quarta-feira, Julho 16, 2014

meio vivo meio alive

quis a coincidência das datas da minha passagem anual por terras lusas que este ano eu conseguisse ir ao alive. é melhor chamar-lhe só "alive" que a confusão entre optimus e nos ainda gera alguma guerra civil.

tenho dificuldade em definir o meu festival favorito em portugal, porque todos têm coisas que me agradam. o sudoeste é imbatível na localização em plena costa vicentina, o super bock super rock costuma ter dos meus cartazes favoritos e também tem a praia do meco por perto, e o alive tem uma localização também ela fantástica, que permite fazer vida de lisboa durante o dia e no pos-festival, e assistir a uma data de concertos com vista para o tejo.

sendo que estes festivais são para todas as idades, uma boa forma de não irem para lá a sentir que são velhos é irem vestidos de uma forma que não vos faça parecer velhos. no primeiro dia, por circunstância de outras voltas, fui para algés de camisa branca, com ar de pai, e na fila de entrada para o festival perguntava-me se havia alguém que não achasse que estava a entrar ali apenas para ir vigiar os meus filhos. nada de grave, porque o barulho das luzes tudo disfarça.

antes de entrar consegui passar por turista tonto, já que passei meia hora numa fila para levantar o bilhete que não era a minha, para depois finalmente perceber que nem tinha de ficar em fila nenhuma, e que a pulseira só se trocava do lado de dentro. quase me senti impelido a dizer "ah, desculpe, vocês os jovens é que percebem destas coisas", mas acabei por apenas sorrir e me deslocar na direcção das massas, de orelhas baixas.

assim que entrei dei de caras com o melhor que os festivais têm, as pessoas. por muito que adore música, se não fosse pelos amigos os festivais não valiam nem 30% do que valem. estudos mostram. se não mostram, deviam mostrar.

os concertos variaram entre bons, muito bons e ligeiramente desapontantes. dos lumineers só conhecia a música de pôr os escravos a remar nos barcos, mas o concerto foi agradável, no registo fim de tarde em nashville. os imagine dragons deram um bom concerto, embora também só reconheça as músicas que são usadas em anúncios de televisão ou jogos de computador. finalmente chegaram os arctic monkeys, bons que dói, mas com um concerto curtinho, muito automatizado, e a deixar algo a desejar. ainda assim muito bons, don't get me wrong, a fasquia é que está sempre elevada para o alex e companhia. ah, e ninguém começa um concerto com a sua música mais conhecida. diz na bíblia e é verdade.

no segundo dia entrei no recinto a uma hora em que parecia estar a ser congeminada uma revolução política no palco principal. depois lá entraram os MGMT, com alguns problemas de som, mas quem tem o kids tem tudo. finalmente chegaram os meus vizinhos do ohio, os black keys, que, apesar do último album não ser grande espingarda, conseguiram dar um óptimo concerto, porque têm "homens de palco" escrito na testa. melhor do que o concerto só gente estranha a fazer mosh pits num concerto de black keys. eu sei que eles têm "black" no nome, mas é preciso beber uma quantidade considerável de álcool para confundir "keys" com "sabath". o mesmo grupo do mosh pit pôs-se a tentar criar pirâmides humanas com várias camadas, o que me faz pensar que deram com a data errada e acharam que estava ali instalado no passeio marítimo de algés o cirque du soleil. ainda fugi do circo para ir dizer um olá às minhas au revoir simone, mas logo me voltei a encontrar perdendo-me.

não me vou alongar muito mais, que já devem ter desistido de ler no segundo parágrafo, mas de resto o festival teve aquilo que sempre tem, entre cerveja, comida, ouvidos a zunir e coisas que tais. acima disso tudo, sempre as pessoas. os reencontros, os encontros, os bonecos insufláveis que distraem, as luas cheias que distraem, as cinturas que distraem, um festival tem tanto a acontecer que a atenção é fortemente testada. mas deixem-se ir na onda e o mais provável é conseguirem sair de lá mais felizes do que entraram.


segunda-feira, Maio 05, 2014

régua de felicidade

" és feliz? "

se vos fizerem esta pergunta, o mais provável é começarem a patinar e gaguejar enquanto tentam responder honestamente. acabam por dar uma resposta remendada, feita às três pancadas, e isso acontece, acima de tudo, pela falta de coragem que temos para parar de vez em quando e pensar na resposta a esta pergunta.

uns imaginarão a felicidade brilhando como diamantes, com postais de ilhas paradisíacas, águas claras e lagostas crepitantes a sair da grelha, enquanto vão polindo o brilho ao seu carro de luxo. outros cairão no pseudo-romantismo de abraçar uma felicidade primitiva, o amor e uma cabana, as estrelas tão bonitas lá no céu e para que precisamos do mundo e para que precisa o mundo de nós (até serem mordidos por um animal venenoso e irem a correr aflitos para o hospital).

a felicidade propriamente dita é impossível de definir. é ler e ver e ouvir, para entender que há milhares de anos que gente que sabe e gosta de pensar se questiona sobre isso, sem chegar a grandes conclusões, apenas a argumentos. não haverá provavelmente A felicidade, mas sim UMA felicidade, a de cada um, a dos com que cada um vive. e os copos de medida, os pesos na balança, serão diferentes de indivíduo para indivíduo, o que releva o erro da felicidade comparada, erro tantas vezes cometido.

vivemos na sociedade da comparação. pensamos se sabemos mais ou menos do que os outros, se fomos a mais ou menos sítios do que os outros, se ganhamos mais ou menos do que os outros. perdidos neste jogo de gráficos esquecemo-nos frequentemente de respirar e aproveitar um fim de tarde, ou de correr à chuva e recordar que a pele está viva e em contacto com a natureza.

não existirão panaceias ou medidas certas, mas acho que um dos passos mais importantes para a felicidade é conseguir ficar feliz com a felicidade dos outros.

domingo, Maio 04, 2014

as pessoas e a cómoda

a vida tem a mania de se compartimentalizar. são estados atrás de estados na infância, são fases atrás de fases na adolescência, são saltos de ponto para ponto na vida adulta. são muitos anos passados à face da terra (na verdade são sempre muito poucos) em que tanto pessoas como coisas fluem por nós. aparecem e desaparecem da nossa vida como incandescentes meteoritos quando invadem a atmosfera.

para tudo isto, e sem ser por vontade própria, desenhamos dezenas ou centenas de gavetas, destinadas a cada um destes encontros vida fora. umas gavetas são abertas uma vez e logo fechadas para a eternidade. outras são abertas quando calha, e quando de lá salta a pessoa que ali esteve fechada anos a fio, é instantânea a corrente eléctrica que salta da gaveta para a nossa pele e acaba a aquecer o coração. outras gavetas há que trancamos a sete chaves e, ainda assim, vamos confirmar se não há hipótese de quem lá prendemos sair pela parte de trás do móvel. 

penso muito na ironia das palavras com que terminam muitos dos encontros. um "então havemos de combinar qualquer coisa", um "isto é só até já", um "vamos falando", que são tantas vezes voltas dadas à chave sem que nos apercebamos que estão a ser dadas. a relevância de viver o momento, de dar abraços sentidos, de marcar as pessoas, de partilhar risos e sorrisos e lágrimas, é que cada momento tem demasiado valor para que não seja vivido como tal. a vida troca-nos as voltas, os temporários passam a definitivos, as certezas esfumam-se como papel envelhecido e nada é mais garantido do que apostar as fichas quase todas no presente e esperar que a roleta se porte bem.

