sexta-feira, dezembro 21, 2012

breaking news: o mundo não acabou.

começo a desiludir-me com o mundo.

primeiro descubro a falcatrua do pai natal (deixemos assim para que as crianças pensem que foi um escândalo de lavagem de dinheiro), de seguida explicam-me que não há glutões que limpem as nódoas da roupa e em cima de tudo isto, fazendo de cereja podre no topo do bolo passado de prazo, descubro que as previsões sobre o fim do mundo afinal não se cumpriram.

com a agravante de já não ser a primeira vez que isto acontece. parece-me claro, e vários estudos mostram (daqueles científicos, tão científicos que até se usam balões de vidro e sai fumo e coisas dessas upa upa) que isto não passa de uma enorme conspiração montada entre os vendedores de lanternas e de latas de conserva para melhorar as vendas de tempos a tempos.

a verdade é que o mundo de facto hoje acabou. para muitos. como acaba todos os dias. desceram à terra, subiram ao vento, começam agora a decompôr e a obedecer ao milagre da multiplicação dos átomos e das moléculas. que quais peças de lego vão juntar-se de novo e dar origem a mais vida. a toda a hora. num ritmo inexorável e violentamente delicioso. a ajudar o mundo que acabou a tornar-se no mundo que vai começar.

na verdade as notícias são essas. estejam atentos, que o mundo hoje acabou de começar.

domingo, dezembro 02, 2012

a liberdade da prisão

acendeste o cigarro e por trás de ti tocavam os stones, a dizer que mem sempre consegues tudo aquilo que queres.

mal sabiam eles, pensei eu, que nunca se perderam nos teus cabelos, que nunca moraram nos teus olhos e que nunca navegaram no teu pescoço.

comparei a tua luz com a que vinha do tecto. comparei o calor do teu peito com o calor da ponta do cigarro. ficavas sempre a ganhar. eras rainha de copas num baralho só de dois de paus e eu rendia-me à minha simplicidade de ser sempre joker neste mundo pouco preparado para trazer os jokers a jogo.

quando sorrias, o espaço à volta parecia ter sido vítima de uma bomba de neutrões, e sabes como eu sempre me perdi irremediavelmente por sorrisos devastadores. sorrisos daqueles que te fazem viajar em segundos da porta de casa à porta do comboio de um país distante. que trazem canela, açafrão, gengibre, não em pó, mas sim disfarçados nas pequenas covas que o canto dos teus lábios definia.

contemplava-te como um quadro, pintava-te como se fosse o teu dalí e ficávamos a brincar ao surrealismo sem ligar às horas e regras do mundo real. tenho ideia que os relógios pararam, com os ponteiros no momento em que os braços estão levantados para cima. expliquei-te que na publicidade os relógios vêm sempre com os ponteiros nas duas e dez para ligar sensações positivas ao produto em causa. sorriste uma vez mais, como sorrias sempre que do nada me saíam estas coisas que não interessam nem ao menino jesus nem a muitos outros meninos não-jesus.

o que me importa é que te fez sorrir. e assim continuou o ponteiro, parado, imóvel, alheio a nós e nós alheios a tudo.


segunda-feira, novembro 26, 2012

o espírito da época

é bonito e popular chegar a um ou dois meses do natal e lembrar o ' espírito da época '.

não contrariando essa ideia, eu sempre fui mais defensor de transformar o espírito da época em época do espírito. sei que o natal está pensado para nos fazer sentir melhor. dar e receber presentes passa por aí. o prazer e alegria de rasgar papel e desfazer laços. a expectativa de encontrar um sorriso e um ar de satisfação em quem recebe o que comprámos para oferecer. o problema destas vontades é quando elas são passageiras e instituídas.

durante todo o ano fazemos coisas bem e mal. durante todo o ano somos boas e más pessoas. durante todo o ano nos arrependemos de coisas que fazemos, que não fazemos e que nos fazem. e trabalhamos, ou devíamos trabalhar, constantemente, sem rendição para construir um ser humano melhor.

não me preocupa que as pessoas tenham tendência a ser boas nesta altura do ano. preocupa-me que durante o resto do ano, e sobretudo nos detalhes que prendem a existência do quotidiano, não tenham idêntico cuidado voluntário.

por mais bonito que seja oferecer uma camisola de lã ou a nova consola da nintendo, quando chegar a meio de janeiro não se esqueçam de segurar a porta à pessoa que vem atrás. ou de parar em passadeiras. vão ver que o vosso sorriso vai ser mais verdadeiro e o vosso coração deixa de ter de hibernar até ao novembro seguinte.

sábado, novembro 24, 2012

perguntas e respostas (em inglês Q & A é mais chique)

duvido que os interlocutores se entendam sempre.

duvido que alguma vez tenham conseguido o equilíbrio perfeito, mas cada vez estamos pior. isto porque vivemos no tempo do imediato, do agora, onde o que acontece vale mais do que o que aconteceu e quando muito pode ser ponte para o que ainda vai acontecer. a densidade das coisas tem a mesma solidez das moléculas de água no momento imediatamente anterior à evaporação.

na terra das importâncias passageiras as perguntas e respostas são das que mais sofrem com isto. sempre reflecti bastante (mas depois adormeço e tenho de voltar ao início) sobre o porquê de fazer perguntas quando não se quer respostas. basta ligar num qualquer telejornal (vejam um filme de terror ou comam uma peça de fruta, que vos faz melhor) para questionar o real interesse por trás de cada questão.

sim, entendo que não haja tempo (ó deuses do olimpo! que sempre arranjaram tempo para tudo e agora não há tempo para nada, ainda que na verdade não haja falta de tempo mas sim de organização) para permitir que determinado convidado se perca na resposta, derive, e filosofe em demasia. se calhar devia haver, mas, enfim, admitamos que esse é um dado adquirido. o que perturba é que quase sempre me parece que quem pergunta não tem qualquer interesse na resposta e busca apenas a emissão da pergunta. a prova disso é que interrompe, destrói e demove o raciocínio alheio. se a ideia é perguntar para obter a resposta que se quer ouvir e no tempo que se quer ouvir é fácil hoje em dia programar robots que o façam. e levá-los como convidados. "aqui o Dr. R2D2 para falar de violência doméstica". "hoje temos connosco o Dr. C3PO para dar a sua opinião sobre a crise dos metais".

não me entendam mal, a interrupção e a disrupção são fundamentais, quando são construtivas. não quando são repetitivas e desadequadas. aí são meros instrumentos de agravamento de um dos principais males desta cada vez mais cruel sociedade. perguntar quando não se quer saber a resposta, em condições, é o mesmo que comprar pão para depois o deitar fora porque está com bolor e passou de prazo.

se fosse hoje em dia imagino que quando o pitágoras fosse a dizer "e então descobri que a soma do quadrado dos catetos é igual à..." alguém o interromperia para ir mostrar o ronaldo a atrapalhar-se com palavras relacionadas com a ausência de caspa.




terça-feira, novembro 20, 2012

a inspiração adora jantar com notas musicais

ainda estou para saber quem decidiu que o sexto sentido feminino é a intuição. e também ainda estou para saber quem é que deixou um saco de lixo à porta do elevador do meu prédio. mas hoje preocupa-me mais saber quem se meteu nessas andanças de achar que percebia o que ia para lá dos cinco sentidos.

sempre adorei o sexto sentido feminino mas nunca desvalorizo os seus outros cinco, habitualmente astutos que nem o animal selvagem que todos somos (ou sabemos ser).

uma das coisas mais fascinantes dos sentidos é virem de origem como uma espécie de naipes de jogo de cartas. existem todos isolados, mas (em certos jogos, vá, não quero irritar nerds das cartas ou idosos que passam as tardes no jardim), atingem a sua beleza máxima quando formam  uma equipa e quando o seu conjunto representa mais que a soma das partes.

claro que o maestro desta orquestra está lá para os lados onde o descartes achava que a alma e a razão se encontravam. mas, como em tantas outras coisas, este maestro não trabalha esfomeado, e precisa de ir buscar o seu alimento ao outro lado do eixo, o que não tem razão, mas tem mania. nomeadamente a mania de bater aí entre quarenta a cem vezes por minuto. tirando quando se exalta ou quando resolve acalmar demasiado.

a plateia pára expectante. sustém a respiração. deixa no ar aquele misto de medo e admiração enquanto a música alcança o seu êxtase. as notas musicais, se forem as certas, entram pelo ouvido, migram ao que de neurónios houver, dançam um tango com o coração, e todos juntos saltam para as pontas dos dedos, que teimam em carregar em teclas ou em agarrar canetas e fazer com que a sua tinta caia em momentos certos, espaçados, decididos, outras vezes tremidos, em linhas que, elas próprias, dançam no prazer do ensemble.

domingo, novembro 04, 2012

as coincidências estão para a vida como o fermento para os bolos

basta-me uma questão de segundos com os olhos postos numa imagem do passado para um sorriso me invadir a cara com aquela intensidade com o que sol invade os poros da pele num dia de verão.

a fotografia mostra-me um eu vinte e cinco anos menos atacado pelo tempo, com um sorriso ao mesmo tempo inocente e despreocupado de quem tem toda a vida pela frente e um nível de responsabilidade mais pequeno do que uma abelha numa colmeia.

o tempo não só muda as cores (impressionante como a resolução e o digital mudaram o modo como gravamos o presente à medida que deixa de ser passado) como deixa a descoberto todas as ironias e sinais que jamais pensámos ser possível existir.

