quinta-feira, abril 28, 2005

Por ruelas e calçadas (Parte 3)



Muita coisa é passível de influenciar a personalidade de cada um. Um acontecimento, uma frase, uma notícia, um gesto de alguém... tudo coisas que podem marcar indelevelmente a maneira de ser e pensar de cada indivíduo.

Golias era apenas um ser humano, como outro qualquer. Mas naquele momento sentia-se poderoso. Do interior do seu capuz, os neurónios de Golias felicitavam o seu dono por ter sido capaz de, finalmente, levar a cabo o plano de tantos anos.

A vítima? Nem sabia quem era... uma mulher, bonita por sinal e bem vestida. Por curiosidade Golias abriu a carteira e encontrou uma panóplia de cartões de crédito, 500 Euros em dinheiro e quase 400 Dólares em "cash". Deixou ficar isso tudo a apodrecer com o corpo, a marinar na poça de sangue que envolvia a sua vítima.

O que o tinha feito chegar ali? Golias tinha agora 25 anos. A sua infância fora um martírio. Espancado regularmente pelo padrasto e esquecido pela mãe, Golias passava os dias a subir e descer o elevador da Bica, sempre a tentar esquecer a vida que levava. Mal aceite pelos seus pares, fechava-se no seu quarto onde tinha a sua relíquia: uma televisão e o seu leitor de vídeo.

Tornou-se desde os 12 anos um cinéfilo compulsivo. Aos 15 anos teve o seu momento. Viu o "Psycho" pela primeira vez. A primeira de muitas. Muitas mesmo. Muitas do género... todos os dias. E pouco a pouco a sua personalidade foi-se perdendo. Ao fim de 10 anos Norman Bates triunfava sobre Golias Sousa.

Naquela noite, uma noite como tantas outras, com um céu estrelado e luzidio, Golias achou ser o momento certo para a sua transformação. Saíu à rua e ao fim de cinco minutos saciou a sua sede de vingança do mundo...

O que se passou a seguir, perguntam vocês? Isso serão outras histórias, porque entretanto... Golias continua por aí...

segunda-feira, abril 25, 2005

Por ruelas e calçadas (Parte 2)



A escolha era simultaneamente fácil e difícil. Em frente uma rua iluminada pelos amarelentos candeeiros que pareciam tristes na noite, para a sua esquerda uma rua escura, mas que da sua penumbra irradiava a luz dos néons, anúncios de vida naquelas trevas do pecado.

Ao seu bom estilo, optou pela esquerda, parecia ser inclusive o caminho mais directo para o seu hotel. À medida que andava, Martha olhava os vários bares... nomes nórdicos maioritariamente, porque raio dar nomes de cidades tão elegantes e avançadas a estabelecimentos de qualidade duvidosa? A ausência de presença humana no local fê-la sentir-se desconfortável pela primeira vez. Se calhar devia ter optado por seguir a luz da iluminação e passear junto ao rio.

Mais à frente deparou-se com um quadro pitoresco. Para a sua esquerda, trepando a colina, uma pequena viela apresentava-se em toda a sua pequenez e silêncio. Imediatamente atraída, Martha não pensou muito tempo e abandonou por ali a rua suja que quase a fizera vomitar.

Pequenas luzinhas iluminavam este beco. Esperava que tivesse saída, senão seria uma escalada inglória. Das janelas nem um pio, das portas nem um ranger. Toda a Lisboa dormia por aqueles lados. Uma série de outros labirintos inundavam as laterais do seu caminho. Pensou, rindo para si própria, que esta cidade tinha bairros que mais pareciam formigueiros...

No segundo seguinte Martha não teve tempo de se rir. Vindo do nada, sentiu um vulto vestido de preto saltar do seu lado direito. Ainda tentou articular algum som, mas já não foi capaz. O único som que se ouviu na noite foi o gorgolejar da sua carótida, decepado que foi o seu pescoço. E o silêncio continuou na noite, e pela ruela abaixo correu um rio vermelho... em direcção ao outro...

