sábado, dezembro 24, 2016

Is anyone there ?

Um, dois, experiência. Um, dois, experiência.

Pensei que a pilha do blog estava esgotada, desculpem a intromissão. Faltou pouco para estar um ano inteiro sem transbordar letras do papel para o teclado e sei bem que vocês não conseguiriam viver com tamanha saudade de ler tudo aquilo que nunca quiseram ler ou saber, por isso resolvi fazer uma pausa no meu desocupado quotidiano para vir falar de guardas nocturnos.

Bom, na verdade não é bem dos guardas nocturnos que se trata, mas do respeito que lhes devemos. Ando há dias com os horários fora de passo, pareço aquele soldado que vai a marchar diferente dos outros todos e os pais choram de orgulho porque é o único que vai a marchar com o passo certo. Passei duas semanas a trabalhar só noites e a ganhar o tal enorme respeito pelos guardas nocturnos, não só porque são as únicas pessoas com que eu podia conversar durante a noite mas também por viverem a vida desfasada de todos os outros. Depois mudei para um horário muito melhor em que finalmente se trabalha de dia mas a cada quatro dias se trabalham turnos de trinta horas. Os guardas nocturnos ficaram super felizes porque sempre me podem ver a cada quatro dias.

No meio disto tudo fui ver o "Manchester by the Sea" com a minha mulher (os guardas nocturnos amuaram por não os ter levado) e pareceu-me que o filme é bonito e um verdadeiro murro no estômago, mas podia sempre estar a alucinar durante algumas das cenas, por isso não acreditem literalmente em tudo o que vos digo.

Agora é quase Natal e eu em vez de ter acertado o passo acordei às onze da noite e lembrei-me que o blog não tinha direito a um texto há quase trezentos e sessenta e cinco dias e isso era inaceitável porque os guardas nocturnos vêm cá fazer refresh todos os dias. E também me lembrei que é muito triste as lojas não estarem abertas às três da manhã porque me dava imenso jeito fazer as compras de última da hora e as filas a esta hora devem ser bem jeitosas.

Agora tenho de ir porque o meu gato acordou, está de barriga para cima e a olhar para mim com ar de quem mia "olha que as festas não se fazem sozinhas". Lá fora está frio e ainda há neve, mas cá dentro está quente, sobretudo nos nossos corações. Tenham todos um bom natal, comam muitas rabanadas e outros doces com muito ovo, açúcar e afins, depois se precisarem de alguma coisa é só enviarem um mail, sim?

sábado, janeiro 09, 2016

Contagem decrescente

10, 9, 8 e por aí fora, a contagem é conhecida e decrescente. Põe-se um traço artificial no calendário e faz de conta que passou mais um ano.

"Como é que ele passou a noite?"
"Menos mal, parece que não esteve muito agitado."
"E o senhor esteve sempre aqui?"
"Sim, estou a fazer turnos com o meu irmão, a minha mãe só pode vir durante o dia."
"Infelizmente não tenho notícias muito melhores para vos dar, o coração continua muito fraco e a não conseguir compensar aquilo que anos de trabalho lhe fizeram, não há solução para o problema da válvula, os outros orgãos começam a dar de si. Estamos a tentar tudo o que podemos, mas infelizmente as coisas parecem estar a ir num sentido terminal."
"Nós sabemos, nós sabemos... faz alguma ideia de quanto tempo lhe restará?"
"É muito difícil de dizer, podem ser horas ou podem ser dias, se há coisa que o corpo humano nos ensina, à medida que a experiência se vai repousando nos nossos ombros, é que é muito mais difícil de decifrar do que o que se pensa. Às vezes parece ir embora em horas e dura dias. Outras vezes ao contrário. Até a meteorologia é uma ciência mais exacta."
"Acha que ele está a sofrer?"
"Acho que não, do que nos é permitido observar acho mesmo que não. Mas acredite que tudo faremos para garantir que isso não acontece, nesta fase esta é a nossa primeira prioridade."
"O doutor está sempre cá, não vai a casa?"

10, 9, 8 e por aí fora, a contagem é conhecida e decrescente. Põe-se um traço artificial no diário clínico e não faz de conta que passou mais uma vida, porque passou mesmo e não há idades ou circunstâncias que o tornem mais fácil, há sempre a necessidade de equilibrar a objectividade da ciência com a subjectividade do que nos vem do coração, porque as vidas marcam sempre e as mortes ainda mais.