segunda-feira, setembro 29, 2014

o homem que olhou para cima

seguiu pela avenida, mastigado pela multidão, avançando num passo certo e rítmico na direcção do seu trabalho. o ano era várias centenas de anos à frente do ano que se pensa que era. havia algo que hoje o inquietava. tinha lido na noite anterior um livro electrónico em que os autores falavam de grupos de pessoas, no passado, que se juntavam à noite, num lugar com pouca luz, para olhar para o céu e ver as estrelas e um ou outro planeta. segundo o relato eles olhavam directamente para o céu e isso deixou-o estupefacto.

ninguém sabia dizer quando, mas a coluna cervical dos seres humanos tinha evoluído já há muitos anos para uma posição que apenas lhes permitia olhar na direcção do chão e ligeiramente em frente. se se tentassem deitar de costas, ou olhar para cima, perdiam automaticamente os sentidos, por compressão da espinal medula. o pescoço tinha evoluído neste sentido após anos e anos de indivíduos que passavam dezasseis a vinte horas do seu dia a olhar em frente, ou para baixo, para ecrãs de telefone, de computador e de televisão. um investigador alertou uma vez para os riscos desta alteração física, dizendo até que um dia iam deixar de conseguir olhar para o céu, sendo prontamente gozado por toda a comunidade científica, que questionou o valor de olhar para o céu já que afinal se podia olhar para o céu a qualquer hora, recorrendo ao ecrã de um dos vários aparelhos.

enquanto todos estes pensamentos lhe marinavam na cabeça deu por si a sair do passeio na direcção do parque, a atravessar os túneis debaixo dos campos magnéticos onde os pods se movimentavam à velocidade da luz, acabando no meio da floresta. aí resolveu sentar-se algum tempo. uns dez anos. dia a dia foi levantando um pouco mais o seu ângulo de visão e finalmente chegou o dia em que conseguiu olhar para cima sem se estatelar no chão. bêbedo de tontura, vislumbrou ainda assim os tons laranja do pôr-do-sol, viu a palete de cores mudar e um céu entre o azul e o negro aparecer do nada. por último vieram as estrelas, a lua e algo que brilhava ainda mais e que veio a saber ser vénus. começou a chorar de alegria e esse momento ficou gravado para sempre na sua memória, que tinha muitos mais bytes do que qualquer aparelho que se conseguisse imaginar.

são tudo perspectivas

' i try to lead as normal a life as possible, and not think about my condition, or regret the things it prevents me from doing, which are not that many . physics can take one beyond one’s limitations, like any other mental activity . the human race is so puny compared to the universe that being disabled is not of much cosmic significance . '

- stephen hawking


quarta-feira, setembro 24, 2014

erro padrão

o erro padrão é o desvio padrão da distribuição de amostragem de uma estatística.

o padrão dá para muita coisa, desde comemorar descobrimentos até descrever o aspecto de uma camisa ou de umas cortinas.

o erro dá ainda para mais. quando somos tão crianças que nem nos lembramos, o nosso processo de aprendizagem mexe-se à base de tentativa/erro. descobrimos que pôr a mão em algo que está a ferver dói, que a água fria não é a melhor coisa do mundo num dia de inverno e que nos reconforta estar ao colo de um ser humano com várias vezes o nosso tamanho.

vida fora vamos definindo padrões. vida fora vamos ainda mais explorando o erro. deixamos de o ver como uma ferramenta para crescer e passamos a penalizá-lo e a demonizá-lo. perdemos a inocência crua de quem reage e ganhamos a capacidade de complicar e sobrepensar todos os erros. elevamos a fasquia mais alto do que o recordista mundial de salto em altura e não toleramos a falha, não nos damos nada bem quando descobrimos que pôr o coração em algo que está frio dói e só aos poucos vamos descobrindo que a água quente no duche é a melhor coisa do mundo, num dia qualquer, quando não há por perto colo nem ser humano com várias vezes o nosso tamanho que nos acuda.

sexta-feira, setembro 05, 2014

eu sei

eu ia a correr floresta fora quando senti o vento vir floresta dentro. as árvores entraram em tumulto, as folhas começaram a revirar-se, os troncos a lutar para ficar junto ao chão e o céu ficou escuro como breu. veio uma nuvem, depois outra, encavalitaram-se entre si e começaram a descarregar electricidade como se fossem uma central energética. os raios caíram por todos os lados, a vida parecia um jogo de plataformas para game boy em que de repente me tinha tornado na personagem e o criador do jogo em sádico controlador do meu destino.

corri até ao que vi de mais parecido com um abrigo, uma gruta com pouca luz. entrei nessa gruta e senti um conforto que o freud explicaria em três tempos. explica-me muito o freud, sempre que tomamos café sexta sim, sexta não. não explica tudo, mas apenas porque percebe pouco de bola.

a gruta protegeu-me nas horas seguintes. o mundo lá fora mudou sete vezes e na minha face o sorriso de conforto passou a riso sardónico de vitória. foi nessa altura que o chacal, o urso pardo e a boa constrictor me atacaram. não dei por nada. despacharam-me mais depressa do que um raio demora a chegar do céu ao solo.

acho que só nos tornamos verdadeiramente adultos no momento em que percebemos que, para o bem e para o mal, as aparências iludem.