claro que a vida não são só gavetas. temos os distintos, os especiais, aqueles que não merecem chave porque têm sempre o coração aberto à nossa espera. esses vivem em molduras, emproados em cima da cómoda, sempre à distância de um esgar. moram em cima de todas as gavetas que resolvemos (teremos mesmo resolvido?) abrir e fechar, como se fossem estrelas a viver acima dos meteoritos.

segunda-feira, Abril 21, 2014

dar voltas à pista

hoje entrei no supermercado e um senhor de nobre idade fez-me sinal. precisava de ajuda para pôr o saco das compras ao ombro, porque problemas nas articulações o impediam de ter força e amplitude de movimento para conseguir completar uma tarefa tão simples.

os dias passam no calendário como carros e pilotos a dar voltas à pista. as articulações gastam-se que nem pneus, a memória vai-se que nem combustível e as mudanças saltam freneticamente para cima e para baixo como se fossem estados de espírito. volta após volta vamos segurando a força dos Gs que nem uns corajosos, fingimos não notar o cheiro a queimado vindo das rodas e fintamos as poças de óleo que nem uns fitipaldis.

esquecemo-nos com demasiada frequência de parar nas boxes. bem sei que a pista chama e promete glória, mas o reabastecimento é tão essencial como o músculo de feições estranhas que bate dentro do peito.

sobre a pista que é a vida ninguém sabe bem o que é o pódio. mais uma razão para apreciar o caminho, que o destino fica a cargo do cronómetro e tudo o que trabalha a pilhas é suspeito.

quinta-feira, Abril 17, 2014

lição de hoje

se há coisa que aprendi bastante nos domingos de manhã da minha infância foi como a natureza funciona. também aprendi que a feira do relógio tinha um rico pão com chouriço e que cair em cima da cal dos campos de futebol pelados queimava a pele, mas isso talvez não tenha tanta importância para o assunto de hoje.

bebendo pelos olhos todos os programas que o ecrã teimava em expulsar, fosse a vida selvagem inglesa ou o outro a esconder-se atrás de arbustos, aprendi várias lições que ficaram para a vida. uma delas tinha a ver com o padrão de acasalamento das zebras. as zebras, sejam macho ou fêmea, têm uma característica engraçada, a de perderem a atracção por uma zebra do sexo oposto que faça a corte a todas as zebras que se mexem (e mesmo a uma ou outra mais estática do que uma múmia egípcia). quando isso acontece, não só perdem a atracção como a cor das suas listas até se pode inverter. as listas brancas passam a pretas e vice-versa, é a forma que a natureza tem de metaforicamente abanar a cabeça em sinal de desaprovação.

como é óbvio esta história não é mais do que uma invenção da minha cabeça. já a lição...

sábado, Abril 12, 2014

take two

a música não era nada de especial. o vocalista parecia ter não álcool no sangue mas sim sangue no álcool e a voz tremia-lhe mais do que uma casa construída em cima do anel de fogo.

a luz era morna, sobretudo comparada com a tua pele. falámos horas a fio de quão tudo é relativo, da temperatura das peles ao movimento dos girassóis atrás da estrela todo o dia. discutimos alegremente a falsidade do céu azul, pintado às escondidas para nos dar uma sensação de conforto. que não existe. que é inventado em becos cósmicos, como quem rouba um beijo enquanto um candeeiro se acende e apaga, incerto sobre a energia que lhe corre nas veias. ou nos fusíveis. uma das duas.

fiz um esforço hercúleo para me concentrar nas palavras, enquanto a minha atenção se prendia nos teus cabelos, os meus olhos se enrolavam no teu pescoço e o coração dava pulos capazes de ir à medalha de ouro nos jogos olímpicos.

as noites frias. as noites quentes. depende. tudo. depende tudo de tanta coisa. e no fundo depende de tão pouca.

a música não era nada de especial. mas isso nunca importou.

domingo, Março 30, 2014

o valor da opinião

eu ainda sou do tempo (já começamos mal) em que a opinião era uma coisa difícil de difundir. para ter tempo de antena num jornal ou para ter um livro publicado era preciso ter qualidade à prova de bala. ou uma boa cunha. mas apesar de tudo, em geral, o critério "qualidade" tinha tendência a prevalecer.

num ápice veio esta maravilhosa democratização em que todos temos direito a blogs, podemos publicar livros de borla online e dão-nos colunas em jornais diários como quem oferece jornais de qualidade duvidosa no metro e nas filas de trânsito.

uma coisa que tinha tudo para ser boa, abrindo o mundo a mais opiniões e pontos de vista, tem sido, na minha modesta opinião, um semi-desastre. e o "semi" é só porque pelo meio do imenso ruído se descobrem pessoas e opiniões de muito valor, que nunca teriam atingido a ribalta na apertada meritocracia do passado. mas para encontrar essas trufas é preciso escavar em tanta terra vazia que chega a ser desesperante.

toda a gente se arroga o direito de ter opinião sobre tudo, o que é válido, mas crêem-se também no direito de que todos saibam aquilo que acham. vivem na ditadura dos likes e dos RTs e medem o seu ego em função do que acham que é a sua capacidade de propagar a meia dúzia de idiotices desinformadas que têm a expelir sobre todo e qualquer tema.

pior do que isso, têm por vezes sucesso nessa sua difusão. e com o sucesso do volume de difusão acham que vem a confirmação da qualidade do produto, neste mundo que chutou para canto a qualidade e que adora dormir em conchinha com a quantidade.

este inverno por aqui tem sido muito longo, dêem-me um desconto. e enquanto me dão o desconto pensem duas vezes antes de abrir a boca sobre certas coisas, só vos fica bem. mesmo que vos traga menos fãs.


(p.s.: eu reconheço todo o paradoxo de eu próprio estar a difundir uma opinião. mas que seria da vida sem paradoxos, não podem ser só sóis a nascer e a ir-se deitar.)

bully de almas

há qualquer coisa com o sol a pôr-se e com o sol a nascer. eu tenho um stendhal constante com esses preciosos momentos, mas parece-me que o que me afecta é viral e contagia bem mais de meio mundo.

são instantes passageiros mas que, como nenhuns outros, nos lembram dos ciclos, nos ajudam a re-centrar, nos afirmam duas vezes ao dia que continua tudo a girar e que o caminho é para a frente ou para trás, mas à volta do eixo pela certa. 

já é de manhã. já é de noite. os pássaros carregam no play ou no pause consoante o evento. são muito mais ordenados do que nós, aqueles com a mania de andar só sobre as duas pernas e que não usam os membros superiores para voar. 

o que é uma pena. seria tão mais fácil perseguir o sol com asas. com alguma distância, que não queremos soltar o ícaro que há em nós. mas ainda não perdi a esperança de passar mais de vinte e quatro horas atrás do sol (embora já tenha andado bem perto disso, mas com ajuda de motores não conta).

estou a desenhar o aparelho, a montar as asas e a magicar o plano. depois aviso. não se preocupem.

sábado, Março 22, 2014

ardente

a facilidade com que os dedos se entrelaçam. a dificuldade com que os dedos se soltam. lembra-me o momento em que as forças centrífugas brincam com as centrípetas e rodam que nem crianças a brincar no jardim.

os dias passam, as páginas viram uma a seguir à outra, a tinta sangra da esquerda para a direita (noutros lados da direita para a esquerda), mergulha nas linhas, salta entre elas, rasura o fim e recria o princípio.

são lágrimas de preto misturadas com lágrimas de branco. fazem das linhas pautadas música e crescem como o 1812 do tchaikovsky. deixam o barco do pedro para trás, grande ou pequeno, atravessam a ponte. sentam-se nos degraus a olhar para o cristo salvador, sem perceber se a cúpula dourada os salva ou se salvam eles a cúpula. atiram-se ao rio. fogem para norte.

param.

olhos claros. parar. observar. lábios cheios. lua também. cabelos longos. sempre os cabelos longos montados em pescoços ainda mais longos e capazes de derrotar impérios. mais cúpulas. mais telhados. mais túneis. mais noites. sinto lá ao longe o napoleão a capitular. sem tirar a mão do casaco. guarda a carteira como quem guarda um império. 

