quinta-feira, janeiro 22, 2015

O vestido

A noite era ainda uma criança, daquelas crianças que têm idade para ver bonecos animados na televisão e não têm idade para votar, quando toda a sala tinha ficado boquiaberta com o seu vestido. O vestido tinha sido passado de geração em geração, ninguém sabia muito bem a sua origem no tempo, no lugar ou na pessoa. Era um vestido pouco orientado, mas que desorientava. Tinha cheiro a Cleópatra e reflexos de Helena de Tróia. Contava a lenda que a primeira pessoa a usar o vestido tinha sido a Rainha do Reino de Muito-além-mais-além-do-que-a-vista-alcança, no dia do anúncio do noivado do seu filho, o Príncipe Eduardo, que tinha o cognome de "O Conquistador", não pelas suas proezas militares, mas sim pela sua vida de boémio.

Voltando a um passado menos pretérito e mais presente, a entrada dela na sala soltou as mais variadas exclamações. Encarnado e dourado dançavam no seu corpo como dois dançarinos exímios de tango dançavam numa sala escondida de um qualquer bairro de Buenos Aires. As formas bebiam o tecido e o tecido dissolvia-se nas formas. O governador geral estava com a cara mais encarnada do que o vestido, mas ninguém sabia se a culpa era do espanto com o vestido ou do bar aberto. A mulher do governador geral estava também com a cara mais encarnada do que o vestido, mas neste caso, a ver pelo ar com que olhava para o governador geral, a razão era mais evidente. Veio um muito idoso empregado oferecer-se para tratar de guardar o casaco dela, oferta que ela aceitou, deixando discretamente uma nota na mão do muito idoso empregado. Todos os olhos da sala continuavam postos nela.

Ficou a pensar o quanto os olhos que vêem pensam que sabem. Ficou a imaginar as teorias que todos eles estavam neste momento a magicar sobre a sua história de vida, sobre a sua origem, sobre as suas posses, sobre o seu futuro. Uns decerto a pensar que dariam tudo o que tinham para se deitarem uma noite com ela. Outros a pensar na pouca vergonha que era usar um vestido tão revelador, mesmo que cheirasse a Cleópatra, ou talvez sobretudo por cheirar a Cleópatra. Entre a inveja, a admiração e todos os outros sentimentos que viviam pelo meio, ninguém fazia ideia do que estava por dentro. Ninguém se preocupava com o que ela sentia, ninguém quereria saber quantas vezes acordava por noite, porque não saía mais, porque não se dava com mais gente. O mundo tinha-se tornado numa versão maior de um ovo Kinder, com a grande maioria a lambuzar-se deliciada com o chocolate, mas cada vez menos gente com vontade de descobrir ou brincar com o brinde.