quinta-feira, dezembro 22, 2011

há sempre estrelas no céu a dourar o meu caminho

há muitas teorias sobre quem está no céu. mas as estrelas, pontificam lá de certeza.

podem lançar a hipótese de que quando as moléculas se desintegram a "alma", vamos lá, gira em espiral e se vai acomodar no céu. contem de geração em geração que um senhor de barbas lá mora e tudo comanda. imaginem deuses com oito braços, atentos e vigilantes noites fora, sobre o comum dos mortais. façam isso tudo sem se chatearem uns com os outros, de preferência.

eu cá não tenho grandes certezas sobre o que está no parágrafo acima. humildemente falta-me essa capacidade aparentemente tão universal de ter certezas sobre tanta coisa. tenho outra certeza, que me satisfaz plenamente (como era bonito ver isto escrito nos testes da primária... é quase poesia classificar um exame escrito com um advérbio de modo). a de que o céu estrelado me acalma, me preenche, me dá a paz que tantos procuram noutros amuletos ou imagens.

sentir que com a ponta dos meus dedos consigo dar piparotes em buracos negros, fingir que engulo uma supernova ou tão só regozijar-me com pedaços de matéria de ex-futura-vida a entrar atmosfera fora, enquanto nos dão a ideia de que isso dá direito a um desejo. eu peço um desejo a essa estrela cadente. que não deixe morrer as outras. que continuem a brincar às formas. o homem tem de se divertir a imaginar leões, w's, ursas, ursos e coisas que tais no céu da noite.

como eu adoro estrelas. nascidas do caos, nascidas do tudo e nascidas do nada. uma brinca durante o dia e depois repousa durante a noite. tirou o bilhete errado, o sol. anda sempre ao contrário. tem raça de guarda-nocturno. quando desce o pano da sua cena, ele sai. levanta-se o pano de novo e entra toda a sua família. quando esta se cansa de tanto teatro invertem os papéis. e assim continuam, a fingir que são um ciclo ordenado e infalível, rindo-se de quem acredita que isso é verdade.

o caos. ah, o caos!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

when you're smiling

já dizia o fantástico louis armstrong que " when you're smiling the whole world smiles with you ".

os meus domingos de manhã ultimamente têm esta melodia a correr-me nas veias. mudei-me para cleveland há quase dois meses. apesar do meu frequente contacto rural e nomadismo, sempre fui um menino da grande cidade, um morador em capitais, um perfeito urbano, viciado nos vícios do urbanismo e feito de sopros que se confundem ao mesmo tempo com rios, castelos, betão, azulejos ou ferro. sempre habituado ao fervor de uma cidade com programação interminável, perguntava-me como iria ser adaptar-me a um mundo totalmente novo e diferente. sobretudo num país que nós, europeus, vemos com tanta desconfiança, por motivos históricos recentes e pela nossa competitividade natural.

cleveland é uma cidade, no geral, vítima de decadência. as únicas excepções são o galopante polo científico e universitário, de qualidade mundial e em crescimento, motivo pelo qual aqui vim parar. praticamente tudo o resto foi vítima de queda. a cidade tinha há quinze anos atrás um milhão e duzentos mil habitantes, tendo hoje em dia pouco mais de quatrocentos mil. foi-se o dinheiro. caiu a indústria. caiu o ferro, o aço, até o le bron james se foi embora e abandonou a equipa dos cavaliers. porque provavelmente há quem não saiba, uma grande parte dos magnatas americanos saiu desta cidade. exemplo crasso j.d.rockfeller, que construiu todo o seu gigantesco império do zero, nascendo e vivendo em cleveland, antes de rumar em força para nova iorque.

a breve explicação da decadência leva-me ao título deste texto. os meus domingos de manhã são passados a andar de bicicleta pelos subúrbios desta minha nova cidade. e a cada dia me maravilho de novo com o arco-íris que cada uma destas pessoas coloca nas nuvens que possam existir. a população nos suburbios é quase a cem por cento de raça negra, o que faz de mim, um claro outsider neste cenário. passo por famílias inteiras, vestidas de modo aprumado, os homens de fatos de cor garrida e as senhoras com vestidos sulistas, todos impecavelmente encaminhando-se para a missa semanal. credos aparte, estas pessoas vão numa perfeita harmonia, alheios à crise, alheios ao desemprego, alheios à desistência da luta. o mais espectacular de tudo é que não há um que dispense acenar-me, dizer-me 'bom dia', mas sobretudo sorrir-me.

