segunda-feira, fevereiro 24, 2014

inversão

o sol entrava decidido pelas frestas das persianas, teimando em desenhar sombras chinesas, exércitos de luz, outrora de terracota, agora de claridade. enquanto os fotões traziam a imaginação à parede, a minha mente andava perdida por outros mundos, a anos-luz de distância.

era como se fosse hoje. entrei pela porta verde, com as letras pintadas a branco, de fresco, fiquei até com um ou dois dedos sarapintados, e as teias de aranha faziam adivinhar que do lado de lá se encontrava um tesouro daqueles que demoram séculos a descobrir. o baú tinha um código, mas era fácil de descobrir, 083, era estranhamente evidente. enquanto rodei a combinação, senti um largo sorriso no escuro, atrás de mim. por segundos tive a certeza de ter por perto o gato da alice. só que este país tinha poucas maravilhas e a pressa era muita para chegar ao conteúdo do cofre. sacudido o pó, e ultrapassado o ataque de tosse da praxe, vi por fim a garrafa e o líquido túrbido no seu interior. tinha cor de ser vítima dos anos, ar de ter vapor de experiência e um travo a sabedoria. arranquei com violência a rolha gasta e bebi tudo de um trago, certo de que há coisas na vida que ou são ou não são.

de repente tudo ficou mais claro. após o pânico do momento em que tudo parou, foi com enorme alívio que senti a terra recomeçar a rodar, mas desta vez em sentido contrário. à frente dos meus olhos vi o caos em que tudo entrou. vi as marchas-atrás passarem a marchar para a frente, os comboios a chiar de pernas para o ar e os arranha-céus a virar arranha-terras. ninguém sabia bem o que fazer mas eu sabia, mais do que nunca, com certeza, que tínhamos voltado a entrar nos eixos.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

a vida tem muito de tomb raider

a lebre saiu disparada de tal forma que era quase garantido que ia bater recordes. superou-se com os gritos vindos das bancadas, com o bruá de satisfação de todos os espectadores, com a espectacularidade do seu avanço.

a lebre chegou primeiro a quase tudo. na vida, como nas corridas de animais em fábulas, há tendência a ligar o sucesso (pessoal, profissional, o que vocês quiserem-al) ao imediatismo com que a ele se chega. o ' depressa e bem há pouco quem ' passou de moda numa época em que o foco em qualquer assunto ou objecto dura segundos e a pressa se entrelaça com fios de stress ao longo de qualquer dia da semana.

não vale a pena. somos crianças com pressa de chegar a adultos, para depois vir a pressa de ser adultos mais completos, de acelerar em direcção a um sucesso que muitas vezes não parámos sequer para definir ou entender. hipotecamos o presente em função de um futuro que será ele também um presente hipotecado. a menos que paremos a espaços, que nos sentemos no banco do jardim e deixemos os sentidos fazer o que eles sabem. todas as máquinas precisam de resets. todos os corpos precisam de sol e de silêncio e de pausas que dancem com tumultos. os pores-do-sol de mãos dadas com a natureza são oxigénio para a alma, e servem para entender que o ' aqui e agora ' é bem mais palpavél do que o que vem a seguir.

forçam-nos a ser lebres, mas muito do que somos depende daquilo que aceitamos que façam de nós.

é sempre bom lembrar que no fim de contas foi a tartaruga que levou a melhor.

visto isto

estou maravilhado com a ideia de atribuir vistos gold para viver e trabalhar em portugal a tudo o que é talento e artista e investigador e não sei quê.

os meus olhos ficam irrigados de lágrimas só de imaginar o influxo de actores birmaneses, cientistas norte-coreanos e anões polinésios, que de repente vão dar outros mundos ao mundo nesse rectângulo onde todos querem habitar.

custa-me que os vistos gold fiquem por aqui. deviam ser estendidos a mais actividades e mesmo aos animais (os de quatro patas). é enternecedor imaginar a beleza de elefantes quenianos a andar livremente pelos arredores de arraiolos, anacondas felizes em alcochete e gorilas gaboneses em êxtase no vimioso.

por outro lado, lembrei-me de repente de um livro muito jeitoso do tio patinhas, onde vinha a dizer que "nem tudo o que luz é ouro". espero que quem se vai atirar de cabeça aos vistos não fosse adepto na infância de ler bonecos da disney, ou ainda acabam a ter de fazer um downgrade dos vistos para prata ou bronze para conseguir candidatos em barda.

vejam lá isso.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

congelados

congelaram primeiro umas poças de água manhosas que estavam ali à saída do restaurante chinês. depois congelou a berma da estrada, catapultou-se o lago dos patos e logo se seguiu o lago que se vê do céu. dos satélites. da lua, com uns bons binóculos ou com um telescópio daqueles que eu queria sempre pelo natal.

quando dei por mim estavam esculturas de gelo penduradas em ramos de árvore. o artista não recebeu comissão, trabalha barato e mais por vontade própria do que por necessidade de fama. dei a volta ao quarteirão para procurar a bilheteira, porque sou inimigo de entrar à socapa, mas não encontrei quem cobrasse a entrada. só um esquilo, pendurado num cabo da luz, a olhar para mim enquanto trincava uma bolota. fiquei um bocado a pensar no que é que ele estaria a pensar de toda esta cena, porque sei que os esquilos são animais bastante pensadores. mas os olhos dele estavam no horizonte e tinha um ar sonhador, o que me fez duvidar da legalidade daquela bolota.

mergulhei os pés nesse chantilly que cai do céu em flocos para ver a escultura de perto e os meus joelhos andaram para ali numa luta que os fez parecer greco-romanos. mas valeu a pena.

vale sempre a pena, quando a manifestação da natureza não é de uma grandiosidade pequena.