sexta-feira, novembro 28, 2014

ódio à primeira vista

a história do amor à primeira vista dá imenso jeito a argumentistas, escritores ou outros criativos, mas em geral é quase tão verdadeira como a teoria de que tudo se consegue se se acreditar com muita força que lá se vai chegar.

a atracção à primeira vista sim. essa existe. e é capaz de ser das poucas forças que ultrapassam a da gravidade, mas não me vou alongar sobre o assunto ou ainda sou humilhado por gente que perceba verdadeiramente do segundo assunto.

mas o amor constrói-se. o amor compra-se e vende-se, não que estejam em causa trocas monetárias. embora às vezes, quantas vezes, ó se.

e não falo do amor só no seu conceito tradicional. falo também do amor pelas coisas. do amor pelas pessoas. da admiração. há o click inicial mas depois há horas e horas de enamoramento com a obra da admiração, com as palavras, com os frames, com os takes, com as pinceladas, com os olhos, com as pestanas, com os contornos da cintura. tudo demora, tudo é um processo, tudo cresce, exponencialmente, linearmente, abusando ou não de advérbios de modo, mas passo a passo.

já o ódio está para o amor como a queda livre lá do alto está para a subida da montanha. é súbito. é quase imperdoável. é tão mais voraz que o amor. é a peça de cristal que demorou semanas a ser moldada e é destruída com um súbito movimento que usa a força de apenas um ténue e frágil membro superior.

o universo provavelmente explica. pode ser que quando realmente conseguirmos olhar para dentro dos buracos negros, como quem espreita para dentro das janelas no reptilário do zôo, consigamos perceber um bocadinho melhor onde as nossas emoções são paralelas ao comportamento da própria matéria. porque acredito que no final isto está tudo relacionado. acredito mais nisso que no amor à primeira vista. e até um pouco mais do que no ódio à primeira vista.

quinta-feira, outubro 30, 2014

fénix

cleveland devia ser um case study por vários motivos. era uma cidade que concentrava grande parte da riqueza do midwest americano. "desconhecidos" como o j.d. rockfeller eram daqui e começaram a construir os seus impérios a partir daqui. a cidade foi quase ferida de morte com o encerramento de grande parte da indústria e viu os postos de trabalho fugirem para outros lados. mas nunca morreu e vários visionários viram na crise uma oportunidade. hoje em dia é um dos mais importantes polos medico-científicos do mundo. tem um dos mais importantes portos dos estados unidos, sendo o único porto da região dos grandes lagos com transporte directo transatlântico. no desporto tem dos maiores períodos sem qualquer vitória nas principais competições, mas no meio disso tem dos adeptos mais leais do país. por isso é que sentiram a partida do le bron para miami como se de uma traição conjugal se tratasse. por isso é que o odiaram de morte. como o ódio e o amor estão em extremos que se tocam, ele próprio entendeu (porque cresceu aqui) o que significaria voltar para cleveland. por tudo isso, cleveland não é só isto, mas cleveland é muito isto.



segunda-feira, outubro 20, 2014

sobre os lugares

perguntou-me sobre o taj mahal e eu falei da história de amor por trás da sua construção. perguntou-me se era imponente visto de longe. eu respondi que sim e falei dos guias turísticos de ocasião, que ganham a vida todos os dias esperando do lado de fora do complexo por turistas, em busca de um valor fixo para trocar por histórias e por uma capacidade pouco mais do que tosca para tirar fotografias de grupo.

perguntou-me pela grande muralha da china, a única obra do homem que se avista da lua. confessei que essa história era mito, mas que em compensação podia garantir que se via lindamente a lua da grande muralha da china. quis saber mais da grandiosidade das torres e das muralhas. falei-lhe do tipo que encontrei numa dessas torres, no ponto menos turístico da muralha que se possa imaginar, a três ou quatro horas de caminho da aldeia mais próxima, que para ali vai todos os dias à espera da meia dúzia de aventureiros que ali passam. a ideia é vender-lhes postais mas acaba por lhes entregar de borla uma lição de vida.

pergunta-se tanto "qual foi o lugar mais bonito onde já estiveste?" e tão pouco "qual foi a melhor experiência que já tiveste?". os lugares contam, mas estão sobrevalorizados. garanto-vos que podem ser muito infelizes na polinésia francesa e muito felizes em kabul.

quinta-feira, outubro 16, 2014

pedido

uma vez o vencedor de um prémio nobel pediu-me que lhe escrevesse o discurso de vitória do prémio.

na verdade quem me pediu que lhe escrevesse o discurso foi um candidato a primeiro-ministro.
confesso que não foi bem assim, o que me pediram foi que escrevesse uma carta para sensibilizar as populações para a importância da vacinação.
minto, pediram-me foi se podia enviar uma carta registada para a companhia da electricidade para cancelar o contrato.

agora que penso bem nisso, o que se passou foi que me pediram que escrevesse o meu número de telefone num pedaço de papel, e o meu sorriso foi tão grande como se estivesse a escrever o discurso de um prémio nobel.

quarta-feira, outubro 15, 2014

vai correr tudo bem

ela deu-me a mão e disse:
- vai correr tudo bem.
peguei na mão dela, segurei-a alto e perguntei:
- mas não vais precisar da mão para mais logo? 
- não, ainda tenho a outra, podes ficar tu com essa.
- mas vê lá bem se não precisas mesmo. é uma mão tão bonita. tem as unhas pintadas e tudo. até me sinto mal de a aceitar.
- a sério. faço questão. fico com a esquerda porque sou canhota e tenho de a usar no volante, mas o meu carro é de mudanças automáticas, por isso podes ficar descansado e levar a mão direita contigo.

parti sossegado com a mão direita no bolso, meio escondida com medo de ser apanhado ao passar na segurança. dito e feito. assim que cheguei ao primeiro guarda, ele franze o sobrolho e pergunta:
- o que é que traz aí no seu bolso?
- ah, senhor guarda, isto é uma mão que me emprestaram.
- e a mão tem líquidos?
- já não, senhor guarda, tinha um bocadito de sangue, mas foi caindo pelo caminho.
- e para que é que o senhor quer essa mão?
- ainda estou a pensar nisso. comecei a escrever este texto com a ideia de usar a frase "ela deu-me a mão" e ser literal mas agora não sei bem o que fazer com ela, está a perceber, senhor guarda?
- bom, pode usá-la para muita coisa, mas talvez o melhor seja vendê-la no mercado negro.
- acha, senhor guarda? quanto é que será que me dão por ela?
- não faço ideia a quanto está o quilo de mão, de facto...
- creio que a vou trocar por meio cérebro. faz-me mais falta, tenho andado baralhado das ideias.
- porque não troca por um coração? ter dois corações pode ter muitas vantagens.
- mas assim arrisco-me a que me possam partir dois corações.
- então troque por um escudo de metal para o coração. há uns óptimos agora na loja do lince preto.
- e depois com o escudo de metal não vou ter problema a passar aqui na segurança?
- não. desde que não tenha líquidos e que descalce os sapatos, pode proteger o coração como quiser.
- muito obrigado pela ajuda, então.
- de nada, parece-me ser um plano com pernas para andar.


