domingo, março 30, 2014

o valor da opinião

eu ainda sou do tempo (já começamos mal) em que a opinião era uma coisa difícil de difundir. para ter tempo de antena num jornal ou para ter um livro publicado era preciso ter qualidade à prova de bala. ou uma boa cunha. mas apesar de tudo, em geral, o critério "qualidade" tinha tendência a prevalecer.

num ápice veio esta maravilhosa democratização em que todos temos direito a blogs, podemos publicar livros de borla online e dão-nos colunas em jornais diários como quem oferece jornais de qualidade duvidosa no metro e nas filas de trânsito.

uma coisa que tinha tudo para ser boa, abrindo o mundo a mais opiniões e pontos de vista, tem sido, na minha modesta opinião, um semi-desastre. e o "semi" é só porque pelo meio do imenso ruído se descobrem pessoas e opiniões de muito valor, que nunca teriam atingido a ribalta na apertada meritocracia do passado. mas para encontrar essas trufas é preciso escavar em tanta terra vazia que chega a ser desesperante.

toda a gente se arroga o direito de ter opinião sobre tudo, o que é válido, mas crêem-se também no direito de que todos saibam aquilo que acham. vivem na ditadura dos likes e dos RTs e medem o seu ego em função do que acham que é a sua capacidade de propagar a meia dúzia de idiotices desinformadas que têm a expelir sobre todo e qualquer tema.

pior do que isso, têm por vezes sucesso nessa sua difusão. e com o sucesso do volume de difusão acham que vem a confirmação da qualidade do produto, neste mundo que chutou para canto a qualidade e que adora dormir em conchinha com a quantidade.

este inverno por aqui tem sido muito longo, dêem-me um desconto. e enquanto me dão o desconto pensem duas vezes antes de abrir a boca sobre certas coisas, só vos fica bem. mesmo que vos traga menos fãs.


(p.s.: eu reconheço todo o paradoxo de eu próprio estar a difundir uma opinião. mas que seria da vida sem paradoxos, não podem ser só sóis a nascer e a ir-se deitar.)

bully de almas

há qualquer coisa com o sol a pôr-se e com o sol a nascer. eu tenho um stendhal constante com esses preciosos momentos, mas parece-me que o que me afecta é viral e contagia bem mais de meio mundo.

são instantes passageiros mas que, como nenhuns outros, nos lembram dos ciclos, nos ajudam a re-centrar, nos afirmam duas vezes ao dia que continua tudo a girar e que o caminho é para a frente ou para trás, mas à volta do eixo pela certa. 

já é de manhã. já é de noite. os pássaros carregam no play ou no pause consoante o evento. são muito mais ordenados do que nós, aqueles com a mania de andar só sobre as duas pernas e que não usam os membros superiores para voar. 

o que é uma pena. seria tão mais fácil perseguir o sol com asas. com alguma distância, que não queremos soltar o ícaro que há em nós. mas ainda não perdi a esperança de passar mais de vinte e quatro horas atrás do sol (embora já tenha andado bem perto disso, mas com ajuda de motores não conta).

estou a desenhar o aparelho, a montar as asas e a magicar o plano. depois aviso. não se preocupem.

sábado, março 22, 2014

ardente

a facilidade com que os dedos se entrelaçam. a dificuldade com que os dedos se soltam. lembra-me o momento em que as forças centrífugas brincam com as centrípetas e rodam que nem crianças a brincar no jardim.

os dias passam, as páginas viram uma a seguir à outra, a tinta sangra da esquerda para a direita (noutros lados da direita para a esquerda), mergulha nas linhas, salta entre elas, rasura o fim e recria o princípio.

são lágrimas de preto misturadas com lágrimas de branco. fazem das linhas pautadas música e crescem como o 1812 do tchaikovsky. deixam o barco do pedro para trás, grande ou pequeno, atravessam a ponte. sentam-se nos degraus a olhar para o cristo salvador, sem perceber se a cúpula dourada os salva ou se salvam eles a cúpula. atiram-se ao rio. fogem para norte.

param.

olhos claros. parar. observar. lábios cheios. lua também. cabelos longos. sempre os cabelos longos montados em pescoços ainda mais longos e capazes de derrotar impérios. mais cúpulas. mais telhados. mais túneis. mais noites. sinto lá ao longe o napoleão a capitular. sem tirar a mão do casaco. guarda a carteira como quem guarda um império. 

é assim que os impérios começam, crescem, caem e se levantam. até os faraós capitularam numa sexta à noite e renasceram uns dias depois, com menos papiro à volta do coração.