quarta-feira, novembro 30, 2011

caro céu

caro céu,

percebo que por vezes fiques um pouco revoltado com esta mania do ser humano de tentar explorar os teus limites. toda essa raiva que descarregas quando sentes que algo não corre da forma que pensaste, é compreensível. no entanto, tens de saber relativizar as coisas...

tu és infinito. com tanto espaço que tens, para quê andar a embirrar apenas porque meia dúzia (para ti são menos do que micro-formigas) de conjuntos de lata te atravessam todos os dias, cheios de pessoas que vão à procura de sonhos, vão de volta à família, vão fingir que são de um planeta diferente no seu próprio planeta ou vão apenas em trabalho para levar todos estes? mesmo os satélites e foguetões, são menos incómodos para o teu todo do que aquele bocadinho de pó que entra para o olho com o vento e ali fica a irritar horas a fio.

nunca te vi ficar tão irascível com cometas ou cometas-like. e esses atravessam-te com violência e sem pedir autorização. serás tu, céu, não mais que um míudo mimado e sem coragem de enfrentar esses monstros debaixo da tua cama? e que cama é essa, céu? não consigo imaginar que transportadora se dignaria a entregar algo tão grande num sítio tão infinitamente distante. acredito que o teu código postal são vários códigos postais ao quadrado, não sei mesmo se ao cubo.

eu também me irritava se andassem por aí a dizer que um homem de barbas com um tridente vivia em mim, mas o que podemos nós fazer em relação a isso? ou pegas num raio e dás cabo desse faux pas global ou tens de aprender a viver com isso. sim, eu sei que já vives com isso desde os tempos das cavernas, mas também não precisas de ser sempre tão impaciente!

acalma-te céu. nós queremos-te é aí. sim, aí precisamente! para poder continuar aqui deitado na relva, a contemplar-te na sintonia do doce sabor do dia com os mil significados que essas nuvens que sopras podem ter, na minha cabeça e na cabeça de todos aqueles que contemplas aí do alto. e preso num beijo, mesmo de olhos fechados, sinto o calor do teu azul avermelhado, da tua transformação da noite, nesse paradoxo constante em que brincas durante trezentos e sessenta e cinco dias por ano, onde há muito mais do que trezentos e sessenta e cinco anos por dia.

teu.

terça-feira, novembro 29, 2011

porque nostalgia não é só o nome de uma rádio

quem seja honesto não pode dizer que se lembra muito bem dos cerca de nove meses que passou dentro de uma barriga, refastelado no conforto do quentinho e amortecido de todos os males do mundo, mas ao mesmo tempo alheio a todas as maravilhas que ele tem para oferecer. passado esse tempo, levamos todos uma espécie de cartão vermelho, com direito a expulsão. mas expulsão das boas, porque em vez de ir tomar banho mais cedo para o balneário, saímos para a terra dos arco-íris, pores-do-sol e florestas de sequóias gigantes.

não faz mal não nos lembrarmos desses nove meses, porque a vida se encarrega de nos fazer sentir repetidamente a mesma sensação. o que eram úteros passam a ser grupos, o que era líquido amniótico passam a ser amigos e aqueles vasos que nos traziam nutrientes passam no fundo a ser a intensidade da vida que vivemos.

ontem, hoje e amanhã, acabamos por criar um determinado grupo, com o qual nos identificamos, criamos laços fortes, temos uma rede forte, quase sem buracos à vista, e a vida logo se encarrega de nos fazer ter de mudar de rumo, mudar de sítio, e recomeçar tudo de novo. mais uma vez perdemos o conforto, o amortecimento, a tranquilidade do conhecido.

a cada novo parto, damos um salto no desconhecido, para dentro daquele poço negro cujo destino é uma incógnita. sendo português, tenho a habitual nostalgia que nos está tatuada nos genes.