é assim que os impérios começam, crescem, caem e se levantam. até os faraós capitularam numa sexta à noite e renasceram uns dias depois, com menos papiro à volta do coração.



segunda-feira, Fevereiro 24, 2014

inversão

o sol entrava decidido pelas frestas das persianas, teimando em desenhar sombras chinesas, exércitos de luz, outrora de terracota, agora de claridade. enquanto os fotões traziam a imaginação à parede, a minha mente andava perdida por outros mundos, a anos-luz de distância.

era como se fosse hoje. entrei pela porta verde, com as letras pintadas a branco, de fresco, fiquei até com um ou dois dedos sarapintados, e as teias de aranha faziam adivinhar que do lado de lá se encontrava um tesouro daqueles que demoram séculos a descobrir. o baú tinha um código, mas era fácil de descobrir, 083, era estranhamente evidente. enquanto rodei a combinação, senti um largo sorriso no escuro, atrás de mim. por segundos tive a certeza de ter por perto o gato da alice. só que este país tinha poucas maravilhas e a pressa era muita para chegar ao conteúdo do cofre. sacudido o pó, e ultrapassado o ataque de tosse da praxe, vi por fim a garrafa e o líquido túrbido no seu interior. tinha cor de ser vítima dos anos, ar de ter vapor de experiência e um travo a sabedoria. arranquei com violência a rolha gasta e bebi tudo de um trago, certo de que há coisas na vida que ou são ou não são.

de repente tudo ficou mais claro. após o pânico do momento em que tudo parou, foi com enorme alívio que senti a terra recomeçar a rodar, mas desta vez em sentido contrário. à frente dos meus olhos vi o caos em que tudo entrou. vi as marchas-atrás passarem a marchar para a frente, os comboios a chiar de pernas para o ar e os arranha-céus a virar arranha-terras. ninguém sabia bem o que fazer mas eu sabia, mais do que nunca, com certeza, que tínhamos voltado a entrar nos eixos.

quinta-feira, Fevereiro 13, 2014

a vida tem muito de tomb raider

a lebre saiu disparada de tal forma que era quase garantido que ia bater recordes. superou-se com os gritos vindos das bancadas, com o bruá de satisfação de todos os espectadores, com a espectacularidade do seu avanço.

a lebre chegou primeiro a quase tudo. na vida, como nas corridas de animais em fábulas, há tendência a ligar o sucesso (pessoal, profissional, o que vocês quiserem-al) ao imediatismo com que a ele se chega. o ' depressa e bem há pouco quem ' passou de moda numa época em que o foco em qualquer assunto ou objecto dura segundos e a pressa se entrelaça com fios de stress ao longo de qualquer dia da semana.

não vale a pena. somos crianças com pressa de chegar a adultos, para depois vir a pressa de ser adultos mais completos, de acelerar em direcção a um sucesso que muitas vezes não parámos sequer para definir ou entender. hipotecamos o presente em função de um futuro que será ele também um presente hipotecado. a menos que paremos a espaços, que nos sentemos no banco do jardim e deixemos os sentidos fazer o que eles sabem. todas as máquinas precisam de resets. todos os corpos precisam de sol e de silêncio e de pausas que dancem com tumultos. os pores-do-sol de mãos dadas com a natureza são oxigénio para a alma, e servem para entender que o ' aqui e agora ' é bem mais palpavél do que o que vem a seguir.

forçam-nos a ser lebres, mas muito do que somos depende daquilo que aceitamos que façam de nós.

é sempre bom lembrar que no fim de contas foi a tartaruga que levou a melhor.

visto isto

estou maravilhado com a ideia de atribuir vistos gold para viver e trabalhar em portugal a tudo o que é talento e artista e investigador e não sei quê.

os meus olhos ficam irrigados de lágrimas só de imaginar o influxo de actores birmaneses, cientistas norte-coreanos e anões polinésios, que de repente vão dar outros mundos ao mundo nesse rectângulo onde todos querem habitar.

custa-me que os vistos gold fiquem por aqui. deviam ser estendidos a mais actividades e mesmo aos animais (os de quatro patas). é enternecedor imaginar a beleza de elefantes quenianos a andar livremente pelos arredores de arraiolos, anacondas felizes em alcochete e gorilas gaboneses em êxtase no vimioso.

por outro lado, lembrei-me de repente de um livro muito jeitoso do tio patinhas, onde vinha a dizer que "nem tudo o que luz é ouro". espero que quem se vai atirar de cabeça aos vistos não fosse adepto na infância de ler bonecos da disney, ou ainda acabam a ter de fazer um downgrade dos vistos para prata ou bronze para conseguir candidatos em barda.

vejam lá isso.

quarta-feira, Fevereiro 12, 2014

congelados

congelaram primeiro umas poças de água manhosas que estavam ali à saída do restaurante chinês. depois congelou a berma da estrada, catapultou-se o lago dos patos e logo se seguiu o lago que se vê do céu. dos satélites. da lua, com uns bons binóculos ou com um telescópio daqueles que eu queria sempre pelo natal.

quando dei por mim estavam esculturas de gelo penduradas em ramos de árvore. o artista não recebeu comissão, trabalha barato e mais por vontade própria do que por necessidade de fama. dei a volta ao quarteirão para procurar a bilheteira, porque sou inimigo de entrar à socapa, mas não encontrei quem cobrasse a entrada. só um esquilo, pendurado num cabo da luz, a olhar para mim enquanto trincava uma bolota. fiquei um bocado a pensar no que é que ele estaria a pensar de toda esta cena, porque sei que os esquilos são animais bastante pensadores. mas os olhos dele estavam no horizonte e tinha um ar sonhador, o que me fez duvidar da legalidade daquela bolota.

mergulhei os pés nesse chantilly que cai do céu em flocos para ver a escultura de perto e os meus joelhos andaram para ali numa luta que os fez parecer greco-romanos. mas valeu a pena.

vale sempre a pena, quando a manifestação da natureza não é de uma grandiosidade pequena.

terça-feira, Janeiro 21, 2014

grande falha, mas vou a tempo de corrigir .

num escândalo dos mais graves que a humanidade jamais viu, esqueci-me de registar aqui a data exacta do aniversário dos dez anos deste vosso humilde blog que vos serve.

eis o post original de 11 de janeiro de 2004


muita água passou debaixo da ponte desde então e ainda mais sangue passou pelo meu (e pelo vosso) coração. é incrível o quanto a minha vida mudou de 2004 para 2014 e as diferenças de rumo que entretanto se verificaram. não só na minha vida como no tom da escrita do próprio blog.

essa incerteza da vida é provavelmente um dos seus mais belos motores.

apesar de a regularidade andar mais baixa do que o fundo da fossa das marianas, vou continuar a exercer o meu direito de tentar continuar a ser "oranginal", now and then, e agradeço a todos os que por aqui têm passado e me têm lido ao longo destes dez anos.

continuem a aparecer, são todos bem-vindos e não há consumo mínimo.

segunda-feira, Novembro 25, 2013

ondas

o som das frestas meio abertas nunca me impressionou grande coisa. cheirava a pôr-do-sol e às ondas dos teus cabelos, enquanto as outras ondas saíam da rádio e o maurice chevalier cantava sobre rouxinóis e o amor. depois continuava num tom mais lento a falar sobre o mesmo tema. os rouxinóis esvoaçavam pela luz ténue e ríamos de alegria ao lembrar o dia em que a televisão voou janela fora e o tempo entrou feito tornado janela dentro.

