sábado, abril 28, 2012

nevoeiros feitos saunas

a nossa mania de olhar para as coisas sem ser do tamanho que são deixa-nos sempre no limiar do risco de não conseguir ver tudo o que elas comportam.

aos nossos olhos o nevoeiro são apenas nuvens que decidiram ser um pouco mais pesadas e assentar sobre a terra como uma camada de chantilly se acomoda num bolo, toldando o caminho, dificultando a distância, humidificando o pensamento e as ideias. tenho para mim que o nevoeiro é um método de concentração. grita por todas as gotas "concentrem-se, vá, não olhem lá para o fundo que não dá para ver. hoje é para olhar para esse canteiro aí ao pé e dar atenção às joaninhas a trepar plantas".

diz a tradição popular que se sonha mais quando há nevoeiro. diz a minha experiência que isso é bem capaz de ser verdade. diz a minha imaginação que isso faz todo o sentido, desde que se assuma que as moléculas de água são óptimos vagões de transporte de sonho e que, em dias de nevoeiro, a linha de caminhos de ferro dos sonhos se encontra em todo o seu esplendor. deve haver qualquer nuance científica para isto, mas eu hoje ainda nem comi os meus cereais, por isso deixem-se lá de ciência tão cedo.

outra hipótese é bem mais macrocósmica. imagino gigantes (meio invisíveis aos nossos olhos) que vivem universo fora e que usam a terra como o seu spa. os oceanos como jacuzzi. as montanhas como banquinhos. e o nevoeiro, provavelmente, corresponde à sua sauna. acho que vou tentar confirmar se isto não será verdade. mas só depois de comer os cereais.

segunda-feira, abril 23, 2012

mil folhas

a leitura é um hábito que se cultiva desde quase tão cedo como aquele outro hábito que envolve o diafragma e os pulmões, o que serve para manter as funções vitais em forma. já se inventaram muitas formas de arte e expressão cultural, e várias dessas têm em mim um fã acérrimo e um eterno seguidor. mas nada ultrapassa o etéreo de paixão que de um livro pode brotar.

um livro trata-se como se de uma relação apaixonada se tratasse. olha-se de longe, chama a atenção, aproximamo-nos pé ante pé, a primeira vista transforma-se no primeiro cheiro, no primeiro manusear. a tinta das letras olha para nós com olhos de piedade, emanando "compra-me" por todos os poros da folha de papel. olhos que são de treta, porque sabem bem que no que separa capa de contra-capa se encontra um turbilhão de vida, um vértice de histórias, uma lupa para vidas e mais vidas e tempos e mais tempos.

ninguém é obrigado a ler. eu acredito no livre arbítrio. mas quem não se conseguir apaixonar por um livro não sabe o que perde. perde a capacidade de ver com aquilo que se esconde atrás da retina, o mundo que pode vir num objecto. sendo que o que está atrás da retina ainda é para ser banhado em pós de coração e regado com mais uma ou duas colheres de sopa de experiência pessoal.

lembro-me da primeira vez que li sobre a caixa de pandora. lembro-me igualmente de achar que cada livro, isolado, individual, cheio de personalidade, era ele próprio uma caixa de pandora. encostado numa estante de uma livraria ou de braço dado com outros livros num lugar lá de casa, espera paciente e pacificamente o seu dia. acumula toda a sua energia, guarda todos os seus segredos. no momento em que o detector de metais do acaso nos leva até ao seu cerne metálico, é puxado da estante, com um leve toque é-lhe limpado o pó da capa, e a abertura da primeira página traz a certeza de que o caos aí está, pronto para começar, para nos fazer viajar para outro lugar e para, com toda a certeza, nos dar o poder da metamorfose. isto porque ainda está para vir o livro que não me torne uma pessoa diferente uma vez que acabe de o ler.

domingo, abril 15, 2012

os tempos em que o efémero nasceu

eram os verões do início dos anos noventa. alguns de vocês que estão a ler ainda nem nascidos eram, não passavam de projectos de cruzamento de material genético nas cabeças e gónadas dos vossos pais. sesimbra era uma terra com menos casas, com menos gente, com mais barcos, com água mais limpa. os meus dias eram passados a descer e subir a colina. para a praça, para a praia, para o almoço, para a praia da tarde (ó se a água tinha sempre carneirinhos que se adivinhavam cá de cima), para o jantar, para o passeio da noite. entre postas de cherne grelhado no carvão, brisas do mar e barcos de doce de amêndoa, a vida era ela própria doce como as sobremesas e o grande objectivo de vida era um dia conseguir nadar até aos barcos.