por trás da criança, que eventualmente pensava em mil histórias para a sua colecção de playmobil e legos, está nublado, mas visível, um lugar onde vinte anos mais tarde a criança ia pôr os pés com uma bata branca, um estetoscópio, e o desejo de cumprir um sonho surgido pouco tempo depois da captação do momento. ainda mais atrás, imponente, há um sinal de betão da rua onde a não-criança se emanciparia para o mundo e viveria sozinho pela primeira vez.

podia a coincidência ter posto ainda no terço superior da imagem um avião, como símbolo tão adequado do desejo de conhecer o mundo e de partir à descoberta do que há para descobrir dentro de batas brancas e tanto, ou ainda mais, do que há fora delas.

o mundo pode ser um lugar estranho, mas enquanto continuarmos a imaginar mil histórias, sejam para a colecção de playmobil e legos, numa primeira fase, ou para adultos de carne e osso, mais tarde, reforço o sorriso que me invade a cara e continuo com vontade de invadir muitas outras caras com um sorriso igual. 

sexta-feira, novembro 02, 2012

toda uma espécie de arco-íris

entrou no café com o ar desafogado de quem não vive debaixo da água que o mundo quer à força impor. o seu casaco verde alface podia ser uma peça de artista da última colecção de moda, vendido pelos melhores estilistas custando o mesmo que custa uma casa em mais de oitenta e três por cento do mundo. não era o caso. era só um casaco, comprado de entre tantos outros, perdido num qualquer armazém de uma grande superfície, recolhido por força de um desconto apetecível e de uma vontade de estrear algo que chocasse com a força da luz.

o quadro ficava completo com umas calças amarelo torrado e uns sapatos que pareciam ser reciclados de um disco de vinil. um disco de vinil a tender para o grená, vá.

a minha primeira impressão foi que a bandeira do brasil tinha acabado de ganhar pernas e braços e decidido entrar café dentro numa súbita e inesperada publicidade turística.

não era o caso. vi que a pretensa bandeira tinha o cabelo grisalho dos oitenta/noventa anos. debaixo do festival de cor era visível a couraça da idade, as rugas da experiência, o gasto do sorriso, a definição das provações. cada ruga contando a sua história, numa espécie de conversa interminável geradora de barulho indistinto mas confortável.

após o primeiro gole do seu café suspirou. aquele suspiro que ao mesmo tempo marca presença e diz ao que se vai, porque cá se anda, para onde se vai em breve. fascinou-me a despreocupação com que a história ria de alto e preferia homenagear as várias cores do mundo, numa homenagem em arco-íris, por oposição à outra opção, que seria cinzentamente esperar o fim.

a vida tem cor. e o facto de a morte estar próxima não deveria permitir o seu desaparecimento. até porque cada um de nós terá imenso tempo livre para fazer o seu próprio luto depois do último batimento do coração.

terça-feira, outubro 30, 2012

revisão da matéria dada

é praticamente universal o estudo dos fenómenos da natureza enquanto parte dos currículos escolares (pelo menos nos sítios que possam ter um currículo escolar não creacionista). numa fase em que a formação da personalidade está em pleno ponto de ebulição, somos sujeitos a explicações, sucintas ou extensas, sobre o porquê de a natureza ser o que é e funcionar como funciona. ensinam-nos, assim, como funcionam as rodas dentadas e os ponteiros deste relógio que todos habitamos.

tal como num relógio suíço, o cerne da questão não se limita à máquina. (tantas piadas que se podiam inserir aqui envolvendo cern e suíça. mas depois achavam-me demasiado nerd e não posso correr esse risco, já gastei os meus créditos da vossa bondade ao usar um advérbio de modo logo no início do parágrafo anterior).

o que não vem nos livros, pelo menos nos da escola, é que temos de aprender a respeitar a força e a história por trás da máquina. um relógio suíço (dos originais, dos feitos à mão, dos que são caros não porque são luxo mas porque não são feitos numa fábrica de plásticos nos confins da china) conta a história do relojoeiro que o construiu com o cuidado com que o neurocirurgião corta a via nervosa certa dentro do encéfalo ou com que o piloto traz o avião à inclinação e velocidade exacta com que é suposto tocar a pista do aeroporto. há sempre mais do que apenas a reunião de ponteiros, mostrador, pilha ou corda e rodas dentadas. há história paralela, que deixa de ser paralela nas intersecções que fogem ao seu paralelismo.

a natureza sofre do mesmo mal. melhor, é abençoada com a mesma virtude. a brutalidade dos fenómenos que vemos pela janela (se não levarem a própria janela) lembra-nos que somos feitos desta matéria e que, por mais voltas que queiram dar, nascemos da natureza e à natureza voltaremos. a mesma força com que a água da chuva escava canyons ou a lentidão paciente com que a água do mar transforma rochas em areia, é a força que nos faz nascer, que nos permite viver, e que um dia nos acomodará sem pedir explicações ou sem exercer represálias.

se soubermos respeitar aquilo de que somos feitos, a natureza, geralmente, permite-nos viver na ilusão de que funciona como uma orquestra da qual somos maestro, mesmo que, na verdade, seja exactamente o contrário o que se passa.

sábado, outubro 20, 2012

o porquê de não sair da idade dos porquês




a hora da morte.

quem trabalha num hospital sabe bem o que isso significa. quem vê séries sobre o que se passa num hospital fica mal informado a respeito de muita coisa mas nesse aspecto não é totalmente desinformado. há de facto que declarar uma hora para a morte biológica. exacta. aproximada. depende. mas o mundo adora etiquetas e a hora da morte tem de ser mais uma.

o peso carregado pela morte biológica é inexcedível. milénios de tradições e crenças, mais ou menos adaptadas, reflectem sobre a morte, sobre o que se deve seguir a curto prazo, sobre o que se vai seguir a longo prazo, sobre o modo de celebração ou luto. que são conversas para outro dia.

preocupa-me que se questione pouco a morte não-biológica. vivemos numa sociedade que tem um íman cada vez mais potente para tratar disso mais cedo. na minha humilde opinião a morte não-biológica chega no dia em que deixamos de perguntar porquê. a questão não deve perturbar a delícia, deve inversamente melhorar a sua experiência. passo a explicar-me. se vos for servida uma dose de bacalhau com natas o mais natural é ir de garfada em garfada até à garfada final. a televisão ligada ou uma conversa pouco produtiva no ar e o tempo passa num ápice. sim, sei que o princípio base da alimentação é a absorção de nutrientes que nos permitem sobreviver. mas terá de ser sempre assim? porque é que é em cada garfada de um prato de bacalhau com natas não podemos perguntar como é o ciclo de vida do bacalhau, como é o seu processo de secagem, quantas viagens faz até chegar do mar da noruega à mesa do nosso 3º direito? virá ironicamente de barco? ou de avião? ou prefere a estrada? e as natas? como foram feitas? de onde vêm? que tipo de pasto andaram as vacas em causa a frequentar? em que hora do dia é que o leite é mugido da vaca? e as batatas? por onde andaram até chegar ao prato? que agricultores as puseram na terra e quais de lá as tiraram? em que altura do ano? a que horas acordaram para o fazer? que truques usaram para fazer daquele um terreno mais fértil que as mulheres do genghis khan?

é muito fácil passar por cima de tudo isto. é tão ou mais fácil achar estranho que alguém se pergunte sobre isto em vez de comer o raio do bacalhau calado e passivo. neste ponto sou extremamente lamarckiano e garanto-vos que há orgãos que só se desenvolvem (ou mantêem desenvolvidos) se forem usados com frequência. e a resposta a estas questões não vos garante o primeiro prémio do quem quer ser milionário ou a atribuição do prémio no conceito tradiocional de inteligência (racional). mas permite-vos sem dúvida olhar para o mundo com um sorriso mais largo na cara.

sexta-feira, outubro 05, 2012

filtro para extremos


sei que o ditado diz que os extremos se tocam. isso é aplicável na política, na opinião em geral, nos clubismos ou até no protesto perante o tempo, tanto o que passa como aquele outro que teima em fazer nuvens e largar água e coisas dessas. tirando a vontade extrema de viver e de tudo experimentar, nunca consegui perceber o apelo pelo extremo. ainda mais difícil é perceber quem está nos extremos e não se apercebe de que vive com duas palas asininas, perdento tanto e ganhando tão pouco.

a pluralidade de opiniões, e de perspectivas sobre tudo o que o mundo nos oferece, é das coisas que mais aprecio. gosto de discutir com gente que pensa como eu mas ainda mais de discutir com gente que não pensa como eu. aprendo sempre tanto ou mais do que quando debato com quem tem o compasso nas mesmas linhas que as minhas, porque sair da zona de conforto ensina e flexibiliza. os tempos negros que vivemos, e as dificuldades que atravessamos, deviam ser precisamente o tempo ideal para compreender que o diálogo é como o cimento da parede das casas e que ouvir é tão importante como abrir as janelas na primavera para deixar arejar uma casa que suplicou por oxigénio todo um inverno.