passo estas últimas horas nos sítios que me viram crescer. olho para a árvore do jardim que trepei com cinco anos, para o pátio da minha escola primária, para os ferros do gradeamento da preparatória e da secundária e para a estátua do sousa martins em frente à faculdade. finto as árvores e esplanadas de picoas, as janelas em andares altos que me dão sempre lisboa a ver, a feira do livro onde já fui tão feliz parece dizer-me um adeus e a minha varanda em santa apolónia fica meio amuada com a partida.

o bom disto tudo é que, apesar de estarmos sempre a nascer de novo, não nos apagam a memória a cada novo parto. por isso ficam muito fortes as pessoas que nos unem, são o nosso suporte constante, e qualquer que seja a rede construída, são esses que funcionam como pilares inegáveis da nossa personalidade única e inclonável.

se ser português é ser nostálgico e escrever todas estas "potencialmente-interpretáveis-como" lamechices, também é ao mesmo tempo saber que os mesmos genes estão tatuados com a vontade de embarcar nestas caravelas de agora, com duas asas e uma cauda, e tentar provar por esse mundo fora que nós somos muito mais do que aquele sítio simpático onde os peixes se comem envoltos em sal e as mulheres usam muitas saias.

por isso, parto. mais um. mais uma vez. não troco dias por noites, nem europas por américas. quero tudo. ao mesmo tempo. parafraseando as palavras ditas pela voz da fergie, o que não pensei jamais vir a fazer, em relação a viver a vida do modo mais intenso possível, apenas tenho a dizer que "i'm addicted, and i just can't get enough".

até já!

(texto escrito na véspera da viagem transatlântica)

segunda-feira, novembro 28, 2011

definição do amor

CHORAR EM PÚBLICO

Miguel Esteves Cardoso – 28-11-2011

" Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser jun...tos.
...
O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO... e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe.
...
O IPO consegue ser uma segunda casa. Nenhum outro hospital consegue ser isso. Podem ser hospitais muito bons. Mas não são como uma casa. O IPO é. Há uma alegria, um humor, uma dedicação e uma solidariedade, bem-educada e generosa, que não poderiam ser mais diferentes da nossa atitude e maneira de ser - resignada, fatalista e piegas - que são o default institucional da nacionalidade portuguesa. É graxa? Para que tratem bem a Maria João? Talvez seja. Mas é merecida. Até porque toda a gente que os três IPO de Portugal tratam é tratada como se tivesse direito a todas as regalias. Há muitos elogios que, não obstante serem feitos para nos beneficiarem, não deixam de ser absolutamente justos e justificados.

Este é um deles. Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim. "

diamantes perdidos nos himalaias

perdido no meio de uma montanha daquelas que estão nas mais altas montanhas que o mundo conhece, encontrei um monge budista e resolvi perguntar-lhe algo que sempre me tinha suscitado curiosidade "o que é que o budismo tem a dizer sobre tatuagens".

durante tempo e tempo a fio, que com um monge budista parece sempre tempo a menos, explicou-me que duas correntes completamente opostas existem sobre a matéria. os 'contra' defendem que tatuar o corpo é criar uma marca definitiva, indo totalmente contra o princípio de desprendimento material, extensível ao próprio corpo. os 'pro' contrariam, dizendo que tatuar o corpo é a prova mais fantástica e evidente de desprendimento físico e que a prática deve ser incentivada.

como eles são budistas, falam sobre isto horas e não acabam fulos de raiva. discutem com argumentos nos olhos e nas línguas e não com duas pedras na mão.

de facto concordo mais com uma das correntes. tal como li recentemente escrito pelo josé luís peixoto, são pobres de espírito aqueles que acham que fazer uma tatuagem é mau porque fica para sempre, porque é uma coisa que não se pode mudar. podem não querer fazer uma, e isso merece o respeito de todo e qualquer fervoroso adepto do livre arbítrio, como eu sou. mas desenganem-se se acham que pigmentos de tinta na derme são mais definitivos do que o dia em que morreu o nosso pai ou a nossa mãe, do que o nascimento do filho tão desejado, do que o fim daquele curso, do que aquele emprego pelo qual lutámos a ferro e fogo e um pouco mais de ferro, ou todas as outras situações que nos formatam como seres vivos e não-vivos.