baptizámos o barco com a garrafa de veuve, sem acelerar o passo, a ver as nuvens esperar pacientemente. lembras-te como as nuvens se vão juntando a pouco e pouco, fingindo que são formigas num carreiro, meio confusas sobre a altura certa para atirar baldes de água cá para baixo?

já longe da costa, perto do nada, mas como quem vai a sair para o tudo, ficámos a ver chover e atirámos os remos na direcção da água. decidimos que o acaso ia decidir onde o barco ia parar, adorávamos fazer de conta que éramos uma gigante mensagem-numa-garrafa. que fazia sentido desafiar o tempo e esperar oitenta anos ali sentados de mãos dadas, a imaginar o ontem, a tropeçar no hoje e a rir sobre o amanhã.

parou de chover, mas não parámos de sorrir. vimos juntos nuvem a nuvem pegar no seu balde, pôr o chapéu de côco na cabeça e ir embora com um ar rezingão. é tão bom quando se aquece mais de dentro para fora do que de fora para dentro e há tão pouco quem.

segunda-feira, Novembro 18, 2013

décadas

lembro-me bem que, por circunstâncias variadas da vida, aos dez anos tinha uma ideia clara (por mais estranho que possa parecer) do que queria ser e de onde queria estar aos vinte anos. com toda a dificuldade que uma previsão dessas implica, o engraçado é que aos vinte anos estava quase por completo nesse plano imaginado ou idealizado dez anos antes.

chegado aos vinte (assim até parece que só penso o que quero fazer da vida de dez em dez anos, eu sei) voltei a fazer o exercício de tentar perceber onde queria estar dez anos depois. desta vez acho que falhei redondamente e a vida encarregou-se de me ensinar que quanto mais se cresce, pessoal e profissionalmente, mais difícil se torna tentar domar o nosso destino e muito mais factores entram em jogo do que no conforto e linearidade da infância e da adolescência.

porque esses tempos são fundamentais na formação da personalidade, sem dúvida, e têm, como é amplamente descrito mundo fora, vários períodos de turbulência e de ultrapassagem desta ou daquela barreira. mas, na verdade, um jovem que cresça num ambiente normal, com o devido amor e carinho, num país desenvolvido, vive toda essa fase ainda numa redoma gigante, e muitos desses conflitos interiores não são mais do que necessidades de alguma turbulência para ajudar à combustão do ser.

chegar à conclusão de que estamos num ponto em que não achámos dez anos antes vir a estar não é obrigatoriamente mau, não me interpretem mal. é apenas mais um daqueles casos em que o destino (como se ele existisse) se encarrega de largar uma risada perante a nossa ingenuidade prévia de achar que a vida é como um jogo de computador, que temos vidas extra, que temos um controlador nas nossas mãos e que podemos fazer reset a qualquer momento. não é o caso. e por um lado ainda bem.

domingo, Novembro 10, 2013

era noite

nunca ficou bem claro onde é que tínhamos deixado a nave estacionada. eu achava que tinha sido atrás dos arbustos nas dunas, mas tu insistias que tinha sido mesmo ao pé do mar. bem diz o ditado que à noite todos os gatos são pardos e aparentemente todos os extraterrestres perdem o sentido de orientação.

quando entrámos no bar da praia ficou tudo a olhar para nós com um ar esquisito. achei aquilo digno de alguma falta de educação, mas, em defesa das pessoas que ali estavam, não deve ser habitual verem entrar porta dentro dois seres com cinco braços e dez pernas. já seres sem cérebro vêem com frequência, mas isso fica para outra conversa.

lembro-me do teu ar irritado por termos dado tanto nas vistas. eu ia jurar que tinha analisado ao pormenor a civilização humana e que bastava ter umas havaianas nos pés para passar despercebido na multidão. lembraste, e bem, como sempre, que umas havaianas talvez ajudassem, mas ter cinco pares calçados cheira a esturro.

ficou ainda um silêncio esquisito quando cada um de nós pediu um gin com molibdénio e duas pedras de zircónio. ficou tudo parado a olhar para nós e eu limitei-me a perguntar se era estranho naquele planeta as pessoas beberem gin. riram-se todos muitos e ainda hoje não entendo porquê.

finalmente descobrimos a nave. claro que não pegou à primeira, a lei de murphy estende-se para lá da ionosfera, mas foi com grande alívio que dali saímos e fomos passar o resto da lua-de-mel numa daquelas cabanas pitorescas num dos anéis de saturno. 

quarta-feira, Novembro 06, 2013

as formigas falam muito nisso

talvez seja o facto de a data que comemora os meus trinta anos de pulmões funcionantes (com alguma ironia, porque na primeira década tive uma asma de difícil tratamento e dei mais trabalho e sustos aos meus pais do que um tamagotchi nervoso) se estar a aproximar, talvez seja do tempo que aqui não se decide se quer continuar a brincar ao outono ou se se fecha de vez no inverno, ou talvez seja até do alinhamento das nuvens com os planetas e com a porta do meu prédio, seja a causa a que for, esta aproximação a um marco histórico tem trazido à superfície o meu eu mais existencialista.

apesar das muitas coisas que fazem pouco sentido vida fora, enquanto as linhas das páginas dos meus cadernos me continuarem a sorrir, o fumo da mistura de chá verde com chá oolong continuar a sair aos pulos da caneca e as formigas me continuarem a contar o seu dia-a-dia e quantos grãos de açúcar conseguiram transportar, as coisas podem continuar a fazer muito ou pouco sentido, que explorá-las, por si só, é combustível suficiente para a vida.

segunda-feira, Setembro 30, 2013

sonho


Sonho por vezes que não tive de abandonar o meu país. Que pude continuar no conforto de quem conhece de cor o meu coração, de quem sorri com empatia a cada um dos meus gestos, de quem sabe baralhar os ingredientes que eu gosto e voltar a dá-los, num prato fumegante e devorável.

Sonho que o meu país não é um sítio onde o apelido vale mais do que o mérito, onde se dá mais valor a títulos atrás do nome ou a palavras caras do que a sentimentos verdadeiros, seja a julgar papiros, seja a julgar uma vida. Não existem lugares perfeitos, mas existem alguns com mais escuridão do que o fundo de um poço em dia de lua nova.

Sonho que o meu país não se deixou invadir por hordes zombies, sem qualquer pedigree intelectual, mas com a sobranceria de achar que o têm. Imagino (ou será que sonho? Ou que invento?) que estou sentado no muro que guarda a praia, a olhar o horizonte, alheado de todo o barulho atrás de mim (se calhar “absorto em pensamentos” fica mais bonito, mais pomposo, mais “je ne sais quoi”). Atrás de mim oiço discussões furiosas, gritos viscerais, gente a falar do nível de rating do rimbaud, do segundo pedido de resgate da beauvoir e do crescimento do PSI20 literário. Finalmente consigo fechar os ouvidos e deixar de ver o que ali se passa. Concentro-me nos caranguejos que brincam na areia e sorrio quando me apercebo que carregam o seu jantar, indiferentes ao que se passa atrás de mim.