o problema quando falamos com quem está nos extremos é que não há casa para construir, não há debate para pôr de pé, há preconceito e há a falta de inteligência típica de quem se acha tão inteligente que não percebe que isso é das mais básicas faltas de inteligência. uma coisa que todos deviam pensar pelo menos uma vez ao acordar e outra ao deitar, sejam académicos, adiantados mentais, políticos, não-políticos, astronautas ou agricultores, é que há sempre alguém no mundo que sabe menos do que vocês e sempre alguém no mundo que sabe mais do que vocês. esse é um bom ponto de partida. o seguinte (vamos continuar a ligar pontos como se estivéssemos a brincar com as mini-cruzadas da disney durante a infância) é entender que nem sempre o conhecimento vem de onde esperamos. às vezes aprendemos mesmo mais a olhar para o modo como as folhas mudam de cor do que a ouvir um físico quântico. outras não. varia. 

num tempo em que até as bandeiras fazem o pino, façamos também nós o pino e entendamos que estar sempre em bicos dos pés permite ver mais alto que o resto da multidão mas evita olhar para o chão e encontrar a nota de cem euros que ali está perdida. e se dá jeito uma nota de cem euros perdida nos dias que correm...

quinta-feira, setembro 20, 2012

encontros passageiros

passamos pela vida tão tão passageiramente que me pergunto porque damos o valor que damos ao definitivo? quando passamos as horas e os dias na ânsia do amanhã temos tendência a não conseguir brincar com o presente nem rir sobre o passado. é como se tivéssemos uma caixa cheia de legos de várias cores, tamanhos e formas, e não a despejássemos no chão do quarto para umas boas horas de brincadeira já a pensar no calvário (que não antónio) que será arrumar tudo de novo na caixa no final.

não é isto uma ode anti-definitivo. há coisas definitivas que são boas, estão provavelmente na fundação do prédio que acabamos por ser (ou que achamos ser e que acreditamos ter fundações). mas se o prédio tem de ter uma estrutura que resista a ventos e tempestades, os inquilinos ou a decoração das paredes pode (deve?) variar para não se eternizar uma renda que nem actualizada pode ser porque assim ficou acordado há muitos anos.

o encontro passageiro e inesperado é muitas vezes o catalizador do brilho nos olhos, aquele brilho que tende a esmorecer numa vida que cada vez mais é construída para não surpreender o próprio nem os que o rodeiam. uma conversa de cinco minutos com um desconhecido pode valer por mil conversas de interesse desconhecido com conhecidos.

experimentem baixar as guardas de vez em quando. viver num prédio é bom. mas viver num barco ou numa autocaravana também não é nada mau.

quinta-feira, agosto 02, 2012

meu filho, nasceste para isto

a NBC ter um tipo chamado Bob Costas como jornalista responsável pela natação é no mínimo épico .

espero rapidamente que arranjem um José Roda para cobrir o ciclismo e uma Manuela Peso para ver como anda a halterofilia .

segunda-feira, julho 23, 2012

sobre decadência

a observação da decadência de um ser vivo traz sempre consigo o peso de não sabermos lidar bem com as descidas . por mais que nos afirmemos corajosos e tentemos fingir que todas as coisas têm um ciclo natural a percepção do ciclo não significa que o mesmo passe a doer menos . tenham um bom dia e aproveitem a vida, porque ela passa mais rápido do que num ápice .

quarta-feira, julho 18, 2012

a ditadura dos números

o mundo mudou. só importam os números e as pessoas ficaram para segundo plano, perdidas entre ambições que lhes foram vendidas e que nem sequer sabiam que tinham mas que afinal têm e têm mesmo de lutar por aquilo que há meia hora nem sabiam que existia mas que agora é crucial. quase tão crucial como eu ter usado mais vírgulas na frase anterior, mas todo eu sou a favor de se ficar sem fôlego.

o mundo é dos números. por isso não te admires que um dia destes me apaixone pela perna do teu sete.

faz falta mais cor à vida

dei por mim a ler posts meus do início do blog há quase dez anos e ando a tentar perceber como é que isto passou a ser tão intimista e tão pouco irónico.

pois é. as coisas vão ter de mudar.

terça-feira, junho 19, 2012

a página em branco

a página em branco e o cursor a piscar são vendidos ao mundo como sinónimo da desgraça de quem escreve.

isso mostra bem como o mundo anda sempre tão dedicado na perseguição da quantidade e tão distraído na aplicação de crivos de qualidade. nas minhas visitas, muito selectivas, pela blogosfera, encontro tantas vezes tanto em tão pouco e outras vezes tão pouco em tanto.

com isto não sou apologista de que só os resumos sejam bons. há livros grandes que parecem pequenos e há livros pequenos que parecem enormes de tão chatos que são.

cada vez nos é oferecida mais informação, cada vez há mais vias de fazer chegar essa informação. a menos que batalhemos constantemente pela selectividade e pela criação de um limiar pessoal de qualidade na informação que queremos, vamos acabar vítimas desse paradoxo que é saber cada vez menos num mundo que permite saber cada vez mais.

sexta-feira, junho 15, 2012

na vida como nas ementas americanas

as ementas nesta terra que me acolheu têm um grave problema de complexidade. por mais agradável que seja a multiplicidade de oferta, almoçar ou jantar fora num restaurante americano é um desafio com laivos de hercúleo. escolher um entre milhares de pratos e quando acharem que a tarefa chegou ao fim ainda vem a altura de vos perguntarem como querem a carne, que molho querem, todos os acompanhamentos à disposição, e por aí fora, o que me faz sempre acreditar que para se ser empregado de mesa nos estados unidos é preciso um curso de decoranço. ou então são só actores sem sucesso em hollywood que vêm parar a esta profissão em segunda instância. há dias em que só nos apetece limitar as dúvidas a dois ou três pratos. e mesmo isso às vezes é demais.

a vida moderna sofre do mesmo trauma. vestidos do maravilhoso livre arbítrio que o tempo de agora nos trouxe, temos que, quase do berço, decidir tudo e um par de botas. o que vamos ser, o que queremos fazer, com queremos estar, o que isto, como aquilo. claro que na infância gozamos da inocência da liberdade. achamos as nossas escolhas mágicas e as nossas decisões inconsequentes. ao crescer as coisas mudam de tom. as nossas marcas deixam de ser feitas em areia e passam a ser como pegadas em cimento, muito mais difíceis de desfazer, muito mais delicadas de disfarçar.

não estou com isto a ser apologista de uma crítica a todas as oportunidades que o mundo moderno nos traz. mas há dias em que chego a pensar que um homem da idade média, condenado ao trabalho no campo toda a vida, a administrar propriedades toda a vida, a uma reclusão num mosteiro toda a vida, ou outras, sendo certo que não tinha o potencial de felicidade que nós temos, tinha na limitação das suas escolhas uma espécie de airbag contra o potencial de infelicidade que nos chega em igual (ou maior) dose.

terça-feira, junho 12, 2012

mesmo quem não acredita em santos vai lá pela parte do populares

todas as cidades são frequentemente acusadas de frias, impessoais, carreiros de formigas trabalhadoras, despidas de sentimentos, que trabalham durante o dia e fogem para os seus suburbanos refúgios quando o sol se despede. havendo alguma (muita, quiçá, em muitos dos dias) verdade nisto, há um dia especial em que um povoado como lisboa deita completamente abaixo esta estrutura.

apesar de o avançar dos tempos trazer algumas adaptações fatelas ao que é verdadeiramente a noite de doze de junho em lisboa (nunca percebi porque é que algumas casas acham excelente ideia pôr música electrónica na encosta do castelo ou porque é que algumas banquinhas vendem açaí com granola) ainda continua a ser a noite do ano em que a alma mais marialva do verdadeiro alfacinha se manifesta em todo o seu esplendor. recebendo bem quem é de fora, quem veio de fora, quem adoptou lisboa como sua, renegando ao preconceito fácil e à crítica pouco construtiva.

eu sempre me confessei um alfacinha a toda a linha. e gosto verdadeiramente de muitas outras zonas do país, pelas pessoas, pela gastronomia, pelas paisagens, pela monumentalidade. não tenho nada contra essas zonas e, aliás, só peço sempre que façam o mesmo em relação à minha cidade e às pessoas da minha cidade. 

consigo dizer ao pormenor onde estava em todos os dias doze de junho. até porque (ressalvadas excepções como o ano passado e este) o meu percurso dessa noite tem sempre um timbre parecido, os cheiros e os sabores também se repetem, e os abraços e os beijinhos sempre se multiplicam. nas noites de doze de junho não temos tempo para irritações. deixamo-nos levar pela viela, pelos degraus, pelos miradouros para onde a mole  humana nos empurra e respiramos a cidade como parte do nosso património. celebra-se uma data e um santo, mas celebra-se sobretudo a cidade. calcorreando as mesmas pedras que foram pisadas por assustados marinheiros a caminho dos barcos, por prisioneiros a caminho do cadafalso ou por eternos apaixonados a caminho de mais um encontro amoroso. 

hoje é o dia perfeito para lembrar que, em vez de julgar lisboa, é bem melhor abraçá-la e aproveitar tudo o que tem de bom.

segunda-feira, junho 11, 2012

o trânsito de vénus

sempre gostei muito de vénus. do modo como se insinua no fim das tardes de verão. da sua mania de fingir que é meio estrela, meio satélite, deixando todos à nora quanto à sua real vida como planeta. é um planeta tão audaz que até tem coragem de passar entre a terra e o sol e deixar milhões parados a vê-lo passar, como se fosse uma espécie de visita papal sideral (não que eu me desvie do meu caminho para ir ver o papa, entenda-se).

olhar para meio mundo a, literalmente, "ver vénus passar", fez-me pensar como o ser humano continua magicamente centrado nos fenómenos que não compreende muito bem. por mais interpretação que a astronomia hoje ofereça, a noite em que há chuvas de estrelas, os famigerados eclipses ou estes pequenos brindes cosmico-planetários, são recebidos com a mesma admiração com que os aztecas, os egípcios ou os homens das cavernas olhavam para eles.