a vida são marcas. não importa de quê ou como. uma linha desenhada no ombro marca-me do mesmo modo que o cheiro do risotto de frutos do mar em portofino num final de uma tarde de verão. se trouxerem o chardonnay fresquinho, até o bebo nas duas ocasiões com idêntico prazer.

não somos mais do que um molde, e se fugirmos a todo e qualquer tipo de marca, vamos embora tão puros e tão não-trabalhados, que nunca teremos sequer descoberto se, por baixo daquela pedra tosca e romba, havia um diamante à espera de ser delapidado.

domingo, novembro 27, 2011

não são só quatro rodas e uns eixos

em virtude da minha migração próxima, soube hoje que o meu carro também vai migrar à sua maneira, com a minha partida.

deve ser muito mais bonito fazer-se um texto sobre carros quando se anda a conduzir um aston martin ou um lexus, mas cada um é para o que nasce e eu e o meu carro estamos assim um para o outro.

quem diz que os objectos não têm sentimentos não percebe nada disto. a fuga ao materialismo puro deve, com toda a certeza, afastar-nos de sobrepor os objectos às manifestações mais profundas da emocionalidade, mas há objectos que ganham um lugar tão especial no nosso eixo coração-mente-história. é impossível não associá-los ao nosso crescimento pessoal, às alegrias da vida, aos dias difíceis, ao lugar especial, ao lugar terrível, à chuva que inundou o para-brisas e ao sol que aqueceu o couro do volante e o fez ter aquele cheiro de pos-pôr-do-sol, que puxa apenas a condução lenta até ao quarto, por entre as pestanas cheias de sal, para um banho rápido e um encaminhar para a noite.

tal como aquele urso de peluche que nos viu chorar baba e ranho ao mesmo tempo que nos viu dar pulos de alegria com o raio do jogo d'a ratoeira no dia de natal, o carro atravessa uma fase fundamental da vida.

naquele volante não estão só os botões para mudar de estação ou aquele que faz barulho e tem um nome parecido com gambuzino. está o suor do dia de maior ansiedade. estão as lágrimas dos dias de fim de ciclo. está o quente do caminho para casa após aquele beijo. está a garra de querer fingir ser um jovem piloto de um qualquer campeonato de uma qualquer categoria, para acabar a fazer um pião parvo e pouco digno.

o pedal também não é decerto só ferro e borracha. foi pontapeado no meio da fúria. foi acariciado quando o caminho se queria mais lento para que nunca mais acabasse. foi pressionado até mais não quando a morte pareceu aparecer de repente numa beira-de-ravina, ao saltar uma cabra para o meio da estrada.

o meu carro não é só um carro. não só lá vivi, como lá morei e como lá está parte de mim, e do que eu sou. fui lá não-condutor, segundo condutor e por último condutor principal. ele também foi um privilegiado, porque calcorreou uma europa de uma ponta à outra, mas foi sempre um fiel soldado, nunca desistindo, mesmo quando maltratado.

sei que ele pode partir, mas tudo parte, até nós, porque nunca paramos no momento. reserve o futuro o que reservar, voltarei sempre com facilidade a um qualquer fim de tarde perdido nos pirinéus em que podia desligar o rádio, para ouvir o prazer de um carro em comunhão com a natureza...

sábado, novembro 26, 2011

a espuma das noites

tenho um dicionário próprio a partir das três da manhã.

acho que isso é a prova exacta e científica de que o mundo muda a essa hora. os brilhos têm uma tangente diferente. os copos ganham uma espécie de fluorescência própria. os corpos ganham uma tendência flirtantemente diabólica. a lua faz de conta que é o sol e o sol nem esgrime a tentativa de parecer que é a lua.

fecham-se portas no momento em que se acendem luzes. os vidros partidos são espalhados por ruas, tapetes e entradas, como ânsia de homenagem ao desequilíbrio natural da falta de luz.

