segunda-feira, setembro 30, 2013

sonho


Sonho por vezes que não tive de abandonar o meu país. Que pude continuar no conforto de quem conhece de cor o meu coração, de quem sorri com empatia a cada um dos meus gestos, de quem sabe baralhar os ingredientes que eu gosto e voltar a dá-los, num prato fumegante e devorável.

Sonho que o meu país não é um sítio onde o apelido vale mais do que o mérito, onde se dá mais valor a títulos atrás do nome ou a palavras caras do que a sentimentos verdadeiros, seja a julgar papiros, seja a julgar uma vida. Não existem lugares perfeitos, mas existem alguns com mais escuridão do que o fundo de um poço em dia de lua nova.

Sonho que o meu país não se deixou invadir por hordes zombies, sem qualquer pedigree intelectual, mas com a sobranceria de achar que o têm. Imagino (ou será que sonho? Ou que invento?) que estou sentado no muro que guarda a praia, a olhar o horizonte, alheado de todo o barulho atrás de mim (se calhar “absorto em pensamentos” fica mais bonito, mais pomposo, mais “je ne sais quoi”). Atrás de mim oiço discussões furiosas, gritos viscerais, gente a falar do nível de rating do rimbaud, do segundo pedido de resgate da beauvoir e do crescimento do PSI20 literário. Finalmente consigo fechar os ouvidos e deixar de ver o que ali se passa. Concentro-me nos caranguejos que brincam na areia e sorrio quando me apercebo que carregam o seu jantar, indiferentes ao que se passa atrás de mim.

Salto do muro, em direcção a uma realidade bem melhor, e começo a conversar com os caranguejos sobre a vida. Dizem-me que andam preocupados com a proximidade dos cometas e que têm gasto fortunas em jarros com filtros, porque a água do mar anda cheia de mercúrio e outros metais pesados. Claro que daí a conversa desliza para a tabela periódica. Vamos buscar pedrinhas e jogamos à macaca em cima da tabela até o sol se pôr. Quando o sol se põe, acabo por me despedir, e eles lá me confessam, com ar envergonhado, que o jantar hoje vão ser pernas de ser humano ao natural. Mas está tudo bem, explico-lhes, como o mundo anda, é mais justo devorar humanos regados com sumo de limão do que dar conta da sua alma.

segunda-feira, setembro 16, 2013

silêncio sem inocentes

ainda bem que não faço promessas sobre a frequência da minha escrita, porque ultimamente anda tão frequente como a passagem do cometa X ou Y perto da terra.

e cada vez que me lembro disso aperto o cilício. dava-me tão bem há duas décadas atrás no meu mundinho cheio de leitura e de escrita. isto de brincar aos adultos não tem piada nenhuma. isto de ter de se fazer porque tem de ser em vez de ser porque parece divertido devia ser revisto. aposto que na constituição da república terrestre há qualquer coisa que impede que o mundo nos consuma em vez de sermos nós a consumir o mundo.

mas de cada vez que me aparece um destes protestos, em regime de velho marreta, vejo um esquilo passar com uma bolota na boca, olhar para mim assustado, convicto de que lhe quero roubar a bolota. e isso volta a fazer-me sentir o sangue quente a correr pelas veias, os olhos humedecidos de vida e a certeza de que mesmo cheio de pressões o mundo vale a pena a cada virar de esquina.