quinta-feira, abril 09, 2015

na moda

Está na moda escrever sobre o amor. O truque é pintar o dito de lugares comuns e adornar o produto final com duas ou três asneiras das pesadas para emanar pseudo-rebeldia. O conjunto de palavras é tão bonito e tem uma força tão positiva que o que está mesmo a pedir é para ser posto num rectângulo, acompanhado de uma imagem do pôr-do-sol/paisagem verdejante/gatinhos/silhueta de um ou dois corpos (riscar o que não interessa) e feito, está pronto a sair do forno para esse sufrágio universal que são as redes sociais.

Está na moda gostar dessa visão do amor. Que tenta copiar alguns traços dos mestres mas que os copia mal e porcamente, borra a tinta toda, mas encontra destinatários com a visão tão baça que nem dão por isso. Dantes havia o condão de ficar preso às letras do Shakespeare, do James, do Cummings e de tantos outros. Todos eles vieram por aí fora, ainda há bem pouco tempo dava para jogar à macaca com o Cortázar, mas está tudo a trocar a macaca por meia dúzia de macacos, que aprenderam que o amor em versão marketing vende mais que em versão nua e crua e que fazem de meio mundo parvo.

Está na moda ser positivo, acreditar muito que uma coisa vai acontecer porque se acredita muito nisso. Porque o "eu" está em primeiro lugar, porque "se eu não gostar de mim quem gostará" e tantas outras aldrabices que fingem explicar o mundo e os sentimentos que nunca ninguém entendeu e que não vai entender tão cedo.

O amor não está na moda porque o amor não é uma moda. O amor é visceral, é prazer e sofrimento, é uma tela rasgada, não é uma pintura certinha ou um jogo de unir pontos. E o amor não se aprende por terceiros, sobretudo os de qualidade duvidosa, vive-se, experimenta-se, sofre-se e acontece. Há mais amor no cheiro a terra molhada que em mil frases feitas vomitadas em jeito de culto religioso.

domingo, março 01, 2015

Reset

00:00

Os números piscavam a vermelho no fundo escuro. O escuro era da noite por fora, por dentro a culpa não era da noite. Ou então era de noite também por dentro. Dentro da cabeça uma pulsação contínua, um incessante martelar, uma inequívoca prova de vida e um considerável incentivo à morte. O dia rodava dentro da caixa craniana a uma velocidade superior àquela com que camisolas, calças e roupa interior dançam dentro da máquina de lavar roupa. As ideias misturavam-se de tal modo que apenas se conseguia lembrar da receita de um bolo. As preocupações de ontem a fazer de farinha, o que de novo aconteceu nesse dia mascarado de fermento, todos os planos para amanhã e depois com cara de ovos acabados de deslizar casca fora. E a vida, essa batedeira eléctrica de último modelo, a tratar de misturar tudo com a pressa de quem tem fome e gulodice. Sorriu no escuro e sentiu felicidade por sentir os músculos da face a relaxar. Uma das melhores coisas que o sorriso tem é a capacidade de pôr as rugas em banho-maria. Tinha lido num livro que cada vez que alguém sorri se libertam neurotransmissores no cérebro que contribuem para a felicidade. Imaginou logo uma conversa entre uma das suas múltiplas personalidades e a massa encefálica, em que a personalidade perguntava "em que é que isso contribui para a minha felicidade?" e a massa encolhia os ombros. Depois pensou no obstáculo anatómico de o encéfalo não ter ombros. Não tem ombros, mas controla a sensibilidade e o movimento dos ombros, por isso fica ela por ela.

Perdido nos seus pensamentos não deu pela corrida desenfreada dos números vermelhos no escuro. A pulsação baixou, os pulmões começaram a encher e esvaziar mais devagar e a porta abriu-se, por fim, para o mundo do descanso. Ou o mundo de uma outra forma de cansaço.

Para lá da porta estão de mãos dadas o alívio de acordar do que é mau e a desilusão de acordar do que é bom. Isto se tivermos a máxima confiança na nossa arrogância de achar que sabemos qual é o lado certo, que entendemos perfeitamente de que lado estamos acordados e de que lado estamos a dormir.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Tropical

Era a primeira vez que punha os pés em St. Lucia. O nome trazia-lhe algo da infância. Ainda se lembrava bem de quando tinha tido aulas de órgão (e de quantas piadas infantis tinham sido feitas a esse respeito durante anos a fio) e uma das primeiras músicas que tinha aprendido a tocar era a St. Lucia. Lembrava-se também de como a semelhança entre as palavras órgão e oregão permitiram horas e horas de imaginação a fluir no sentido de não chegar a lado nenhum.

