terça-feira, outubro 30, 2012

revisão da matéria dada

é praticamente universal o estudo dos fenómenos da natureza enquanto parte dos currículos escolares (pelo menos nos sítios que possam ter um currículo escolar não creacionista). numa fase em que a formação da personalidade está em pleno ponto de ebulição, somos sujeitos a explicações, sucintas ou extensas, sobre o porquê de a natureza ser o que é e funcionar como funciona. ensinam-nos, assim, como funcionam as rodas dentadas e os ponteiros deste relógio que todos habitamos.

tal como num relógio suíço, o cerne da questão não se limita à máquina. (tantas piadas que se podiam inserir aqui envolvendo cern e suíça. mas depois achavam-me demasiado nerd e não posso correr esse risco, já gastei os meus créditos da vossa bondade ao usar um advérbio de modo logo no início do parágrafo anterior).

o que não vem nos livros, pelo menos nos da escola, é que temos de aprender a respeitar a força e a história por trás da máquina. um relógio suíço (dos originais, dos feitos à mão, dos que são caros não porque são luxo mas porque não são feitos numa fábrica de plásticos nos confins da china) conta a história do relojoeiro que o construiu com o cuidado com que o neurocirurgião corta a via nervosa certa dentro do encéfalo ou com que o piloto traz o avião à inclinação e velocidade exacta com que é suposto tocar a pista do aeroporto. há sempre mais do que apenas a reunião de ponteiros, mostrador, pilha ou corda e rodas dentadas. há história paralela, que deixa de ser paralela nas intersecções que fogem ao seu paralelismo.

a natureza sofre do mesmo mal. melhor, é abençoada com a mesma virtude. a brutalidade dos fenómenos que vemos pela janela (se não levarem a própria janela) lembra-nos que somos feitos desta matéria e que, por mais voltas que queiram dar, nascemos da natureza e à natureza voltaremos. a mesma força com que a água da chuva escava canyons ou a lentidão paciente com que a água do mar transforma rochas em areia, é a força que nos faz nascer, que nos permite viver, e que um dia nos acomodará sem pedir explicações ou sem exercer represálias.

se soubermos respeitar aquilo de que somos feitos, a natureza, geralmente, permite-nos viver na ilusão de que funciona como uma orquestra da qual somos maestro, mesmo que, na verdade, seja exactamente o contrário o que se passa.

sábado, outubro 20, 2012

o porquê de não sair da idade dos porquês




a hora da morte.

quem trabalha num hospital sabe bem o que isso significa. quem vê séries sobre o que se passa num hospital fica mal informado a respeito de muita coisa mas nesse aspecto não é totalmente desinformado. há de facto que declarar uma hora para a morte biológica. exacta. aproximada. depende. mas o mundo adora etiquetas e a hora da morte tem de ser mais uma.

o peso carregado pela morte biológica é inexcedível. milénios de tradições e crenças, mais ou menos adaptadas, reflectem sobre a morte, sobre o que se deve seguir a curto prazo, sobre o que se vai seguir a longo prazo, sobre o modo de celebração ou luto. que são conversas para outro dia.

preocupa-me que se questione pouco a morte não-biológica. vivemos numa sociedade que tem um íman cada vez mais potente para tratar disso mais cedo. na minha humilde opinião a morte não-biológica chega no dia em que deixamos de perguntar porquê. a questão não deve perturbar a delícia, deve inversamente melhorar a sua experiência. passo a explicar-me. se vos for servida uma dose de bacalhau com natas o mais natural é ir de garfada em garfada até à garfada final. a televisão ligada ou uma conversa pouco produtiva no ar e o tempo passa num ápice. sim, sei que o princípio base da alimentação é a absorção de nutrientes que nos permitem sobreviver. mas terá de ser sempre assim? porque é que é em cada garfada de um prato de bacalhau com natas não podemos perguntar como é o ciclo de vida do bacalhau, como é o seu processo de secagem, quantas viagens faz até chegar do mar da noruega à mesa do nosso 3º direito? virá ironicamente de barco? ou de avião? ou prefere a estrada? e as natas? como foram feitas? de onde vêm? que tipo de pasto andaram as vacas em causa a frequentar? em que hora do dia é que o leite é mugido da vaca? e as batatas? por onde andaram até chegar ao prato? que agricultores as puseram na terra e quais de lá as tiraram? em que altura do ano? a que horas acordaram para o fazer? que truques usaram para fazer daquele um terreno mais fértil que as mulheres do genghis khan?

é muito fácil passar por cima de tudo isto. é tão ou mais fácil achar estranho que alguém se pergunte sobre isto em vez de comer o raio do bacalhau calado e passivo. neste ponto sou extremamente lamarckiano e garanto-vos que há orgãos que só se desenvolvem (ou mantêem desenvolvidos) se forem usados com frequência. e a resposta a estas questões não vos garante o primeiro prémio do quem quer ser milionário ou a atribuição do prémio no conceito tradiocional de inteligência (racional). mas permite-vos sem dúvida olhar para o mundo com um sorriso mais largo na cara.

sexta-feira, outubro 05, 2012

filtro para extremos


sei que o ditado diz que os extremos se tocam. isso é aplicável na política, na opinião em geral, nos clubismos ou até no protesto perante o tempo, tanto o que passa como aquele outro que teima em fazer nuvens e largar água e coisas dessas. tirando a vontade extrema de viver e de tudo experimentar, nunca consegui perceber o apelo pelo extremo. ainda mais difícil é perceber quem está nos extremos e não se apercebe de que vive com duas palas asininas, perdento tanto e ganhando tão pouco.

a pluralidade de opiniões, e de perspectivas sobre tudo o que o mundo nos oferece, é das coisas que mais aprecio. gosto de discutir com gente que pensa como eu mas ainda mais de discutir com gente que não pensa como eu. aprendo sempre tanto ou mais do que quando debato com quem tem o compasso nas mesmas linhas que as minhas, porque sair da zona de conforto ensina e flexibiliza. os tempos negros que vivemos, e as dificuldades que atravessamos, deviam ser precisamente o tempo ideal para compreender que o diálogo é como o cimento da parede das casas e que ouvir é tão importante como abrir as janelas na primavera para deixar arejar uma casa que suplicou por oxigénio todo um inverno.

o problema quando falamos com quem está nos extremos é que não há casa para construir, não há debate para pôr de pé, há preconceito e há a falta de inteligência típica de quem se acha tão inteligente que não percebe que isso é das mais básicas faltas de inteligência. uma coisa que todos deviam pensar pelo menos uma vez ao acordar e outra ao deitar, sejam académicos, adiantados mentais, políticos, não-políticos, astronautas ou agricultores, é que há sempre alguém no mundo que sabe menos do que vocês e sempre alguém no mundo que sabe mais do que vocês. esse é um bom ponto de partida. o seguinte (vamos continuar a ligar pontos como se estivéssemos a brincar com as mini-cruzadas da disney durante a infância) é entender que nem sempre o conhecimento vem de onde esperamos. às vezes aprendemos mesmo mais a olhar para o modo como as folhas mudam de cor do que a ouvir um físico quântico. outras não. varia. 

num tempo em que até as bandeiras fazem o pino, façamos também nós o pino e entendamos que estar sempre em bicos dos pés permite ver mais alto que o resto da multidão mas evita olhar para o chão e encontrar a nota de cem euros que ali está perdida. e se dá jeito uma nota de cem euros perdida nos dias que correm...