pelo meio de tudo isto uma certeza. o walkman da sony, recebido como presente no fim da quarta classe, era um dos meus melhores amigos. nele cabiam as várias colecções de música gravadas em cassete no espólio lá de casa. uma delas tinha como destino acabar de exaustão. nunca nenhuma cassete deve ter sido ouvida tantas vezes como o terceiro greatest hits dos queen no meu walkman. era um contínuo de mudar lado a, lado b, lado a e siga. o bohemian rhapsody do início já patinava de tanto uso. o prazer de sentir o stereo dos enormes phones a meio do another one bites the dust, quando um som espacial e especial navegava da direita para a esquerda e me enchia de tridimensionalidade. a praia e o verão sabe-me a isso. o cheiro do mar na pele e a imagem das minhas enormes pestanas cheias de sal caminham ao lado dos acordes dos queen e da voz inigualável do freddie. essa era a altura da música que não morre. os queen, os the smiths ou os beatles, por mais voltas que o mundo dê, serão intemporais.

não sou saudosista ao ponto de achar que não se faz boa música hoje em dia. apesar de as notas serem apenas sete (sem contar com bemóis, sustenidos e escalas) é claro que se continua a fazer muito boa música. mas hoje os tempos são diferentes. as bandas dependem de hits no youtube, de presenças em festivais, de cinquenta minutos para dar tudo e de um fim de fama que é quase tão rápido como a subida para esse pedestal. dependem do momento, dependem do fenómeno, deixaram de estar assentes na terra com pilares fortes, próprios de quem sabe muito de música e cria legiões de fãs dessa maneira. posso ser só eu, mas duvido que daqui a vinte anos alguém esteja a escrever um texto a dizer que se lembra de uma música qualquer da rihanna enquanto descreve o sal nas pestanas. esperemos para ver...

o amor anda de mãos dadas com a dedicação

a recomendação é para que se chegue cedo. a enchente diária de turistas é garantida. em qualquer altura do ano. a confusão de agra, uma cidade bem "agra-e-doce", é atravessada pelo rio yamuna, majestoso na altura em que ali chego, no fim da época das monções. inunda os campos de água, fecundando-os de vida. a vigiar de perto o curso do yamuna encontra-se aquele que é provavelmente o monumento mais famoso do subcontinente indiano, o taj mahal. se há locais do mundo que nos causam demasiada expectativa, desiludindo no momento da descoberta, este não é certamente um deles, sendo tão ou mais impressionante do que os nossos melhores sonhos imaginaram.

para lá chegar fintam-se as ruas dos bairros envolventes. chovem convites para entrar em mais uma casa de tapetes. ou ali na outra que vende toscas miniaturas dos monumentos. de onde somos? israel? espanha? itália? entre, entre, não paga para ver, oferecemos-lhe chá, sem pedir nada em troca. chovem também algumas gotas de água do céu, na madrugada que traz o sol e o resto de algumas nuvens que ficaram da monção. o cheiro da terra molhada mistura-se com o das especiarias e em conjunto voam na humidade teimosa que preenche qualquer centímetro cúbico da atmosfera indiana.

por fim entra-se no complexo do taj mahal. o espelho de água em frente do monumento obriga à fotografia da praxe. várias. infindáveis. vistas tantas vezes antes em revistas e livros e guias e tudo e tudo e tudo e tanta vontade de chegar a todo o lado do mundo e este é tanto um dos que mais queria. depois do mergulho turístico vem o mergulho mais doce, o da história deste lugar. o imperador mogul shah jahan, perdido de dor pela morte da sua mulher (a terceira, mas a favorita) aquando do nascimento do seu décimo quarto filho, resolveu construir um monumento fúnebre em sua homenagem. para isso condenou milhares e milhares de escravos a anos seguidos de sangue, suor e lágrimas, numa épica epopeia de vinte e um anos. as pedras vieram de todos os cantos do mundo, da bélgica ao afeganistão, numa operação logística sem comparação à época.

para adensar a trama, pouco tempo antes da inauguração do majestoso monumento, o filho de shah jahan levou a cabo um golpe de estado para tomar o poder do império mogul, condenando o seu pai a prisão perpétua no forte de agra, a cerca de dois quilómetros do local do taj mahal. reza assim a história (pouco confirmada) que o homem que investiu vinte e um anos na obra que homenageava o amor da sua vida, viu este a ser concluído pelas frestas de uma pequena janela, numa ínfima cela do forte de agra. ainda assim, espero que tenha sorrido, porque o amor muitas vezes vale mais pelo quente que causa no coração do que pela concretização física que daí possa vir.



