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sonho


Sonho por vezes que não tive de abandonar o meu país. Que pude continuar no conforto de quem conhece de cor o meu coração, de quem sorri com empatia a cada um dos meus gestos, de quem sabe baralhar os ingredientes que eu gosto e voltar a dá-los, num prato fumegante e devorável.

Sonho que o meu país não é um sítio onde o apelido vale mais do que o mérito, onde se dá mais valor a títulos atrás do nome ou a palavras caras do que a sentimentos verdadeiros, seja a julgar papiros, seja a julgar uma vida. Não existem lugares perfeitos, mas existem alguns com mais escuridão do que o fundo de um poço em dia de lua nova.

Sonho que o meu país não se deixou invadir por hordes zombies, sem qualquer pedigree intelectual, mas com a sobranceria de achar que o têm. Imagino (ou será que sonho? Ou que invento?) que estou sentado no muro que guarda a praia, a olhar o horizonte, alheado de todo o barulho atrás de mim (se calhar “absorto em pensamentos” fica mais bonito, mais pomposo, mais “je ne sais quoi”). Atrás de mim oiço discussões furiosas, gritos viscerais, gente a falar do nível de rating do rimbaud, do segundo pedido de resgate da beauvoir e do crescimento do PSI20 literário. Finalmente consigo fechar os ouvidos e deixar de ver o que ali se passa. Concentro-me nos caranguejos que brincam na areia e sorrio quando me apercebo que carregam o seu jantar, indiferentes ao que se passa atrás de mim.

Salto do muro, em direcção a uma realidade bem melhor, e começo a conversar com os caranguejos sobre a vida. Dizem-me que andam preocupados com a proximidade dos cometas e que têm gasto fortunas em jarros com filtros, porque a água do mar anda cheia de mercúrio e outros metais pesados. Claro que daí a conversa desliza para a tabela periódica. Vamos buscar pedrinhas e jogamos à macaca em cima da tabela até o sol se pôr. Quando o sol se põe, acabo por me despedir, e eles lá me confessam, com ar envergonhado, que o jantar hoje vão ser pernas de ser humano ao natural. Mas está tudo bem, explico-lhes, como o mundo anda, é mais justo devorar humanos regados com sumo de limão do que dar conta da sua alma.

Comentários

Mary disse…
Sonhas tão bem e, explicas aos caranguejos tãooooo bem!
Mary disse…
E sonhas tão bem ...explicas aos caranguejos tão bem...

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