é também curioso que a atitude não se estenda a outros fenómenos cujo conteúdo as pessoas desconhecem. na ciência, por exemplo, há o potencial para um igual maravilhamento. o problema é que nos fenómenos não-cósmicos há mais a mania de toda a gente achar que percebe do assunto. e que tem uma opinião. e que pode e sabe e quer discutir o assunto. preferia que olhassem para certos resultados da ciência como se de um meteorito em iminente entrada na atmosfera se tratasse. não há problema em não se saber tudo. o problema só aparece quando se quer fingir que sim.

sábado, junho 09, 2012

a paixão por futebol vai para lá de penteados e lamborghinis

quem nasça num país como portugal sabe bem que a paixão pelo futebol é algo que vem inscrito nos genes quase com um carimbo tão forte como o padrão de cabelo, a cor dos olhos ou o número de anos que em princípio vamos viver.

num rapaz os primeiros passos são quase invariavelmente acompanhados dos primeiros chutos na bola. os primeiros beijos andam de mão dada com as primeiras fintas. as etapas da vida vão sendo acompanhadas por aquele golo de um ângulo impossível, pelo outro frango que não deu nem para acreditar ou pela finta que é feita mais para impressionar as miúdas que olham da linha lateral do que propriamente para dar eficácia ao lance.

lembro-me como se fosse hoje do ritual que me perseguiu escola fora. no momento em que os cinquenta minutos de aula terminavam (já cinquenta pareciam tão complicados em termos de concentração, não sei mesmo como aguentam noventa, ó gaiatos de hoje!) corríamos que nem loucos para o recreio para começar uma partida de futebol com muita intensidade e uma duração de dez minutos. o intervalo grande do meio da manhã e do meio da tarde tinham um carácter sagrado porque permitiam jogos com bónus de 50% de tempo, nuns "longos" quinze minutos. a hora de almoço raramente era usada para esse efeito, deglutindo-se um qualquer alimento apressadamente para aproveitar todo e qualquer minuto entre aulas. quando havia um furo o nível de alegria roçava o épico e nós, crianças, ficávamos mais contentes do que se a selecção ganhasse um campeonato do mundo, com esse prémio de sessenta minutos de bola.

andei numa escola bastante conservadora, com tiques de não-democracia, em que os contínuos achavam que jogar à bola era um acto rebelde e violento, tendo por isso o agradável hábito de apanhar a bola e a confiscar. imagino que se ainda lá trabalharem hoje em dia chorem de saudades do tempo em que o acto mais rebelde das crianças era dar pontapés em objectos esféricos, mas isso seria temática para outra conversa.

dotados daquela criatividade tão própria que aguça o engenho nem isso nos impedia a prática da actividade. qualquer objecto servia para simular a bola. aqui se vê a paixão pelo futebol. nos esquemas que inventávamos para que o jogo continuasse. desde folhas de papel enroladas em forma de bola e completadas com quilómetros de fita-cola para o tornar um objecto "chutável" até latas que eram pisadas e tornadas planas, tornando-se automaticamente para nós numa bola de um nível quase oficial.

a paixão pelo futebol é isso. tal como é a paixão que temos pelo nosso clube, que nos faz adaptar a vida para ver um jogo. ou achar especial levar o nosso filho pela primeira vez a um estádio. vibrar com os golos. chorar com as derrotas. discutir de modo aceso as substituições, as escolhas do treinador, as mais recentes contratações. tudo isso envolve paixão, que é pura, que é visceral, que vem de dentro e que traz tradição e crescimento.

depois o futebol mudou. tornou-se noutra coisa completamente diferente. sim, claro que quero que a selecção ganhe logo. força nisso. usam o escudo da nossa bandeira na vossa camisola. quero o melhor para vocês, e vou ver o jogo vibrando com as jogadas, porque eu tenho paixão pelo futebol. mas hoje em dia desiludi-me. não confundo paixão com negócio. nunca dá bom resultado misturar os dois.

domingo, maio 27, 2012

filetes de coerência com arroz de insight

embora não seja difícil parar para pensar, há muita gente que recusa parar. e ainda mais gente que recusa pensar.

uma das principais especialidades desse ser cheio de funções superiores, que é o humano, é perder a coerência de opiniões e pensamentos ao sabor do vento (na verdade é ao sabor do que lhe dá jeito, mas o vento é uma metáfora metricamente muito mais lindinha). 

custa pouco apontar erros nas atitudes dos outros, ridicularizar pessoas ou elaborar peças dramáticas sobre falhas alheias. o mal não é esse. a crítica faz parte da vida. a crítica faz parte da inteligência. o que é mau, e quem é mau ou faz mal, deve ser criticado até ao ponto em que se faça justiça (vamos fingir que isso é algo passível de acontecer. spoiler: não é). 

o problema surge quando quem critica tem atitudes que são o perfeito espelho daquilo ou daqueles que critica. nem é a velha teoria do exemplo. é mesmo uma questão de coerência e de conforto com os padrões de ética e moral de cada um (dessa meia dúzia de seres que ainda tenham disto, já que é mais raro que pérolas negras). sou levado a acreditar que é um mecanismo quase inconsciente. postos na posição de fazer ou elogiar algo que habitualmente criticam, o centro do insight sofre um violento apagão, as memórias apagam-se todas e o organismo vivo em causa consegue sentir-se bem a representar esse papel.

tudo somado fica a ideia de que há pessoas que acham que conseguem mudar o mundo da mesa do café ou dos seus equivalentes no mundo moderno. o mundo muda-se com as mãos, com o toque, pela cabeça, com as ideias, mas no terreno, sobre as pessoas, e de preferência tentado fazer as coisas bem e sendo construtivo. mesmo que não mudemos o mundo todo, temos sempre alcance suficiente para mudar pelo menos o nosso e o dos que nos rodeiam. 

sábado, maio 12, 2012

somos como legos, mas não é suposto ser só do pescoço para baixo .

as pessoas acham sempre que vão chegar ao encaixe das almas só através do encaixe dos corpos.

se é verdade que os instintos que nos movem são na sua base animalescos e primitivos, também é verdade que aprendemo, uns melhor que outros, ao longo do tempo, a controlar esses instintos e a canalizar toda a energia que daí provém para vários fins. quem pretende fazer casas com sólidas traves de aço e um telhado muito bonito mas se esquece, entretanto, que as paredes e a decoração também fazem parte do pacote completo, corre o risco de acabar como ermita solitário, sentado no perene cimento de uma casa desabitada, onde tudo podia morar mas nada mora.

tanto o calor como o frio me trazem de volta a percepção da perda generalizada do momento, por estes dias que correm. a pressa de chegar não sabemos ainda bem onde tem tendência a roubar-nos a capacidade de criar polaroids com os olhos, e de manter preso no pensamento o momento em que lentamente removemos aquela migalha que ficou presa no canto da boca da outra pessoa. ou quando oferecemos o casaco porque a noite está um pouco mais fria do que se anunciou. quando nos ajoelhamos para apanhar o (inserir um milhão de possível objectos) que caiu da sua mala enquanto ela procurava o telemóvel. gestos pequenos. gestos sem importância. mas gestos que são e eram do tempo em que amar era muito mais do que fazer vistos numa checklist vendida e imposta pela pressa de ser feliz, esquecendo-nos que para ser feliz não é preciso pressa, é preciso é dedicação ao que se sente.

sábado, maio 05, 2012

porque a vida também é parvoíce .

aqui vai uma dose consistente de parvoíce através das minhas criações para o Salão Neurótico .

