terça-feira, março 31, 2009

Mas afinal? Tu queres ver?



Coisas que aprendemos com os reformados dos jardins lisboetas: quando não se tem tema de conversa sobre o que é que se fala? Sobre o tempo, pois claro está. Não a dimensão inexorável de medida, mas sim a meteorologia.

E, portanto, lembrei-me hoje de comentar este tempo "nojentinho" que por aí anda. Tão depressa parece que afinal já é Verão, como vem um vento frio de cortar a respiração. E então não há roupa certa. Por isso se vêem desde pessoas encasacadas a malta quase em tronco nu. O que é parvo. E pouco digno.

sábado, março 28, 2009

De noite tudo se passa



Com a minha longa paragem na escrita não tive ainda oportunidade de comentar esses expoentes máximos do enchimento de chouriços que são os concursos telefónicos da madrugada.

SIC e TVI degladiam-se para tirar o máximo de roupa possível a uma apresentadora (que tem como critério obrigatório de selecção ter aparecido na capa de uma revista masculina) e dessa forma levar os "toinos" e "toinas" que acreditam no Pai Natal a gastar uma pipa de massa em chamadas de valor acrescentado para tentar ganhar 300 ou 400€.

Os temas vão variando, embora tenham sempre um traço em comum: a estupidez. Quando os participantes têm de descobrir coisas como "Josés famosos" penso que está tudo dito. A única solução para eu ultrapassar isto é passar a deitar-me mais cedo. Assim, mesmo que depois acorde às 4 ou 5 da manhã, sempre me divirto a ver o TV Shop, que é bem mais enriquecedor do ponto de vista cultural.

terça-feira, março 24, 2009

Eu sou o Bob, o construtor!



Passei uma infância a achar que não tinha jeito para trabalhos manuais.
Passei uma adolescência a achar que não tinha jeito para trabalhos manuais.
Passei um início de jovem adulto a achar que não tinha jeito para trabalhos manuais.

Percebi finalmente que o jeito não se tem, aprende-se. Lancei-me num desafio hercúleo de montar sozinho um móvel de sala de 2m por 1m (é um dos jovens altos que podem ser observados na fotografia). E não é que ficou direito? Não é que até o raio das portas ficaram ao mesmo nível e não arrastam por sítio nenhum?

Quando acabei senti-me verdadeiramente um Bob, o construtor. Ou pelo menos alguém com capacidade de unir peças e gerar um móvel (não é gerar vida, mas já é um primeiro passo).

O melhor disto tudo é que poupei 70 Euros de montagem, e consegui fazê-lo martelando nos sítios certos e saindo com os dedos intactos.

segunda-feira, março 23, 2009

Até arranhar a fita



Na brilhante série "How I Met Your Mother", há um episódio em que o Marshall tem de se despedir do seu velho carro. Nesse episódio recorda os bons momentos passados na viatura e ficamos a saber que há vários anos tem encravada no leitor de cassetes uma cassete dos Proclaimers, onde tinha gravado apenas a música "Im gonna be (500 miles)".

Lembrei-me de perguntar a mim próprio que cassete eu gostaria de ter posto no leitor de cassetes (se tivesse um e se ele encravasse). A escolha pareceu-me óbvia. Ia recair sem dúvida em "Bohemian Rhapsody" dos Queen.

Na, qualquer dia longínqua, década de 90, nas férias de Verão em Sesimbra, passava as tardes a gastar o meu Walkman com o terceiro "Greatest Hits" dos Queen. Invariavelmente enchia de "rewinds" o fim de Bohemian Rhapsody. Ao ponto de a entrada de "Another One Bites the Dust" se ter tornado quase inaudível com o passar do tempo, ao ser substituído por um arranhar semelhante ao passar de unhas num quadro da escola. Sempre que ouço esta música, lembro o sol, as festas, o cheiro a sardinha, as brisas do mar no café da esquina, e o som cansado do Walkman, a querer acompanhar os Queen e a ver-se à rasca.

domingo, março 22, 2009

You never get tired of...



Da família amarela que nunca cansa, hoje na FOX:

Bart cai, vai ao hospital e de repente o Dr. Hibbert desfibrilha as nádegas de Bart. Segue-se:

Marge: Why are you doing that?
Hibbert: Oh, it's good for the batteries. Now, I'm afraid your son has
cracked his coccyx.

Brilhante...

Home-made pizza




Sou o fã mundial número um de pizza quatro queijos. Acredito que existam outros admiradores que lutem com igual intensidade por uma 4Q (vamos chamá-la assim, carinhosamente, como se fosse um modelo de automóvel), mas lutar mais do que eu... tenho cá para mim que é impossível.

Como quatro-queijista experiente, venho levantar um dos grandes problemas para os quatro-queijistas: os queijos escolhidos. Raramente, se alguma vez, conseguem as pizzerias acertar nos quatro queijos favoritos do quatro-queijista.

