ORANGINALIDADE
uma palavra vale mais que mil imagens.
quinta-feira, janeiro 09, 2020
arrefecimento global
segunda-feira, janeiro 21, 2019
vocês sabem lá
segunda-feira, dezembro 31, 2018
papel, pedra e tesoura
só tenho sido feliz na parte da pedra, já as encontrei de variados tamanhos e feitios, guardei-as todas para um dia fazer um castelo e destruí um dedo mindinho entre dois seixos mais atrevidos, mas valeu a pena.
o papel tem muito que se lhe diga. acho que de início entendi mal, andei à procura do papel junto de qualquer pessoa que tivesse ar de vir a sair da broadway. um actor muito simpático recomendou-me um psiquiatra seu amigo e duas actrizes pouco sorridentes fugiram de mim como se tivesem visto a peste negra.
de todos os três, a tesoura é o maior desafio. já encontrei uma de podar, caída no relvado, mas um dobermann com ar ameaçador ladrou mais alto que a minha vontade de aventuras.
ainda pensei trocar o jogo pelo xadrez, mas rapidamente desisti, eram ainda mais peças para encontrar. resolvi apostar em actividades mais estóicas. observar os pássaros a brincar, alegres, numa poça de água, aquece-me na mesma o coração e lesiona-me muito menos os dedos mindinhos.
terça-feira, maio 29, 2018
parece que foi ontem
parece que foi ontem, que os dedos abriam as páginas do atlas ao acaso e decidiam os adversários do próximo jogo, sim, desta vez pode ser um escaldante bahamas contra gronelândia, ficando tudo a jeito para essas partidas em que um só jogador fazia de vinte e dois e criava a complexa dinâmica de rematar à baliza e defender o remate ao mesmo tempo.
parece que foi ontem, que adormecer era complicado, o calor, que nem a brisa do rio acalmava, entrava pela alma, e para dissuadi-lo brincavam os pés pelo enrugado das paredes, ó deus, quem se lembraria de inventar paredes rugosas e achar que isso tinha tudo para correr bem.
parece que foi ontem, a vida era muito só isso, o intervalo entre campainhas, o duelo entre livros devorados e roupas suadas com tanto futebol de intervalo, as aventuras em autocarros apinhados de gente, os desafios de fazer uma chave de casa rodar, porque isso é tão difícil e pertence ao mundo dos grandes.
parece que foi ontem e de repente é hoje. de repente os atlas são contas de electricidade, as paredes rugosas são a burocracia quotidiana, as aventuras de intervalo são pára-arrancas e arranca-páras, que são mais párias que páras. são os dias a correr atrás dos dias, sem a mesma espuma que estava lá para trás, são uma imperial tirada sem pressão, um céu cinzento sem sequer ter nuvens, uma vontade interminável de que o hoje volte a ser ontem. quem sabe, amanhã.
sexta-feira, abril 06, 2018
uma ou outra vez
sábado, janeiro 20, 2018
fora da bolha
fora da bolha tudo era melhor, sentia-se uma rainha . depois de passar pelo banho dado na lavagem automática, explorada por um grupo de gambozinos obsessivo-compulsivos, chegava ao mundo lá fora pronta a reinar . cumprimentava reis à esquerda, príncipes à direita, toda a gente lhe perguntava a sua opinião, queria ver a sua aprovação, procurar o calor das suas palavras, almejar a, sei lá, quem sabe, até, talvez um dia, poder fazer parte do seu círculo fechado de amizades . corria as várias capelinhas, tinha opinião sobre tudo e todos e tudo e todos tinham ouvidos para a sua opinião . desinformada, cheia de musgo, superficial, mas na sua parca inteligência tinha percebido há bastante tempo que no mundo de hoje não é preciso saber, basta parecer que se sabe .
depois sentava-se a ver o pôr-do-sol, de quando em vez até a fotografá-lo, e as lágrimas apressavam-se a saltar dos seus olhos . não por nenhum impulso stendhaliano, mas porque se lembrava que eram horas de voltar para a bolha . e dentro da bolha tudo voltava a ser imundo, a sua vida valia abaixo de zero, o seu valor era abaixo do que a sua vida valia, e as paredes rachadas da bolha nunca pareciam querer saber a sua opinião .
quinta-feira, outubro 26, 2017
quando me falta o ar
procurei nos bancos de jardim, nos bancos da faculdade, desde casa até ao outro lado do mundo, de polo a polo, e nunca encontrei quem a conseguisse definir para mim nem quem soubesse que travessas tens de cruzar para dar de caras com o tal mapa .
sempre me pareceu que provavelmente a vais encontrar nas pequenas coisas, mais do que nas grandes . vais deparar com um mundo em que cada vez menos se liga ao que quer que seja e que se acha que ter é ser, que ter é saber, ignorando que um sorriso vale mais que estofos de pele e mãos entrelaçadas ao pôr-do-sol batem um relógio que reage ao toque e fala contigo .