Salto do muro, em direcção a uma realidade bem melhor, e começo a conversar com os caranguejos sobre a vida. Dizem-me que andam preocupados com a proximidade dos cometas e que têm gasto fortunas em jarros com filtros, porque a água do mar anda cheia de mercúrio e outros metais pesados. Claro que daí a conversa desliza para a tabela periódica. Vamos buscar pedrinhas e jogamos à macaca em cima da tabela até o sol se pôr. Quando o sol se põe, acabo por me despedir, e eles lá me confessam, com ar envergonhado, que o jantar hoje vão ser pernas de ser humano ao natural. Mas está tudo bem, explico-lhes, como o mundo anda, é mais justo devorar humanos regados com sumo de limão do que dar conta da sua alma.

segunda-feira, Setembro 16, 2013

silêncio sem inocentes

ainda bem que não faço promessas sobre a frequência da minha escrita, porque ultimamente anda tão frequente como a passagem do cometa X ou Y perto da terra.

e cada vez que me lembro disso aperto o cilício. dava-me tão bem há duas décadas atrás no meu mundinho cheio de leitura e de escrita. isto de brincar aos adultos não tem piada nenhuma. isto de ter de se fazer porque tem de ser em vez de ser porque parece divertido devia ser revisto. aposto que na constituição da república terrestre há qualquer coisa que impede que o mundo nos consuma em vez de sermos nós a consumir o mundo.

mas de cada vez que me aparece um destes protestos, em regime de velho marreta, vejo um esquilo passar com uma bolota na boca, olhar para mim assustado, convicto de que lhe quero roubar a bolota. e isso volta a fazer-me sentir o sangue quente a correr pelas veias, os olhos humedecidos de vida e a certeza de que mesmo cheio de pressões o mundo vale a pena a cada virar de esquina.

quarta-feira, Junho 26, 2013

transparências

o mundo é um lugar em constante mudança. desde a primeira hora, do primeiro minuto e do primeiro segundo. é essa aliás a essência da sua criação. se as moléculas tivessem permanecido estáveis, de mão dada a olhar para a lua ou a apanhar sol numa esplanada, jamais teriam entrado em choque e dado origem, por exemplo, à vida.

não sei se na origem do mundo existiam esplanadas. mas não tem grande importância para o caso. o que importa é que a rebelião entre elas degenerou numa bela sopa e a pouco e pouco tudo se foi orientando na direcção do que hoje somos e daquilo em que nos tornámos.

das coisas mais apaixonantes das descobertas científicas modernas (o dicionário não reconhece apaixonante como uma palavra válida, alguém lhe dê um beijo bem dado) é perceber que a mudança até se consegue ir cunhando à medida que o próprio indivíduo avança, e que determinadas características que conferem vantagem selectiva são passadas à geração seguinte, algo que até há poucos anos se julgava impossível. somos, assim, não meros espectadores do mergulho aleatório do nosso código genético, mas actores, com papéis mais principais ou mais secundários conforme a cena.

por entre maravilhosas descobertas, vamos paralelamente inventando formas de compensar o livre arbítrio dos genes com o demasiado apertado controlo das almas. cada vez somos mais visíveis, a cada esquina, a cada mesa de restaurante, a cada escadaria perdida cidade fora. deixámos a beleza do anonimato e da privacidade num qualquer espaço e tempo perdido e damo-nos ao mundo sem sequer questionar o que recebemos em troca. damos oxigénio para receber bytes. damos pixels para receber likes. damos a alma e o corpo e ainda um pouco mais e deixamos de nos saber centrar. num só eixo. num adequado casulo.

tempo. é tudo uma questão de tempo. chegará o dia em que as paredes de todas as nossas casas, de todos os nossos edifícios, não serão nada mais do que transparentes. e ter uma caixa à prova de tudo, à prova de olhares, à prova do mundo, será um luxo tão grande que nem sei sequer se será possível de encontrar. 

quarta-feira, Junho 12, 2013

a porta errada

o prédio era estranho. não há portas de prédios com motivos de ferro em cor-de-rosa e com um olho dentro de uma forma triangular. ainda assim entrou porta dentro com a decisão de quem sabe ao que vai.

ève charlier tentava demover pierre dumaine de abandonar o apartamento.
' você sabe que é muito muito perigoso. '
' perdoe-me ève, sabe bem que tenho de ir. são os meus amigos. eles vão ser massacrados, ève, sabe bem que não a amo menos por isso! '

ouvem-se passos pesados nas escadas e, após uma longa pausa, alguém bate à porta com insistência. pierre voa para junto do móvel onde guarda o revólver, que rapidamente tira e aponta à porta.
' quem é e ao que vem? '
' é do círculo de leitores! '
' círculo de leitores? o que é isso, homem? aposto que é um enviado do regente! '
' não, não, sou mesmo um enviado do círculo de leitores. faço toda esta zona de massamá. '
' massamá? mas você não sabe que está às portas de paris? '
' de paris? não pode ser... bom, adormeci no comboio, mas pensei que na pior das hipóteses acordava no cacém. '
' não entendo nada do que está para aí a dizer, mas vá-se embora imediatamente, não temos tempo para si! '
' então e os livros? '
' quais livros? '
' os que tenho aqui para lhe vender. tenho umas promoções mesmo boas, vai ver. '
' quero lá saber dos livros, homem! tenho uma revolução para fazer, desapareça! '
' mas olhe que a encadernação é de capa dura. '

perante o silêncio de dentro do apartamento acabou por decidir abandonar a cena com ar triste. após alguns minutos de reflexão uma certa indignação começou a subir-lhe pelas veias. não subiu logo tudo porque uma delas tinha um pequeno trombo, mas finalmente subiu o resto. ia ter de resolver esta situação na sede. quase apostava que o tinham mudado da zona de massamá para outras épocas históricas e ninguém o tinha sequer avisado.

' táxi! '

sábado, Junho 08, 2013

um, dois, experiência

dou por mim muitas vezes a pensar que o conforto da rotina retira alguma acutilância à capacidade de observação. fazer os mesmos caminhos, subir os mesmos degraus, repetir as mesmas tarefas, do alourar alho e cebola ao dobrar de camisas, permite-nos manter um padrão e entender a linha orientadora do dia-a-dia. a paz quase uterina que tudo isso nos traz (por mais que nos finjamos todos mentes hipercriativas e passemos o tempo a bradar aos céus que a rotina é um horror) é uma espécie de reset diário, um re-acertar dos ponteiros quando se encontram de novo ambos a zero graus e nas doze.

sair do ciclo da rotina e dar um mergulho nas águas do desconhecido pode ser abordado de modos bastante distintos. pode-se optar por ir com o medo do que nada naquelas águas escuras. pode-se tentar mergulhar com uma armadura medieval vestida imaginando-se mais esperto que todos os possíveis monstros marinhos. pode-se, por último, mergulhar com a descontracção de quem quer descobrir e experimentar em vez de usar todo aquele precioso tempo a temer o desconhecido.

ontem fui pela primeira vez a um concerto de metal. aparentemente há dezenas ou centenas de sub-tipos de metal e temo pela vida se arriscar dizê-los e o tiro me sair ao lado. não sendo um fã confesso deste género musical, adorei, no entanto, a experiência.

começo nas filas. vesti uma t-shirt preta e levava um casaco preto, achando que me ia sentir completamente integrado. assim que cheguei às filas para entrar notei logo várias falhas na minha indumentária e aparência. pelo menos uma das seguintes alíneas é indispensável: a) calças de camuflado, b) t-shirt ou camisola alusiva a uma das bandas presentes ou a outras bandas de metal, c) barba comprida e/ou cabelo comprido. não digo isto em tom jocoso. juro. tem muita piada observar aquele culto, observar aquela peregrinação conjunta de gostos e ideais, o componente mais ou menos político, mais ou menos filosófico, por trás das palavras (às vezes "palavras") dos vocalistas das várias bandas. a comunhão da cerveja, do eyeliner, dos cabelos esvoaçantes, seja para a frente e para trás seja imitando uma torre de energia eólica.