re-encontrei nesta terra o valor do sorriso. achava que o natural era vivermos as nossas vidas como sempre a vivi. ir avenida abaixo a pensar em quantos milhares de euros vou gastar em coisas que não me fazem rigorosamente falta nenhuma. se olhar para alguém e sorrir na baixa de lisboa, passo por maluco ou por atrevido. aqui todos se consideram família. as pessoas são genuinamente simpáticas, e o meu filtro, que como tudo na vida pode falhar, faz-me acreditar que são genuinamente boas.

maravilho-me com este paradoxo, na terra onde supostamente imaginamos gente arrogante e sem apreço pelo mundo ou pela vida alheia. a minha nova paixão é essa: trocar sorrisos ao domingo de manhã, como se fosse a coisa mais natural do mundo.



(texto escrito em Junho de 2011)

terça-feira, dezembro 20, 2011

novelos de filosofia

tenho o terrível defeito de nunca deixar as palavras entrar por um ouvido e sair pelo outro, sem as prender para instantâneo ou posterior processamento. defeito, sobretudo, porque o meu armazém mental deve parecer-se com aquelas cidades de construção de electrónica dos chineses, em que noventa e cinco por cento do espaço é ocupado por lixo tóxico, e apenas nuns cinco por cento desta pilha há fábricas de onde saem bonitos aparelhos, que dão novos mundos ao mundo e novos dígitos às contas de silicon valley, shangai e por aí fora.

guardo particular cuidado para processar as palavras mais inesperadas. ninguém nos precisa de dizer "olha, tu lê com atenção esse livro do proust porque é muito interessante" ou "deves tentar interpretar bem o que o garcía marquez queria dizer com isso". para esses estamos preparados. com mais ou menos expectativa, sabemos ao que vamos. partimos vestidos de indiana jones em busca de templos perdidos no meio de infindáveis páginas. ligamos o modo alerta, e qualquer barulho no meio das linhas nos faz olhar de repente e fixar.

já no quotidiano, facilmente desligamos os detectores de informação, para nos deixarmos levar em horas a fio de comportamento zombie, em que rodamos volantes, vestimos casacos, despimos casacos, pegamos em sacos, passamos cartões, ai jesus qual é o código, ai sim o do cartão de crédito é diferente do do de débito, mas meu deus terei ainda eu saldo na conta...

facilmente perdemos pérolas onde elas realmente existem. o conhecimento popular é algo de brutal em termos de filosofia prática. posso perder anos a ler diferentes correntes de pensamento, a discutir de gregos a iluministas, que nenhum deles vai fazer nenhum comentário interessante sobre o orvalho da manhã, sobre como apanhar bem morangos, sobre o toque certo na casca de um abacate para decidir se está bom para apanhar ou não. daí eu não desligar as antenas. muitas vezes durante a minha infância tive a plena convicção de que se pusesse uma toga nos meus avós e nos sentássemos horas à volta deles a ouvir falar do ciclo da terra, das estações, dos conselhos do borda d'água, das melhores e piores colheitas... seríamos um perfeito reflexo das praças de atenas umas centenas de anos antes.

os filósofos, quanto a mim, são aquilo que a etimologia defende, amigos da sabedoria. e não me lembro de ver definido algures que havia um número mínimo de publicações escritas. por isso gosto muito do kant e da luta que teve para tentar casar emoção e razão, mas tenho cá para mim que era menino para chegar à praça e levar para casa ameixas já fora de prazo...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

circo de pulgas

sentado num banco, fisicamente parado, mas com a cabeça em turbilhão, observo o mundo a girar à minha volta, perdendo-me nos milhões de histórias possíveis para os milhões de pessoas que vão passando. são muitas as combinações possíveis. tantas, tantas, que até são mais arranjos que combinações (sim, tinha esta pérola de matemática do décimo segundo ano guardada para usar num qualquer texto de futuro).

