quarta-feira, junho 26, 2013

transparências

o mundo é um lugar em constante mudança. desde a primeira hora, do primeiro minuto e do primeiro segundo. é essa aliás a essência da sua criação. se as moléculas tivessem permanecido estáveis, de mão dada a olhar para a lua ou a apanhar sol numa esplanada, jamais teriam entrado em choque e dado origem, por exemplo, à vida.

não sei se na origem do mundo existiam esplanadas. mas não tem grande importância para o caso. o que importa é que a rebelião entre elas degenerou numa bela sopa e a pouco e pouco tudo se foi orientando na direcção do que hoje somos e daquilo em que nos tornámos.

das coisas mais apaixonantes das descobertas científicas modernas (o dicionário não reconhece apaixonante como uma palavra válida, alguém lhe dê um beijo bem dado) é perceber que a mudança até se consegue ir cunhando à medida que o próprio indivíduo avança, e que determinadas características que conferem vantagem selectiva são passadas à geração seguinte, algo que até há poucos anos se julgava impossível. somos, assim, não meros espectadores do mergulho aleatório do nosso código genético, mas actores, com papéis mais principais ou mais secundários conforme a cena.

por entre maravilhosas descobertas, vamos paralelamente inventando formas de compensar o livre arbítrio dos genes com o demasiado apertado controlo das almas. cada vez somos mais visíveis, a cada esquina, a cada mesa de restaurante, a cada escadaria perdida cidade fora. deixámos a beleza do anonimato e da privacidade num qualquer espaço e tempo perdido e damo-nos ao mundo sem sequer questionar o que recebemos em troca. damos oxigénio para receber bytes. damos pixels para receber likes. damos a alma e o corpo e ainda um pouco mais e deixamos de nos saber centrar. num só eixo. num adequado casulo.

tempo. é tudo uma questão de tempo. chegará o dia em que as paredes de todas as nossas casas, de todos os nossos edifícios, não serão nada mais do que transparentes. e ter uma caixa à prova de tudo, à prova de olhares, à prova do mundo, será um luxo tão grande que nem sei sequer se será possível de encontrar. 

quarta-feira, junho 12, 2013

a porta errada

o prédio era estranho. não há portas de prédios com motivos de ferro em cor-de-rosa e com um olho dentro de uma forma triangular. ainda assim entrou porta dentro com a decisão de quem sabe ao que vai.

ève charlier tentava demover pierre dumaine de abandonar o apartamento.
' você sabe que é muito muito perigoso. '
' perdoe-me ève, sabe bem que tenho de ir. são os meus amigos. eles vão ser massacrados, ève, sabe bem que não a amo menos por isso! '

ouvem-se passos pesados nas escadas e, após uma longa pausa, alguém bate à porta com insistência. pierre voa para junto do móvel onde guarda o revólver, que rapidamente tira e aponta à porta.
' quem é e ao que vem? '
' é do círculo de leitores! '
' círculo de leitores? o que é isso, homem? aposto que é um enviado do regente! '
' não, não, sou mesmo um enviado do círculo de leitores. faço toda esta zona de massamá. '
' massamá? mas você não sabe que está às portas de paris? '
' de paris? não pode ser... bom, adormeci no comboio, mas pensei que na pior das hipóteses acordava no cacém. '
' não entendo nada do que está para aí a dizer, mas vá-se embora imediatamente, não temos tempo para si! '
' então e os livros? '
' quais livros? '
' os que tenho aqui para lhe vender. tenho umas promoções mesmo boas, vai ver. '
' quero lá saber dos livros, homem! tenho uma revolução para fazer, desapareça! '
' mas olhe que a encadernação é de capa dura. '

perante o silêncio de dentro do apartamento acabou por decidir abandonar a cena com ar triste. após alguns minutos de reflexão uma certa indignação começou a subir-lhe pelas veias. não subiu logo tudo porque uma delas tinha um pequeno trombo, mas finalmente subiu o resto. ia ter de resolver esta situação na sede. quase apostava que o tinham mudado da zona de massamá para outras épocas históricas e ninguém o tinha sequer avisado.