ao fim de quatro horas de concertos, e guardando mentalmente vários (muitos!) pormenores deliciosos para momentos criativos futuros, a minha principal conclusão foi de ter estado num grupo de gente bem disposta, educada e seguidora até de um conjunto de regras que não se encontram noutros concertos teoricamente mais "pacatos".

com isto não me tornei repentinamente o fã número um mundial de metal. mas, como tudo na vida, para falar das coisas, seja bem, mal, mais ou menos, ou assim assim, convém vivê-las e conhecê-las, nem que seja só uma vez.

domingo, Junho 02, 2013

contrariedades

aprendi, entre outros, com o cesário verde a ter um gosto especial por olhar pela janela nas horas mais tardias da noite, perdendo-me em pensamentos que se misturam com luzes de um ou outro quadrado isolados na escuridão.

são dezenas de janelas. são dezenas de vidas. são cortinas diferentes. são espaços abertos. vejo televisões que expulsam um arco-íris cá para fora. vejo silhuetas humanas. umas paradas, outras em leve e discreto movimento, dando fracas dicas sobre a pulsatilidade do coração que as abriga. não há fumo, neste sítio não há fumos nas janelas. e ácidos quando muito os da chuva, pelo menos na maior parte dos prédios, na maior parte dos dias.

há luzes que se apagam. pergunto-me quem está lá por trás. se é o fim do dia. se é a desistência da noite. se quem carregou o peso de pressionar o interruptor vai agora passar horas e horas a fio em sofrimento insoníaco. mudam as janelas que têm luz. mudam as janelas que estão apagadas.

não há simetria. nunca há simetria. não há engomadeiras tuberculosas. há mais pulmões. mas não há menos decadência. há mais tempo desde a revolução industrial. há menos tempo desde a ausência de revolução das mentalidades.

não fumei três maços. não vejo a vizinha ainda a trabalhar. agora tem mais vacinas, tem mais informação, tem roupas de mais cores. mas isso não resolve tudo. as ansiedades do mundo continuam a escorrer, da mesma forma, pelas paredes do quotidiano, hoje, como há duzentos anos.

segunda-feira, Maio 20, 2013

era uma vez

(homenagem ao la fontaine, adoro histórias com animais)

era uma vez, num reino muito muito distante, longe de todos os outros (pelo menos na maioria dos indíces económicos), um sistema em que meia dúzia de gordos mandavam sobre milhares de magros.

os gordos tiveram mais do que tempo para fazer dietas, mas nunca o fizeram. a vontade de comer gerava ainda mais vontade de comer e uma bola de neve fazia-os canibalizar mais magros, um a seguir ao outro. os magros, claro, passavam o dia a trabalhar para alimentar os gordos. por todo o reino gretavam as mãos na terra, suavam o sol na pele, trabalhavam, mais que de sol a sol, de lua a lua, e ainda assim tentavam manter o sorriso de quem está feliz. caíam no erro de acreditar nos gordos, que lhes prometiam mundos e fundos, quando, na verdade, para além de comer os magros, só se sabiam ajudar entre si.

como se isto não fosse suficiente os gordos ainda viviam sob o signo da conspiração. na plena noção do mal que faziam aos magros, no medo constante de perder o seu alimento e as bases que lhes promoviam os adipócitos, viviam na cobardia de não responder a algum magro que os desafiasse e a apagar a tentativa de qualquer magro de saltar fora do caminho que lhe estava estabelecido. em vez de responder à confrontação, escondiam-se por trás da sua própria incapacidade de justificar o que não tem justificação.

cometeram um grave erro, o de não se consciencializarem que os gordos, tal como os magros, não duram para sempre. e que a terra, onde tudo acaba, até agradece ter mais para comer.

quinta-feira, Maio 16, 2013

sobre as várias paixões da vida

as primeiras imagens que escorrem nas paredes mais longínquas da minha memória são de fumo de bifanas, cheiro a cerveja entornada pelo chão, mão dada ao meu pai e olhos sempre para cima, curiosos como os meus não sabem deixar de ser, na busca de entender o porquê de tantos homens grandes vestidos de encarnado se dirigirem ao mesmo sítio da cidade ao domingo à tarde.

depois, lembro-me de atravessar a ponte de pedra, de aguardar com paciência na fila para ser revistado, de atravessar as portas de ferro e de me avisarem para ter cuidado com o degrau. de subir intermináveis escadas até finalmente chegar ao cimo daquele amontoado de betão, cimento e ferro. trepar os últimos quatro/cinco degraus e sentir o meu pequeno coração a bater mais forte por saber que se estava a aproximar aquela visão magnífica de todo o estádio que só o terceiro anel permitia.

o contraste de um relvado verde com bancadas impregnadas de vermelho. as torres de iluminação imponentes, a toda a volta. os bancos de pedra corridos. os vendedores de assentos almofadados. os adeptos do mesmo clube em enormes discussões antes, durante e após a partida. depois era procurar um lugar para sentar e absorver todos os detalhes. como em qualquer paixão, o segredo da sua existência está nos detalhes.

está no tipo que levava a águia no braço enquanto dava a volta ao estádio, pedindo aplausos dos vários sectores. está nos vendedores de queijadas e gelados, que os apregoavam como se disso dependesse a sua vida. está nos suspiros colectivos da bola que vai ao poste. está na alegria incontida com que desconhecidos festejam o momento em que um objecto esférico atravessa a linha marcada com cal, como se desde sempre se conhecessem, como se soubessem, de modo cúmplice, quanto custa sofrer por tamanha paixão.

para mim, no caso concreto desta paixão, para me fazer feliz bastam estes detalhes. quem se apaixona sabe viver com os prós e os contras, com as vitórias e com as derrotas, com os picos e com os vales. se não existissem vales, aliás, não seria tão fácil dar valor aos picos.

como em tudo aquilo pelo qual se pode nutrir paixão, há também quem prefira a via do ódio. é um sentimento válido, como outro qualquer, e acredito que uma excelente metodologia para aliviar os restantes problemas da vida ou para combater complexos de pequenez individual ou colectiva. mas o ódio é isso, um tosco quadrado sensaborão, desenhado à volta do que é a paixão de outros.

ao ódio faltam os detalhes, faltam os pequenos prazeres, mesmo até o prazer do sofrimento, porque é um prazer que se quer catapultar para a alegria em vez de um poço sem fundo recheado de desamor.

quem tenha paixões diferentes da minha não tem em mim um inimigo. quando muito tem um competidor. mas um competidor que respeita. não que os rebaixa para estar acima, mas sim que apoia toda a luta que signifique estar acima por mérito próprio.

acima de tudo, no futebol, como na vida, as vitórias e as derrotas dependem mais de cada um de nós e do que investimos no que fazemos, do que de estar à espera do sucesso ou insucesso alheios.

sábado, Maio 11, 2013

born slippy

mergulhou em direcção ao desconhecido como quem prefere conhecer a temer o desconhecido. sentiu o corpo tremer por todos os lados, uma espécie de vibração ainda maior do que a que o corpo sente durante um sismo de grau 'muitos' na escala de 'bem pior que richter e mercalli' juntos. lembrou-se que richter lhe fazia lembrar ritter, nomeadamente ritter sport, o de maçapão, ou outro semelhante, do melhor que pode aparecer sob a forma de chocolate servido ao quadrado.

quando a vibração ganhou contornos de normalidade deixou-se finalmente levar pelas cores. só enquanto se mergulha no desconhecido se tem por instantes a percepção de que há mais cores do que oitenta e três arco-íris juntos e de que a vida é pintada como se de um caos de guaches se tratasse. conseguiu distinguir as cores pintadas a lápis, a tinta permanente, a tinta temporária e de todos os outros temperos.

