terça-feira, fevereiro 23, 2010

Noite



Suaves ruídos. Um choque de roda com milhões de partículas de água numa poça que teima em não desaparecer da estrada. O motor afastado e esquecido de um avião que já leva na cabeça o destino final. Passos apressados de quem sabe para onde vai e o pouco tempo que tem.

A noite traz o silêncio. Com o silêncio da noite vem todo um novo mundo de sensações. Não há ruídos. Não há distracções. A adoração da noite tem a ver com isto. Com o contraste. Há uma espécie de paragem durante a noite. Pequenos oásis de som, espalhados aqui e ali, perpetuam o som num volume bem alto, para compensar pelo resto da noite. Nesses oásis juntam-se adoradores do som. Fazem hoje com o som o que no passado já alguns fizeram com o sol.

Cá fora o som do silêncio permanece. Consigo ouvir o camião do lixo, que se aproxima. Vem sempre. Não falha. Se um dia não vier a esta hora sei que algo se passou. Problema na central. Fim de todo o lixo no mundo. Algo se terá passado.

O dia tem a verve da loucura, partilha e alegria. A noite traz o silêncio. O silêncio traz a paz. E a meditação.

Shhhht!

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Diário de Bordo




Excerto do meu moleskine, 11 de Setembro de 2009, Deserto de Gobi, Mongólia, escrito exactamente no momento captado na foto:

"Estranho. O destino faz este dia chegar nalguns dos mais belos locais do mundo. Há 8 anos (dilacerante o modo como o tempo passa por nós...) estava sentado num banco junto ao fabuloso mar de Oahu, e agora estou sentado num banco com gigantescas dunas de areia do deserto mongol aqui mesmo à minha frente. O que mudou em 8 anos? Eu mudei muito, o mundo infelizmente mudou pouco.

Parto à descoberta das dunas próximo do pôr-do-sol. 15 minutos depois depara-se um primeiro obstáculo, um pequeno rio, de pouco caudal, mas pouco apetecível de atravessar, por ser lamacento. Eis que do nada aparece um jipe com um casal mongol, aos quais berrámos para parar e conseguimos boleia para atravessar o rio e ir até à orla das dunas. Claro que fomos no meio das couves e peças de automóvel, mas ficou registada a habitual boa vontade mongol.

Trepei pela areia pura, lisa, sem marcas, das grandes dunas, até ao topo mais topo das redondezas e o misto de isolamento com as cores do pôr-do-sol e o espectáculo natural envolvente é algo próximo da transcendência. Rolei ainda pela areia como se fosse um míudo de 10 anos.

A experiência foi tão boa que no dia seguinte acordámos às 5 da manhã, para repetir a dose e ver o nascer do sol. Como é óbvio tive de empapar os pés em lama, mais duas vezes, para conseguir passar o rio... Mas valeu a pena..."