terça-feira, outubro 14, 2014

há vírus piores

o sobressalto, o amontoado de membros da imprensa à porta de unidades hospitalares, os artigos dos especialistas, os alarmes da população, as lágrimas prematuras, as insónias precipitadas. todos temem um vírus de que ouviram falar, todos se debruçam sobre os relatos míticos daquilo que o vírus faz a um corpo, de como o destrói de dentro para fora, de como é incurável, de como não há nada a fazer.

no meio disto tudo, o sítio de onde o vírus veio tem vários problemas bem mais graves de que ninguém fala.

os que estão do lado do medo de que ele chegue consomem os seus dias com a preocupação. esquecem-se de que vivem no meio de vírus bem piores, que consomem corações que nem canibais esfomeados, mais tóxicos do que material radioactivo e mais instáveis do que uma falha sísmica. esses comportam-se como areias movediças da alma, como cavalos de tróia da paixão, dão conta do visível e do invisível e ainda se vangloriam no final, como se a auto-proclamada vitória não fosse inerente à sua génese, da qual não podem jamais fugir. 

mas os vírus não vivem por si. os vírus precisam de células onde viver. ainda que no fim, quase sempre, acabem por induzir imunidade. o corpo onde vivem despega-se deles e obedece à máxima do nietzsche de que 'o que não nos mata torna-nos mais fortes'.

abusando das citações (uma vez que a multa de hipercitações está paga), já dizia, e bem, o wilde, que 'experiência é simplesmente o nome que damos aos nossos erros'.

segunda-feira, outubro 13, 2014

time warp

acordou com o som da chuva a bater no tecto do prédio. correu ensonado para o duche, seguido das estrelitas com leite. pôs a mochila, com três vezes o seu peso, às costas e calçou as galochas. saiu porta fora e sorriu ao avistar a primeira poça. atravessou-a feito navio de cruzeiro e sentiu o poder da borracha impermeável e colorida. saltou dentro da poça seguinte enquanto se imaginava um astronauta a brincar na lua. pensando bem sabia ter lido que a lua não tinha água. começava também a duvidar que os astronautas pudessem brincar, a vida dos adultos parecia dada a coisas demasiado sérias durante demasiado tempo. nada disso importava, contudo, porque aquela poça era aquele momento e os adultos eram os adultos, mais liberdade ficava para as crianças.

acordou com o som da chuva a bater no tecto do prédio. tropeçou do quarto até à sala onde acendeu um cigarro e bebeu de um trago o resto do whiskey que sobrava no copo da noite anterior, enquanto atirou a garrafa vazia na direcção do lixo. comeu uma fatia de pizza aquecida no micro-ondas. arrastou-se até ao duche e depois vestiu qualquer coisa que estava ali à mão e calçou as botas de inverno. amuou quando chegou à porta do prédio e viu o que chovia. voltou para cima, trouxe o chapéu e moveu-se até à paragem do autocarro. um carro passou rápido demais e encharcou-o de cima a baixo. sentiu vontade de gritar de raiva, mas ainda mais vontade de ter um fato de astronauta para andar na rua em dias de chuva.

quinta-feira, outubro 09, 2014

there she goes

o sol ainda vai alto mas a lua já quer dizer olá. o volume é quase tão alto como ficará mais tarde, mas ainda se mistura com o nevoeiro das leveduras e com a entrada de gente que parece pouco mais do que formigas num carreiro. 

ela salta do nada, sorri e corre na direcção do abraço que marca mais do que mil volumes de romances russos. com menos tragédia, sangue e lágrimas. enrola-se no abraço, rebola pelo resto da noite, perde-se em rimas de língua estrangeira, poesia disfarçada de tempos modernos e de batimentos que entornam ritmos em cima da mesa que é a vida.

um casal aparece e acena a dizer que sim. o sol já se escondeu a oeste, mas a lua sorri. são dois num. são sorrisos transformados em hiper-sorrisos e sangue que corre pelas veias como se fosse o coelho da alice. a paixão traz sempre a pressa que a vida não tem. o sangue apressa-se a querer ser mais do que acha que consegue alcançar. os dias passam, os vasos abrem, os glóbulos passam. os vermelhos, os brancos, os cor de arco-íris. todos se juntam e sorriem, também eles, veias fora. 

param.

param no coração para apreciar as paredes. olham as aurículas como quem vê a mona lisa pela primeira vez, pequena mas impressionante. saltam mitral fora, chocam com as paredes do ventrículo, sorriem de novo e são ejectados corpo fora como um homem-bala. por essa rede de vasos que parece uma árvore. por esses corpos múltiplos, que parecem uma floresta. não repousam porque nunca param. o sangue nunca pára. o coração nunca pára. quando pára deixa de sorrir e a lua pede mais do que isso, porque reflecte o sol, enquanto bebe uma garrafa de vinho tinto chileno e olha para o quarto e para o quinto planetas a contar do sol.

segunda-feira, setembro 29, 2014

o homem que olhou para cima

seguiu pela avenida, mastigado pela multidão, avançando num passo certo e rítmico na direcção do seu trabalho. o ano era várias centenas de anos à frente do ano que se pensa que era. havia algo que hoje o inquietava. tinha lido na noite anterior um livro electrónico em que os autores falavam de grupos de pessoas, no passado, que se juntavam à noite, num lugar com pouca luz, para olhar para o céu e ver as estrelas e um ou outro planeta. segundo o relato eles olhavam directamente para o céu e isso deixou-o estupefacto.

ninguém sabia dizer quando, mas a coluna cervical dos seres humanos tinha evoluído já há muitos anos para uma posição que apenas lhes permitia olhar na direcção do chão e ligeiramente em frente. se se tentassem deitar de costas, ou olhar para cima, perdiam automaticamente os sentidos, por compressão da espinal medula. o pescoço tinha evoluído neste sentido após anos e anos de indivíduos que passavam dezasseis a vinte horas do seu dia a olhar em frente, ou para baixo, para ecrãs de telefone, de computador e de televisão. um investigador alertou uma vez para os riscos desta alteração física, dizendo até que um dia iam deixar de conseguir olhar para o céu, sendo prontamente gozado por toda a comunidade científica, que questionou o valor de olhar para o céu já que afinal se podia olhar para o céu a qualquer hora, recorrendo ao ecrã de um dos vários aparelhos.