aquele senhor todo bem posto, engravatado, dá ar de empresário de razoável sucesso, encaminhando-se para mais uma reunião, onde se vai conversar muito e decidir pouco. estabelecer muitas colaborações. criar muitas pontes. desenvolver muitas ideias. homogeneizar pontos de vista. quando sair de lá, perceberá que ficou tudo na mesma. como em noventa e nove vírgula nove por cento das reuniões. por trás da imagem de empresário de pseudo-sucesso imagino os vícios e desvios de personalidade deste alguém...

perante a sociedade cada um mostra a face que consegue construir. sendo mais habilidoso, talvez consiga até mostrar a face que realmente quer mostrar. mas o conflito na parte considerável do iceberg é bem mais vasto do que isso. a repressão das emoções primárias não significa que elas não estejam lá. assim, o fulano engravatado, que vai para a reunião, pode perfeitamente ter o desejo secreto de atropelar pessoas, avenida fora, a um sábado de manhã. ou de se encher de maquilhagem às sextas à noite e ficar em casa sozinho a cantar maria callas.

e sinceramente, a história dos pensamentos viciados e das emoções reprimidas... é tão, mas tão tão tão mais interessante quando comparada com a história do quotidiano chato, repetitivo e desinteressante da maior parte dos bocados de carne com quatro membros e cabeça agarrados. no mínimo curioso, porque o conhecimento dos armários desta gente podia revelar-nos um interesse que de outra forma será totalmente inexistente.

o tipo foi-se embora. em passo acelerado. a reunião vai começar. dou-me ainda ao luxo de imaginar que tropeça à entrada da sala de reunião. que sua que nem um suíno (deve ser por isso que as palavras parecem etimologicamente primas uma da outra, verbo e substantivo) com a ansiedade e molha de cloreto de sódio as mãos dos outros participantes. enquanto lhe vão falando de outsourcing, benchmarking e downsizing, ele vai imaginando no fundo do seu ser que podia pendurar todos aqueles indivíduos por um gancho, de pernas para o ar, e desenhar hieroglifos nas suas peles, com uma faca de cortar presunto. fininho.

sei que a minha imaginação é tendencialmente demasiado fértil. mas no meu circo de pulgas, sou eu que mando na história. e só vai ao espectáculo quem quiser. o bilhete até é de borla.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

esfero, vi-te

são pedaços brancos e esféricos de poliestireno. isolados, individualmente, não têm grande uso. quando unidos e compactados perdemos a conta à quantidade de utilizações a que se prestam no dia-a-dia, ou até na noite-a-noite (bolas, nunca ninguém dá o devido valor a esta última).


por esse mesmo motivo, acho o esferovite uma óptima metáfora da sociedade. o pior é que ninguém respeita muito o esferovite. é usado e deitado fora. é quebrado por dá cá aquela palha, quando a palha não serve nem para metade do que o esferovite serve. é destruído em pedaços por crianças cegas por descobrir que presente afinal vem dentro da caixa. sodomizado por donas de casa, que apenas querem ver a brilhante misturadora sair da caixa de cartão.


claro que há esferovites mais felizes. os dos barcos, por exemplo. são uma espécie de banksy dos materiais sintéticos. toda a gente admira o seu trabalho, mas ninguém sabe quem ele é. o esferovite tem um papel fundamental em impedir que os barcos se afundem. sei que provavelmente achavam que isso era responsabilidade de pequenos anões (as redundâncias são sempre mais baratas ao domingo, perdoem-me) que esbracejavam no fundo bem fundo do casco enquanto o barco se movia. lamento desiludir-vos, mas são as tais esferas brancas. no fundo não deixam de ser pequenas. no fundo não deixam de ser anões.


só não sei se esbracejam. tenho de mergulhar um dia e ver. ou perguntar aos peixes, que são gente muito entendida nestas matérias do fundo do mar. quem ouve um peixe falar sobre a extensão da plataforma continental portuguesa pergunta-se se não deviam ter um espaço de antena ao domingo à noite num qualquer canal de televisão.