as palavras do meu dicionário não são só diferentes nas letras que as unem. têm cores, que durante o dia andam muito mais fugidas. há letras amarelas, azuis, verdes, encarnadas, fuchsinzento, pratadeado ou amarelilás. as que existem, as que não existem e as que estão à espera de passar a existir. porque este dicionário é escrito a cada momento, numa espécie de acordo inteligentográfico feito entre as páginas do próprio dicionário, numa noite como outra qualquer, à beira-rio, antes de os raios de sol começarem a reflectir nos vinis de outras horas.

vou só ali escrever mais duas ou três páginas e aceito ajudas. até já.

sexta-feira, novembro 25, 2011

seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático

nunca acreditei em sonhos.

pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo.

o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos.

quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado apenas pelo homem que inventava palavras, para ter comida na mesa e roupa para os filhos.

os sonhos não são mesmo sonhos. são futuros concretos. que podemos seguir ou não. depende apenas de cada um.

creio que a melhor forma de alguém se encontrar é perdendo-se

detesto a calma.

acho que já bati nesta tecla. mas eu adoro bater em teclas. sejam de macs ou de steinways. por isso não me escandalizo por voltar a bater-lhe.

no fim de um dia de cansaço e de trabalho infindável, nada me sabe melhor do que recolher ao meu caos. perdido entre livros espalhados no sofá, mesa e chão (só nos últimos cinco minutos já pisei o borges e lixei um dedo no palahniuk), com a discolette a entrar-me nos ouvidos patrocinada por uns phones vermelhos conspirativos, olho para os sons da escuridão e o que cheiro é o tumulto da vida.

sinto que podiam estar milhares de seres vivos em plena harmonia autista neste momento. devorar sons é para mim um hobby (sim, o acordo ortográfico que se) que me permite uma espécie de sincronização de fim do dia.

no fundo, não somos todos mais do que iPhones (com um ou outro blackberry teimoso) e adoramos regressar de vez em quando à nossa dock para voltar a ficar com a barra no verde.

e que bem que sabe ficar com a barra no verde...

quinta-feira, novembro 24, 2011

o açúcar em pó, eu e aquela cena meio redonda chamada mundo

conheci um homem que largava palavras nas folhas como quem espalha açúcar em pó sobre um bolo de cenoura.

a teoria dele é que nunca se polvilha nada com formas muito direitinhas. quem quiser perfeição fica em casa a organizar as meias por cores ou as camisas por tipo de colarinho. quem espalha o açúcar como quem lança notas de cem dólares ao ar, depois de ganhar um jogo de poker em las vegas, vê a vida de uma forma impagável.

penso em todas as estradas que ainda tenho por fazer. imagino artérias cheias de sangue pulsátil, imparável, em que eu navego consumindo tudo o que têm para me dar. desertos, florestas, montanhas, lagos. nem paro para comer. janto serras. janto lagos. de que serve fingir que há funções vitais a manter quando há tanto mundo para conhecer?

a vertigem da velocidade puxa por mais velocidade. quem acelera a sério sabe bem que quanto mais rápido vamos mais confortável é o desconforto da velocidade acima. o mundo de quem o vive devagar é tão diferente de quem o vive a mil. imagino uma estrada vivida com calma, e percebo o que daí pode ser retirado, mas é de certeza um mundo diferente. para mim, só valem centopeias impregnadas de speeds que atravessem um pátio como quem corre os cem metros, obikwelizadas que estão da vida.

por mim, pego no açúcar em pó, atiro-o ao ar e deixo-o cair sobre toda a gente numa alegre metáfora da vida imperfeitamente perfeita.

quarta-feira, novembro 23, 2011

dei por mim a pensar, daquela forma que quase sai fumo pelos ouvidos

gosto muito de ler sobre a crise. de ver muitos programas sobre a crise. de ouvir muitos especialistas a falar sobre a crise. ou aqueles que não são especialistas de coisa nenhuma, mas que falam da crise como se de alguma coisa fossem especialistas. nem de outras coisas o são, muito menos da crise. mas a crise é sem dúvida um óptimo tema para abrir telejornais. dez minutos para os ratings. outros dez para o comportamento dos mercados. ainda sobram dez minutos para falar das reuniões de concertação social, que são o equivalente a juntar um benfiquista e um sportinguista numa tasca em dia de derby - já se sabe que sai de lá tudo com um olho à belenenses, para democratizar o gosto clubístico lisboeta. os últimos dez minutos podem ficar para falar do mourinho, da lesão do tendão do ronaldo e da cor de cabelo do jorge jesus.