enquanto todos estes pensamentos lhe marinavam na cabeça deu por si a sair do passeio na direcção do parque, a atravessar os túneis debaixo dos campos magnéticos onde os pods se movimentavam à velocidade da luz, acabando no meio da floresta. aí resolveu sentar-se algum tempo. uns dez anos. dia a dia foi levantando um pouco mais o seu ângulo de visão e finalmente chegou o dia em que conseguiu olhar para cima sem se estatelar no chão. bêbedo de tontura, vislumbrou ainda assim os tons laranja do pôr-do-sol, viu a palete de cores mudar e um céu entre o azul e o negro aparecer do nada. por último vieram as estrelas, a lua e algo que brilhava ainda mais e que veio a saber ser vénus. começou a chorar de alegria e esse momento ficou gravado para sempre na sua memória, que tinha muitos mais bytes do que qualquer aparelho que se conseguisse imaginar.

são tudo perspectivas

' i try to lead as normal a life as possible, and not think about my condition, or regret the things it prevents me from doing, which are not that many . physics can take one beyond one’s limitations, like any other mental activity . the human race is so puny compared to the universe that being disabled is not of much cosmic significance . '

- stephen hawking


quarta-feira, setembro 24, 2014

erro padrão

o erro padrão é o desvio padrão da distribuição de amostragem de uma estatística.

o padrão dá para muita coisa, desde comemorar descobrimentos até descrever o aspecto de uma camisa ou de umas cortinas.

o erro dá ainda para mais. quando somos tão crianças que nem nos lembramos, o nosso processo de aprendizagem mexe-se à base de tentativa/erro. descobrimos que pôr a mão em algo que está a ferver dói, que a água fria não é a melhor coisa do mundo num dia de inverno e que nos reconforta estar ao colo de um ser humano com várias vezes o nosso tamanho.

vida fora vamos definindo padrões. vida fora vamos ainda mais explorando o erro. deixamos de o ver como uma ferramenta para crescer e passamos a penalizá-lo e a demonizá-lo. perdemos a inocência crua de quem reage e ganhamos a capacidade de complicar e sobrepensar todos os erros. elevamos a fasquia mais alto do que o recordista mundial de salto em altura e não toleramos a falha, não nos damos nada bem quando descobrimos que pôr o coração em algo que está frio dói e só aos poucos vamos descobrindo que a água quente no duche é a melhor coisa do mundo, num dia qualquer, quando não há por perto colo nem ser humano com várias vezes o nosso tamanho que nos acuda.

sexta-feira, setembro 05, 2014

eu sei

eu ia a correr floresta fora quando senti o vento vir floresta dentro. as árvores entraram em tumulto, as folhas começaram a revirar-se, os troncos a lutar para ficar junto ao chão e o céu ficou escuro como breu. veio uma nuvem, depois outra, encavalitaram-se entre si e começaram a descarregar electricidade como se fossem uma central energética. os raios caíram por todos os lados, a vida parecia um jogo de plataformas para game boy em que de repente me tinha tornado na personagem e o criador do jogo em sádico controlador do meu destino.

corri até ao que vi de mais parecido com um abrigo, uma gruta com pouca luz. entrei nessa gruta e senti um conforto que o freud explicaria em três tempos. explica-me muito o freud, sempre que tomamos café sexta sim, sexta não. não explica tudo, mas apenas porque percebe pouco de bola.

a gruta protegeu-me nas horas seguintes. o mundo lá fora mudou sete vezes e na minha face o sorriso de conforto passou a riso sardónico de vitória. foi nessa altura que o chacal, o urso pardo e a boa constrictor me atacaram. não dei por nada. despacharam-me mais depressa do que um raio demora a chegar do céu ao solo.

acho que só nos tornamos verdadeiramente adultos no momento em que percebemos que, para o bem e para o mal, as aparências iludem.

sexta-feira, agosto 22, 2014

estou farto de quem está farto dos dadores de lições

a esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença horrível. sem causa aparente, tirando meia dúzia de casos com base genética e uma ou outra suspeita pouco confirmada, aquilo que começa por uma fraqueza ou por uma atrofia muscular progride, a velocidades diferentes consoante os casos, para múltiplos defeitos neurológicos impossíveis de imaginar, culminando quase sempre numa paralisia completa, com incapacidade de andar, de mover pouco mais do que os olhos e de respirar. outro dos grandes problemas, o maior de todos eles, é que não tem cura. tirando um fármaco que prolonga a sobrevivência (muitas vezes prolonga nas condições acima descritas), não há terapêutica capaz de inverter o curso da doença.

como todas as doenças que não têm cura, a ELA requer, com a urgência possível, que mais investigação seja levada a cabo, que mais fundos sejam investidos, que mais gente se entregue de modo dedicado à causa, para que eventualmente um dia se consiga chegar ao tratamento da doença.

li hoje um opinador de um jornal português de larga tiragem manifestar a sua insatisfação contra quem critica a recente moda, tornada viral, de deitar um balde de gelo ou água gelada pela cabeça abaixo, desafiando vários amigos a fazer o mesmo, com o intuito de obter doações para ajudar na investigação de uma cura para esta malvada doença. conta o mesmo opinador o caso do cantor josé afonso, afectado pela doença, e a natural impressão que lhe causou a progressiva degradação de que o mesmo foi vítima pela doença. termina dizendo que mesmo que a campanha seja um disparate, quem critique o disparate ou dá mais dinheiro do que o que a campanha permite angariar ou não tem qualquer razão.

o problema é que neste, como noutros temas, as pessoas acham todas que sabem muito sobre muita coisa, quando não fazia mal nenhum admitir que sabemos muito pouco sobre quase tudo. nomeadamente, quem opina de palavra livre sobre assuntos como este, não tem formação suficiente em saúde pública e gestão de recursos para saber se o que diz faz muito ou pouco sentido.

que a ELA precisa de fundos para investigação? com certeza que sim. se tudo o que seja conseguir acrescentar dinheiro a esses fundos é positivo? sem dúvida. mas isso não significa que faça sentido angariar dinheiro de modo pontual e explosivo para ajudar a tratar a ELA sem pensar no quadro global. e o que é o quadro global? o quadro global é que há dezenas ou centenas de doenças, umas mais raras do que outras, sem cura. como o valor de cada ser humano continua a ser o mesmo, é um assunto muito sensível aquele de dar rankings de importância ou prioridade às doenças. por isso mesmo existem organizações, comités, conjuntos de especialistas, que procuram orientar a investigação (e estamos a falar de ciência e não de negócio) no sentido de chegar mais longe em todos os campos e de ajudar o maior número de pessoas possível ou as doenças com uma morbilidade mais impressionante. a ideia passa por distribuir os fundos do modo o mais justo possível. 