mas essas coisas não interessam. o mundo, também ele esférico, há-de continuar a seguir o seu rumo, cada vez mais cego à beleza que pode encontrar nas mais pequenas coisas. até num pedaço dessa maravilhosa invenção chamada esferovite.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

eclipses

num filme que vi recentemente, gente simples discutia o porquê de se querer ver um eclipse:
" então ontem não veio para a rua ver o eclipse? "
" qual? o da lua? "
" sim, o da lua! foi às 2h30, de madrugada! "
" não, esse não gosto, só o do sol! "
" só o do sol? então porquê? "
" porque o da lua não tem piada nenhuma. há tantas noites em que a lua desaparece. não percebo porquê o fascínio de ver a lua a desaparecer... "


o fascínio com os eclipses deve ser tão antigo como a existência da vida na terra. se é verdade que os da lua são, para além de relativamente frequentes, muito sensaborões, os do sol já têm todo outro sabor especial. basta vermos o desatino caótico em que fica a vida durante um eclipe do sol. os animais, durante um eclipse total, largam os pastos e desatam a correr desenfreadamente na direcção dos seus abrigos, em pânico sem perceber bem como é que o dia acabou tão depressa e sem avisar, como habitualmente faz. até o organismo humano, pelo menos a parte dele que é alheia a essas brincadeiras do racional e do pensamento, reage a um eclipse solar alterando a produção de hormonas, caso estejamos ao ar livre, interpretando o dia como chegando ao fim.


adoro este conceito de micro-jetlag que dura cinco minutos. imagino os planetas em conferência, a decidir como vão girar nos próximos milénios, e algum de repente tem a ideia de que engraçado engraçado era trocar as voltas ao dia, torná-lo noite por uns instantes, e registar com uma máquina fotográfica do tamanho de um marte toda a confusão gerada por esse pequeno micro-desvio ao padrão normal.


decerto podemos arrastar os eclipses para lugares mais profundos do que apenas o céu. imagino como seria um eclipse da água, revoltando-se por nunca ter direito a eclipsar-se. porque é que a água não há de ter direito a desaparecer durante cinco minutos, para se esconder de tudo e de todos? menos fantasioso que o da água, é o eclipse particular dos sentimentos.


a esse assistimos diariamente. olhem à vossa volta, e vão com certeza ver amor tapado por ambição. bondade tapada por avareza. prazer tapado por convenção social. o que mais há são eclipses. e para ver estes nem sequer é preciso comprar daqueles óculos especiais na farmácia...

quarta-feira, dezembro 14, 2011

he and the devil

escrever sobre a morte é consideravelmente mais difícil do que escrever sobre a vida. não que tenha pejo em fazê-lo. já o fiz algumas vezes e continuarei a desafiar a ausência de vida com os mesmos pincéis com que devoro a presença explosiva da mesma.


creio que o ponto mais sensível em relação à morte é tentar perceber o limbo final. entre os crentes, os não-crentes, os anti-crentes e os pseudo-crentes, ninguém se decide se afinal há um túnel, com ou sem luz lá no fim. não há consenso em relação a elevadores com dupla direcção nuvens-centro da terra. não há memória fotográfica de prados verdes com gente vestida de branco (por acaso, não sei porque é que a imagem de céu das pessoas é uma espécie de sensation white gigante... será que o tiesto e o armin van buuren têm lugar garantido no céu à custa dessa brincadeira?). nem tão pouco de grutas profundas, com rios de fogo e seres vestidos de vermelho e preto, com corninhos, caudas pontiagudas e tridentes. se bem que neste último estou mais a imaginar o tom waits e os prodigy em mash-up e a ideia é mais agradável do que milhares com ar celestial a dançar por montes verdes fora e a ouvir o "in and out" mas tocado numa harpa...


gil scott heron era um poço de talento. talvez não reconhecido por todos (gostos não se discutem), mas um daqueles artistas que não precisam de qualquer adereço ou ajuste de equalizador no photoshop das melodias. scott heron era em primeiro lugar um poeta. um excelente poeta. a música era "apenas" o veículo dessa sua forma de expressão. deixo-vos, em palavras do próprio, a perfeita lucidez com que ele imaginava o momento da morte. que chegou para ele, como chega para todos. mas nalguns casos chega mesmo cedo demais...