(foto tirada por mim em 15 de setembro de 2010, agra, índia)

sábado, abril 14, 2012

a descida do avião

a descolagem de um avião é um bonito hino à engenharia e ao engenho humano. sentimos o corpo colar-se à cadeira, os motores gritam alto como quem prepara a investida numa batalha, as rodas rodam mais rápido que elas próprias, as asas concentram-se com toda a força e o aparelho acelera pista fora. imagino-o sempre de ohos cerrados, concentrado, conquistador. finalmente as leis da física decidem que as correntes de ar que roçam as asas vão mudar a forma como se brinca a este jogo e geram o impulso que leva o avião a descolar. colam-se então as paredes do estômago, a inclinação do corredor da aeronave mostra que há um meio termo entre o horizontal e o vertical e aí vamos nós. gosto muito de descolar por esse mesmo motivo. é como uma composição musical triunfante. uma declaração de intenções ao universo e um cruzar de espadas com a atmosfera.

mas o que que eu gosto mesmo é de aterrar. porque na descida faço de conta que não há engenharia e engenho humano e imagino que sou tão somente um pássaro, que, planando, encontrou o seu destino e gentilmente vai descer na sua direcção. podia fazê-lo como águia que caça um rato depois de o marcar lá do alto. mas prefere, em vez disso, descer gentilmente e aprender a noção dos tamanhos. a delícia é ver que os quadrados indistintos acastanhados se tornam em verdes, castanhos, rios e estradas. gentilmente pontos brancos ganham a forma de armazéns e de casas. a pouco e pouco as formigas que acabaram de aparecer mostram que afinal são carros, movendo-se em todas as direcções. e é neste micro-cosmos que mergulhamos. deixamos lá em cima a visão de um mundo parado e sossegado para voltar a ter a convicção do corropio e da passagem do tempo. sei que estou de volta quando consigo distinguir figuras humanas. sorrio, na certeza de uma vez mais ter voado, desafiado as graves leis da gravidade, que nos mantêm de pés tão bem assentes na terra mas que ao mesmo tempo estariam prestes a contrariar uma aeronave que não se decida a carburar o caminho.

nisto as rodas tocam na pista. ouve-se o chiar do impacto. em breves segundos o nariz desce e a parte da frente poisa também, como se do gesto final de um bailado se tratasse. findos os amantes, voltam os motores. estridentes novamente, agora ao serviço da travagem. e eu gosto sempre de imaginar que estes motores são a ovação de pé da plateia a mais um vôo nos céus de uma espécie que afinal nem tem asas.

sexta-feira, abril 13, 2012

o beijo

isto dos dias internacionais do tudo-e-mais-alguma-coisa dava-me para ter um tema para escrever por dia. em que momento se perdeu a espontaneidade deste mundo, e se decidiu dedicar a celebrar algo em dias específicos, gostava eu de saber. não sei se o dia internacional do beijo implica comemoração específica ou particular, ou se a dose em que hoje os beijos são servidos tem mais um terço do que o habitual por ser o seu dia.

o beijo não só é para uso frequente como é intemporal. imune a dias. às vezes até imune a noites. a quantidade de informações sensoriais acumuladas na língua e nos lábios mostram a importância que a própria biologia deu ao beijo. a troca é mais que táctil. o conhecimento é sinuoso, navegador, partindo-se à descoberta de uma envolvência que é própria de cada beijo. não há dois beijos iguais. e há decerto mais beijos que genes. cruzamentos de beijos ao longo da história geram tantos outros. emparelhados, desemparelhados, igualmente belos. aprende-se a beijar como se aprende a andar de bicicleta. não se esquece jamais. aperfeiçoa-se enquanto se conhece. com o tempo o beijo ganha tons de cartão de identidade e vale mais que as cores que dançam na retina.

e quanto à dúvida de beijar de olhos abertos ou de olhos fechados, experimentem antes beijar de coração aberto e a questão responde-se a si própria antes de ser sequer colocada.

quinta-feira, abril 12, 2012

o mal dos super-heróis é serem demasiado super

as crianças identificam-se com os super-heróis. na inocência e pensamento sonhador, próprios da infância, sonham ser como (inserir o nome de um qualquer super-herói presentemente num momento de grande fama) e imaginam-se no dia-a-dia com os poderes dos seus ídolos. no meu tempo achávamos que podíamos ser o super-homem, o batman, o capitão américa, o he-man ou alguns outros. bom, eu também sonhava ser o alf, mas sou um caso patológico e isso não vem agora à discussão.