não me preocupa que gente a fazer disparates angarie mais fundos para ajudar a encontrar o tratamento da ELA. óptimo. excelente ideia. preocupa-me que isso aconteça porque muitas das pessoas o fazem por mera pressão social, para alimento do seu ego ou até para promover o seu trabalho ou os seus produtos, que nada têm a ver com a causa. participam agora e dão agora, porque é moda. daqui a um mês a moda é saltar de uma varanda para ajudar os pandas bebés do uzbequistão e já ninguém sabe sequer o que a sigla ELA significa.

ajudem. ajudem sempre. mesmo que a fazer disparates. nunca me vão ouvir dizer o contrário. mas pensem que há muitas formas de o fazer. o dinheiro faz falta, mas olhem que muitos dos doentes, sobretudo com doenças neurológicas como estas, precisam de algo muito mais importante do que dinheiro. muitos precisam de ajuda. muitos precisam de condições de mobilidade nos lugares onde vivem. passar um cheque não pode ser a lavagem emocional do difícil que é ver o estado em que estão estas pessoas. não vos serve de nada doarem 500 Euros e de seguida estacionarem o carro em cima do passeio, por onde o doente com ELA numa cadeira de rodas não vai conseguir passar.

até porque o tempo é de crise, pensem que a vossa ajuda pode ser fundamental de muitas outras formas que não incluem transacções financeiras. o vosso tempo é o bem mais útil que podem oferecer e oportunidades não faltam. e quando o fizerem não precisam de ir pôr a correr nas redes sociais. vão-se sentir bem na mesma sem ter de partilhar com o mundo o vosso gesto. acreditem. sejam felizes, com ou sem balde de gelo pela cabeça abaixo.

sábado, agosto 09, 2014

aventura

ela deixava-lhe mensagens escondidas em desenhos, rasgados nos cantos e reunidos nos meios.

ele deixava-lhe mensagens à vista no lado dos planetas que dá para o sol. toda a gente conseguia em teoria ver o que lá estava escrito, mas, na verdade, só com uns óculos muito especiais é que dava para descodificar a mensagem.

queriam dar as mãos mas era particularmente difícil porque ele vivia dentro de uma bolha e ela dentro de uma bolha vivia. a bolha era transparente, mas atravessá-la era de todas as cores.

apareceu de repente o árbitro, abriu o livro das regras e queixou-se do uso abusivo dos advérbios de modo. aparentemente, digo, de modo aparente, a queixa era sobre a conversa, não sobre o que vinha escrito nos planetas. mais tarde explicaram ao árbitro que os planetas tinham por lá coisas escritas e ele ficou fora de si, achou tudo aquilo meio ilegal e quis fazer queixa às nações unidas ou a um representante de um qualquer governo civil. só se acalmou quando lhe trouxeram a baleia gigante de peluche. ou de pelúcia.

o mundo devia entender-se neste ponto. ou bem que é peluche ou que é pelúcia. "ah, podem ser os dois" não me serve. aposto que esta dúvida está na base de grande parte dos problemas do mundo. é isso e a falta de mais amor, escrito a letra transparente, em planetas perdidos por essas galáxias fora.

quarta-feira, julho 16, 2014

meio vivo meio alive

quis a coincidência das datas da minha passagem anual por terras lusas que este ano eu conseguisse ir ao alive. é melhor chamar-lhe só "alive" que a confusão entre optimus e nos ainda gera alguma guerra civil.

tenho dificuldade em definir o meu festival favorito em portugal, porque todos têm coisas que me agradam. o sudoeste é imbatível na localização em plena costa vicentina, o super bock super rock costuma ter dos meus cartazes favoritos e também tem a praia do meco por perto, e o alive tem uma localização também ela fantástica, que permite fazer vida de lisboa durante o dia e no pos-festival, e assistir a uma data de concertos com vista para o tejo.

sendo que estes festivais são para todas as idades, uma boa forma de não irem para lá a sentir que são velhos é irem vestidos de uma forma que não vos faça parecer velhos. no primeiro dia, por circunstância de outras voltas, fui para algés de camisa branca, com ar de pai, e na fila de entrada para o festival perguntava-me se havia alguém que não achasse que estava a entrar ali apenas para ir vigiar os meus filhos. nada de grave, porque o barulho das luzes tudo disfarça.

antes de entrar consegui passar por turista tonto, já que passei meia hora numa fila para levantar o bilhete que não era a minha, para depois finalmente perceber que nem tinha de ficar em fila nenhuma, e que a pulseira só se trocava do lado de dentro. quase me senti impelido a dizer "ah, desculpe, vocês os jovens é que percebem destas coisas", mas acabei por apenas sorrir e me deslocar na direcção das massas, de orelhas baixas.

assim que entrei dei de caras com o melhor que os festivais têm, as pessoas. por muito que adore música, se não fosse pelos amigos os festivais não valiam nem 30% do que valem. estudos mostram. se não mostram, deviam mostrar.

os concertos variaram entre bons, muito bons e ligeiramente desapontantes. dos lumineers só conhecia a música de pôr os escravos a remar nos barcos, mas o concerto foi agradável, no registo fim de tarde em nashville. os imagine dragons deram um bom concerto, embora também só reconheça as músicas que são usadas em anúncios de televisão ou jogos de computador. finalmente chegaram os arctic monkeys, bons que dói, mas com um concerto curtinho, muito automatizado, e a deixar algo a desejar. ainda assim muito bons, don't get me wrong, a fasquia é que está sempre elevada para o alex e companhia. ah, e ninguém começa um concerto com a sua música mais conhecida. diz na bíblia e é verdade.

no segundo dia entrei no recinto a uma hora em que parecia estar a ser congeminada uma revolução política no palco principal. depois lá entraram os MGMT, com alguns problemas de som, mas quem tem o kids tem tudo. finalmente chegaram os meus vizinhos do ohio, os black keys, que, apesar do último album não ser grande espingarda, conseguiram dar um óptimo concerto, porque têm "homens de palco" escrito na testa. melhor do que o concerto só gente estranha a fazer mosh pits num concerto de black keys. eu sei que eles têm "black" no nome, mas é preciso beber uma quantidade considerável de álcool para confundir "keys" com "sabath". o mesmo grupo do mosh pit pôs-se a tentar criar pirâmides humanas com várias camadas, o que me faz pensar que deram com a data errada e acharam que estava ali instalado no passeio marítimo de algés o cirque du soleil. ainda fugi do circo para ir dizer um olá às minhas au revoir simone, mas logo me voltei a encontrar perdendo-me.

não me vou alongar muito mais, que já devem ter desistido de ler no segundo parágrafo, mas de resto o festival teve aquilo que sempre tem, entre cerveja, comida, ouvidos a zunir e coisas que tais. acima disso tudo, sempre as pessoas. os reencontros, os encontros, os bonecos insufláveis que distraem, as luas cheias que distraem, as cinturas que distraem, um festival tem tanto a acontecer que a atenção é fortemente testada. mas deixem-se ir na onda e o mais provável é conseguirem sair de lá mais felizes do que entraram.