Como forma de protesto a essa situação, vou pôr a minha Bimby a tratar da massa e depois vou ganhar respeito a mim próprio com uma combinação fatal: mozzarella, parmeggiano, gorgonzola, roquefort e chévre. Espera... São cinco queijos? E o que é que isso me interessa? Não vou vender para fora.

sábado, março 21, 2009

Bip



Fiquei tão contente! Tinha os meus 15/16 anos, o telemóvel ainda era algo em fase experimental, e o que estava na moda eram os bips. Vi um concurso numa revista ao qual concorri prontamente: era para escrever uma frase sobre bips. Havia um como prémio. Como a pior das fashion-victims que sou, logo concorri, e passadas umas semanas recebo a agradável notícia de que era o vencedor do passatempo. A minha alegria foi temporária... Afinal o bip não servia para grande coisa. Permitiu-me estar no topo da moda, e receber regularmente linhas com notícias sobre o desporto ou o tempo, mas não me ajudou muito nem a ser melhor pessoa nem a coisa nenhuma. A moda do bip passou rápido, cilindrada pelo telemóvel (nos primeiros tempos quase literalmente, com o tamanho de tijolo que estes últimos tinham).

Nunca mais ouvi falar de bips.

Até agora. Voltei a ter um. E este não o pedi. Obrigam-me a usá-lo e é a minha companhia no hospital. Não me dá notícias, nem o tempo, nem o resultado do Benfica. Quando apita estridentemente às quatro da manhã e me acorda de rompante, lá vou eu de cabelo (o que me resta) despenteado e olhos sonolentos em riste para salvar uma vida. Na maior parte dos casos não há uma vida para salvar. É só alguém que de repente ficou com uma ligeiríssima dor de cabeça e o bip (faz de conta que é ele) lembrou-se de me chatear (não há aqui qualquer ressabiamento pela última noite, cof cof).

Os bips perseguem-me. Mas agora foram eles que me escolheram a mim. Será vingança?

quinta-feira, março 19, 2009

Sopa



Dizem que a sopa foi inventada provavelmente há mais de 8000 anos, a partir do momento em que foram inventados recipientes à prova de água, feitos de barro. Permitam-me duvidar disso. Acho que a sopa consegue ser mais básica do que isso, e provavelmente já os répteis faziam um gaspacho em três tempos, muitos anos antes.

De facto, juntar legumes, cozê-los, e a seguir triturá-los, não tem grande ciência. Já juntar as quantidades certas tem o seu quê de entendido, mas para os pré-históricos qualquer coisa serviria (até porque não lhes tentavam impingir sopas pré-feitas da Knorr).

A sopa agrada ainda a ambos os sexos. Escolher legumes no supermercado é pouco másculo, mas aplicar uns golpes ou "estrafegar" com uma varinha mágica são coisas para gente de barba rija (não querendo eu ferir a susceptibilidade de senhoras que andem sem tempo para a depilação).

Paz à sopa... lá vou eu comprar os legumes...

quarta-feira, março 18, 2009

Escrever



Porque motivo alguém escreve num blog?

Será para escrever piadas e esperar que alguém se ria? Será por acreditar que, partilhando com o mundo o que escreve, se sente maior? Será para sentir interiormente que as suas opiniões e pontos de vista são lidos por todos?

Provavelmente sim e não. Provavelmente a maior parte das pessoas que se dedica a escrever num blog tem a mesma intenção que tantos outros tiveram ao longo da história da Humanidade, ou seja, transformar em palavras algo que sente.

É por esse motivo que nem é assim tão importante ser lido. Se alguém ler o que escrevemos, obtemos reconhecimento (mais não seja pelo tempo dispendido a apreciar algo produzido por nós), mas o nosso objectivo final é sempre egoísta, é o de aliviar a pressão de pensar em algo e ter de o dizer. Acho, por isso, que a escrita é um escape, seja ela de que tipo for.

Eça com certeza teria vontade de criticar muito mais abertamente a sociedade numa conversa de café. E talvez até o tenha feito. Mas nunca conseguiria ser tão mordaz como escrevendo crónicas de costumes em que, com o disfarce de um romance, conseguiu tão bem atacar tudo e todos, ganhando reconhecimento, mas decerto ganhando também o alívio da sua pressão.

Pergunto-me muitas vezes porque nunca escrevi um livro. Sempre tive ideia de que o queria fazer. Várias vezes comecei a escrever romances. Mas o resultado final foi sempre o mesmo. A vontade é tanta de partilhar outras ideias, que se as tentasse enfiar todas numa história, saíria algo de semelhante a uma Nova Iorque da escrita, uma mistura que de tão complexa seria impossível de descodificar.

Por isso, vou continuando com as minhas crónicas. Pequenos Maias, pequenas Cidades, pequenas Serras, sempre tão longe do brilhantismo de quem escreveu essas histórias, mas perto do mesmo sentimento de que a escrita serve para libertar.

segunda-feira, março 02, 2009

Cheiros



Todos os sentidos do corpo humano têm a sua beleza. Mas o olfacto tem um jeito especial de moldar o mundo. Andando numa cidade como Lisboa, pela manhã, somos chamados para centenas de odores diferentes que povoam o ar de modo disfarçado e envergonhado. Desde o café de máquina que sai por aquela porta, ao perfume barato da reformada esforçada por tudo pagar com a renda, ao "espirrável" pólen, à borracha que ficou de uma travagem, a água que ficou de uma lavagem, a terra que foi remexida e viu chover-lhe em cima...

Tudo ali fica, tudo ali aparece, e tudo se mistura, como que numa varinha mágica de perfumes e faz aquilo a que podemos chamar "o cheiro a Lisboa".

E afinal, não diz até a canção que esse é um bom cheiro?