"ONU"





"a amiga alga"




"anjelica houston"




"ases pelos ares"




"atingir os nirvana"




"o cacto das botas"



"cair o carmo e a trindade"
(ideia da Sara Bettencourt)




"chet baker"




"chuchar expresso"



"dodge viper"



"hashtag"




"icy dead people"





"justin beaver"



"khalid bolo-de-arroz"




"kim kong"




"los angeles leicas"




"luís filipe vieira"




"olavo bivaque"



"ovnibeja"




"paco bandeira"



"passas para mim no rossio"




"pente house"
(ideia da Sara Bettencourt)




"rolling scones"




"sean pen"





"tom cruise"
(ideia da Vera Rodrigues)



"trabalho pro bono"


sábado, abril 28, 2012

nevoeiros feitos saunas

a nossa mania de olhar para as coisas sem ser do tamanho que são deixa-nos sempre no limiar do risco de não conseguir ver tudo o que elas comportam.

aos nossos olhos o nevoeiro são apenas nuvens que decidiram ser um pouco mais pesadas e assentar sobre a terra como uma camada de chantilly se acomoda num bolo, toldando o caminho, dificultando a distância, humidificando o pensamento e as ideias. tenho para mim que o nevoeiro é um método de concentração. grita por todas as gotas "concentrem-se, vá, não olhem lá para o fundo que não dá para ver. hoje é para olhar para esse canteiro aí ao pé e dar atenção às joaninhas a trepar plantas".

diz a tradição popular que se sonha mais quando há nevoeiro. diz a minha experiência que isso é bem capaz de ser verdade. diz a minha imaginação que isso faz todo o sentido, desde que se assuma que as moléculas de água são óptimos vagões de transporte de sonho e que, em dias de nevoeiro, a linha de caminhos de ferro dos sonhos se encontra em todo o seu esplendor. deve haver qualquer nuance científica para isto, mas eu hoje ainda nem comi os meus cereais, por isso deixem-se lá de ciência tão cedo.

outra hipótese é bem mais macrocósmica. imagino gigantes (meio invisíveis aos nossos olhos) que vivem universo fora e que usam a terra como o seu spa. os oceanos como jacuzzi. as montanhas como banquinhos. e o nevoeiro, provavelmente, corresponde à sua sauna. acho que vou tentar confirmar se isto não será verdade. mas só depois de comer os cereais.

segunda-feira, abril 23, 2012

mil folhas

a leitura é um hábito que se cultiva desde quase tão cedo como aquele outro hábito que envolve o diafragma e os pulmões, o que serve para manter as funções vitais em forma. já se inventaram muitas formas de arte e expressão cultural, e várias dessas têm em mim um fã acérrimo e um eterno seguidor. mas nada ultrapassa o etéreo de paixão que de um livro pode brotar.

um livro trata-se como se de uma relação apaixonada se tratasse. olha-se de longe, chama a atenção, aproximamo-nos pé ante pé, a primeira vista transforma-se no primeiro cheiro, no primeiro manusear. a tinta das letras olha para nós com olhos de piedade, emanando "compra-me" por todos os poros da folha de papel. olhos que são de treta, porque sabem bem que no que separa capa de contra-capa se encontra um turbilhão de vida, um vértice de histórias, uma lupa para vidas e mais vidas e tempos e mais tempos.

ninguém é obrigado a ler. eu acredito no livre arbítrio. mas quem não se conseguir apaixonar por um livro não sabe o que perde. perde a capacidade de ver com aquilo que se esconde atrás da retina, o mundo que pode vir num objecto. sendo que o que está atrás da retina ainda é para ser banhado em pós de coração e regado com mais uma ou duas colheres de sopa de experiência pessoal.

lembro-me da primeira vez que li sobre a caixa de pandora. lembro-me igualmente de achar que cada livro, isolado, individual, cheio de personalidade, era ele próprio uma caixa de pandora. encostado numa estante de uma livraria ou de braço dado com outros livros num lugar lá de casa, espera paciente e pacificamente o seu dia. acumula toda a sua energia, guarda todos os seus segredos. no momento em que o detector de metais do acaso nos leva até ao seu cerne metálico, é puxado da estante, com um leve toque é-lhe limpado o pó da capa, e a abertura da primeira página traz a certeza de que o caos aí está, pronto para começar, para nos fazer viajar para outro lugar e para, com toda a certeza, nos dar o poder da metamorfose. isto porque ainda está para vir o livro que não me torne uma pessoa diferente uma vez que acabe de o ler.

domingo, abril 15, 2012

os tempos em que o efémero nasceu

eram os verões do início dos anos noventa. alguns de vocês que estão a ler ainda nem nascidos eram, não passavam de projectos de cruzamento de material genético nas cabeças e gónadas dos vossos pais. sesimbra era uma terra com menos casas, com menos gente, com mais barcos, com água mais limpa. os meus dias eram passados a descer e subir a colina. para a praça, para a praia, para o almoço, para a praia da tarde (ó se a água tinha sempre carneirinhos que se adivinhavam cá de cima), para o jantar, para o passeio da noite. entre postas de cherne grelhado no carvão, brisas do mar e barcos de doce de amêndoa, a vida era ela própria doce como as sobremesas e o grande objectivo de vida era um dia conseguir nadar até aos barcos.

pelo meio de tudo isto uma certeza. o walkman da sony, recebido como presente no fim da quarta classe, era um dos meus melhores amigos. nele cabiam as várias colecções de música gravadas em cassete no espólio lá de casa. uma delas tinha como destino acabar de exaustão. nunca nenhuma cassete deve ter sido ouvida tantas vezes como o terceiro greatest hits dos queen no meu walkman. era um contínuo de mudar lado a, lado b, lado a e siga. o bohemian rhapsody do início já patinava de tanto uso. o prazer de sentir o stereo dos enormes phones a meio do another one bites the dust, quando um som espacial e especial navegava da direita para a esquerda e me enchia de tridimensionalidade. a praia e o verão sabe-me a isso. o cheiro do mar na pele e a imagem das minhas enormes pestanas cheias de sal caminham ao lado dos acordes dos queen e da voz inigualável do freddie. essa era a altura da música que não morre. os queen, os the smiths ou os beatles, por mais voltas que o mundo dê, serão intemporais.

não sou saudosista ao ponto de achar que não se faz boa música hoje em dia. apesar de as notas serem apenas sete (sem contar com bemóis, sustenidos e escalas) é claro que se continua a fazer muito boa música. mas hoje os tempos são diferentes. as bandas dependem de hits no youtube, de presenças em festivais, de cinquenta minutos para dar tudo e de um fim de fama que é quase tão rápido como a subida para esse pedestal. dependem do momento, dependem do fenómeno, deixaram de estar assentes na terra com pilares fortes, próprios de quem sabe muito de música e cria legiões de fãs dessa maneira. posso ser só eu, mas duvido que daqui a vinte anos alguém esteja a escrever um texto a dizer que se lembra de uma música qualquer da rihanna enquanto descreve o sal nas pestanas. esperemos para ver...

o amor anda de mãos dadas com a dedicação

a recomendação é para que se chegue cedo. a enchente diária de turistas é garantida. em qualquer altura do ano. a confusão de agra, uma cidade bem "agra-e-doce", é atravessada pelo rio yamuna, majestoso na altura em que ali chego, no fim da época das monções. inunda os campos de água, fecundando-os de vida. a vigiar de perto o curso do yamuna encontra-se aquele que é provavelmente o monumento mais famoso do subcontinente indiano, o taj mahal. se há locais do mundo que nos causam demasiada expectativa, desiludindo no momento da descoberta, este não é certamente um deles, sendo tão ou mais impressionante do que os nossos melhores sonhos imaginaram.

para lá chegar fintam-se as ruas dos bairros envolventes. chovem convites para entrar em mais uma casa de tapetes. ou ali na outra que vende toscas miniaturas dos monumentos. de onde somos? israel? espanha? itália? entre, entre, não paga para ver, oferecemos-lhe chá, sem pedir nada em troca. chovem também algumas gotas de água do céu, na madrugada que traz o sol e o resto de algumas nuvens que ficaram da monção. o cheiro da terra molhada mistura-se com o das especiarias e em conjunto voam na humidade teimosa que preenche qualquer centímetro cúbico da atmosfera indiana.

por fim entra-se no complexo do taj mahal. o espelho de água em frente do monumento obriga à fotografia da praxe. várias. infindáveis. vistas tantas vezes antes em revistas e livros e guias e tudo e tudo e tudo e tanta vontade de chegar a todo o lado do mundo e este é tanto um dos que mais queria. depois do mergulho turístico vem o mergulho mais doce, o da história deste lugar. o imperador mogul shah jahan, perdido de dor pela morte da sua mulher (a terceira, mas a favorita) aquando do nascimento do seu décimo quarto filho, resolveu construir um monumento fúnebre em sua homenagem. para isso condenou milhares e milhares de escravos a anos seguidos de sangue, suor e lágrimas, numa épica epopeia de vinte e um anos. as pedras vieram de todos os cantos do mundo, da bélgica ao afeganistão, numa operação logística sem comparação à época.

para adensar a trama, pouco tempo antes da inauguração do majestoso monumento, o filho de shah jahan levou a cabo um golpe de estado para tomar o poder do império mogul, condenando o seu pai a prisão perpétua no forte de agra, a cerca de dois quilómetros do local do taj mahal. reza assim a história (pouco confirmada) que o homem que investiu vinte e um anos na obra que homenageava o amor da sua vida, viu este a ser concluído pelas frestas de uma pequena janela, numa ínfima cela do forte de agra. ainda assim, espero que tenha sorrido, porque o amor muitas vezes vale mais pelo quente que causa no coração do que pela concretização física que daí possa vir.