facilmente caímos no 'ai jesus' (o da cruz, não o do benfica) da depressão profunda e contínua de quem vai para uma crise sem fim à vista e, no meio desse pânico, apenas nos vamos afundar. as crises existem desde que o homem faz trocas comerciais. não havia era imprensa, que o guttenberg devia estar ocupado a fazer macramé, mas algures no tempo os mercados devem ter dado baixos ratings à Hispania e o preço das tâmaras era incomportável por causa dos conflitos no médio oriente. nunca foi boa solução para sair de areias movediças desatar a tentar fugir à pressa e de modo não pensado.

pensava que o tipo do cabelo branco despenteado tinha dado uma lição ao mundo sobre uma coisa chamada relatividade. a análise dos problemas e a sua dimensão nunca é relativizada.


no japão passou uma onda por cima dos "mercados". e rapidamente mudaram os "fundamentals" da economia e, sobretudo, o conceito de crise...

terça-feira, novembro 22, 2011

os verdes anos do carlos paredes ressoam ecos nas paredes da memória através de polaroids de outros tempos

nostalgia.
uma palavra tão válida, que até dá para dar nomes a rádios. bem, isso talvez não seja critério, porque senão tenho de escrever um texto sobre a validade de coisas como "amadora de alenquer" ou "alma viva", também nomes de rádios.

sou meramente semi-nostálgico. adoro o passado, da mesma forma que venero o presente e endeuso o futuro. acho que tudo tem o seu lugar. o tempo traz uma nova forma de ver as coisas. sinto que há momentos do passado que pareceram tão claramente amargos, mas o tempo encarrega-se de os tornar agri-doces. ou aqueles bem azedos, que deixados a repousar em banho-maria uns quinze/vinte anos parecem abrir em todo o seu esplendor, mimetizando trufas deixadas a apurar debaixo de terra, trazendo consigo lá de longe tudo menos azedume.

dos vários 'eus' que percorremos toda a vida, a infância nunca vai perder o seu canto especial. julgo mesmo que a infância é o esplendor da exploração. achamos que não, que é no pico da capacidade física e mental que exploramos tudo, mas isso é mais aquilo de que nos convencemos, "entretidos" na nossa vida ocupada e de pseudo-gozo. claro que exploramos com mais capacidades. mas, ainda mais claro, exploramos muito menos tempo.

na infância estamos a descobrir barreiras. estamos a testar limites. se tivermos a feliz coincidência de ser amados e de ter tudo o que é preciso para ser feliz, o nosso debate é com o mundo. aprendemos que não é boa ideia pôr a mão dentro de um tijolo das obras quando somos picados por uma vespa. percebemos que descarregar a irritação birrenta numa pedra traz ainda mais birra com a dor que desperta no pé. ouvimos o raspanete de uma vida porque íamos agora mesmo beber meio frasco de xarope da tosse só porque é docinho. e em cima disso ainda nos apresentam, tentando esconder, tudo o resto que temos de descobrir daí em diante. falam-nos de "um sítio melhor" para onde vão os avós naquele dia em que estranhamente não os podemos ir visitar ao fim-de-semana, convencem-nos a acreditar que temos de nos portar bem para que "deus nosso senhor" goste de nós e que só os meninos que comem a sopa é que recebem presentes no natal.

no meio de tudo isto, a nossa infância é uma espécie de role-playing-game mais fabuloso do mundo. de um mundo encantado e que encanta. de um mundo de caos, em que a ordem com que nos querem proteger até à idade mais tardia possível é uma mera armadura para os sentimentos, e o reflexo da ilusão de algo diferente daquilo com que realmente nos vamos debater.

