quinta-feira, novembro 25, 2010

a alegoria da taberna

estávamos caídos num silêncio nu. perdidos entre o grau de um qualquer abafado que deslizou pelo tubo que serve para alimentar e o fumo intenso do tabaco perdido, antes fora mascado. nas paredes memórias antigas, esquissos de noites melhores, sinais de noites piores, palavras toscas riscadas toscamente, figuras de estilo que o eram sem o ser.

pedimos mais um. e mais outro. e depois ainda mais outro. ficámos sentados no êxtase de quem vê o mundo à sua frente. vimos romanos, fenícios, vândalos, lábios, olhos, outros lábios, promessas, desastres, confidências e pecados. éramos ali, todas as noites (e algumas noites ate' chegaram a ser dias) confidentes de um mundo que ali passava. com um gesto pacífico mandávamos seguir. ouvíamos outro. e mais outro. a confissão da vida sem um castigo no retorno. sem obrigações de penitência. pelo preço de um sorriso.

um dia um de nós decidiu levantar o seu corpo torpe e cambalear ate' à porta da rua. escalou os dois degraus, a porta de madeira gasta e arrastou-se pela calçada. voltou um dia depois. tinha visto um outro mundo. toda uma nova maravilha. falou-nos de malabaristas, de castelos, de monstros estranhos com trela e com guizo, de máquinas que transportavam pessoas e tinham uma espécie de rodas, de fumo, de nevoeiro, de tanta coisa... queria convencer-nos a acordar e de uma vez ir e conhecer.

rimo-nos quase em uníssono. que nevoeiro mais perfeito que aquele que os nossos olhos tinham permanentemente? para quê ver castelos, quando o baralho de cartas que ali tínhamos construía um em segundos? os malabarismos estavam por conta do empregado quando pedíamos mais um copo. e monstros estranhos éramos todos nós. uns com mais trela que os outros. felizes e inebriados na felicidade de quem vê o mundo la' de fora sem ter que escalar os dois degraus e atravessar a porta de madeira gasta.



(picture by me)

sábado, novembro 13, 2010

uma caça ao tesouro diferente

desde que o Homem e' Homem que tenta expressar o que sente através da arte. Desenhava primeiro em paredes de cavernas, com sangue de animais. ai' tenho a certeza que não era expressão artística, tão so' apenas visão de futuro e de como aquela caverna se viria a tornar desse modo um interessantíssimo polo turístico com milhares de bilhetes vendidos para la' entrar.

continuou-se depois durante milhares (quais milhares, muito mais, centenas!) de anos com modos de pintar mais elaborados, e formas diferentes, quer seja esculpindo, escrevendo, compondo, quer tudo o resto. que haja muito resto. mas, de facto, a necessidade fundamental e' expressar. no fundo expressam-se a beleza, alegria, tristeza, raiva, paixão, todos os sentimentos, concentrando-se num pincel, lápis, caneta ou escopo e polvilhando de vida uma peça que se quer imortal.

a conclusão e' q o Homem não consegue guardar para si próprio o que sente. felizmente. mas a beleza esta' em toda a parte e por vezes não e' captada de modo universal. todos se sentam a ver o pôr-do-sol (continuo a achar que aquilo não e' o pôr-do-sol, mas sim o girar da terra), mas raro e' o q se senta a ver o saco de plástico a voar. todos ganham bolhas nos corredores do prado, mas ninguém perde um minuto a pensar no que estara' por trás da vida de um bicho de prata, que gosta tanto de livros como eu e alguns de vocês, e o prémio que recebe e' uma vil sapatada e a vida desfeita em microssegundos.

adoro arte. mas arte e' isto tudo. dalí casado com conchas da praia. kandinsky de braço dado com um andaime das obras. sartre em amena cavaqueira com o gajo de alfama e com um pirilampo que por ali passa.

esta' tudo la' sempre. so' e' preciso caçar o tesouro diferente.


quinta-feira, novembro 04, 2010

preciso tanto de danieis sa' nogueiras como de um pontape' no escroto

leio no i que aparentemente portugal tem um novo guru. da' pelo nome de 'daniel sa' nogueira' e encheu recentemente o pavilhão atlântico com oito mil pessoas para uma 'palestra espectáculo' sobre crescimento pessoal. o michael buble' e o tony carreira também o fizeram, mas dispensaram a parte da palestra e passaram logo ao espectáculo. pelo menos o michael buble'.

crescimento pessoal. por onde começar?

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ok, para eu saber como ser melhor e mais realizado, pessoal e profissionalmente, parece ser suposto enveredar pelo caminho do 'personal coaching', tendo uma espécie de treinador da minha personalidade...

erro!

podem ler 'o segredo'. podem ler 'a profecia celestina'. podem ler o que quiserem. esses livros têm magia. eu sei, ja' li alguns e e' um facto. mas a magia que la' vem e' so' uma: a prova de que vocês próprios podem construir o vosso sucesso por vocês mesmos. não precisam de ter um tipo de barbas a cobrar-vos uma entrada e a falar durante duas horas para acreditar nisso.

ate' conheço um excelente 'personal coacher', chama-se 'vida'. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ganhar o euromilhões que o ganham. não e' por pensarem mesmo com muita força que vão ter sucesso na vossa profissão que o têm. e' trabalhando. e' lendo. e' estudando. e' aprendendo com o que vêem. com o que falam. com os outros. com os inteligentes. com os que não vos parecem inteligentes, mas que são muito mais inteligentes do que os que parecem. com os que têm histórias para contar e ninguém os ouve. o segredo esta' la'. so' e' preciso estar atento.

