segunda-feira, novembro 26, 2012

o espírito da época

é bonito e popular chegar a um ou dois meses do natal e lembrar o ' espírito da época '.

não contrariando essa ideia, eu sempre fui mais defensor de transformar o espírito da época em época do espírito. sei que o natal está pensado para nos fazer sentir melhor. dar e receber presentes passa por aí. o prazer e alegria de rasgar papel e desfazer laços. a expectativa de encontrar um sorriso e um ar de satisfação em quem recebe o que comprámos para oferecer. o problema destas vontades é quando elas são passageiras e instituídas.

durante todo o ano fazemos coisas bem e mal. durante todo o ano somos boas e más pessoas. durante todo o ano nos arrependemos de coisas que fazemos, que não fazemos e que nos fazem. e trabalhamos, ou devíamos trabalhar, constantemente, sem rendição para construir um ser humano melhor.

não me preocupa que as pessoas tenham tendência a ser boas nesta altura do ano. preocupa-me que durante o resto do ano, e sobretudo nos detalhes que prendem a existência do quotidiano, não tenham idêntico cuidado voluntário.

por mais bonito que seja oferecer uma camisola de lã ou a nova consola da nintendo, quando chegar a meio de janeiro não se esqueçam de segurar a porta à pessoa que vem atrás. ou de parar em passadeiras. vão ver que o vosso sorriso vai ser mais verdadeiro e o vosso coração deixa de ter de hibernar até ao novembro seguinte.

sábado, novembro 24, 2012

perguntas e respostas (em inglês Q & A é mais chique)

duvido que os interlocutores se entendam sempre.

duvido que alguma vez tenham conseguido o equilíbrio perfeito, mas cada vez estamos pior. isto porque vivemos no tempo do imediato, do agora, onde o que acontece vale mais do que o que aconteceu e quando muito pode ser ponte para o que ainda vai acontecer. a densidade das coisas tem a mesma solidez das moléculas de água no momento imediatamente anterior à evaporação.

na terra das importâncias passageiras as perguntas e respostas são das que mais sofrem com isto. sempre reflecti bastante (mas depois adormeço e tenho de voltar ao início) sobre o porquê de fazer perguntas quando não se quer respostas. basta ligar num qualquer telejornal (vejam um filme de terror ou comam uma peça de fruta, que vos faz melhor) para questionar o real interesse por trás de cada questão.

sim, entendo que não haja tempo (ó deuses do olimpo! que sempre arranjaram tempo para tudo e agora não há tempo para nada, ainda que na verdade não haja falta de tempo mas sim de organização) para permitir que determinado convidado se perca na resposta, derive, e filosofe em demasia. se calhar devia haver, mas, enfim, admitamos que esse é um dado adquirido. o que perturba é que quase sempre me parece que quem pergunta não tem qualquer interesse na resposta e busca apenas a emissão da pergunta. a prova disso é que interrompe, destrói e demove o raciocínio alheio. se a ideia é perguntar para obter a resposta que se quer ouvir e no tempo que se quer ouvir é fácil hoje em dia programar robots que o façam. e levá-los como convidados. "aqui o Dr. R2D2 para falar de violência doméstica". "hoje temos connosco o Dr. C3PO para dar a sua opinião sobre a crise dos metais".

não me entendam mal, a interrupção e a disrupção são fundamentais, quando são construtivas. não quando são repetitivas e desadequadas. aí são meros instrumentos de agravamento de um dos principais males desta cada vez mais cruel sociedade. perguntar quando não se quer saber a resposta, em condições, é o mesmo que comprar pão para depois o deitar fora porque está com bolor e passou de prazo.

se fosse hoje em dia imagino que quando o pitágoras fosse a dizer "e então descobri que a soma do quadrado dos catetos é igual à..." alguém o interromperia para ir mostrar o ronaldo a atrapalhar-se com palavras relacionadas com a ausência de caspa.




terça-feira, novembro 20, 2012

a inspiração adora jantar com notas musicais

ainda estou para saber quem decidiu que o sexto sentido feminino é a intuição. e também ainda estou para saber quem é que deixou um saco de lixo à porta do elevador do meu prédio. mas hoje preocupa-me mais saber quem se meteu nessas andanças de achar que percebia o que ia para lá dos cinco sentidos.

sempre adorei o sexto sentido feminino mas nunca desvalorizo os seus outros cinco, habitualmente astutos que nem o animal selvagem que todos somos (ou sabemos ser).

uma das coisas mais fascinantes dos sentidos é virem de origem como uma espécie de naipes de jogo de cartas. existem todos isolados, mas (em certos jogos, vá, não quero irritar nerds das cartas ou idosos que passam as tardes no jardim), atingem a sua beleza máxima quando formam  uma equipa e quando o seu conjunto representa mais que a soma das partes.