ainda antes de ler exaustivamente o friedrich, já acreditava que "one must still have chaos in oneself to give birth to a dancing star". mas eu não dormia muitas horas. é. é capaz de ser isso.

segunda-feira, novembro 21, 2011

esfiquinhazes pedras de toque

despe o que tens vestido e atira com as guardas dessa auto-estrada à cara daqueles que não acreditam que os girassóis um dia se podem lembrar de girar ao contrário. só porque sim. ninguém obriga ninguém a nada. a morte à definição seria a abertura da caixa de pandora da delícia. estou a imaginar tudo muito bem na sua vidinha e, de repente, vai-se a gravidade que lhes venderam como absoluta e aparece outra gravidade, a da situação. caem que nem uns perdidos no abismo profundo que não é abismo e a queda nunca acaba. no fundo ficaria meio mundo preso na angústia do poço gigante, em que a partir de certa fase é provavelmente mais angustiante achar que não há um fim para queda do que perspectivar a dor da queda.

tropeça nas raízes das folhas, e poupa o tronco. sabes tão bem como eu que dar cabeçadas em postes de electricidade é uma actividade tão digna como apanhar folhas no outono. a menos que uses aquelas pegas extensíveis, sua calona. isso não é objecto de gente. a usar isso que seja para abrir o frigorífico a partir do sofá, tirando de lá garrafas de pseudo-cerveja, que tem escrito no rótulo nomes de terras mas que se infiltra na alma como clicquot reserva.

mais que tudo, sai de casa quando te apetecer atirar pedras ao mar. eu defino o mundo entre as pessoas que atiram pedras ao mar às três da manhã só porque lhes apetece e as que não o fazem. as últimas aumentam substancialmente a sua probabilidade de ver a cabeça aberta pelas pedras que os primeiros atiram. quase como quando vem o tipo que vê o copo meio cheio e bebe de um trago a metade do que chora pelo copo meio vazio.

a vida resume-se a um pôr-do-sol, pode ser aproveitado e sentido como um fenómeno irrepetível, ou estupidamente perdido, estando virado para trás a atar os atacadores dos ténis com medo de não cair da falésia. esses não morrem da queda. mas morrem de tédio.

domingo, novembro 20, 2011

so, take the red pill or the blue pill, your choice

no outro dia parei. para pensar uma vez mais sobre o valor da decisão.
curioso como há quem seja criticado por decidir de modo demasiado racional, outros por decidirem logo com o que lhes vai na alma, e outros ainda por não se assumirem nem como carne nem como peixe.

a decisão é um ponto importante da vida. diria mesmo que é decisivo. provavelmente é o acto humano mais importante, e a história está cheia de momentos que o comprovam. se não é fácil decidir entre o bitoque e o bacalhau espiritual, imagino para o alexandre, mesmo sendo grande, qual a angústia e o conflito interno quando tinha de decidir se continuava a sua marcha vitoriosa, se parava ou até se voltava para trás.

parece mais importante quando falamos de generais. ler na military history sobre termophilas, gettysburg, waterloo ou outras, é igual a ler uma espécie de hino à decisão. mas nas guerras do dia-a-dia, somos nós própios generais das nossas próprias decisões.

quando oiço que alguém se suicidou, confesso que não me prendo tanto com o acto em si. corpos caídos e sangue a sair pela boca são coisas demasiado vistas na televisão para conseguir impressionar. o que me cria sempre grande curiosidade é imaginar o processo interno que levou a tal decisão. em que momento alguém decide pôr fim à vida? e isso é feito com base na reacção de fight-or-flight do momento? ou é uma escolha racional e pensada? ou depende do indivíduo? ou pode ser feito de um modo totalmente contrário ao racional habitual daquele indivíduo, como se, pela primeira vez na vida, resolvesse ter a audácia de fazer algo diferente, mas para um fim questionável.

a decisão envolve a influência de muitos factores. mas pergunto-me realmente qual o peso desses factores consoante o grau de importância que essa decisão possa ter. porque decidir é importante. e pelos vistos às vezes até pode ser fatal.

