segunda-feira, maio 05, 2014

régua de felicidade

" és feliz? "

se vos fizerem esta pergunta, o mais provável é começarem a patinar e gaguejar enquanto tentam responder honestamente. acabam por dar uma resposta remendada, feita às três pancadas, e isso acontece, acima de tudo, pela falta de coragem que temos para parar de vez em quando e pensar na resposta a esta pergunta.

uns imaginarão a felicidade brilhando como diamantes, com postais de ilhas paradisíacas, águas claras e lagostas crepitantes a sair da grelha, enquanto vão polindo o brilho ao seu carro de luxo. outros cairão no pseudo-romantismo de abraçar uma felicidade primitiva, o amor e uma cabana, as estrelas tão bonitas lá no céu e para que precisamos do mundo e para que precisa o mundo de nós (até serem mordidos por um animal venenoso e irem a correr aflitos para o hospital).

a felicidade propriamente dita é impossível de definir. é ler e ver e ouvir, para entender que há milhares de anos que gente que sabe e gosta de pensar se questiona sobre isso, sem chegar a grandes conclusões, apenas a argumentos. não haverá provavelmente A felicidade, mas sim UMA felicidade, a de cada um, a dos com que cada um vive. e os copos de medida, os pesos na balança, serão diferentes de indivíduo para indivíduo, o que releva o erro da felicidade comparada, erro tantas vezes cometido.

vivemos na sociedade da comparação. pensamos se sabemos mais ou menos do que os outros, se fomos a mais ou menos sítios do que os outros, se ganhamos mais ou menos do que os outros. perdidos neste jogo de gráficos esquecemo-nos frequentemente de respirar e aproveitar um fim de tarde, ou de correr à chuva e recordar que a pele está viva e em contacto com a natureza.

não existirão panaceias ou medidas certas, mas acho que um dos passos mais importantes para a felicidade é conseguir ficar feliz com a felicidade dos outros.

domingo, maio 04, 2014

as pessoas e a cómoda

a vida tem a mania de se compartimentalizar. são estados atrás de estados na infância, são fases atrás de fases na adolescência, são saltos de ponto para ponto na vida adulta. são muitos anos passados à face da terra (na verdade são sempre muito poucos) em que tanto pessoas como coisas fluem por nós. aparecem e desaparecem da nossa vida como incandescentes meteoritos quando invadem a atmosfera.

para tudo isto, e sem ser por vontade própria, desenhamos dezenas ou centenas de gavetas, destinadas a cada um destes encontros vida fora. umas gavetas são abertas uma vez e logo fechadas para a eternidade. outras são abertas quando calha, e quando de lá salta a pessoa que ali esteve fechada anos a fio, é instantânea a corrente eléctrica que salta da gaveta para a nossa pele e acaba a aquecer o coração. outras gavetas há que trancamos a sete chaves e, ainda assim, vamos confirmar se não há hipótese de quem lá prendemos sair pela parte de trás do móvel. 

penso muito na ironia das palavras com que terminam muitos dos encontros. um "então havemos de combinar qualquer coisa", um "isto é só até já", um "vamos falando", que são tantas vezes voltas dadas à chave sem que nos apercebamos que estão a ser dadas. a relevância de viver o momento, de dar abraços sentidos, de marcar as pessoas, de partilhar risos e sorrisos e lágrimas, é que cada momento tem demasiado valor para que não seja vivido como tal. a vida troca-nos as voltas, os temporários passam a definitivos, as certezas esfumam-se como papel envelhecido e nada é mais garantido do que apostar as fichas quase todas no presente e esperar que a roleta se porte bem.

claro que a vida não são só gavetas. temos os distintos, os especiais, aqueles que não merecem chave porque têm sempre o coração aberto à nossa espera. esses vivem em molduras, emproados em cima da cómoda, sempre à distância de um esgar. moram em cima de todas as gavetas que resolvemos (teremos mesmo resolvido?) abrir e fechar, como se fossem estrelas a viver acima dos meteoritos.