quinta-feira, agosto 19, 2004

Vamos ao circo

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Todos os anos, em Agosto, vejo cirandar uma carrinha do circo pelas ruas da outrora pacata vila alentejana onde passo férias. Uma voz gravada e ampliada pelo altifalante anuncia, entre outras diversões, simpáticos porquinhos e ursos do Cánadá (assim mesmo, com dois acentos, para parecer que o senhor que gravou a cassete é também ele estrangeiro, talvez pertencente ao circo do Mónaco). O espectáculo reúne centenas de pessoas e, no ano seguinte, certo de outro sucesso, regressa à vila com renovado vigor.

O circo perturba-me. Os porquinhos até podem ser simpáticos e não discuto a origem dos ursos mas há imagens que me impressionam. Meia dúzia de leões tristes enclausurados numa jaula pequena; macacos sem árvores para trepar; cãezinhos vestidos de bailarinas ou com o equipamento de clubes de futebol. E não só animais ... É o ilusionista que troca de roupa no intervalo e se transforma no atirador de facas; a assistente do ilusionista que tem quase sempre mais de 50 anos e ainda acumula as funções de trapezista com collants esburacados e de vendedora de amendoins; o palhaço pobre e o palhaço rico, ambos com piadas paupérrimas.

Sentada na plateia, contemplo com desagrado as exibições dos supostos artistas e os truques contrariados dos animais. Acho que estou sozinha na minha reprovação. Em volta, todos se riem eufóricos e abanam a cabeça ao som de músicas populares, enquanto os palhaços, agora convertidos em mercadores, lhes impingem canudos coloridos de plástico que se iluminam na escuridão da tenda.

sexta-feira, agosto 13, 2004

A tradição do espelhinho



Hoje de manhã no barbeiro passou-se o que se passa sempre...

- Olá senhor Fernando, como está?
- Vaixe andando, vaixe andando.

Depois lá se fala de bola, lá se tenta escapar às investidas do barbeiro para mudar o tema para a política e por aí fora.

Mas o momento que considero o clímax do corte de cabelo tradicional, é quando no fim o senhor pega num espelhinho pequenino e nos mostra a parte de trás do cabelo. E ao mesmo tempo olha para nós e cabe-nos acenar. Apenas me pergunto, porque raio acenamos nós a aprovar o corte???

Acham que se o senhor nos tivesse esgravetado o cabelo todo lá atrás ia mostrar a calamidade do seu trabalho? E quando o trabalho não está escandalosamente mau, pouco sabemos para opinar sobre o assunto...

Enfim, digam que sim.

terça-feira, agosto 10, 2004

Quando chove


O que acontece numa terra de praia quando chove?

As pessoas não vão à praia - parece-me óbvio.
Como as pessoas não vão à praia, todos os outros sítios, que não a praia, se enchem de um matagal de gente.
O matagal acumula-se nos cafés, onde passo a ter que beber a bica de pé, como se já estivesse atrasada para o trabalho, nos mini-mercados de esquina que, cheios de pessoas, dão a ilusão de serem filiais do Continente, na farmácia (uma gota de chuva na mioleira é quanto basta para desencadear o pânico da gripe), nos salões de jogos que já tinham rufiões e passam a ter rufiões ao quadrado.

Não há nada para fazer. Regresso a casa. Nas casas de férias as televisões só têm quatro canais e não estou com disposição para ver um episódio re-repetido do Rex. Leio para combater o tédio e o mau humor que este Inverno antecipado me provoca.

Pães e companhia

- A seguir, faxavôri!

E pessoa atrás de pessoa, cada um pede a sua sandes. Uns preferem o queijo derretido a entrelaçar-se no bacon, outros o frango de aviário "entranchado" no pão e há ainda os que se deleitam com as delícias do mar, vulgo "marisco dos pobres". Em comum têm todos algo: estão nesta mesma fila à espera da sua sandes.