(foto tirada por mim em 15 de setembro de 2010, agra, índia)

sábado, abril 14, 2012

a descida do avião

a descolagem de um avião é um bonito hino à engenharia e ao engenho humano. sentimos o corpo colar-se à cadeira, os motores gritam alto como quem prepara a investida numa batalha, as rodas rodam mais rápido que elas próprias, as asas concentram-se com toda a força e o aparelho acelera pista fora. imagino-o sempre de ohos cerrados, concentrado, conquistador. finalmente as leis da física decidem que as correntes de ar que roçam as asas vão mudar a forma como se brinca a este jogo e geram o impulso que leva o avião a descolar. colam-se então as paredes do estômago, a inclinação do corredor da aeronave mostra que há um meio termo entre o horizontal e o vertical e aí vamos nós. gosto muito de descolar por esse mesmo motivo. é como uma composição musical triunfante. uma declaração de intenções ao universo e um cruzar de espadas com a atmosfera.

mas o que que eu gosto mesmo é de aterrar. porque na descida faço de conta que não há engenharia e engenho humano e imagino que sou tão somente um pássaro, que, planando, encontrou o seu destino e gentilmente vai descer na sua direcção. podia fazê-lo como águia que caça um rato depois de o marcar lá do alto. mas prefere, em vez disso, descer gentilmente e aprender a noção dos tamanhos. a delícia é ver que os quadrados indistintos acastanhados se tornam em verdes, castanhos, rios e estradas. gentilmente pontos brancos ganham a forma de armazéns e de casas. a pouco e pouco as formigas que acabaram de aparecer mostram que afinal são carros, movendo-se em todas as direcções. e é neste micro-cosmos que mergulhamos. deixamos lá em cima a visão de um mundo parado e sossegado para voltar a ter a convicção do corropio e da passagem do tempo. sei que estou de volta quando consigo distinguir figuras humanas. sorrio, na certeza de uma vez mais ter voado, desafiado as graves leis da gravidade, que nos mantêm de pés tão bem assentes na terra mas que ao mesmo tempo estariam prestes a contrariar uma aeronave que não se decida a carburar o caminho.

nisto as rodas tocam na pista. ouve-se o chiar do impacto. em breves segundos o nariz desce e a parte da frente poisa também, como se do gesto final de um bailado se tratasse. findos os amantes, voltam os motores. estridentes novamente, agora ao serviço da travagem. e eu gosto sempre de imaginar que estes motores são a ovação de pé da plateia a mais um vôo nos céus de uma espécie que afinal nem tem asas.

sexta-feira, abril 13, 2012

o beijo

isto dos dias internacionais do tudo-e-mais-alguma-coisa dava-me para ter um tema para escrever por dia. em que momento se perdeu a espontaneidade deste mundo, e se decidiu dedicar a celebrar algo em dias específicos, gostava eu de saber. não sei se o dia internacional do beijo implica comemoração específica ou particular, ou se a dose em que hoje os beijos são servidos tem mais um terço do que o habitual por ser o seu dia.

o beijo não só é para uso frequente como é intemporal. imune a dias. às vezes até imune a noites. a quantidade de informações sensoriais acumuladas na língua e nos lábios mostram a importância que a própria biologia deu ao beijo. a troca é mais que táctil. o conhecimento é sinuoso, navegador, partindo-se à descoberta de uma envolvência que é própria de cada beijo. não há dois beijos iguais. e há decerto mais beijos que genes. cruzamentos de beijos ao longo da história geram tantos outros. emparelhados, desemparelhados, igualmente belos. aprende-se a beijar como se aprende a andar de bicicleta. não se esquece jamais. aperfeiçoa-se enquanto se conhece. com o tempo o beijo ganha tons de cartão de identidade e vale mais que as cores que dançam na retina.

e quanto à dúvida de beijar de olhos abertos ou de olhos fechados, experimentem antes beijar de coração aberto e a questão responde-se a si própria antes de ser sequer colocada.

quinta-feira, abril 12, 2012

o mal dos super-heróis é serem demasiado super

as crianças identificam-se com os super-heróis. na inocência e pensamento sonhador, próprios da infância, sonham ser como (inserir o nome de um qualquer super-herói presentemente num momento de grande fama) e imaginam-se no dia-a-dia com os poderes dos seus ídolos. no meu tempo achávamos que podíamos ser o super-homem, o batman, o capitão américa, o he-man ou alguns outros. bom, eu também sonhava ser o alf, mas sou um caso patológico e isso não vem agora à discussão.

nessa fase do pensamento, vacilante entre a construção dos valores aprendidos em casa e na escola, as hipóteses da fantasia aparecem como válidas e todos nós achámos nalgum momento que conseguíamos voar de casa para a escola ou colocar o modo invisível para roubar algodão doce na feira popular. depois crescemos. e quando a vida adulta nos mostra do que é feita, quando cheiramos pela primeira vez o valor da responsabilidade, quando passamos a pagar impostos ou a poder pedir bebidas alcoólicas sem ser por intermédio de alguém mais velho, essas figuras passam a ganhar o cunho de ficção. assentamos bem os pés na terra na certeza de que o que nos leva de casa para o trabalho são veículos com rodas ou que caminham sobre carris e que o algodão doce está ao nosso alcance, sim, mas em troca de pedaços redondos de metal ou rectângulos espalmados de papel.

o que nos faz desistir de acreditar nos super-heróis? provavelmente o facto de serem demasiado super. o que os torna demasiado super não é sequer o facto de terem super-poderes. julgo que isso nós até saberíamos integrar na nossa realidade (mais ou menos alternativa). o que os torna escorregadios é terem defeitos. as fraquezas que lhes arranjas são sempre muito criativas mas pouco humanas.

porque é que nunca vemos o homem aranha ansioso porque tem de pagar o imposto municipal e uma conta da luz que não lembra a ninguém? o batman pelos cabelos porque os filhos não param de berrar e ele tem de acabar um relatório de contabilidade para entregar no dia seguinte no seu posto de função pública? e o capitão américa a ter de esperar quatro horas na loja do cidadão para renovar o passaporte? ou o he-man no ministério da administração interna para renovar a licença da espada que utiliza para tentar derrotar o skeletor?

no dia em que os super-heróis tiverem as ansiedades, os medos e as obrigações repetitivas de qualquer ser humano, talvez voltemos a acreditar que é possível voar ou invisivelmente surripiar algodão doce. até lá continuamos com dificuldade em perpetuar essa crença de infância. claro que agora aprendemos a brincar a um jogo novo, o de fingir em redes sociais que somos todos como super-heróis livres de fraquezas. mas disso falamos noutro dia, que eu agora tenho de ir a voar da janela de casa até ao trabalho.

domingo, abril 08, 2012

conversas com a lua

numa das minhas conversas com a lua perguntei-lhe como é que ela fazia para ter esse jeito tão próprio de fazer tanta gente acreditar que aquela luz é dela, quando no fundo ela é apenas um espelho da luz do sol. a lua lá me explicou vagarosamente, como é seu timbre, que foi criada mesmo para isso, para espelhar e ajudar a ser feliz. contou-me que dia a dia mete as mãos à obra, gira grandes rodas dentadas para ir gradualmente espelhando um pouco mais de luz. chega ao dia do seu máximo esplendor e gira tudo ao contrário para ir dando cada vez um pouco menos de luz. com isto, diz-me ela, ajuda a subir e descer as marés, a orientar os animais selvagens nos seus caminhos e até a influenciar quando os bebés nascem.

aplaudi o brilhantismo da lua e fiz-lhe duas ou três festas no lombo (saibam que a lua rebola de felicidade quando lhe fazem festas no lombo) mas logo me surgiu outra dúvida. então, se ela funciona como espelho da luz do sol, não poderia também funcionar como espelho da luz da terra. ficou meio baralhada, deu três piruetas no ar, espirrou (eu disse educadamente 'saúde') e atónita perguntou-me o que é isso da luz da terra. se teria algo a ver com pirilampos ou com fitoplancton fluorescente. primeiro disse-lhe que andava a ver national geographic a mais. suspirei. de seguida expliquei-lhe que não, que a luz que vem da terra vem de quem a quer emitir. que eu, por exemplo, tinha sempre raios de luz a querer sair dos meus olhos e do meu coração e que os queria enviar para outros pontos do planeta. mas os correios negam o transporte de raios de luz e fatias de amor. dizem que não passa na alfândega. se um guarda fronteiriço suspeita que há uma fatia de amor guardada dentro de um cuidadoso embrulho é logo menino para, assobiando para o lado, a guardar dentro do casaco e levar para casa, porque dá sempre jeito em qualquer ocasião.

assim, pedi à lua se me deixava usá-la como espelho e enviar os raios de luz e as fatias de amor através dela. disse-me que não via inconveniente desde que fosse só às terças, quintas e domingos, porque andava muito ocupada com outros projectos, nomeadamente ao nível do outro lado lunar. chegámos a um acordo de cavalheiros, sorrimos e cada um foi à sua vida. creio que a ouvi a trautear, ao longe, afastando-se, os acordes do "somewhere over the rainbow".

desde então uso a lua sempre que o meu coração quer enviar um ou outro raio de luz. quem diz que a distância dá conta do amor é porque claramente nunca usou a lua e anda a perder anos de vida. ou vida nos anos.

quarta-feira, abril 04, 2012

os cabos do mundo .

a predilecção do ser humano por cabos é algo de notável.

há quinhentos anos atrás o seu objectivo era dobrá-los no meio de tempestades, entrando para dentro de meia dúzia de tábuas de madeira marteladas à pressa com um quadrado de pano a dar a dar ao sabor do vento. os cabos eram de tal forma temidos que até lhes inventavam figuras humanas monstras e lhes davam nomes de miradouros de santa catarina (deixem-me acreditar que a ordem dos factos é esta, sim?).

num regime mais contemporâneo os cabos mudaram de sítio. largaram a pedra em que a água bate e tornaram-se em fios de cobre, ou de outra coisa qualquer, envoltos em borracha e com uma maníaca tendência para se enrolar. sempre achei aliás que os cabos só podem ter sido feitos à imagem dos bichos de conta, dada tamanha semelhança no que toca à 'enroladela'. estes cabos estão por todo o lado. criam uma cidade à parte, só sua, acima da outra e abaixo da outra. até ao fundo do oceano eles foram parar, para transportar megabytes de informação enquanto lancham com uma raia e gracejam com um tamboril.