" Standing in the ruins of another black man's life

Or flying through the valley separating day and night

"I am death!" cried the vulture for the people of the light

Karon brought his raft from the sea that sails on souls

And saw the scavenger departing, taking warm hearts to the cold

He knew the ghetto was a haven for the meanest preacher ever known

In the wilderness of heartbreak and a desert of despair

Evil's clarion of justice shrieks a cry of naked terror

Taking babies from their mamas, leaving grief beyond compare

So if you see the vulture coming, flying circles in your mind

Remember there is no escaping for he will follow close behind

Only promise me a battle, battle for your soul and mine

And mine "


poema retirado do videoclip de "Me and the Devil"

http://youtu.be/OET8SVAGELA?hd=1

terça-feira, dezembro 13, 2011

porque é que as nuvens são feitas de algodão doce?

tentei descobrir porque é que as nuvens são feitas de algodão doce.


mesmo aquelas muito escuras, de certeza que só o são assim porque a senhora da feira deixou o fuso que enrola o açúcar aquecer demais e ficou tudo queimado. apesar de tudo há algum engenho nesta arte, porque máquinas grandes o suficiente para fazer toda esta enormidade não são nada fáceis de esconder. chego a acreditar que há prédios mascarados de prédios só para manter secreta a produção em larga escala de nuvens, doces como os céus em que pontificam.


todas as outras voltas que as nuvens dão, são brinquedos de criança. nada assusta verdadeiramente. o que são flocos de branco, cinza ou azul eléctrico ao pé de tantas outras coisas muito mais impressionantes?


um tornado é um menino, ao pé da força que tem o mar, quando invade a areia sem permissão e lhe impõe a sua força e o seu sal. ou a água que cai deste algodão e é capaz de escavar rochas e fazer de alguns canyons grandes, só porque é essa a sua vontade de escorrer.


para não falar das outras forças, aquelas que nos prendem horas a fio entre lábios brilhantes e olhos propositadamente sombreados. entre sardas perdidas e caracóis soltos. perante essas o céu até desaba, mas no fundo como se lhe desse aquela fraqueza nas pernas de quem tem de falar para uma plateia de milhares de pessoas e não controla a ansiedade.


na verdade é isso. o céu vive alguns dias com um enorme nó, bem apertado, na garganta. as nuvens são gravatas ou laços, que adocicam o seu infinito e disfarçam as revoluções que se passam mais abaixo, nas forças que realmente centrifugam. e centrípetam. alternadamente. sem parar.

domingo, dezembro 11, 2011

saltar ao eixo

quando de vez em quando apanho uma nuvem para andar a brincar aos holofotes por cima de serras, lagos, casas e eslapilos, fico sempre com vontade de dar um pontapé no eixo da terra, só por mera diversão.


sei que posso perfeitamente parar a rotação da terra. ou até bem mais engraçado, pôr a galáxia à volta a rodar à mesma velocidade que a terra gira, e rir-me do desespero alheio ao ver que o dia nunca teria fim para uns e nunca teria princípio para outros. brincar com os astros é quase tão bom como uma sangria de champagne e frutos silvestres, servida num jarro que vem a transpirar de gula, numa qualquer noite de um qualquer dia de verão.


perco-me a imaginar seitas sem fim a anunciar que o mundo agora ia mesmo acabar, que estava escrito nas estrelas. tretas. como é que podem achar que sabem ler os textos das estrelas, quando a tinta que é usada para esses livros já está muitas vezes apagada há centenas de anos? claro que como as palavras são quase tão persistentes como a raiz de um salgueiro, prestam-se a voar através de universos e dias e noites para se mostrarem a quem olha para elas. através de telescópios complexos, no topo de montanhas. ou então apenas de mão dada, deitado na relva, pelo meio de uma tarefa muito mais interessante, que é descobrir no celeste da noite estrelas cadentes e imaginar principezinhos montados nelas.


os profidicuos dos seres humanos, acham que conseguem reduzir tudo a equações. inventar formas de explicar tudo de um modo matemático, organizado, com muitas raízes quadradas, exponenciais e um ou outro integral, mas não daqueles que são fibra nos cereais. pobres coitados, enquanto escrevinham mais um menos na folha quadriculada, um pirilampo voa do lado de fora da janela e ri-se de quem algum dia acreditou que é possível pôr ordem no caos. é que isso sim... seria o fim do mundo...