segunda-feira, maio 05, 2014

régua de felicidade

" és feliz? "

se vos fizerem esta pergunta, o mais provável é começarem a patinar e gaguejar enquanto tentam responder honestamente. acabam por dar uma resposta remendada, feita às três pancadas, e isso acontece, acima de tudo, pela falta de coragem que temos para parar de vez em quando e pensar na resposta a esta pergunta.

uns imaginarão a felicidade brilhando como diamantes, com postais de ilhas paradisíacas, águas claras e lagostas crepitantes a sair da grelha, enquanto vão polindo o brilho ao seu carro de luxo. outros cairão no pseudo-romantismo de abraçar uma felicidade primitiva, o amor e uma cabana, as estrelas tão bonitas lá no céu e para que precisamos do mundo e para que precisa o mundo de nós (até serem mordidos por um animal venenoso e irem a correr aflitos para o hospital).

a felicidade propriamente dita é impossível de definir. é ler e ver e ouvir, para entender que há milhares de anos que gente que sabe e gosta de pensar se questiona sobre isso, sem chegar a grandes conclusões, apenas a argumentos. não haverá provavelmente A felicidade, mas sim UMA felicidade, a de cada um, a dos com que cada um vive. e os copos de medida, os pesos na balança, serão diferentes de indivíduo para indivíduo, o que releva o erro da felicidade comparada, erro tantas vezes cometido.

vivemos na sociedade da comparação. pensamos se sabemos mais ou menos do que os outros, se fomos a mais ou menos sítios do que os outros, se ganhamos mais ou menos do que os outros. perdidos neste jogo de gráficos esquecemo-nos frequentemente de respirar e aproveitar um fim de tarde, ou de correr à chuva e recordar que a pele está viva e em contacto com a natureza.

não existirão panaceias ou medidas certas, mas acho que um dos passos mais importantes para a felicidade é conseguir ficar feliz com a felicidade dos outros.

domingo, maio 04, 2014

as pessoas e a cómoda

a vida tem a mania de se compartimentalizar. são estados atrás de estados na infância, são fases atrás de fases na adolescência, são saltos de ponto para ponto na vida adulta. são muitos anos passados à face da terra (na verdade são sempre muito poucos) em que tanto pessoas como coisas fluem por nós. aparecem e desaparecem da nossa vida como incandescentes meteoritos quando invadem a atmosfera.

para tudo isto, e sem ser por vontade própria, desenhamos dezenas ou centenas de gavetas, destinadas a cada um destes encontros vida fora. umas gavetas são abertas uma vez e logo fechadas para a eternidade. outras são abertas quando calha, e quando de lá salta a pessoa que ali esteve fechada anos a fio, é instantânea a corrente eléctrica que salta da gaveta para a nossa pele e acaba a aquecer o coração. outras gavetas há que trancamos a sete chaves e, ainda assim, vamos confirmar se não há hipótese de quem lá prendemos sair pela parte de trás do móvel. 

penso muito na ironia das palavras com que terminam muitos dos encontros. um "então havemos de combinar qualquer coisa", um "isto é só até já", um "vamos falando", que são tantas vezes voltas dadas à chave sem que nos apercebamos que estão a ser dadas. a relevância de viver o momento, de dar abraços sentidos, de marcar as pessoas, de partilhar risos e sorrisos e lágrimas, é que cada momento tem demasiado valor para que não seja vivido como tal. a vida troca-nos as voltas, os temporários passam a definitivos, as certezas esfumam-se como papel envelhecido e nada é mais garantido do que apostar as fichas quase todas no presente e esperar que a roleta se porte bem.

claro que a vida não são só gavetas. temos os distintos, os especiais, aqueles que não merecem chave porque têm sempre o coração aberto à nossa espera. esses vivem em molduras, emproados em cima da cómoda, sempre à distância de um esgar. moram em cima de todas as gavetas que resolvemos (teremos mesmo resolvido?) abrir e fechar, como se fossem estrelas a viver acima dos meteoritos.

segunda-feira, abril 21, 2014

dar voltas à pista

hoje entrei no supermercado e um senhor de nobre idade fez-me sinal. precisava de ajuda para pôr o saco das compras ao ombro, porque problemas nas articulações o impediam de ter força e amplitude de movimento para conseguir completar uma tarefa tão simples.

os dias passam no calendário como carros e pilotos a dar voltas à pista. as articulações gastam-se que nem pneus, a memória vai-se que nem combustível e as mudanças saltam freneticamente para cima e para baixo como se fossem estados de espírito. volta após volta vamos segurando a força dos Gs que nem uns corajosos, fingimos não notar o cheiro a queimado vindo das rodas e fintamos as poças de óleo que nem uns fitipaldis.

esquecemo-nos com demasiada frequência de parar nas boxes. bem sei que a pista chama e promete glória, mas o reabastecimento é tão essencial como o músculo de feições estranhas que bate dentro do peito.

sobre a pista que é a vida ninguém sabe bem o que é o pódio. mais uma razão para apreciar o caminho, que o destino fica a cargo do cronómetro e tudo o que trabalha a pilhas é suspeito.

quinta-feira, abril 17, 2014

lição de hoje

se há coisa que aprendi bastante nos domingos de manhã da minha infância foi como a natureza funciona. também aprendi que a feira do relógio tinha um rico pão com chouriço e que cair em cima da cal dos campos de futebol pelados queimava a pele, mas isso talvez não tenha tanta importância para o assunto de hoje.

bebendo pelos olhos todos os programas que o ecrã teimava em expulsar, fosse a vida selvagem inglesa ou o outro a esconder-se atrás de arbustos, aprendi várias lições que ficaram para a vida. uma delas tinha a ver com o padrão de acasalamento das zebras. as zebras, sejam macho ou fêmea, têm uma característica engraçada, a de perderem a atracção por uma zebra do sexo oposto que faça a corte a todas as zebras que se mexem (e mesmo a uma ou outra mais estática do que uma múmia egípcia). quando isso acontece, não só perdem a atracção como a cor das suas listas até se pode inverter. as listas brancas passam a pretas e vice-versa, é a forma que a natureza tem de metaforicamente abanar a cabeça em sinal de desaprovação.

como é óbvio esta história não é mais do que uma invenção da minha cabeça. já a lição...

sábado, abril 12, 2014

take two

a música não era nada de especial. o vocalista parecia ter não álcool no sangue mas sim sangue no álcool e a voz tremia-lhe mais do que uma casa construída em cima do anel de fogo.