soube finalmente há vinte e seis dias o que é a verdadeira felicidade e sei desde há vinte seis dias o que é verdadeiramente o medo . nunca pensei ir descobrir o que eram ambos quase ao mesmo tempo, tão entrelaçados como aquelas mãos ao pôr-do-sol de que te falei acima . fizeste-me e fazes-me entender uma faceta do amor que, por mais que me a vendessem, jamais pensei existir, e agora sinto o que é faltar-me o ar, não pelos meus pulmões, que espero que estejam em quase óptimo estado, mas por sentir cada respiração acelerada tua como o mundo a fugir-me debaixo dos pés .
sei, sinto e espero, que, daqui a uns anos, poucos ou muitos, gozes comigo, com o meu medo, com a minha excessiva preocupação, com a minha quase queda da cadeira de cientista para usar firmemente o chapéu de progenitor . onde estás agora, a crescer depressa e a respirar ainda mais depressa, a melhor mãe do mundo não te larga um segundo, com uma perseverança como já não se faz . o que me tranquiliza é que tens esses genes e concentras-te em ser valente em vez de ter medo ou preocupação .
ainda bem que assim é . terás muito tempo para te sentares ao meu lado, num banco de jardim, me dares a mão, e juntos tentarmos desvendar o que é a felicidade e como encontrar o mapa para lá chegar .
sexta-feira, julho 07, 2017
O tempo
O tempo que demora a arranjar tempo para sequer poder parar e pensar sobre o tempo.
A roda que tritura, a dimensão imparável, que levou gregos, romanos, troianos, outros anos, todos a entrar em desespero, todos a escrever linhas sem fim, nunca muda, nunca pára, nunca dá tréguas.
Enquanto vejo as nuvens carregadas a passar rápido no céu, acima dos altos prédios, numa pressa preocupada, penso em tudo o que o tempo traz. Penso nas tuas células a correr contra o tempo, a multiplicar-se por dentro de ti e a multiplicar-se por fora de ti para nos revelar o teu destino, para nos tentar explicar como vais passar o teu tempo.
O tempo vai passar para ti, vai passar para nós, de uma ou de outra forma, e as nuvens aqui vão continuar, apressadas mas à espera de ver o teu riso, o teu choro, as tuas células, os teus orgãos, o teu amor.
sábado, dezembro 24, 2016
Is anyone there ?
Pensei que a pilha do blog estava esgotada, desculpem a intromissão. Faltou pouco para estar um ano inteiro sem transbordar letras do papel para o teclado e sei bem que vocês não conseguiriam viver com tamanha saudade de ler tudo aquilo que nunca quiseram ler ou saber, por isso resolvi fazer uma pausa no meu desocupado quotidiano para vir falar de guardas nocturnos.
Bom, na verdade não é bem dos guardas nocturnos que se trata, mas do respeito que lhes devemos. Ando há dias com os horários fora de passo, pareço aquele soldado que vai a marchar diferente dos outros todos e os pais choram de orgulho porque é o único que vai a marchar com o passo certo. Passei duas semanas a trabalhar só noites e a ganhar o tal enorme respeito pelos guardas nocturnos, não só porque são as únicas pessoas com que eu podia conversar durante a noite mas também por viverem a vida desfasada de todos os outros. Depois mudei para um horário muito melhor em que finalmente se trabalha de dia mas a cada quatro dias se trabalham turnos de trinta horas. Os guardas nocturnos ficaram super felizes porque sempre me podem ver a cada quatro dias.
No meio disto tudo fui ver o "Manchester by the Sea" com a minha mulher (os guardas nocturnos amuaram por não os ter levado) e pareceu-me que o filme é bonito e um verdadeiro murro no estômago, mas podia sempre estar a alucinar durante algumas das cenas, por isso não acreditem literalmente em tudo o que vos digo.
Agora é quase Natal e eu em vez de ter acertado o passo acordei às onze da noite e lembrei-me que o blog não tinha direito a um texto há quase trezentos e sessenta e cinco dias e isso era inaceitável porque os guardas nocturnos vêm cá fazer refresh todos os dias. E também me lembrei que é muito triste as lojas não estarem abertas às três da manhã porque me dava imenso jeito fazer as compras de última da hora e as filas a esta hora devem ser bem jeitosas.
Agora tenho de ir porque o meu gato acordou, está de barriga para cima e a olhar para mim com ar de quem mia "olha que as festas não se fazem sozinhas". Lá fora está frio e ainda há neve, mas cá dentro está quente, sobretudo nos nossos corações. Tenham todos um bom natal, comam muitas rabanadas e outros doces com muito ovo, açúcar e afins, depois se precisarem de alguma coisa é só enviarem um mail, sim?
sábado, janeiro 09, 2016
Contagem decrescente
"Sim, estou a fazer turnos com o meu irmão, a minha mãe só pode vir durante o dia."