claro que o maestro desta orquestra está lá para os lados onde o descartes achava que a alma e a razão se encontravam. mas, como em tantas outras coisas, este maestro não trabalha esfomeado, e precisa de ir buscar o seu alimento ao outro lado do eixo, o que não tem razão, mas tem mania. nomeadamente a mania de bater aí entre quarenta a cem vezes por minuto. tirando quando se exalta ou quando resolve acalmar demasiado.

a plateia pára expectante. sustém a respiração. deixa no ar aquele misto de medo e admiração enquanto a música alcança o seu êxtase. as notas musicais, se forem as certas, entram pelo ouvido, migram ao que de neurónios houver, dançam um tango com o coração, e todos juntos saltam para as pontas dos dedos, que teimam em carregar em teclas ou em agarrar canetas e fazer com que a sua tinta caia em momentos certos, espaçados, decididos, outras vezes tremidos, em linhas que, elas próprias, dançam no prazer do ensemble.

domingo, novembro 04, 2012

as coincidências estão para a vida como o fermento para os bolos

basta-me uma questão de segundos com os olhos postos numa imagem do passado para um sorriso me invadir a cara com aquela intensidade com o que sol invade os poros da pele num dia de verão.

a fotografia mostra-me um eu vinte e cinco anos menos atacado pelo tempo, com um sorriso ao mesmo tempo inocente e despreocupado de quem tem toda a vida pela frente e um nível de responsabilidade mais pequeno do que uma abelha numa colmeia.

o tempo não só muda as cores (impressionante como a resolução e o digital mudaram o modo como gravamos o presente à medida que deixa de ser passado) como deixa a descoberto todas as ironias e sinais que jamais pensámos ser possível existir.

por trás da criança, que eventualmente pensava em mil histórias para a sua colecção de playmobil e legos, está nublado, mas visível, um lugar onde vinte anos mais tarde a criança ia pôr os pés com uma bata branca, um estetoscópio, e o desejo de cumprir um sonho surgido pouco tempo depois da captação do momento. ainda mais atrás, imponente, há um sinal de betão da rua onde a não-criança se emanciparia para o mundo e viveria sozinho pela primeira vez.

podia a coincidência ter posto ainda no terço superior da imagem um avião, como símbolo tão adequado do desejo de conhecer o mundo e de partir à descoberta do que há para descobrir dentro de batas brancas e tanto, ou ainda mais, do que há fora delas.

o mundo pode ser um lugar estranho, mas enquanto continuarmos a imaginar mil histórias, sejam para a colecção de playmobil e legos, numa primeira fase, ou para adultos de carne e osso, mais tarde, reforço o sorriso que me invade a cara e continuo com vontade de invadir muitas outras caras com um sorriso igual. 

sexta-feira, novembro 02, 2012

toda uma espécie de arco-íris

entrou no café com o ar desafogado de quem não vive debaixo da água que o mundo quer à força impor. o seu casaco verde alface podia ser uma peça de artista da última colecção de moda, vendido pelos melhores estilistas custando o mesmo que custa uma casa em mais de oitenta e três por cento do mundo. não era o caso. era só um casaco, comprado de entre tantos outros, perdido num qualquer armazém de uma grande superfície, recolhido por força de um desconto apetecível e de uma vontade de estrear algo que chocasse com a força da luz.

o quadro ficava completo com umas calças amarelo torrado e uns sapatos que pareciam ser reciclados de um disco de vinil. um disco de vinil a tender para o grená, vá.

a minha primeira impressão foi que a bandeira do brasil tinha acabado de ganhar pernas e braços e decidido entrar café dentro numa súbita e inesperada publicidade turística.

não era o caso. vi que a pretensa bandeira tinha o cabelo grisalho dos oitenta/noventa anos. debaixo do festival de cor era visível a couraça da idade, as rugas da experiência, o gasto do sorriso, a definição das provações. cada ruga contando a sua história, numa espécie de conversa interminável geradora de barulho indistinto mas confortável.

após o primeiro gole do seu café suspirou. aquele suspiro que ao mesmo tempo marca presença e diz ao que se vai, porque cá se anda, para onde se vai em breve. fascinou-me a despreocupação com que a história ria de alto e preferia homenagear as várias cores do mundo, numa homenagem em arco-íris, por oposição à outra opção, que seria cinzentamente esperar o fim.

a vida tem cor. e o facto de a morte estar próxima não deveria permitir o seu desaparecimento. até porque cada um de nós terá imenso tempo livre para fazer o seu próprio luto depois do último batimento do coração.