a luz era morna, sobretudo comparada com a tua pele. falámos horas a fio de quão tudo é relativo, da temperatura das peles ao movimento dos girassóis atrás da estrela todo o dia. discutimos alegremente a falsidade do céu azul, pintado às escondidas para nos dar uma sensação de conforto. que não existe. que é inventado em becos cósmicos, como quem rouba um beijo enquanto um candeeiro se acende e apaga, incerto sobre a energia que lhe corre nas veias. ou nos fusíveis. uma das duas.

fiz um esforço hercúleo para me concentrar nas palavras, enquanto a minha atenção se prendia nos teus cabelos, os meus olhos se enrolavam no teu pescoço e o coração dava pulos capazes de ir à medalha de ouro nos jogos olímpicos.

as noites frias. as noites quentes. depende. tudo. depende tudo de tanta coisa. e no fundo depende de tão pouca.

a música não era nada de especial. mas isso nunca importou.

domingo, março 30, 2014

o valor da opinião

eu ainda sou do tempo (já começamos mal) em que a opinião era uma coisa difícil de difundir. para ter tempo de antena num jornal ou para ter um livro publicado era preciso ter qualidade à prova de bala. ou uma boa cunha. mas apesar de tudo, em geral, o critério "qualidade" tinha tendência a prevalecer.

num ápice veio esta maravilhosa democratização em que todos temos direito a blogs, podemos publicar livros de borla online e dão-nos colunas em jornais diários como quem oferece jornais de qualidade duvidosa no metro e nas filas de trânsito.

uma coisa que tinha tudo para ser boa, abrindo o mundo a mais opiniões e pontos de vista, tem sido, na minha modesta opinião, um semi-desastre. e o "semi" é só porque pelo meio do imenso ruído se descobrem pessoas e opiniões de muito valor, que nunca teriam atingido a ribalta na apertada meritocracia do passado. mas para encontrar essas trufas é preciso escavar em tanta terra vazia que chega a ser desesperante.

toda a gente se arroga o direito de ter opinião sobre tudo, o que é válido, mas crêem-se também no direito de que todos saibam aquilo que acham. vivem na ditadura dos likes e dos RTs e medem o seu ego em função do que acham que é a sua capacidade de propagar a meia dúzia de idiotices desinformadas que têm a expelir sobre todo e qualquer tema.

pior do que isso, têm por vezes sucesso nessa sua difusão. e com o sucesso do volume de difusão acham que vem a confirmação da qualidade do produto, neste mundo que chutou para canto a qualidade e que adora dormir em conchinha com a quantidade.

este inverno por aqui tem sido muito longo, dêem-me um desconto. e enquanto me dão o desconto pensem duas vezes antes de abrir a boca sobre certas coisas, só vos fica bem. mesmo que vos traga menos fãs.


(p.s.: eu reconheço todo o paradoxo de eu próprio estar a difundir uma opinião. mas que seria da vida sem paradoxos, não podem ser só sóis a nascer e a ir-se deitar.)

bully de almas

há qualquer coisa com o sol a pôr-se e com o sol a nascer. eu tenho um stendhal constante com esses preciosos momentos, mas parece-me que o que me afecta é viral e contagia bem mais de meio mundo.

são instantes passageiros mas que, como nenhuns outros, nos lembram dos ciclos, nos ajudam a re-centrar, nos afirmam duas vezes ao dia que continua tudo a girar e que o caminho é para a frente ou para trás, mas à volta do eixo pela certa. 

já é de manhã. já é de noite. os pássaros carregam no play ou no pause consoante o evento. são muito mais ordenados do que nós, aqueles com a mania de andar só sobre as duas pernas e que não usam os membros superiores para voar. 

o que é uma pena. seria tão mais fácil perseguir o sol com asas. com alguma distância, que não queremos soltar o ícaro que há em nós. mas ainda não perdi a esperança de passar mais de vinte e quatro horas atrás do sol (embora já tenha andado bem perto disso, mas com ajuda de motores não conta).

estou a desenhar o aparelho, a montar as asas e a magicar o plano. depois aviso. não se preocupem.

sábado, março 22, 2014

ardente

a facilidade com que os dedos se entrelaçam. a dificuldade com que os dedos se soltam. lembra-me o momento em que as forças centrífugas brincam com as centrípetas e rodam que nem crianças a brincar no jardim.

os dias passam, as páginas viram uma a seguir à outra, a tinta sangra da esquerda para a direita (noutros lados da direita para a esquerda), mergulha nas linhas, salta entre elas, rasura o fim e recria o princípio.

são lágrimas de preto misturadas com lágrimas de branco. fazem das linhas pautadas música e crescem como o 1812 do tchaikovsky. deixam o barco do pedro para trás, grande ou pequeno, atravessam a ponte. sentam-se nos degraus a olhar para o cristo salvador, sem perceber se a cúpula dourada os salva ou se salvam eles a cúpula. atiram-se ao rio. fogem para norte.

param.

olhos claros. parar. observar. lábios cheios. lua também. cabelos longos. sempre os cabelos longos montados em pescoços ainda mais longos e capazes de derrotar impérios. mais cúpulas. mais telhados. mais túneis. mais noites. sinto lá ao longe o napoleão a capitular. sem tirar a mão do casaco. guarda a carteira como quem guarda um império. 

é assim que os impérios começam, crescem, caem e se levantam. até os faraós capitularam numa sexta à noite e renasceram uns dias depois, com menos papiro à volta do coração.



segunda-feira, fevereiro 24, 2014

inversão

o sol entrava decidido pelas frestas das persianas, teimando em desenhar sombras chinesas, exércitos de luz, outrora de terracota, agora de claridade. enquanto os fotões traziam a imaginação à parede, a minha mente andava perdida por outros mundos, a anos-luz de distância.

era como se fosse hoje. entrei pela porta verde, com as letras pintadas a branco, de fresco, fiquei até com um ou dois dedos sarapintados, e as teias de aranha faziam adivinhar que do lado de lá se encontrava um tesouro daqueles que demoram séculos a descobrir. o baú tinha um código, mas era fácil de descobrir, 083, era estranhamente evidente. enquanto rodei a combinação, senti um largo sorriso no escuro, atrás de mim. por segundos tive a certeza de ter por perto o gato da alice. só que este país tinha poucas maravilhas e a pressa era muita para chegar ao conteúdo do cofre. sacudido o pó, e ultrapassado o ataque de tosse da praxe, vi por fim a garrafa e o líquido túrbido no seu interior. tinha cor de ser vítima dos anos, ar de ter vapor de experiência e um travo a sabedoria. arranquei com violência a rolha gasta e bebi tudo de um trago, certo de que há coisas na vida que ou são ou não são.

