sexta-feira, dezembro 21, 2012

breaking news: o mundo não acabou.

começo a desiludir-me com o mundo.

primeiro descubro a falcatrua do pai natal (deixemos assim para que as crianças pensem que foi um escândalo de lavagem de dinheiro), de seguida explicam-me que não há glutões que limpem as nódoas da roupa e em cima de tudo isto, fazendo de cereja podre no topo do bolo passado de prazo, descubro que as previsões sobre o fim do mundo afinal não se cumpriram.

com a agravante de já não ser a primeira vez que isto acontece. parece-me claro, e vários estudos mostram (daqueles científicos, tão científicos que até se usam balões de vidro e sai fumo e coisas dessas upa upa) que isto não passa de uma enorme conspiração montada entre os vendedores de lanternas e de latas de conserva para melhorar as vendas de tempos a tempos.

a verdade é que o mundo de facto hoje acabou. para muitos. como acaba todos os dias. desceram à terra, subiram ao vento, começam agora a decompôr e a obedecer ao milagre da multiplicação dos átomos e das moléculas. que quais peças de lego vão juntar-se de novo e dar origem a mais vida. a toda a hora. num ritmo inexorável e violentamente delicioso. a ajudar o mundo que acabou a tornar-se no mundo que vai começar.

na verdade as notícias são essas. estejam atentos, que o mundo hoje acabou de começar.

domingo, dezembro 02, 2012

a liberdade da prisão

acendeste o cigarro e por trás de ti tocavam os stones, a dizer que mem sempre consegues tudo aquilo que queres.

mal sabiam eles, pensei eu, que nunca se perderam nos teus cabelos, que nunca moraram nos teus olhos e que nunca navegaram no teu pescoço.

comparei a tua luz com a que vinha do tecto. comparei o calor do teu peito com o calor da ponta do cigarro. ficavas sempre a ganhar. eras rainha de copas num baralho só de dois de paus e eu rendia-me à minha simplicidade de ser sempre joker neste mundo pouco preparado para trazer os jokers a jogo.

quando sorrias, o espaço à volta parecia ter sido vítima de uma bomba de neutrões, e sabes como eu sempre me perdi irremediavelmente por sorrisos devastadores. sorrisos daqueles que te fazem viajar em segundos da porta de casa à porta do comboio de um país distante. que trazem canela, açafrão, gengibre, não em pó, mas sim disfarçados nas pequenas covas que o canto dos teus lábios definia.

contemplava-te como um quadro, pintava-te como se fosse o teu dalí e ficávamos a brincar ao surrealismo sem ligar às horas e regras do mundo real. tenho ideia que os relógios pararam, com os ponteiros no momento em que os braços estão levantados para cima. expliquei-te que na publicidade os relógios vêm sempre com os ponteiros nas duas e dez para ligar sensações positivas ao produto em causa. sorriste uma vez mais, como sorrias sempre que do nada me saíam estas coisas que não interessam nem ao menino jesus nem a muitos outros meninos não-jesus.

o que me importa é que te fez sorrir. e assim continuou o ponteiro, parado, imóvel, alheio a nós e nós alheios a tudo.