sentiu-se a ver estrelas e teve a certeza de que falavam com ele. que lhe contavam tudo o que havia para saber, desde o início do mundo e da vida até ao fim dos palmieres cobertos numa qualquer pastelaria cinco minutos antes da sua hora de fecho. as estrelas nunca se inibem a responder a toda e qualquer pergunta, por isso mesmo quando questionadas sobre o sentido da vida, sorriram, perguntaram se ele tinha tempo, emitiram três ou quatro cadências universo fora e ficaram ali a explicar-lhe os yins e os yangs durante cerca de quatrocentas e oitenta e três horas, mais coisa menos coisa.

no fim sentiu-se uma espécie de sal mergulhado na água e saiu do desconhecido como quem acaba de acordar despenteado dentro da enciclopédia que é a vida.

quarta-feira, Maio 08, 2013

o anti-nihilismo do nihilismo

por muito que haja quem não o entenda é grande a ansiedade de quem renuncia a certas correntes de pensamento e se digna a concordar com outras, naturalmente com as que acreditam mais em não acreditar.

o sofrimento do nihilismo, do ponto de vista do equilíbrio moral, é mais intenso do que a raiva de um diabo da tasmânia fechado num quarto sem carne para comer. as voltas na cama não são combatidas com conversas feitas de mãos unidas. os sofrimentos pelos que se ama não são combatidos com mais um furo de aperto no cilício. a expiação dos males não é feita sacrificando um aleatório indivíduo para dentro de um vulcão.

nos momentos em que é suposto fazer força por algo ou alguém, o nihilista vive o drama do astronauta em gravidade zero. tem a liberdade de escolher o que fazer da ausência mas a sensação de que pouco importa o que pode ou quer fazer do vazio. não regride e não desiste, mas não avança e não conclui.

resta a crença no ponto zero. ou a não crença. a lembrança do trivial, do aleatório, de moléculas em choque, do conhecimento, do não nihilismo temporário sarapintado sob a forma de ciência.

e esperar que o sono chegue, que os lençóis deixem de parecer ser de uma cama de faquir e que a manhã traga novas estrelas que dancem e nos mantenha as outras, que nos ajudam a manter o rumo, se é que ele existe. por definição.

quarta-feira, Maio 01, 2013

meio limão meio homem

estive no outro dia à conversa com uma metade de limão e aprendi imenso sobre a vida.

estava sentado muito bem no jardim, perdido nas intermináveis cores do pôr-do-sol, quando vejo que, como quem não quer a coisa, meio limão se senta a dois metros de mim. estranho, o jardim estava vazio.

percebi logo que queria meter conversa. tinha aquele nervosismo típico de quem vira o olhar de repente para outro lado quando vocês olham naquela direcção, denotando a ausência de um plano de disfarce. sorri e acenei e vi logo que o meio limão interpretou o gesto como se eu fosse porteiro de discoteca e tivesse acabado de abençoar a sua ultrapassagem à longa fila de desesperados clientes.

titubeou na minha direcção, como se fosse meio ananás e não meio limão, que os limões rebolam, não têm dessas dificuldades técnicas.

"veja lá se não tenho aqui um caroço". fiquei estupefacto com o atrevimento do citrino mas lá abri uma excepção e fiz um biscate fora de horas. expliquei a naturalidade da coisa e comecei a descrever o ciclo reprodutivo do limão. ele pareceu extremamente interessado e ao fim de cinco de minutos interrompeu-me o discurso para perguntar quantas canas de açúcar seriam necessárias para fazer uma jangada e se passássemos a língua nessa jangada se seria doce. voltei a usar um tom professoral para lhe impingir a minha convicção de que os limões não têm sequer papilas gustativas e que no caso dele nem meias papilas eu avistava.

ficou fulo. espichou sumo por todos os lados e foi-se embora irritadíssimo. não irritem meios limões, são tipos estranhos.


sábado, Abril 06, 2013

o prom(etido) é devido

escorrem-lhe pingos de suor da amostra de barba, pelo pescoço, inundando de pequenas poças de nervosismo o colarinho da camisa. as borbulhas mal escondidas que brotam do rosto são como o sinal de proibição de entrada do lado de fora de uma base militar. sendo que o papel de prevaricador é aqui representado pela maturidade. as mangas do casaco descem por um corpo menos comprido do que elas, a gravata foi escolhida segundo critérios que apenas fazem sentido numa cultura que premeia a mistura selvagem de tons, a ombreira do lado esquerdo está suja de branco, de uma qualquer parede por onde se arrastou no processo. 

ela tem a pose mais confiante de quem se acha princesa, nem que seja por uma noite, entalada num vestido feito para cinturas de abelha e não de zangão, ajeitando o seu cabelo arranjado horas a fio numa cabeleireira influenciada por anos e anos de visualização do dirty dancing e do grease. sorri para o seu príncipe. sabem ambos que são sapos, mas nesta noite são muito mais do que sapos, porque a sociedade programa formas de automaticamente os beijar e retirar por umas horas do corpo as naturais dores de crescimento.

as limousines aguardam lá fora e o espectáculo tem de continuar. irão encontrar uma sala enfeitada com o maior glamour que uma pequena terra perdida no meio do nada consegue definir. irão ter um globo de espelhos lá no alto, a reflectir pedaços do quão principescamente dançam, enquanto ouvem a banda que toca ao vivo. algumas horas depois muitos irão ter a sua primeira experiência de um dos actos mais naturais no reino animal, e também essa ansiedade transparece nos gestos, nos tropeções, nos sapatos sem compasso que batem a caminho da festa com o pensamento já noutras luas.

assim vão repetindo, gerações atrás de gerações. este leve equilíbrio da vida americana entre o conforto de saber bem como vai ser e o medo de não conseguir corresponder ao que é suposto ser.

domingo, Março 17, 2013

o dow jones e não sei quê

' compras-me um bilhete de autocarro? '
' para onde vais? '
' tanto me faz, só preciso de ir lá para dentro porque tem aquecimento. '

uma coisa terrível. este ano não podemos ir de férias para a riviera maya. isto da crise deixa-nos de rastos. é trabalhar, trabalhar, trabalhar e nem temos tempo para aproveitar esta vida tão curta. ainda no outro dia o meu mais novo me pediu este novo ipad mini e eu 'ó filho, ó filho', lá lhe tive de explicar que a altura não está fácil para ninguém e que tinha de continuar a brincar com o ipad antigo. claro que lhes custa. os colegas todos têm um novo e eles nada. os colegas continuam a ir de férias para as caraíbas, ilhas caimão ou que é, parece que o pai aproveita para ir lá ver de umas contas, e que anda muito ansioso com o destino que o dinheiro anda a levar. mas é uma maçada. ando sem cabeça para nada. tive de ir pôr o mercedes à revisão e fiquei três dias sem carro. andei de metro e vi que as pessoas andam mesmo desanimadas. isto não se faz a ninguém. estão a tirar-nos o direito às coisas mais básicas, não sei bem como vamos sobreviver a tanta austeridade.

