo próximo de uns bastidores de palco, mostrando com ferro desnudado a verticalidade de uma espécie de roupa interior da habitação.

de certeza que a porta da imaginação mora mais facilmente no lado das traseiras. não imagino a alice a sair pela porta da frente, e ainda menos o coelho apressado a usar elevadores, ao invés do esqueleto orgânico que mora no sítio das coisas esquecidas.

Comentários

encantos disse…
muito filosófico e avant-garde.

Mensagens populares deste blogue

pedras

acho muito simpático da parte do fernando guardar todas as pedras do caminho para um dia construir um castelo, mas aqueles de nós que as têm nos rins apreciavam outro tipo de eficácia diferente de apenas contemplá-las durante o passeio diário para abater barriga. com tanto heterónimo ao barulho, pasmo-me que o fernando, pessoa de bem, não tenha dado vida a um ente que se tornasse urologista e arranjasse maneira de ajudar a prevenir várias noites em posição fetal a namorar com o chão frio da casa de banho. diz o povo que as cólicas renais são piores que as dores de parto, mas o povo não pensa no facto de quase metade da população não poder atestar essa comparação. é provável que seja o povo feminino, e esse sim pode saber das duas, como sabe de tudo o resto, sempre em demasia, que o conhecimento verteu todo para o segundo cromossoma x. enquanto um brufen beija um ben-u-ron e abraça outro, vou continuar aqui no meu canto, meio revoltado com o fernando, enquanto pesquiso qual o valor da p...

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .

gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes. foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu. no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfe...

seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático

nunca acreditei em sonhos. pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo. o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos. quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado ape...