Esta St. Lucia tinha menos melodia mas muito mais harmonia de águas verde esmeralda e colinas verde não esmeralda. Mal se saía do avião o bafo tropical dava as boas vindas quase com tanta vontade como o cocktail tropical que o esperava na zona de recolha de bagagens. Na verdade a bagagem vinha quase vazia, é a melhor parte de viajar para sítios onde o único frio é o do balde de gelo onde se guardam as garrafas de vinho branco.

A viagem de táxi até ao hotel foi tão cheia de percalços como a vida de um técnico oficial de contas. O quarto de hotel esperava por ele como uma criança espera pelo dia de Natal, mas com menos velhos de barbas brancas e mais varandas com vista para o mar. Assim que entrou na varanda saiu para outro mundo, viu as escadas que serpenteavam montanha abaixo até a uma baía privada. Privada de gente mas cheia de vida. Duas tartarugas andavam na sua vida de não lebre e pássaros de várias cores tentavam importunar, com pouco sucesso, as suas existências de ser com carapaça. 

Ouviu ao longe o som de uma harpa, o sinal combinado para avisar os hóspedes da hora de jantar. Desceu a escada de caracol e sentiu o sangue correr por todos os seus poros quando viu o banquete que se desdobrava à sua frente. Salivou pela língua e pelas circunvoluções cerebrais todas, sentou-se e foi servido como um imperador de tempos antigos.

Ia chegar à sobremesa, algo que cobiçava desde que viu tudo o que estava naquela mesa, quando ouviu uma música bem conhecida a tocar em baixo volume ao fundo. O volume era agora cada vez mais alto. Tão tão alto que o forçou a abrir os olhos, acordar e sair da cama para começar um novo dia.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

O vestido

A noite era ainda uma criança, daquelas crianças que têm idade para ver bonecos animados na televisão e não têm idade para votar, quando toda a sala tinha ficado boquiaberta com o seu vestido. O vestido tinha sido passado de geração em geração, ninguém sabia muito bem a sua origem no tempo, no lugar ou na pessoa. Era um vestido pouco orientado, mas que desorientava. Tinha cheiro a Cleópatra e reflexos de Helena de Tróia. Contava a lenda que a primeira pessoa a usar o vestido tinha sido a Rainha do Reino de Muito-além-mais-além-do-que-a-vista-alcança, no dia do anúncio do noivado do seu filho, o Príncipe Eduardo, que tinha o cognome de "O Conquistador", não pelas suas proezas militares, mas sim pela sua vida de boémio.

Voltando a um passado menos pretérito e mais presente, a entrada dela na sala soltou as mais variadas exclamações. Encarnado e dourado dançavam no seu corpo como dois dançarinos exímios de tango dançavam numa sala escondida de um qualquer bairro de Buenos Aires. As formas bebiam o tecido e o tecido dissolvia-se nas formas. O governador geral estava com a cara mais encarnada do que o vestido, mas ninguém sabia se a culpa era do espanto com o vestido ou do bar aberto. A mulher do governador geral estava também com a cara mais encarnada do que o vestido, mas neste caso, a ver pelo ar com que olhava para o governador geral, a razão era mais evidente. Veio um muito idoso empregado oferecer-se para tratar de guardar o casaco dela, oferta que ela aceitou, deixando discretamente uma nota na mão do muito idoso empregado. Todos os olhos da sala continuavam postos nela.

Ficou a pensar o quanto os olhos que vêem pensam que sabem. Ficou a imaginar as teorias que todos eles estavam neste momento a magicar sobre a sua história de vida, sobre a sua origem, sobre as suas posses, sobre o seu futuro. Uns decerto a pensar que dariam tudo o que tinham para se deitarem uma noite com ela. Outros a pensar na pouca vergonha que era usar um vestido tão revelador, mesmo que cheirasse a Cleópatra, ou talvez sobretudo por cheirar a Cleópatra. Entre a inveja, a admiração e todos os outros sentimentos que viviam pelo meio, ninguém fazia ideia do que estava por dentro. Ninguém se preocupava com o que ela sentia, ninguém quereria saber quantas vezes acordava por noite, porque não saía mais, porque não se dava com mais gente. O mundo tinha-se tornado numa versão maior de um ovo Kinder, com a grande maioria a lambuzar-se deliciada com o chocolate, mas cada vez menos gente com vontade de descobrir ou brincar com o brinde.