' táxi! '

sábado, junho 08, 2013

um, dois, experiência

dou por mim muitas vezes a pensar que o conforto da rotina retira alguma acutilância à capacidade de observação. fazer os mesmos caminhos, subir os mesmos degraus, repetir as mesmas tarefas, do alourar alho e cebola ao dobrar de camisas, permite-nos manter um padrão e entender a linha orientadora do dia-a-dia. a paz quase uterina que tudo isso nos traz (por mais que nos finjamos todos mentes hipercriativas e passemos o tempo a bradar aos céus que a rotina é um horror) é uma espécie de reset diário, um re-acertar dos ponteiros quando se encontram de novo ambos a zero graus e nas doze.

sair do ciclo da rotina e dar um mergulho nas águas do desconhecido pode ser abordado de modos bastante distintos. pode-se optar por ir com o medo do que nada naquelas águas escuras. pode-se tentar mergulhar com uma armadura medieval vestida imaginando-se mais esperto que todos os possíveis monstros marinhos. pode-se, por último, mergulhar com a descontracção de quem quer descobrir e experimentar em vez de usar todo aquele precioso tempo a temer o desconhecido.

ontem fui pela primeira vez a um concerto de metal. aparentemente há dezenas ou centenas de sub-tipos de metal e temo pela vida se arriscar dizê-los e o tiro me sair ao lado. não sendo um fã confesso deste género musical, adorei, no entanto, a experiência.

começo nas filas. vesti uma t-shirt preta e levava um casaco preto, achando que me ia sentir completamente integrado. assim que cheguei às filas para entrar notei logo várias falhas na minha indumentária e aparência. pelo menos uma das seguintes alíneas é indispensável: a) calças de camuflado, b) t-shirt ou camisola alusiva a uma das bandas presentes ou a outras bandas de metal, c) barba comprida e/ou cabelo comprido. não digo isto em tom jocoso. juro. tem muita piada observar aquele culto, observar aquela peregrinação conjunta de gostos e ideais, o componente mais ou menos político, mais ou menos filosófico, por trás das palavras (às vezes "palavras") dos vocalistas das várias bandas. a comunhão da cerveja, do eyeliner, dos cabelos esvoaçantes, seja para a frente e para trás seja imitando uma torre de energia eólica.

ao fim de quatro horas de concertos, e guardando mentalmente vários (muitos!) pormenores deliciosos para momentos criativos futuros, a minha principal conclusão foi de ter estado num grupo de gente bem disposta, educada e seguidora até de um conjunto de regras que não se encontram noutros concertos teoricamente mais "pacatos".

com isto não me tornei repentinamente o fã número um mundial de metal. mas, como tudo na vida, para falar das coisas, seja bem, mal, mais ou menos, ou assim assim, convém vivê-las e conhecê-las, nem que seja só uma vez.

domingo, junho 02, 2013

contrariedades

aprendi, entre outros, com o cesário verde a ter um gosto especial por olhar pela janela nas horas mais tardias da noite, perdendo-me em pensamentos que se misturam com luzes de um ou outro quadrado isolados na escuridão.

são dezenas de janelas. são dezenas de vidas. são cortinas diferentes. são espaços abertos. vejo televisões que expulsam um arco-íris cá para fora. vejo silhuetas humanas. umas paradas, outras em leve e discreto movimento, dando fracas dicas sobre a pulsatilidade do coração que as abriga. não há fumo, neste sítio não há fumos nas janelas. e ácidos quando muito os da chuva, pelo menos na maior parte dos prédios, na maior parte dos dias.

há luzes que se apagam. pergunto-me quem está lá por trás. se é o fim do dia. se é a desistência da noite. se quem carregou o peso de pressionar o interruptor vai agora passar horas e horas a fio em sofrimento insoníaco. mudam as janelas que têm luz. mudam as janelas que estão apagadas.

não há simetria. nunca há simetria. não há engomadeiras tuberculosas. há mais pulmões. mas não há menos decadência. há mais tempo desde a revolução industrial. há menos tempo desde a ausência de revolução das mentalidades.

não fumei três maços. não vejo a vizinha ainda a trabalhar. agora tem mais vacinas, tem mais informação, tem roupas de mais cores. mas isso não resolve tudo. as ansiedades do mundo continuam a escorrer, da mesma forma, pelas paredes do quotidiano, hoje, como há duzentos anos.