segunda-feira, novembro 25, 2013

ondas

o som das frestas meio abertas nunca me impressionou grande coisa. cheirava a pôr-do-sol e às ondas dos teus cabelos, enquanto as outras ondas saíam da rádio e o maurice chevalier cantava sobre rouxinóis e o amor. depois continuava num tom mais lento a falar sobre o mesmo tema. os rouxinóis esvoaçavam pela luz ténue e ríamos de alegria ao lembrar o dia em que a televisão voou janela fora e o tempo entrou feito tornado janela dentro.

baptizámos o barco com a garrafa de veuve, sem acelerar o passo, a ver as nuvens esperar pacientemente. lembras-te como as nuvens se vão juntando a pouco e pouco, fingindo que são formigas num carreiro, meio confusas sobre a altura certa para atirar baldes de água cá para baixo?

já longe da costa, perto do nada, mas como quem vai a sair para o tudo, ficámos a ver chover e atirámos os remos na direcção da água. decidimos que o acaso ia decidir onde o barco ia parar, adorávamos fazer de conta que éramos uma gigante mensagem-numa-garrafa. que fazia sentido desafiar o tempo e esperar oitenta anos ali sentados de mãos dadas, a imaginar o ontem, a tropeçar no hoje e a rir sobre o amanhã.

parou de chover, mas não parámos de sorrir. vimos juntos nuvem a nuvem pegar no seu balde, pôr o chapéu de côco na cabeça e ir embora com um ar rezingão. é tão bom quando se aquece mais de dentro para fora do que de fora para dentro e há tão pouco quem.

segunda-feira, novembro 18, 2013

décadas

lembro-me bem que, por circunstâncias variadas da vida, aos dez anos tinha uma ideia clara (por mais estranho que possa parecer) do que queria ser e de onde queria estar aos vinte anos. com toda a dificuldade que uma previsão dessas implica, o engraçado é que aos vinte anos estava quase por completo nesse plano imaginado ou idealizado dez anos antes.

chegado aos vinte (assim até parece que só penso o que quero fazer da vida de dez em dez anos, eu sei) voltei a fazer o exercício de tentar perceber onde queria estar dez anos depois. desta vez acho que falhei redondamente e a vida encarregou-se de me ensinar que quanto mais se cresce, pessoal e profissionalmente, mais difícil se torna tentar domar o nosso destino e muito mais factores entram em jogo do que no conforto e linearidade da infância e da adolescência.

porque esses tempos são fundamentais na formação da personalidade, sem dúvida, e têm, como é amplamente descrito mundo fora, vários períodos de turbulência e de ultrapassagem desta ou daquela barreira. mas, na verdade, um jovem que cresça num ambiente normal, com o devido amor e carinho, num país desenvolvido, vive toda essa fase ainda numa redoma gigante, e muitos desses conflitos interiores não são mais do que necessidades de alguma turbulência para ajudar à combustão do ser.

chegar à conclusão de que estamos num ponto em que não achámos dez anos antes vir a estar não é obrigatoriamente mau, não me interpretem mal. é apenas mais um daqueles casos em que o destino (como se ele existisse) se encarrega de largar uma risada perante a nossa ingenuidade prévia de achar que a vida é como um jogo de computador, que temos vidas extra, que temos um controlador nas nossas mãos e que podemos fazer reset a qualquer momento. não é o caso. e por um lado ainda bem.

domingo, novembro 10, 2013

era noite

nunca ficou bem claro onde é que tínhamos deixado a nave estacionada. eu achava que tinha sido atrás dos arbustos nas dunas, mas tu insistias que tinha sido mesmo ao pé do mar. bem diz o ditado que à noite todos os gatos são pardos e aparentemente todos os extraterrestres perdem o sentido de orientação.

quando entrámos no bar da praia ficou tudo a olhar para nós com um ar esquisito. achei aquilo digno de alguma falta de educação, mas, em defesa das pessoas que ali estavam, não deve ser habitual verem entrar porta dentro dois seres com cinco braços e dez pernas. já seres sem cérebro vêem com frequência, mas isso fica para outra conversa.

lembro-me do teu ar irritado por termos dado tanto nas vistas. eu ia jurar que tinha analisado ao pormenor a civilização humana e que bastava ter umas havaianas nos pés para passar despercebido na multidão. lembraste, e bem, como sempre, que umas havaianas talvez ajudassem, mas ter cinco pares calçados cheira a esturro.

ficou ainda um silêncio esquisito quando cada um de nós pediu um gin com molibdénio e duas pedras de zircónio. ficou tudo parado a olhar para nós e eu limitei-me a perguntar se era estranho naquele planeta as pessoas beberem gin. riram-se todos muitos e ainda hoje não entendo porquê.

finalmente descobrimos a nave. claro que não pegou à primeira, a lei de murphy estende-se para lá da ionosfera, mas foi com grande alívio que dali saímos e fomos passar o resto da lua-de-mel numa daquelas cabanas pitorescas num dos anéis de saturno. 

quarta-feira, novembro 06, 2013

as formigas falam muito nisso

talvez seja o facto de a data que comemora os meus trinta anos de pulmões funcionantes (com alguma ironia, porque na primeira década tive uma asma de difícil tratamento e dei mais trabalho e sustos aos meus pais do que um tamagotchi nervoso) se estar a aproximar, talvez seja do tempo que aqui não se decide se quer continuar a brincar ao outono ou se se fecha de vez no inverno, ou talvez seja até do alinhamento das nuvens com os planetas e com a porta do meu prédio, seja a causa a que for, esta aproximação a um marco histórico tem trazido à superfície o meu eu mais existencialista.

apesar das muitas coisas que fazem pouco sentido vida fora, enquanto as linhas das páginas dos meus cadernos me continuarem a sorrir, o fumo da mistura de chá verde com chá oolong continuar a sair aos pulos da caneca e as formigas me continuarem a contar o seu dia-a-dia e quantos grãos de açúcar conseguiram transportar, as coisas podem continuar a fazer muito ou pouco sentido, que explorá-las, por si só, é combustível suficiente para a vida.