(continua...)

sexta-feira, abril 22, 2005

Por ruelas e calçadas (Parte 1)



O café estava quase a fechar. Ainda conseguia sentir no ar o cheiro do fumo que inundava aquele espaço, apesar de o efeito do álcool diminuir consideravelmente a capacidade de discriminar fosse o que fosse. Martha sabia que tinha feito uma asneira. Quantas e quantas vezes a sua juventude a tinha levado por caminhos semelhantes nas loucas noites de um subúrbio de Denver, igual a tantos outros...

Agora com 40 anos, e CEO de uma das mais famosas marcas de roupa mundial, só lhe apetecia chorar por ver que, nos momentos de fragilidade, voltava a ser a rebelde que só assentou quando foi estudar para a University of Columbia.

Deixada agora ao abandono nesta cidade europeia, de que nunca tinha ouvido sequer o nome, questionava como teria ido parar a um bar tão manhoso e a uma zona da cidade tão estranha. Os sucessivos flutes de champagne engolidos no Meridien pareciam a explicação mais lógica. Isso e o carácter enfadonho de todos os cinzentos que a acompanhavam neste mega-congresso de gente "pretensamente" gira e a trabalhar para pôr os outros giros.

Pediu a conta, terminou com o resto solitário da sua enésima cerveja, e deixou uma nota grande para gáudio do barman, mais habituado a receber os marinheiros dos dias de hoje e não os de antigamente. Agora parava ali quem era levado pela corrente e não quem queria jovialmente enfrentar a corrente de outros mares.

Martha saiu daquele antro de impessoalidade e olhou para o céu. Talvez estivesse a ver a dobrar, mas então estaria a observar um céu duplamente fantástico, naquela noite limpa e luzidia do mês de Junho. Com o espírito refrescado por essa visão, começou a andar.

quarta-feira, abril 20, 2005

Conclave ou sem clave, eis a questão...



O Oranginalidade deseja pedir as mais sinceras desculpas a todos os nossos leitores pela nossa ausência de uma semana, mas isto de eu ser cardeal tem os seus inconvenientes.

Após a escolha do novo Papa, parece-nos a altura certa para revelar que várias instituições (incluindo mesmo algumas agremiações de bairro) ficaram maravilhadas com o esquema do conclave, e pensam já adoptar a ideia para próximas eleições.

Aí têm em primeira mão o que os nossos tentáculos de polvo conseguiram alcançar:

- Sport Lisboa e Benfica: para a escolha do próximo treinador (sim, porque eu rezo todos os dias para o Trapalhoni se ir embora) a direcção do Benfica vai fechar-se na Garagem dos Pneus do LFV até chegar a uma decisão unânime. Uma vez escolhido o novo comandante das tropas, sairá pela chaminé da garagem fumo preto, o que anuncia a toda a mole benfiquista o novo rei da Luz. O fumo é preto porque queimar pneus e ter fumo branco é meio... quimicamente impossível.

- CDS-PP: aqui avança-se pelo conclave, porque parece que não há mesmo outra forma de eleger um líder por estes dias. Como claro está, o pessoal fecha-se todo no Largo do Caldas e quando tudo se decidir... pois que sai fumo branco da chaminé da sede do PP. Ter o cuidado de não confundir com o fumo branco que sai da grelha da Casa de Pasto "O Eurico", que é ali mesmo ao lado e que tem um peixe que é uma maravilha...

- Bloco de Esquerda: quando for para escolher um novo líder do BE irá sair fumo branco pela chaminé do sítio onde o pessoal se reunir (muito provavelmente uma casa Okupada)... embora esse fumo não seja propriamente (cof cof) resultante da queima de boletins de voto. Ligeiros traços negros no fumo branco são da pura responsabilidade do cachimbo do Fernando Rosas.