E, de forma magnífica, a rapariga do balcão vai perguntando o que o cliente quer, mas não o cliente que está perto dela (esse já o atendeu). Questiona, isso sim, o sexto ou sétimo da fila e, após a resposta deste, lá acrescenta mais um tabuleiro à panóplia de tabuleiros vazios, com tickets soltos e selvagens, que estão à sua frente.

Os sete coitados lá vão pacientemente esperando que as lesmas que trabalham nestes postos de "comida rápida", em tradução à letra, se dignem a trazer o seu pedido. Entretanto, podem até divertir-se a ver o Cajó a beliscar o traseiro da Vanessa, e assim testemunhar o amor entre dois empregados desta empresa de sandes. E violência verbal também não falta, visto que a Vanessa começou a gritar com o Wanderley, dada a velocidade de caracol com que este preenchia os pacotes das batatas fritas.

E assim se espera pelo almoço nos dias de hoje. Resta saber o que vem... a seguir, faxavôri!

sábado, agosto 07, 2004

Praia



Mais um Agosto que chega e com ele chega também a vontade de ir à praia. E na praia vê-se de tudo um pouco. Dá-me ideia que é provavelmente o local mais multicultural à face da Terra.

Enquanto vou fingindo ler o meu livro, observo as múltiplas famílias e personagens à minha volta...

A senhora que está lá por frete, o senhor que ainda julga que a sua musculatura abdominal é a de outros tempos, o míudo que pede a atenção dos pais, que fingem que não o ouvem... tantos casos para relatar.

E há sempre os mais engraçados, entre os quais julgo poder eleger:

- Os tipos do skeetboarding (ou wakeboarding...) que, invariavelmente, se "espetam" contra as pernas repletas de varizes das senhoras que só se tentavam molhar até ao joelho...

- O senhor "hiper-oleoso" que deve achar que fica bem, mas que a mim me dá a clara ideia que o pobre infeliz tropeçou e estatelou-se por inteiro num balde de manteiga...

- Por último o meu favorito de um destes dias, o míudo hiperactivo, que não se calou o tempo todo... Lá ia ele comentando tudo o que fazia... "Miguel, o homem da prancha", "Sou o Miguel, o faz castelos", "Miguel, o rastejador"...

terça-feira, agosto 03, 2004

Infância

Todos os grandes escritores exploram o tema da infância. Eu não sou uma grande escritora (não sou sequer uma escritora) mas hoje também quero falar da minha infância.

Desse período recordo a ausência de responsabilidades e o tempo preenchido com brincadeiras criativas. Lembro-me ainda - e com menos saudades - de atitudes cruéis que me envergonham. Quando inventei que uma menina tinha piolhos, quando enterrei o aparelho dos dentes de uma amiga na areia da praia e todas aquelas vezes em que impedia as outras crianças de participarem em jogos porque, uma vez que os tinha inventado ou tomado a iniciativa de os jogar, achava-me no direito de excluir, por capricho, aqueles de quem não gostava.

Outra coisa curiosa foi descobrir ao longo dos anos a quantidade de palavras que, apesar de se assemelharem foneticamente à palavra original, eram ridiculamente mal pronunciadas ou escritas. Eu pensava, por exemplo, que rebuçado se dizia burro-assado e escrevia igreija e muinto nas composições da escola primária... À conta destes e doutros disparates passava a tarde a corrigir a minha ortografia, preenchendo com sacrifício uma página do caderno com igreja e outra com muito. Reconheço agora a competência daquela a quem eu, instruída pela minha avó, chamava solenemente Senhora Professora.

E eram os meus aniversários e a casa cheia de miúdos felizes que comiam com prazer os bolos, as gelatinas e os rebuçados (vá lá, aprendi!); as tardes de Primavera no quintal dos meus avós a colher morangos; as férias de Verão e os amigos da praia que duravam uma quinzena e eram substituídos, sem desgosto, por outros na quinzena seguinte. Depois Setembro, o regresso à escola, reaprender o gesto de segurar na caneta e gatafunhar desajeitadamente, numa letra de analfabeto que agora decifro com esforço, a primeira composição do ano com o invariável título "As férias grandes".