engraçado, talvez, é o facto de os cabos serem sempre sinónimo de comunicação. já o eram na sua infância enquanto acidentes geográficos e continuaram quando cresceram e se modificaram para outros usos. cá para mim isto foi o fruto de anos e anos a ver como as aranhas usam os cabos (de rede) para construir o seu mundo. é. ao fim e ao cabo foi mesmo isso.

segunda-feira, abril 02, 2012

pergunta resposta .

pergunta: " oh João, tu que és cardio, achas que amamos com o coração? "

a minha resposta: " acho que devíamos amar com o coração e teimamos em amar com a cabeça..."

domingo, abril 01, 2012

entre linhas de pautas moram letras

a música tem um papel constante na minha vida. os sons mais variados conseguem a proeza de me fazer viajar sem sair do mesmo sítio. de sonhar acordado. tem mais força para os meus sentidos carregar no botão 'play' de certas músicas do que pôr uns óculos estranhos e fingir que estou a ver o mundo a três dimensões. (o que se passa com isto das três dimensões, já agora? que raio de embuste à inteligência vem a ser este? eu quando vou ver um filme quero ver um filme. descansado. em sossego. de três dimensões já é o resto do meu mundo e se eu quiser três ou mais dimensões vou para o meio da floresta ou da praia e não preciso de usar óculos adequados. tirando os de sol em certos dias.)

consigo traçar a rota da música na minha vida até aos momentos mais primitivos da minha memória. consigo associar músicas a locais, a pessoas, a fases da vida. já me apercebi que funcionam certamente como um índice do livro que é a nossa vida. quando começam a tocar, envergonhadamente, do nada, transportam-nos no tempo, trazem de volta os cheiros, os sorrisos, as lágrimas, o vento a bater na cara, o reflexo do sol no mostrador do relógio e a forma como o usávamos para brincar com o mundo.

além de roteiro, a música é um amigo. dos melhores. leio ao som da música. estudo ao som da música. escrevo ao som da música. escolho diferentes músicas consoante o tipo de texto que quero escrever. reinvento a banda sonora das letras a cada momento. assim sinto a escrita como um filme. e os filmes têm todos música. porque as notas sabem navegar, à deriva, de mãos dadas, com as imagens, como mais ninguém o consegue fazer.

sexta-feira, março 30, 2012

nevoeiro .

o nevoeiro da noite vem disfarçado de um modo de tal forma universal que chego a acreditar que as máquinas de teletransporte estão precisamente escondidas, ocultas, ali no meio. e algum defensor do sebastianismo deve ter tido a mesma suspeita que eu (ou vice-versa), daí o mito.

pedaços de água, amarrados em jeito de nuvem, descansam mais perto da terra do que é habitual. como se estivessem de visita. como se viessem de lente angular de máquina reflexa em punho, dispostas a descobrir o que se passa e quem passa no que se passa.

dizem que se sonha mais quando há nevoeiro. sonha-se de facto mais quando há nevoeiro. não deixa de ser irónico que no momento em que a visão real do exterior se torna mais turva a visão decidida do sonho se torne mais clarividente. vou ali pôr um pé em áfrica, o queixo na ásia e o tornozelo na antárctida. ou, por outras palavras, aproveitar o nevoeiro para viajar até onde bem a vontade me levar, sob a forma de sonho.

quinta-feira, março 29, 2012

sobre a beleza .

é extremamente hipócrita afirmar-se que o aspecto das pessoas não conta e que o que importa é exclusivamente ser-se bonito por dentro. como o mundo vive de hipocrisias há uma grande fatia da população (adoro imaginar a população como um bolo de chocolate) que vive nesse alegre lugar-comum. mas se é hipócrita achar que as pessoas não valorizam o aspecto dos outros como um dos factores principais nas suas escolhas é na mesma dose inocente e infantil achar que isso isoladamente lhes traz esta vida e a outra.

pode ser-se bonito por fora. como se pode ser bonito por dentro. ser bonito por dentro tem até a grande vantagem de estar ao alcance de todos, não é tão geneticamente decidido como a parte de fora. depende da personalidade, da forma como ela é talhada, dos inputs positivos e negativos, do coração e mente calejados com os burburinhos inerentes à vida. mas sempre mutável. sempre a tempo de ser adaptado.

as pessoas bonitas por fora devem viver felizes com esse facto e tentar esforçar-se ainda mais por ser bonitas por dentro, já que parte do caminho lhes está facilitado. se não conseguirem sair da roda viva de achar que uma cara laroca lhes compra o mundo vão acabar a chorar a solidão e a incompreensão. porque uma parte de fora bonita... hoje em dia até se compra. manda-se fazer. depois gasta-se com o tempo. o interior bonito não se compra, constrói-se, dá muito mais trabalho, e por isso tem muito mais valor. as máscaras duram umas horas mas o que está por trás delas dura uma vida.

o mundo da fantasia também devia ser justo .

nunca gostei de histórias estanques. se nos filmes com pessoas a sério (embora algumas estejam tão descredibilizadas que parecem pessoas a brincar) existem tantos cameos, essas maravilhosas participações especiais que raramente são mais do que marketing pessoal, os filmes de animação não deveriam ser excepção e as histórias podiam misturar-se no mundo da animação (eu sei que o shrek já tentou um bocadinho isso, vá, eu sei, mas é todo outro conceito que aqui está em causa).

chegado o momento de o lobo mau comer 'a' capuchinho vermelho, esta só lhe dizia "porque é que não comes antes a hansel e o grettel que se fartaram de comer doces e estão gordos que nem um abade?"
"não... agradeço o conselho, mas estou de dieta. o verão está a chegar e vou para um resort de lobos, quero estar em boa forma"
"e os três porquinhos?"
"que horror... bacon e presunto e coisas? então isso é que está mesmo fora de questão!"
"então e eu não sou má para a tua dieta?"
"disseram-me para fazer uma dieta de frutos vermelhos. eu não sei o que isso é e tu eras o mais vermelho que eu vi num raio de x quilómetros."
"o que são x quilómetros?"
"não sei bem... é uma forma de dizer quando não se sabe bem quantos quilómetros se quer explicitar."
"olha, e a pequena sereia?"
"não sou grande fã de peixe. acabava a comer só metade e há tanta fome no mundo que me parece mal do ponto de vista ético."
"mas eu sou uma criança... não te parece pouco ético almoçar uma criança?"
"acho que tens razão. desculpa todo este mal entendido. acho que vou comer a cinderela, que é magrinha que nem carne de aves. não se fala mais nisso."

terça-feira, março 27, 2012

"man on wire" (2008)




as provas diárias de egoísmo, imbecilidade, insensibilidade, acomodamento ou tantas outras características negativas, que são a cobertura glacé desse cupcake que é a vida, fazem-me frequentemente acreditar que o mundo é um autocarro perdido. sem condutor. ou pior que ir sem condutor... com um que bebeu demais à merenda.

depois dou de caras com histórias como a que é retratada neste documentário e volto a achar que afinal não vai tudo dentro desse autocarro. a prova de coragem, determinação, treino e originalidade da história de vida de philippe petit estão para o desânimo e a descrença nos sonhos como uma caipirinha gelada para uma tarde de verão com quarenta graus à sombra e sem brisa a soprar.

para lá de recomendado. (mesmo a quem tem medo das alturas)

razões e motivos

hoje li uma frase que me deixou a pensar durante várias horas.

era sobre o motivo de escrever. perguntava de modo directo, e indirecto, sem sequer usar pontos de interrogação, o que leva as pessoas a escrever, qual o seu destino final. primeiro senti-me indignado com o que a frase dizia. depois pensei no conteúdo da frase. finalmente acabei a dar razão à frase.

nunca duvidei que se aprende a todos os minutos que passam. nunca duvidei que a melhor massagem ao ego vem sob a forma de elogios espontâneos, pouco forçados, pouco materiais e, sobretudo, desinteressados. egos à parte (e se os egos ocupam muita da maquinaria por trás de tudo o que fazemos na vida) eu esforço-me sempre por tentar ter a humildade de olhar para as bússolas, mesmo as que me parecem feias e ferrugentas à primeira miradela, contemplá-las durante uns bons minutos (ou horas) e perceber o que é que ali está que me possa ajudar a re-orientar os eixos no sentido de um norte ou sul mais magnéticos e menos magnoegoéticos.

a frase não a digo. isto é um pouco como quantos ovos usar na receita ou como o truque da raspa de limão, o segredo ainda continua a ser a alma de muito bom negócio.

sábado, março 24, 2012

ursos polares em desertos



a sensação de estar perdido numa conversa, numa música ou num local é decerto igual ao que um urso polar sente se o largarem do nada no meio de um deserto.

as âncoras culturais, de espaço e de tempo, são um pouco o índice do livro que construímos ao longo da nossa vida. se nos arrancam essas páginas andamos a saltar apressadamente de capítulo em capítulo, mais rápido que o coelho da alice, imaginando que o chão nos treme sob os pés.

se isso é mau como princípio de vida... estar perdido apenas de tempos em tempos não é obrigatoriamente negativo. ajuda a encontrar e ajuda a desenhar novas derivadas, ajuda a pôr novos carimbos na nossa equação, e quem sabe até a resolvê-la.

