sábado, agosto 13, 2011

a cor da caixa negra

já pensaste que este mundo pode não ser nada do que nos parece que é? e se tudo isto for uma fachada para algo maior ou menor, diferente, com mais cores do que as que temos agora, com mais sons do que aqueles que permitimos que nos encantem e nos levem na melodia da noite?

os precipícios podem ser excelentes locais para pensar desta forma. não te atiras de um precipício porque aprendeste que se te atirares te vais magoar. provavelmente até de uma forma séria. envolvendo morte e coisas dessas, que são uma maçada a certas horas do dia. eu por exemplo não gosto nada de morrer a seguir ao almoço, fico indisposto. mas como podes tu saber? nunca te atiraste de um precipício. quem te diz a ti que o impacto das tuas moléculas no fundo da ravina é igual ao de outro ser qualquer? até te digo que igual não será de certeza, porque as tuas moléculas não são as de outro ser qualquer. porque algum outro morreu com o impacto, porque haverias de ter que morrer tu? tudo é extrapolável sem limite? e se tu conseguires voar? nunca vais descobrir se consegues voar porque nunca te vais atirar em nenhum precipício...

percebo o conforto de acreditar que o mundo é como nos é dito que é. entre outras coisas poupas-te a vários comprimidos de oito em oito horas, que te arrastam quimicamente do mundo como o vês e trazem de volta o mundo como os outros querem que o vejas. não percas essa porta escondida que te leva ao teu mundo. lá há unicórnios, potes de ouro, mais cores e mais sons do que os temos agora. lá provavelmente podes voar e ninguém te impede de saltar em direcção ao desconhecido.

não acredites em tudo o que te vendem. não te esqueças que até a caixa negra do avião é laranja.

sexta-feira, agosto 12, 2011

percursos

todos passam por ti como quem te despreza. vêem o teu aspecto pobre e envelhecido, essa camisa gasta e as botas de quem já teve melhores dias na vida. olham de esguelha para o teu caminhar trôpego sobre a neve. as marcas que deixas na neve, parecem de quem claudica, mas só tu sabes que são marcas de guerra. de guerras, aliás. daquelas a sério, como aparecem nos filmes, e das outras, que se seguem a essas e são ainda piores. para as primeiras ainda fizeram de conta que te preparavam. para as segundas ninguém te deu qualquer conselho, ninguém te leu os planos, não te puseram uma metralhadora às costas, muito menos te mandaram seguir pelo pântano fora. mas tu seguiste, como é óbvio. tinhas um daqueles caminhos curiosos, que não têm trás. no fundo, os caminhos nunca têm trás, só têm frente, mas as pessoas também teimam em achar que há frente, trás e lados em tudo.

quando eu paro e olho para ti, sentado nesse limbo onde o passeio finge que se torna estrada, pergunto-me se olhas os carros que passam, ou se são eles que te olham a ti. imagino que o teu refúgio na contemplação da estrada tem muito a ver com o facto de os carros irem para lá e virem para cá. no fundo um efeito doppler contínuo, como tu gostavas que a tua vida tivesse sido e nunca ninguém deixou.

não reparas que te estou a observar e levantas-te, penosa e vagarosamente. arrastas-te na direcção não sabes bem do quê. deixas-te guiar pela brisa da tarde, pelo crepúsculo do dia, pelo gélido do frio que se adensa com a noite, e lanças-te em mais um caminho que sabes tão bem que nunca terminará porque já está terminado. sentes-te estranhamente leve.

o teu corpo jaz sob uma pele pálida e a ganhar tonalidades arroxeadas. ninguém repara. o vento continua a soprar. a neve cai. a música toca ao longe e tu continuas a caminhar, afastando-te da imagem do teu corpo, com a mesma naturalidade com que todos os dias a levavas contigo no final do dia.