sexta-feira, dezembro 09, 2011

mercado dos sentimentos

no mercado dos sentimentos, nunca há duas manhãs iguais. não podia ser de outra forma. afinal é um mercado sem compradores ou vendedores, apenas trocadores. desde que foi inventado (na minha cabeça, já só falta registar a patente) tem sido a melhor experiência-piloto de sempre. embora não goste de dar à minha experiência nomes de cães que roubam bouquets de casamento, para que fique claro.

dentro deste mercado ouve-se perguntar:
“ não quer levar um bocadinho de saudade? hoje está aqui que é uma maravilha! saudade tenra como já não se faz ”
“ não, obrigadinho, deixe lá. já levo aqui trezentos e cinquenta de nostalgia. depois são sentimentos a mais para o fim de semana ”
“ então e euforia? se leva nostalgia, porque é que não a salteia e acompanha aqui com esta euforiazinha que está mais fresca do que a manhã?”
“ hmm, e quanto custa?”
“ olhe, só porque é para si faço-lhe a cinco beijos o quilo!”
“ oh, muito obrigado. ponha lá meio quilo então, que dias não são dias”.

e andamos nisto. durante as vinte e seis horas e oitenta três minutos que o dia tem. num passo vamos da banca da raiva em pó ao gratinado de ódio. descendo as escadas (cuidado para não escorregarem, porque alguém desajeitado entornou uma caixa de avareza há coisa de cinco minutos), chegamos à zona favorita de todos, onde o cheiro do amor se envolve com a textura do prazer e a imaculada da bondade joga à apanhada com a fugitiva luxúria.

bolas, esqueci-me da carteira! alguém tem um beijo ou abraço que me empreste?

terça-feira, dezembro 06, 2011

ensaio sobre o mutismo

um clube para o silêncio. a ideia tinha de sair da cabeça do mestre david, não o beckham nem o rei de outras eras, apenas aquele que pega num rolo de película e dá novos mundos ao mundo, desertando do convencional e do terreno palpável e seguro.

dizia ele que o truque do silêncio numa música é não haver banda. tragam a voz, e podemos nós próprios sentir o som de qualquer instrumento. ouvi-lo em surdina, cheirá-lo em tons elevados, devorá-lo em compassos incertos.

será o mesmo com as palavras não cantadas?

como seria um mundo em que ninguém conseguisse falar? não preciso de perguntar o mesmo em relação a um onde ninguém conseguisse ouvir, porque essa é um pouco a história da nossa actualidade. mas, e um mundo do silêncio puro da emissão?

sem esdrúxulas, graves ou agudas. sem ditongos. zero onomatopeias. ausência de ditados. sons deitados para sempre. mutismo completo. seria a escrita suficiente? seria um papel à nossa frente a forma ideal de deitar cá para fora as vontades, ansiedades, liberdades e todas as outras ades?

por mais valor que dê à escrita, a visão não chega. o tacto ajuda, mas o som é uma espécie de reino do butão no mundo das sensações. as palavras podem ser maravilhosas, mas a forma como são ditas tem uma grande quota parte no pormaior que leva ao desarme. é o que faz cair da cadeira. é o que se enrola nos cabelos e os prende para o pescoço na direcção de um beijo que é quase magneticamente garantido na confiança das palavras.

não haver banda pode servir para um excerto do lynch. mas na minha cabeça o som funciona como uma espécie de ave de rapina. paira horas a fio no seu vôo. raramente pára. quando pára é para descer vertiginosamente. por segundos. que parecem por vezes horas. mas são cúmplices com a explosão de palavras ao invés de casados com o mutismo.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

a máquina de lavar memórias é da ariston ou da aeg?

pergunto-me não raras vezes se algum dia será inventada uma máquina de lavar onde se possam pôr as memórias.

tenho a certeza que sim. o homem inventa tudo. mas o homem que tem h grande, não levem a mal. só não me apetece usar maiúsculas, porque pagam um imposto muitíssimo mais caro. se até se conseguiu que andássemos no céu sentados numa cadeira a voar, ou arranjar aspiradores que andam sozinhos pela casa a aspirar (embora estes últimos não vão sozinhos ao frigorífico buscar cervejas, o que é uma infelicidade)... é, deve ser apenas uma questão de semanas ou meses até arranjar tal espécime de electrodoméstico.