de repente tudo ficou mais claro. após o pânico do momento em que tudo parou, foi com enorme alívio que senti a terra recomeçar a rodar, mas desta vez em sentido contrário. à frente dos meus olhos vi o caos em que tudo entrou. vi as marchas-atrás passarem a marchar para a frente, os comboios a chiar de pernas para o ar e os arranha-céus a virar arranha-terras. ninguém sabia bem o que fazer mas eu sabia, mais do que nunca, com certeza, que tínhamos voltado a entrar nos eixos.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

a vida tem muito de tomb raider

a lebre saiu disparada de tal forma que era quase garantido que ia bater recordes. superou-se com os gritos vindos das bancadas, com o bruá de satisfação de todos os espectadores, com a espectacularidade do seu avanço.

a lebre chegou primeiro a quase tudo. na vida, como nas corridas de animais em fábulas, há tendência a ligar o sucesso (pessoal, profissional, o que vocês quiserem-al) ao imediatismo com que a ele se chega. o ' depressa e bem há pouco quem ' passou de moda numa época em que o foco em qualquer assunto ou objecto dura segundos e a pressa se entrelaça com fios de stress ao longo de qualquer dia da semana.

não vale a pena. somos crianças com pressa de chegar a adultos, para depois vir a pressa de ser adultos mais completos, de acelerar em direcção a um sucesso que muitas vezes não parámos sequer para definir ou entender. hipotecamos o presente em função de um futuro que será ele também um presente hipotecado. a menos que paremos a espaços, que nos sentemos no banco do jardim e deixemos os sentidos fazer o que eles sabem. todas as máquinas precisam de resets. todos os corpos precisam de sol e de silêncio e de pausas que dancem com tumultos. os pores-do-sol de mãos dadas com a natureza são oxigénio para a alma, e servem para entender que o ' aqui e agora ' é bem mais palpavél do que o que vem a seguir.

forçam-nos a ser lebres, mas muito do que somos depende daquilo que aceitamos que façam de nós.

é sempre bom lembrar que no fim de contas foi a tartaruga que levou a melhor.

visto isto

estou maravilhado com a ideia de atribuir vistos gold para viver e trabalhar em portugal a tudo o que é talento e artista e investigador e não sei quê.

os meus olhos ficam irrigados de lágrimas só de imaginar o influxo de actores birmaneses, cientistas norte-coreanos e anões polinésios, que de repente vão dar outros mundos ao mundo nesse rectângulo onde todos querem habitar.

custa-me que os vistos gold fiquem por aqui. deviam ser estendidos a mais actividades e mesmo aos animais (os de quatro patas). é enternecedor imaginar a beleza de elefantes quenianos a andar livremente pelos arredores de arraiolos, anacondas felizes em alcochete e gorilas gaboneses em êxtase no vimioso.

por outro lado, lembrei-me de repente de um livro muito jeitoso do tio patinhas, onde vinha a dizer que "nem tudo o que luz é ouro". espero que quem se vai atirar de cabeça aos vistos não fosse adepto na infância de ler bonecos da disney, ou ainda acabam a ter de fazer um downgrade dos vistos para prata ou bronze para conseguir candidatos em barda.

vejam lá isso.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

congelados

congelaram primeiro umas poças de água manhosas que estavam ali à saída do restaurante chinês. depois congelou a berma da estrada, catapultou-se o lago dos patos e logo se seguiu o lago que se vê do céu. dos satélites. da lua, com uns bons binóculos ou com um telescópio daqueles que eu queria sempre pelo natal.

quando dei por mim estavam esculturas de gelo penduradas em ramos de árvore. o artista não recebeu comissão, trabalha barato e mais por vontade própria do que por necessidade de fama. dei a volta ao quarteirão para procurar a bilheteira, porque sou inimigo de entrar à socapa, mas não encontrei quem cobrasse a entrada. só um esquilo, pendurado num cabo da luz, a olhar para mim enquanto trincava uma bolota. fiquei um bocado a pensar no que é que ele estaria a pensar de toda esta cena, porque sei que os esquilos são animais bastante pensadores. mas os olhos dele estavam no horizonte e tinha um ar sonhador, o que me fez duvidar da legalidade daquela bolota.

mergulhei os pés nesse chantilly que cai do céu em flocos para ver a escultura de perto e os meus joelhos andaram para ali numa luta que os fez parecer greco-romanos. mas valeu a pena.

vale sempre a pena, quando a manifestação da natureza não é de uma grandiosidade pequena.

terça-feira, janeiro 21, 2014

grande falha, mas vou a tempo de corrigir .

num escândalo dos mais graves que a humanidade jamais viu, esqueci-me de registar aqui a data exacta do aniversário dos dez anos deste vosso humilde blog que vos serve.

eis o post original de 11 de janeiro de 2004


muita água passou debaixo da ponte desde então e ainda mais sangue passou pelo meu (e pelo vosso) coração. é incrível o quanto a minha vida mudou de 2004 para 2014 e as diferenças de rumo que entretanto se verificaram. não só na minha vida como no tom da escrita do próprio blog.

essa incerteza da vida é provavelmente um dos seus mais belos motores.

apesar de a regularidade andar mais baixa do que o fundo da fossa das marianas, vou continuar a exercer o meu direito de tentar continuar a ser "oranginal", now and then, e agradeço a todos os que por aqui têm passado e me têm lido ao longo destes dez anos.

continuem a aparecer, são todos bem-vindos e não há consumo mínimo.

segunda-feira, novembro 25, 2013

ondas

o som das frestas meio abertas nunca me impressionou grande coisa. cheirava a pôr-do-sol e às ondas dos teus cabelos, enquanto as outras ondas saíam da rádio e o maurice chevalier cantava sobre rouxinóis e o amor. depois continuava num tom mais lento a falar sobre o mesmo tema. os rouxinóis esvoaçavam pela luz ténue e ríamos de alegria ao lembrar o dia em que a televisão voou janela fora e o tempo entrou feito tornado janela dentro.

baptizámos o barco com a garrafa de veuve, sem acelerar o passo, a ver as nuvens esperar pacientemente. lembras-te como as nuvens se vão juntando a pouco e pouco, fingindo que são formigas num carreiro, meio confusas sobre a altura certa para atirar baldes de água cá para baixo?

já longe da costa, perto do nada, mas como quem vai a sair para o tudo, ficámos a ver chover e atirámos os remos na direcção da água. decidimos que o acaso ia decidir onde o barco ia parar, adorávamos fazer de conta que éramos uma gigante mensagem-numa-garrafa. que fazia sentido desafiar o tempo e esperar oitenta anos ali sentados de mãos dadas, a imaginar o ontem, a tropeçar no hoje e a rir sobre o amanhã.

parou de chover, mas não parámos de sorrir. vimos juntos nuvem a nuvem pegar no seu balde, pôr o chapéu de côco na cabeça e ir embora com um ar rezingão. é tão bom quando se aquece mais de dentro para fora do que de fora para dentro e há tão pouco quem.