' compras-me um cachorro quente? não como nada há mais de 48 horas. '
' mas olha que fumar também não te faz nada bem. '
' eu sei. mas só tenho um cobertor e quando fumo cigarros gastos sinto que pelo menos me entra algum ar quente para os pulmões. '

quarta-feira, Março 13, 2013

diz ' tração '

cansei-me dos textos direitinhos porque estava imenso vento e não tinha mais forças para lutar.

o coelho gigante cor-de-rosa estava mais do que de acordo comigo. achei um bocado estranha aquela atitude dele de não parar de se rir a cada pessoa que passava junto de nós no banco de jardim. levantei uma das minhas sobrancelhas num gesto quase digno de ser premiado com um óscar e perguntei-lhe o que tinha assim tanta piada.

justificou-se durante uns cinco minutos. dos primeiros quatro minutos não vos consigo dizer grande coisa porque estava a dar trincadelas em cenouras gigantes e a mastigá-las enquanto falava. além de ser um gesto de pouca educação, dificulta consideravelmente que quem está a ouvir um coelho gigante consiga entender patavina do que ele está para ali a dizer.

no último minuto (entre o final do quarto e o final do quinto minuto, portanto) explicou-me que as pessoas eram todas muito parecidas e que isso lhe dava imensa vontade de rir. parece que na outra dimensão, onde ele vive noventa e nove por cento do tempo (se quiserem aplicar à vossa mania das vinte e quatro horas é questão de fazer as contas), os coelhos são todos diferentes. na fábrica dos coelhos existe uma máquina, segundo ele são quatro computadores gigantes interligados (têm anti-vírus e tudo!), que garante que cada novo coelho fabricado sai com uma cor diferente de todos os outros.

fiquei a pensar nisto durante algum tempo, sobretudo porque me pareceu problemático manter para sempre um número de combinações admissível para continuar a ter sempre coelhos com cor original. isto justificava no mínimo um controlo. foi assim que lhe sugeri que se criasse uma polícia do tom, responsável por identificar dois coelhos com uma cor eventualmente igual de modo a abater um deles e garantir a exclusividade dessa cor.

foi aprovado em assembleia e tem sido executado com uma quase perturbante perfeição. às vezes sinto-me um pouco mal por ser responsável por uma ou outra morte naquela dimensão, mas a verdade é que os coelhos gigantes que viajam entre dimensões são extremamente faladores.

terça-feira, Fevereiro 05, 2013

ficamos à rasca sem metas

quem subiu à montanha mais alta? quem o conseguiu no menor tempo possível? quem o fez com as botas mais leves? qual o homem que foi até ao mais profundo que da terra se consegue alcançar? quem descobriu o caminho marítimo para a índia?

temos um vício maior em estabelecer metas do que algumas estrelas do rock em pó de cores claras.

a verdade é que dependemos do conforto de, pelo menos, saber para onde vamos. se o vasco da gama dissesse que ia só ao deus dará ninguém lhe financiava a viagem. se o joão garcia dissesse que queria subir até meio do evereste não havia cá bancos nem publicidades. o mesmo para tudo o resto. sem meta não há tanto lucro em fama.

por isso subimos. por isso descemos. por isso tentamos ir mais alto do que já se foi e mais fundo do que alguém alguma vez possa ter imaginado. cilindramos o tempo na tentativa do mais, do maior, do que está para lá do que há e não paramos nem microsegundos para apreciar o que está entre o ponto de arranque e a meta.

depois, por momentos, sentamo-nos à beira de um rio. impregnamo-nos do barulho do silêncio. olhamos os peixes, tentamos perceber quão caótico é o seu ordenado circuito ou quão ordenado é o seu caótico circuito. vimos os pássaros saltitar entre pedras, deitar a cabeça de lado e olhar para nós com o habitual olhar inquisitivo com que quem voa olha para quem não o sabe fazer. o pássaro provavelmente pergunta-se como é que um tipo com ar de quem tudo acha que sabe não consegue sequer descolar os pés do chão mais do que uns segundos. ri-se ironicamente do mesmo tipo por nem sequer se maravilhar a cada momento com o que o avanço do seu pensamento permitiu, já que voa naqueles pássaros de ferro com a naturalidade com que bebe água ou se alimenta, e jamais vangloria a liberdade de o conseguir fazer. no meio deste riso irónico, flecte as pernas, contrai todas as fibras musculares do seu corpo de ave e levanta vôo, lançando-se em Zs que se cruzam com Ss e que parecem tudo menos preocupados com a meta.

os corações também respiram

tem a ver com o jeito como o cabelo te cai sobre os ombros. com as ondas que a tua respiração dispara em direcção ao meu agitado coração e o faz tremer, com aquela força da terra que treme para fazer chocar placas com placas e tectonicamente dar novos pedaços de mundo ao mundo. tem a ver com o teu sorriso, com tudo o que tem o teu sorriso, com a capacidade que o teu sorriso tem de me desarmar. o teu sorriso é como um exército que caça um homem solitário. por mais que ele fuja, por mais que finja que há vales desconhecidos e montes mais altos do que a visão alcança, acaba por ser preso como peixe em rede e saltar como quem quer fugir. mas na verdade aceita a captura. não são dentes, não são lábios, não é língua, é uma orquestra, são todos juntos, afinados, perfeitos, imperfeitos de tão perfeitos, o teu toque como maestro.

copia-se demasiado no mundo. ideias, conceitos, modos de ser, modos de reagir, sorrisos fingidos, fingimentos sorridos, mimo, negações do que já de si negado estava, luas, sóis, luas de sóis, sóis de luas, milagres, folhas caducas, folhas persistentes. palavras, plagiam-se demasiado palavras. porque são quase todas escritas com a ponta dos dedos que vem da cabeça e raramente com os dedos que vêm do coração. quase tudo se plagia. o mais difícil é fazer isso só com o amor. por isso te digo, entre o vermelho do lusco-fusco e o amarelo torrado da manhã, ' plagia o meu amor por ti '.

sexta-feira, Fevereiro 01, 2013

nunca deixem de ler o livro só porque sabem que acaba mal

o senso comum (o bom senso, diriam até alguns) descreveria como natural que quando somos abordados na rua por um tipo, de ar mais ou menos suspeito, que começa na hora a declamar um texto treinado sobre todas as suas desgraças e como isso o faz precisar de um ou dois dólares (ou euros ou a unidade do sítio onde estejam a ler isto, sejam criativos, sim?) para voltar para casa/apanhar o autocarro/comprar uma sopa, a resposta imediata seja o habitual 'desculpe, não tenho dinheiro', seguido de um dramático virar de costas e ida à nossa vida.

permitam-me discordar da atitude. permitam-me ainda tentar vender a ideia de que se aprende mais ficando do que partindo (desde que no limite do confortável, não me comecem já a chamar nomes com base em cenários que criam na vossa cabeça, estão muito reactivos hoje, vocês!).

a cantiga do bandido raramente é acompanhada de violência. a cantiga do bandido é o método mais frequentemente usado pelo tipo que precisa de esquemas por algum motivo (e não tendam a achar que é maldade ou ganância, porque às vezes é mesmo fome ou algum tipo de vício dos que moem), mas que não tem em si a maldade inerente para o roubo de esticão ou com armas, a perícia para o carteirismo ou o sangue frio para crimes de maior monta. assim, pelo menos os que são impregnados de alguma dose de criatividade, criam um cenário ou história e tentam dessa forma sensibilizar/enganar quem encontram rua fora.

as taxas de sucesso são variáveis mas cativa-me não só a criatividade como a maior ou menor qualidade de representação do burlão. como sempre tive uma espécie de íman para este tipo de situações não me é assim tão raro passar por uma destas. e durante todo o tempo em que a história se vai desbobinando dou por mim não só a gravar mentalmente todos os detalhes da história como a pensar que o mundo é um lugar terrivelmente injusto, já que há tanto tipo com tão pouca criatividade a ter tempo de antena e espaço mediático e alguns destes pobres diabos (que, sim, o poderão ser por culpa própria, mas na maior parte dos casos o são por culpa da situação em que vivem) andam a desperdiçar os seus talentos entre luvas de dedos rotos, por ruas frias de cidades cinzentas em que os corações são mais difíceis de abrir que uma lata de conserva sem abertura fácil.