claro que uma máquina destas tem de ser programada com muito cuidado. porque o programa para lavar memórias boas e memórias más será tão diferente como um escaravelho o é de uma noz caramelizada. ninguém quer andar por aí a misturar memórias na máquina. já imaginaram quão trágico poderia ser debotar más memórias para uma límpida e clara recordação simpática?

por vocês não sei. mas eu cá não quero a saída em falso do ricardo na final do euro a pingar por cima da visão do mont-saint-michel ao longe. muito menos me apetecia ver uma agradável noite de verão sarapintalgada com restos de um dedo entalado numa porta por mero azar.

no entretanto vou acumulando memórias. podem ser boas ou más. mas enquanto não há máquina, vai ter de ir dando para limpar a seco. amaciam-se a elas próprias sem aditivos, e gozam daquele cheiro típico, a passado. que para mim é um cheiro igual aquele que emana das folhas quando a capa e a contra-capa resolvem brincar aos avessos e se tentam tocar pelo lado mais improvável.

domingo, dezembro 04, 2011

sopa de letras

" hear the meaning within the word. "

aprendemos a ouvir, a olhar e a andar antes de aprender a falar. passamos por aquela fase de tamanha curiosidade em que olhamos para tudo como quem se maravilha com algo que vê pela primeira vez. o que é verdade. de repente aprendemos a falar, começando por balbuciar e finalmente juntando palavras para começar a nossa busca do sentido da vida.

a meta essencial dessa fase está, quanto a mim, no dia em que aprendemos a ler. não sei como há quem não goste de ler. compreendo, respeito, mas não me entra na cabeça. a capacidade de ler as palavras dos outros (ou até de reflectir sobre o que nós próprios escrevemos) é o que nos dá a independência como ser humano único e diferente. e não ficamos nunca sequer dependentes das palavras alheias, é um erro pensar que sim. a nossa linha, a nossa filosofia, a nossa política, a nossa religião, são uma espécie de sopa, cujos ingredientes nos cabe acrescentar.

caso optemos por renegar à leitura, aí sim caímos na eterna dependência. de ter outros que pensam por nós, que decidem por nós, que pedem apenas para assinar aquela espécie de X naquela linha, e que não nos preocupemos que está tudo tratado.

a nossa sopa deve ter muito mais do que isso. devemos saber que ingredientes odiamos, e para isso temos de os provar, a maior variedade possível. não menos importante, descortinar os nossos favoritos, bem como a dose em que os queremos ver lá. sejam exóticos, eróticos, hipnóticos ou anedóticos, são os nossos ingredientes e quem melhor para os seleccionar?

e nunca jamais comam sopa só porque é hora da refeição. as coisas são para saborear. tal como já dizia o jovem da frase lá de cima, que nasceu em stratford-upon-avon, onde de certeza lhe deram muita sopa...

sábado, dezembro 03, 2011

fronteiras

há poucos momentos de maior perfeição no desprendimento corporal do que aquele momento preciso de lusco-fusco pessoal em que estamos prestes a adormecer.

naquela fronteira entre o estar cá e o estar lá, temos muito poucas certezas. sentimos que o corpo se torna mais leve, os sons mais difusos, as sensações mais indistintas. passamos tantas vezes por aquele repelão, uma espécie de queda em que acordamos de novo de repente para perceber que afinal está tudo bem. chego a acreditar que esse momento acontece por uma espécie de destino errado. acordamos para corrigir a rota e contornar as baixas pressões turbulentas, da melhor forma que conseguirmos.

depois seguimos noite fora. sonhamos a cores, a preto e branco, em tons de sépia, em português, inglês ou noutra língua qualquer. alguns de nós até se levantam ou falam alto, tal é a intensidade com que conseguem viver a sua vida paralela nesta doce dimensão do sonho.

mas o que para mim melhor caracteriza o momento em que largamos a certeza dos lençóis e enfrentamos de frente o sonho (eu e a redundância somos quase melhores amigos) é uma espécie de salto no precipício, uma entrada num abismo para o qual olhamos com o interesse de quem quer ver, mais do que olhar.

e vamos com pressa. sem paragens para beber um café ou para ir à casa de banho...