lembro-me frequentemente da sensação de perda numa viela (ela própria perdida) das ruas de mumbai. de sentir que ia caminhando, seguindo os cheiros, as cores, o ensurdecedor barulho saindo das várias casas, os pedidos de 'pare aqui, entre ali' e de ter quase entrado em modo de epifania do quão caótico um momento se pode tornar. libertar os cinco sentidos nesse vórtex de primitivismo selvagem encaminha os eixos para uma espécie de alinhamento que quase leva a encontrar o sexto sentido. depois há de novo a luz. neste caso entrar por uma porta, sentar numa mesa suja, encostada a um canto, ignorar todos os olhos postos na pessoa que é estranha a este ambiente, usar as rudimentares palavras em hindi para pedir um prato de lentilhas com especiarias e um lassi doce. mergulhar no sabor da refeição, que traz a história da humanidade agarrada em cada colherada e em cada movimento de sucção da palhinha. sorrir a quem passa, ver que acalmaram a curiosidade e que voltaram à sua vida normal de almoço, à sua conversa. sobre o que será que conversam eles? perco-me a imaginar. agora trocámos de papéis, agora sou eu que os adivinho.

por mais línguas que inventem, por mais dialectos que escrevam, por mais sons diferentes que sejam emitidos, a imaginação é algo que será sempre transversal ao ser humano. e tenho para mim que na torre de babel só não se entenderam o suficiente para a construir porque gastaram demasiado tempo a tentar comunicar por palavras e tempo a menos a tentar comunicar com o coração.

quarta-feira, março 21, 2012

partida, largada, fugida .



a placa das partidas tem o ar sensaborão do branco e do preto, mas quem a cheira de perto sabe que nela se perdem todos outros mundos e destinos, que navegam por corpos como baldes de adrenalina lançados sem pedido de autorização.

o toque da pele dá a certeza da direcção. inventam tantas portas mas quando uma mão toca na outra, e os olhos se cruzam por microsegundos, o mundo todo desaba, as pernas fraquejam, e o íman do destino é mais forte do que aquele castelo que quisemos trazer lá de longe e que colámos toscamente na porta do frigorífico.

os pontos de encontro desencontram-se dos caminhos perdidos. os megafones anunciam partidas mas os nossos olhos só vêem chegadas. cheira a borracha de bagagens e a perfume de hospedeiras mas o nosso nariz só cheira nozes moscadas, praias mascadas, águas mergulhadas e sóis bebidos. lá longe, onde as árvores brincam às construções na areia, e as algas fingem que são tenebrosos tubarões, há um sol que nasce, outro sol que se põe, e horas para ser vividas entre um e outro, para cima e para baixo, como se fôssemos aquele canalizador baixote de bigode que saltava em busca da princesa. no paraíso não há princesas antecipadas. elas aparecem. nascem dos vermelhos com que se pinta o céu e com que se pintam os lábios. e as unhas também, estamos uns mãos-largas com o vermelho. da leve e discreta brisa que teima em ondular os cabelos e dos grãos de areia que sorrateiramente descansam na palma das mãos e assim navegam em caravelas de desejo até às faces acabadas de corar.

mesmo quando o céu desaba é para renovar. corremos na chuva e rimos do tempo. brincamos aos avessos e chovemos no molhado. porque o sorriso é coisa para ter mais energia que um relâmpago. e a energia é aquilo que levamos da vida.

domingo, março 11, 2012

salada de palavras



os rodados marcados na terra são sempre a prova do que por ali passou. paro sempre para inspeccionar provas do tempo, recente ou passado. fósseis de caracol ou rodados de jipe também fazem parte do adn de um lugar, provavelmente bem mais que as coordenadas dadas por satélite.

inventam-se aparelhos que dão (dizem eles) com uma precisão de milímetros a localização de um ponto na terra. irónico como há tanta precisão para definir onde estamos e tão pouca para perceber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. talvez sejam idiossincrasias de domingo à tarde com sol, doce luz a encher-me os olhos e vida a correr-me nas veias.

prendi-me há pouco por momentos nos olhos de um animal que claramente ficou surpreendido com a minha investigação. quer-me parecer que vive ali naquele local, que a sua vidinha passa por aquele parque, pedindo emprestado, sem prazo de devolução, uma ou outra dádiva dos turistas que se sentam na esplanada depois de uma manhã de jardim botânico. na sua postura de carteirista da vida não olha as vítimas nos olhos, pegando no troféu e afastando-se para os seus vegetálicos aposentos arbustados de privacidade. pedi-lhe os olhos. tentou fugir como quem não se quer comprometer. conversámos durante uns bons minutos e acabou por ceder. e nos olhos consegue-se ler tudo. os olhos deviam trazer isbn e código de barras porque nunca vi outro lugar nos animais (de duas, quatro, oito patas, as que vos apetecer...) que fale tanto, ainda que sem sair do silêncio.

perdido na salada de palavras e vida, que ali estavam contidas, sorri. depois fiz-lhe uma festa, ronronei por vê-lo ronronar, espreguicei-me, esse acto de esgar de vontade e levantei-me para continuar o meu caminho. ele ficou parado, a olhar-me, cá para mim a tentar perceber quem é vítima e ladrão no meio desta história toda.

sábado, março 10, 2012

as máquinas dependem todas de uma fonte de energia . até o coração .



escreve-se muito sobre o amor.
escreve-se demasiado sobre o amor.
será que se escreve efectivamente sobre o amor?
não se escreve quase nada de jeito sobre o amor.

não contem que seja eu que venha fazer isso. tenho mais jeito para ler em esplanadas, enquanto bebo goles de café e me perco a olhar para as gaivotas na sua vidinha, do que para eloquência em temáticas amorosas.
o vosso azar é que as gaivotas foram de fim-de-semana e estou sem moedas para comprar café, restando-me apenas a caneta e o papel do moleskine. esperem. está aqui o computador também. vou salvar a amazónia (e um ou outro bocado de monsanto) e usar antes as teclas.

não houve jamais um homem ou mulher que compreendesse o amor. nem jamais haverá. tal como ninguém sabe onde o universo começa ou termina. achando-nos na inteligência de tudo saber, cometemos o erro de frequentemente achar que os limites do universo, o amor, ou a razão pela qual a torrada cai sempre com o lado da manteiga para baixo, não nos escapam à compreensão.

erro. é bom compreender. mas é melhor ainda viver. o amor existe para ser vivido. tal como o universo existe para ser vivido. a história da torrada e da manteiga já não é bem assim, mas fica para outro dia que eu não gosto de falar de manteiga em textos que vacilam deslizantemente para o campo magnético do amor.

todo o tempo que é perdido a discutir o geral é fascinante. porque uns amam devagar demais. outros amam depressa demais. uns param demasiado para pensar. outros deviam parar para pensar. uns sabem gostar. outros não sabem gostar. o amor morre. o amor vive. paremos.

paremos, não para pensar, mas para aproveitar melhor o tempo, porque esse não pára e, vulgarmente, ri-se de quem não o sabe usar. dêem as mãos e sorriam mais vezes. discutam a forma das nuvens mais vezes. sintam que adormeceram com a vossa metade e que acordaram com a vossa metade. a vida está cheia de detalhes e a teimosia continua a ser em falar da forma em vez de mergulhar no conteúdo.

o vosso coração precisa da arquitectura correcta para funcionar. como todas as máquinas. mas isso não chega. nunca vi nada funcionar sem combustível (energia cinética também conta, não vá aparecer aqui algum preciosista da física). e o coração não é excepção. hoje, quando forem tentar desconstruir o amor, com o objectivo de criar um livro de instruções, saiam em vez disso para a rua e sorriam para o céu da noite. na volta ainda vêem uma aurora boreal e percebem que os pincéis para colorir a felicidade já vêm connosco de origem. basta querer utilizá-los.

sexta-feira, março 09, 2012

aleatório escreve-se com x ou com ch ?



a vantagem dos pensamentos aleatórios é que começam aqui e acabam ninguém sabe muito bem onde. acredito que os pássaros também voem assim. têm a mania de inventar que não. que voam em bando. muito organizados. que com jeitinho até escrevem YMCA no céu ao som da música. mas isso é tudo uma farsa. há é decerto um pássaro mais esperto que os outros. consegue convencer o resto do bando a voar para um lado qualquer ficando com o caminho livre para arrastar a asa à senhora dona passarinho da sua eleição. nem usei o feminino de pássaro porque vocês têm mentes maldosas e retorcidas e isto é praticamente uma casa de família sem a parte da família.

felizmente o pássaro deve ser um bicho com pouca memória. tirando o papagaio que traz um gravador instalado. já os outros, vão voando voando, e a meio esquecem-se de para onde estavam a voar. entram em stress e quem paga são os capots dos carros, vítimas de tiros mais certeiros do que certas indirectas que ninguém percebe.

mesmo voando sem saber para onde vão os pássaros são felizes. porque andam no céu. brincam à chuva. vêem o arco-íris de perto. sorriem de bico aberto às auroras boreais. ficam com pele de galinha (?!) ao ver passar um pássaro daqueles de ferro a fazer fiu-fiu. e comem minhocas. como aquelas que usam para fazer o hamburger mais tenrinho.

eu sei que a história das minhocas não passa de um mito. mas os mitos não são mais do que brincadeiras que deixamos passear na mente para que a felicidade possa ser servida numa bandeja de prata com toalhete de limão para refrescar as mãos. e que bem que sabe ser feliz.