- Bagdad: chegou-nos aos ouvidos que na capital do Iraque, ultimamente, têm decorrido numerosos conclaves, nos mais variados locais... ou pelo menos assim parece, dado haver fumo branco a sair de muitas instituições. Quando esse fumo está laivado de escuro, mais uma vez a culpa não morre solteira... isso deriva do petróleo ou de o Koffi Anan lá ter ido durante essa semana.

quinta-feira, abril 14, 2005

Tudo ao seu alcance!



Quase todos devem já conhecer o famoso serviço telefónico 3993, que antigamente era designado por 3939. Mudou de nome, ninguém sabe muito bem porquê, mas acredito que foi por ter perdido um processo de direitos de autor em tribunal, onde era acusado de roubo de número por parte de uma porta da Avenida Almirante Reis.

Para os que não conhecem, é um serviço onde se pode conseguir tudo desde que se gastem vários Euros. Eles mandam de volta imagens de clubes, moçoilas despidas, poemas badalhocos, tudo e mais alguma coisa...

O Oranginalidade acaba de descobrir que o 3993 tem novas pérolas escondidas. São estas as novidades que este magnífico serviço lançará em breve:

- Pizza de Anchovas: em resposta ao seu sms, uma magnífica pizza de anchovas vai escorrer pelo buraquinho de carregar a bateria (o 3993 não se responsabiliza por possíveis... cof cof... possíveis estragos causados ao seu aparelho)

- Um tapinha: para satisfazer o seu fetiche, é só mandar um sms e depois dizer que não dói...

- Santana na sua Sociedade Filarmónica: mande um sms para o 3993 e Pedro Santana Lopes fará o frete de se candidatar à Presidência da Sociedade Filarmónica de que você é sócio... E quem sorte talvez ganhe!

- Carrilho na sua Sociedade Filarmónica: mande um sms para o 3993 e Manuel Maria Carrilho irá impor alguma cultura na sua Sociedade Filarmónica, mas por intermédio da sua esposa Bárbara, que promete animar a malta... cof cof...

terça-feira, abril 12, 2005

O vosso dever cívico!



O Oranginalidade está novamente a votos, agora Na Blogosfera. O mundo reagiu a esta notícia com grande emoção e alegria, e todos se mobilizam para nos colocar na urna, ainda que não a funerária.

Registámos alguns acontecimentos associados:

- Na Palestina, houve "de maneiras que" uma explosão de alegria!

- No Egipto, acreditam que votar no Oranginalidade os vai fazer acabar a travessia do deserto, em que incorrem há já vários séculos.

- Os pinguins da Antárctida tiritam de alegria... pelo menos parecia que era isso.

- As estátuas da Ilha da Páscoa abriram a boca de espanto e acredita-se que possam dançar caso o Oranginalidade ganhe.

- Em Portugal, as pessoas estão a ver a bola, o Bayern com o Chelsea, tudo o resto é secundário...

sábado, abril 02, 2005

LUTO



Se é verdade que a morte de um ser humano é sempre lamentável para os outros seres humanos que a mesma testemunham, há seres humanos que são por alguns considerados como especiais.

Karol Wojtyla foi um excelente ser humano. A prova disso está no reconhecimento de que é alvo não só pelo mundo católico, como também por praticamente todas as outras confissões religiosas e até pelos não-crentes. A luta por ideais foi algo que sempre o caracterizou, a proximidade da Virgem Negra de Czestochowa (fenómeno de culto ainda mais concorrido que o de Fátima, desconhecido por muitos no nosso país) guiou-lhe o seu caminho espiritual, o árduo trabalho nas minas de Wielizcka e a resistência ao domínio nazi guiaram-lhe a força de a tudo resistir.

Hoje, Karol Wojtyla, um exemplo para a Humanidade, foi para o lugar merecido, para mais perto de Deus.

(O Oranginalidade não estará em actividade durante os próximos nove dias, em sinal de luto pela morte de Karol Wojtyla)