o que se percebe. estamos a fazer o check-in para entrar no mundo dos sonhos. queremos chegar rápido para ter lugar à janela.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

o mundo tem o passo curioso de um gigante anão

o mundo tem uma capacidade de mudar igual à do céu, que acorda azul, se torna cinzento eléctrico, e depois desaba, para acabar em tons laranja frio-quente e finalmente se esconder de preto ao longe e ao perto.

depois de esborratar paredes de cavernas com sangue de animais, aquele pedaço de massa encefálica guardado por meia dúzia de ossos que assenta em cima da coluna cervical, descobriu não só formas de aquecer as patas dos animais para se refastelar, mas também a maravilhosa arte da escrita.

seja papiro, papel ou parede, pouco importa, porque essa arte permitiu abandonar a solidão mental e partilhá-la com quem quer, e com quem não quer, ouvi-la com os olhos.

nada há de mais perfeito do que a carta. a carta leva o cheiro das pessoas. a carta leva os nervos naquela perna do a, a paixão na força com que damos ar de final ao ponto, o desespero com que o 'teu' sai tremido da ponta da tinta, permanente, da china, à-prova-de-água ou à prova de tudo, pouco importa. vai num envelope tosco, sujeito à tortura de milhares de carimbos, tratada como um escravo dos tempos antigos, mas tem por patrão final o seu destinatário certo.

perderam-se as cartas, eu sei. somos mestres do disfarce. nestas teclas pretas até pode cair whiskey ou perfume, que o mundo nunca saberá. o backspace é um fugitivo do amarfanhar a folha e voltar a escrever. as palavras podem ser sempre re-feitas e podemos brincar com elas de formas diferentes. tão mais fácil usar o sinal de menor e um três do que desenhar um coração perfeito no papel. é que nem todos nascemos com os dotes de desenho do leonardo, aviso-vos já.

adoro cartas. não adoro que se tenham perdido as cartas. mas mais importante do que a forma, é o conteúdo. enquanto as minhas palavras puderem atravessar oceanos e prender-se nos lábios e nos cabelos certos, pouco me importa que quem as leve seja a fedex, o cabo que está no fundo do atlântico ou um pombo-correio.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

mórbido é uma palavra como outra qualquer

nunca percebi porque é que as pessoas detestam cemitérios.

eu adoro cemitérios.

um cemitério tem tudo aquilo que nos permite pensar sobre a vida. tem a morte como pseudo-motivo de existência. mas para mim isso é combustão para pensar na vida. cada campa, cada gaveta, cada bloco de pedra, conta uma história. no mínimo. porque na grande maioria dos casos conta milhares delas. a homenagem que lá fica escrita raramente o traduz. paralelipipedos de mármore com 'destes que tanto te amam' cunhado com escopo não dizem muito sobre a pessoa. é. só isso é que não gosto nos cemitérios. que os que ficam vivos despersonalizem aqueles cujos (meros) ossos ali são deixados. seria tão mais lindo porem "para o antónio, que comia sempre mais um prato de caracóis do que os outros todos" ou "para a luísa, que era a última a sair da água, nos dias quentes de verão, combatendo com o sol para ver quem se conseguia esconder da água mais tarde".

além do mais são sítios bonitos. desenhados para transmitir calma. com árvores e pedras e relvados. aprende-se mais sobre uma localidade no cemitério do que em muitos dos outros lugares. pelos apelidos. pelos anos em que morreu mais gente. pela arquitectura de cada campa. quase pela forma como o saibro foi aplicado e para que lado tende mais a acumular-se. curioso, num cemitério até se aprende de que lado o vento sopra.

não tenho intenção de ir para um. mas os cemitérios são sítios lindos. se tivesse que escolher um sítio desenhado pelo homem que mais se aproxima de um livro escrito, é um cemitério sem dúvida.

vou-me retirar antes que me acusem de necrofilia. se entendem por necrofilia ter o prazer de viver tão intensamente que olhar a morte de cima e conversar com as pedras que a querem representar é algo de perfeitamente natural, então sim... sou capaz de encaixar no perfil. mas naquele aterro de almas, o fenómeno da vida dá-se a todo o instante, os átomos separam-se, as ligações quebram-se, para outras se formarem, para nova criação, quase como se de pequenos vulcões de pedra estivéssemos a falar...