aprendem mais em meia hora parados a ver um carreiro de formigas do que em duas horas de daniel sa' nogueira. e não me digam que as formigas tiveram de ouvir um guru para aplicarem o conceito de eficácia. aprendem mais ao perceber que as tribos das andaman, sem livros e internet, não morreram no tsunami de ha' uns anos porque fugiram para as montanhas ao ver a linha de mare' descer do que ao ler durante meses semi-verdades globais encapotadas de ovo de colombo.

lamento, daniel sa' nogueira. não tenho nada contra ti. és um tipo esperto. podia ter-te dado para inventar o facebook e viver disso, vives das ilusões dos outros e não vejo mal nisso. o problema e' de quem tem essas ilusões em vez de gastar a energia em concretizações...

P.S.: ja' agora, se querem ficar parados duas horas a ouvir falar um homem, oiçam o dalai lama. não vos tenta converter a nada e fala-vos despretensiosamente de tudo o que faz parte da vossa vida e da vossa não-vida.


(picture by me)

terça-feira, novembro 02, 2010

NYC, a extensão filosófica do meu eu físico

Ha' cidades que não aquecem nem arrefecem. Ha' cidades boas. Ha' cidades óptimas, verdadeiramente fantásticas. E depois ha' Nova Iorque. Num patamar distinto. Uma epifania do ser a cada momento, a cada olhar, a cada passo, a cada movimento respiratório.

Mesmo a Nova Iorque turística e' uma bela cidade, capaz de encantar novos e velhos, judeus e muçulmanos, fanáticos religiosos e ateus. Mas a verdadeira cidade esconde-se atrás dos autocarros vermelhos de dois andares, que apregoam mostrar a essência de ny em quatro ou cinco horas.

Perco-me na minha cidade, e descubro-me perdendo-me. Poucas coisas me dão tanta paz como sentar-me em brooklyn a olhar o skyline do outro lado do rio. O east river corre com pressa, muita pressa. Pressa de quem quer passar pela cidade onde tudo acontece e rapidamente chegar ao mar. A pressa de milhões de gotículas de água que pensam não aguentar a pressão desta cidade. Pressão essa que e' constante. Ninguém fica indiferente.

Para la' da vertiginosa velocidade de vida da cidade, sentado no meu banco consigo olhar a calma que me envolve. Como tudo flui numa calma apressada. Dois namorados sentados partilham histórias, amores, com um pano de fundo que faz inveja a muito cineasta. Uma modelo despe-se de preconceitos enquanto e' fotografada para um novo catálogo de roupa interior. Sinto-me quase impelido a avisar os produtores dessa sessão que e' um risco tirar fotografias ali, as pessoas não se vão concentrar a cem por cento no produto a vender.

E ando. Caminho sem parar. Entro aqui, entro ali. Corro a High Line de cima a baixo, de baixo a cima. Petisco no Pastis, entro na Little Marc Jacobs. Paro quatro, cinco, seis horas na loja de vinis que se esconde do bulício dos cafés da St. Marks Place. Meia dúzia de 'nós' passam ali estas horas, a correr disco atrás de disco, a descobrir o que era a 'pacatez' inicial do Joey Negro ou a relíquia redonda dos Stardust. E saio, ando mais, entro no cafe', procuro o jardim nas traseiras, sento-me a ler e peço um copo de um Chardonnay. Como e' bom misturar os prazeres todos nos mesmos momentos... acho que fomos programados para ser assim.

A vertigem não me assusta. Antes, puxa por mim.

Desoriginalizando, 'new york, i love you'.


(picture by me)

segunda-feira, novembro 01, 2010

A vida e' uma pizza quatro queijos

Primeiro que tudo um disclosure: eu adoro queijo. Quem me conhece sabe que gosto tanto de queijo que invariavelmente a minha escolha recai, mesmo em vastos menus, sobre a pizza quatro queijos. Que nunca tem quatro. Transformo-a sempre em cinco, com reforço de parmesão on-the-top.

A vida não deixa de ser como uma pizza quatro queijos. De base temos a nossa personalidade, pode ser o mozzarella ralado e o molho de tomate. Juntamos a nossa família, que e' uma espécie de emmenthal, que une os ingredientes de base. Não me esqueci da massa, respeito a massa, claro. Mas a massa e' aquilo em que nascemos, a casa, os vários mundos, os olhares trocados que contam e não contam ao mesmo tempo. Os amigos vêm como um provolone, que reforça um sabor especial, que se destaca no meio de um festival de textura e sabor.

Os amores definem a pizza. Umas vezes danish blue, outras vezes roquefort, eventualmente gorgonzola, chévre ou rodelas de queijo fumado. Variam, apaixonam, encantam, podem adorar-se ou detestar-se, às vezes num gesto quase simultâneo, confundindo sentimentos extremos como quem confunde a defesa com o ataque.

Claro que cada um faz o que quer da sua pizza. Digo, vida. Junta-lhe o fermento que quer. Acrescenta o toque de azeite de trufas que lhe pareça mais adequado. Pre-aquece o forno ou não, tudo na vida e' uma opção. E deixa os 220ºC aquecerem durante o tempo certo, às vezes de menos, outras vezes demais. O importante e' sentir a crosta. Não da ferida. Mas sim da pizza.