sábado, novembro 19, 2011

um jantar como outro qualquer

sentei-me com eles antes que tivéssemos sequer tempo de olhar bem à volta. perde-se muito quando não se conhece o terreno. eu gosto de olhar bem, como quem vê, antes de me sentar onde quer que seja. as paredes falam, a decoração susurra dicas e a disposição das pessoas explica a disposição da noite. um jarro com flores pendurado daquela parede explica mais sobre esta sala que mil comentários de críticos no jornal.

o encontro estava marcado há um tempo, mas andámos sempre os três tão ocupados que foi bem difícil arranjar uma data. enquanto o f se tentava decidir entre o robalo grelhado e o joelho de porco, o k conseguiu adormecer sobre si próprio, vítima de uma espécie de narcolepsia do génio. finalmente lá demos o murro na mesa e acordou para pedir a sua massa. integral. parece que estava de dieta.

começámos com o pé esquerdo, com o k a vir com a do costume de que todo o Homem é uma seca, e quem o queira contrariar será uma seca a fazê-lo. depois lá explicou que isto era apenas uma ideia geral, bebeu um trago de vinho branco e fizemos as pazes. não durante muito tempo. o f, ainda picado com a história de sermos todos uma seca, começou a tentar desafiar a lógica de pensamento do k dizendo-lhe que frequentemente dá grandes passeios e que quando olha para um abismo o abismo olha de volta para ele. contrariamente ao que ele esperava, tanto eu como o k concordámos com ele e por isso não se gerou a discussão. no fundo achámos que ele nunca devia ter tocado nos aperitivos, mas isso é outra história.

quando se fala bem entre amigos, nunca parece muito, nunca é demais, nunca cansa. o que cansa é a conversa da treta, de ocasião, e de falta dela. inventar o ininventável dificulta o discurso e faz tropeçar a compreensão. nada disso se passou nas três horas em que ali estivemos. entre a nuvem de fumo e a pouca nitidez do vinho, falou-se de tudo, sem preconceitos e sem cair em paradigmas fáceis.

chegou a conta por fim. o f disse para me lembrar que tenho de ter muito caos em mim mesmo para fazer nascer uma estrela que dance e o k que a nossa vida expressa o resultado dos nossos pensamentos dominantes. com isto paguei a conta, perguntei-lhes se ao menos podiam dividir a gorjeta e sorriram enquanto acenavam que sim.

sexta-feira, novembro 18, 2011

lagos sulfurosos entre substância cinzenta e substância branca

hoje passeei por um cérebro. não me consigo lembrar se estava acordado ou se estava a sonhar. essa informação ficou perdida enquanto me maravilhava com os ramos cuidadosamente podados das árvores que enchiam a terra da substância cinzenta. velhos guardiões trabalhavam os troncos e os caules como quem poda bonsais e as folhas brilhavam como uma espécie de estrela a nascer. daquelas a sério, não das cadentes, que as cadentes duram o mesmo tempo que dura o encanto humano pelas coisas pouco perenes, delirantemente passageiras.

o susto, ao ver largas bolhas explosivas nos lagos sulfurosos entre a substância cinzenta e a substância branca, deu lugar à paixão por mergulhar nesses lagos, e senti-me como um molde quando é banhado num ouro de muitos quilates, talvez demasiados quilates.

o dia dentro de um cérebro nunca termina. é uma espécie de simulação dos seis meses de verão no árctico. quando acabam as actuações do dia, começam as actuações da noite. os malabaristas do dia dão rapidamente lugar aos saltimbancos da noite. há espectáculos de magia por todo o lado, e as redes, que nunca terminam, são usadas para múltiplas exibições. atarefados seres minúsculos, com número ímpar de olhos, vão montando uma espécie de peças de lego e logo as atiram para um infinito finito, como se tudo fizesse parte de um gigante modelo de máquina de guerra do leonardo.

continuei sem saber se estava acordado ou a sonhar. mas ali dentro pouco importa, o sonho abraça a realidade e tropeça toscamente nela como quem força a queda em direcção ao prazer do caos.