segunda-feira, novembro 18, 2013

décadas

lembro-me bem que, por circunstâncias variadas da vida, aos dez anos tinha uma ideia clara (por mais estranho que possa parecer) do que queria ser e de onde queria estar aos vinte anos. com toda a dificuldade que uma previsão dessas implica, o engraçado é que aos vinte anos estava quase por completo nesse plano imaginado ou idealizado dez anos antes.

chegado aos vinte (assim até parece que só penso o que quero fazer da vida de dez em dez anos, eu sei) voltei a fazer o exercício de tentar perceber onde queria estar dez anos depois. desta vez acho que falhei redondamente e a vida encarregou-se de me ensinar que quanto mais se cresce, pessoal e profissionalmente, mais difícil se torna tentar domar o nosso destino e muito mais factores entram em jogo do que no conforto e linearidade da infância e da adolescência.

porque esses tempos são fundamentais na formação da personalidade, sem dúvida, e têm, como é amplamente descrito mundo fora, vários períodos de turbulência e de ultrapassagem desta ou daquela barreira. mas, na verdade, um jovem que cresça num ambiente normal, com o devido amor e carinho, num país desenvolvido, vive toda essa fase ainda numa redoma gigante, e muitos desses conflitos interiores não são mais do que necessidades de alguma turbulência para ajudar à combustão do ser.

chegar à conclusão de que estamos num ponto em que não achámos dez anos antes vir a estar não é obrigatoriamente mau, não me interpretem mal. é apenas mais um daqueles casos em que o destino (como se ele existisse) se encarrega de largar uma risada perante a nossa ingenuidade prévia de achar que a vida é como um jogo de computador, que temos vidas extra, que temos um controlador nas nossas mãos e que podemos fazer reset a qualquer momento. não é o caso. e por um lado ainda bem.

domingo, novembro 10, 2013

era noite

nunca ficou bem claro onde é que tínhamos deixado a nave estacionada. eu achava que tinha sido atrás dos arbustos nas dunas, mas tu insistias que tinha sido mesmo ao pé do mar. bem diz o ditado que à noite todos os gatos são pardos e aparentemente todos os extraterrestres perdem o sentido de orientação.

quando entrámos no bar da praia ficou tudo a olhar para nós com um ar esquisito. achei aquilo digno de alguma falta de educação, mas, em defesa das pessoas que ali estavam, não deve ser habitual verem entrar porta dentro dois seres com cinco braços e dez pernas. já seres sem cérebro vêem com frequência, mas isso fica para outra conversa.

lembro-me do teu ar irritado por termos dado tanto nas vistas. eu ia jurar que tinha analisado ao pormenor a civilização humana e que bastava ter umas havaianas nos pés para passar despercebido na multidão. lembraste, e bem, como sempre, que umas havaianas talvez ajudassem, mas ter cinco pares calçados cheira a esturro.

ficou ainda um silêncio esquisito quando cada um de nós pediu um gin com molibdénio e duas pedras de zircónio. ficou tudo parado a olhar para nós e eu limitei-me a perguntar se era estranho naquele planeta as pessoas beberem gin. riram-se todos muitos e ainda hoje não entendo porquê.

finalmente descobrimos a nave. claro que não pegou à primeira, a lei de murphy estende-se para lá da ionosfera, mas foi com grande alívio que dali saímos e fomos passar o resto da lua-de-mel numa daquelas cabanas pitorescas num dos anéis de saturno. 

quarta-feira, novembro 06, 2013

as formigas falam muito nisso

talvez seja o facto de a data que comemora os meus trinta anos de pulmões funcionantes (com alguma ironia, porque na primeira década tive uma asma de difícil tratamento e dei mais trabalho e sustos aos meus pais do que um tamagotchi nervoso) se estar a aproximar, talvez seja do tempo que aqui não se decide se quer continuar a brincar ao outono ou se se fecha de vez no inverno, ou talvez seja até do alinhamento das nuvens com os planetas e com a porta do meu prédio, seja a causa a que for, esta aproximação a um marco histórico tem trazido à superfície o meu eu mais existencialista.

apesar das muitas coisas que fazem pouco sentido vida fora, enquanto as linhas das páginas dos meus cadernos me continuarem a sorrir, o fumo da mistura de chá verde com chá oolong continuar a sair aos pulos da caneca e as formigas me continuarem a contar o seu dia-a-dia e quantos grãos de açúcar conseguiram transportar, as coisas podem continuar a fazer muito ou pouco sentido, que explorá-las, por si só, é combustível suficiente para a vida.

segunda-feira, setembro 30, 2013

sonho


Sonho por vezes que não tive de abandonar o meu país. Que pude continuar no conforto de quem conhece de cor o meu coração, de quem sorri com empatia a cada um dos meus gestos, de quem sabe baralhar os ingredientes que eu gosto e voltar a dá-los, num prato fumegante e devorável.

Sonho que o meu país não é um sítio onde o apelido vale mais do que o mérito, onde se dá mais valor a títulos atrás do nome ou a palavras caras do que a sentimentos verdadeiros, seja a julgar papiros, seja a julgar uma vida. Não existem lugares perfeitos, mas existem alguns com mais escuridão do que o fundo de um poço em dia de lua nova.

Sonho que o meu país não se deixou invadir por hordes zombies, sem qualquer pedigree intelectual, mas com a sobranceria de achar que o têm. Imagino (ou será que sonho? Ou que invento?) que estou sentado no muro que guarda a praia, a olhar o horizonte, alheado de todo o barulho atrás de mim (se calhar “absorto em pensamentos” fica mais bonito, mais pomposo, mais “je ne sais quoi”). Atrás de mim oiço discussões furiosas, gritos viscerais, gente a falar do nível de rating do rimbaud, do segundo pedido de resgate da beauvoir e do crescimento do PSI20 literário. Finalmente consigo fechar os ouvidos e deixar de ver o que ali se passa. Concentro-me nos caranguejos que brincam na areia e sorrio quando me apercebo que carregam o seu jantar, indiferentes ao que se passa atrás de mim.

Salto do muro, em direcção a uma realidade bem melhor, e começo a conversar com os caranguejos sobre a vida. Dizem-me que andam preocupados com a proximidade dos cometas e que têm gasto fortunas em jarros com filtros, porque a água do mar anda cheia de mercúrio e outros metais pesados. Claro que daí a conversa desliza para a tabela periódica. Vamos buscar pedrinhas e jogamos à macaca em cima da tabela até o sol se pôr. Quando o sol se põe, acabo por me despedir, e eles lá me confessam, com ar envergonhado, que o jantar hoje vão ser pernas de ser humano ao natural. Mas está tudo bem, explico-lhes, como o mundo anda, é mais justo devorar humanos regados com sumo de limão do que dar conta da sua alma.