terça-feira, dezembro 20, 2011

novelos de filosofia

tenho o terrível defeito de nunca deixar as palavras entrar por um ouvido e sair pelo outro, sem as prender para instantâneo ou posterior processamento. defeito, sobretudo, porque o meu armazém mental deve parecer-se com aquelas cidades de construção de electrónica dos chineses, em que noventa e cinco por cento do espaço é ocupado por lixo tóxico, e apenas nuns cinco por cento desta pilha há fábricas de onde saem bonitos aparelhos, que dão novos mundos ao mundo e novos dígitos às contas de silicon valley, shangai e por aí fora.

guardo particular cuidado para processar as palavras mais inesperadas. ninguém nos precisa de dizer "olha, tu lê com atenção esse livro do proust porque é muito interessante" ou "deves tentar interpretar bem o que o garcía marquez queria dizer com isso". para esses estamos preparados. com mais ou menos expectativa, sabemos ao que vamos. partimos vestidos de indiana jones em busca de templos perdidos no meio de infindáveis páginas. ligamos o modo alerta, e qualquer barulho no meio das linhas nos faz olhar de repente e fixar.

já no quotidiano, facilmente desligamos os detectores de informação, para nos deixarmos levar em horas a fio de comportamento zombie, em que rodamos volantes, vestimos casacos, despimos casacos, pegamos em sacos, passamos cartões, ai jesus qual é o código, ai sim o do cartão de crédito é diferente do do de débito, mas meu deus terei ainda eu saldo na conta...

facilmente perdemos pérolas onde elas realmente existem. o conhecimento popular é algo de brutal em termos de filosofia prática. posso perder anos a ler diferentes correntes de pensamento, a discutir de gregos a iluministas, que nenhum deles vai fazer nenhum comentário interessante sobre o orvalho da manhã, sobre como apanhar bem morangos, sobre o toque certo na casca de um abacate para decidir se está bom para apanhar ou não. daí eu não desligar as antenas. muitas vezes durante a minha infância tive a plena convicção de que se pusesse uma toga nos meus avós e nos sentássemos horas à volta deles a ouvir falar do ciclo da terra, das estações, dos conselhos do borda d'água, das melhores e piores colheitas... seríamos um perfeito reflexo das praças de atenas umas centenas de anos antes.

os filósofos, quanto a mim, são aquilo que a etimologia defende, amigos da sabedoria. e não me lembro de ver definido algures que havia um número mínimo de publicações escritas. por isso gosto muito do kant e da luta que teve para tentar casar emoção e razão, mas tenho cá para mim que era menino para chegar à praça e levar para casa ameixas já fora de prazo...

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