nessa fase do pensamento, vacilante entre a construção dos valores aprendidos em casa e na escola, as hipóteses da fantasia aparecem como válidas e todos nós achámos nalgum momento que conseguíamos voar de casa para a escola ou colocar o modo invisível para roubar algodão doce na feira popular. depois crescemos. e quando a vida adulta nos mostra do que é feita, quando cheiramos pela primeira vez o valor da responsabilidade, quando passamos a pagar impostos ou a poder pedir bebidas alcoólicas sem ser por intermédio de alguém mais velho, essas figuras passam a ganhar o cunho de ficção. assentamos bem os pés na terra na certeza de que o que nos leva de casa para o trabalho são veículos com rodas ou que caminham sobre carris e que o algodão doce está ao nosso alcance, sim, mas em troca de pedaços redondos de metal ou rectângulos espalmados de papel.

o que nos faz desistir de acreditar nos super-heróis? provavelmente o facto de serem demasiado super. o que os torna demasiado super não é sequer o facto de terem super-poderes. julgo que isso nós até saberíamos integrar na nossa realidade (mais ou menos alternativa). o que os torna escorregadios é terem defeitos. as fraquezas que lhes arranjas são sempre muito criativas mas pouco humanas.

porque é que nunca vemos o homem aranha ansioso porque tem de pagar o imposto municipal e uma conta da luz que não lembra a ninguém? o batman pelos cabelos porque os filhos não param de berrar e ele tem de acabar um relatório de contabilidade para entregar no dia seguinte no seu posto de função pública? e o capitão américa a ter de esperar quatro horas na loja do cidadão para renovar o passaporte? ou o he-man no ministério da administração interna para renovar a licença da espada que utiliza para tentar derrotar o skeletor?

no dia em que os super-heróis tiverem as ansiedades, os medos e as obrigações repetitivas de qualquer ser humano, talvez voltemos a acreditar que é possível voar ou invisivelmente surripiar algodão doce. até lá continuamos com dificuldade em perpetuar essa crença de infância. claro que agora aprendemos a brincar a um jogo novo, o de fingir em redes sociais que somos todos como super-heróis livres de fraquezas. mas disso falamos noutro dia, que eu agora tenho de ir a voar da janela de casa até ao trabalho.

domingo, abril 08, 2012

conversas com a lua

numa das minhas conversas com a lua perguntei-lhe como é que ela fazia para ter esse jeito tão próprio de fazer tanta gente acreditar que aquela luz é dela, quando no fundo ela é apenas um espelho da luz do sol. a lua lá me explicou vagarosamente, como é seu timbre, que foi criada mesmo para isso, para espelhar e ajudar a ser feliz. contou-me que dia a dia mete as mãos à obra, gira grandes rodas dentadas para ir gradualmente espelhando um pouco mais de luz. chega ao dia do seu máximo esplendor e gira tudo ao contrário para ir dando cada vez um pouco menos de luz. com isto, diz-me ela, ajuda a subir e descer as marés, a orientar os animais selvagens nos seus caminhos e até a influenciar quando os bebés nascem.

aplaudi o brilhantismo da lua e fiz-lhe duas ou três festas no lombo (saibam que a lua rebola de felicidade quando lhe fazem festas no lombo) mas logo me surgiu outra dúvida. então, se ela funciona como espelho da luz do sol, não poderia também funcionar como espelho da luz da terra. ficou meio baralhada, deu três piruetas no ar, espirrou (eu disse educadamente 'saúde') e atónita perguntou-me o que é isso da luz da terra. se teria algo a ver com pirilampos ou com fitoplancton fluorescente. primeiro disse-lhe que andava a ver national geographic a mais. suspirei. de seguida expliquei-lhe que não, que a luz que vem da terra vem de quem a quer emitir. que eu, por exemplo, tinha sempre raios de luz a querer sair dos meus olhos e do meu coração e que os queria enviar para outros pontos do planeta. mas os correios negam o transporte de raios de luz e fatias de amor. dizem que não passa na alfândega. se um guarda fronteiriço suspeita que há uma fatia de amor guardada dentro de um cuidadoso embrulho é logo menino para, assobiando para o lado, a guardar dentro do casaco e levar para casa, porque dá sempre jeito em qualquer ocasião.

assim, pedi à lua se me deixava usá-la como espelho e enviar os raios de luz e as fatias de amor através dela. disse-me que não via inconveniente desde que fosse só às terças, quintas e domingos, porque andava muito ocupada com outros projectos, nomeadamente ao nível do outro lado lunar. chegámos a um acordo de cavalheiros, sorrimos e cada um foi à sua vida. creio que a ouvi a trautear, ao longe, afastando-se, os acordes do "somewhere over the rainbow".

desde então uso a lua sempre que o meu coração quer enviar um ou outro raio de luz. quem diz que a distância dá conta do amor é porque claramente nunca usou a lua e anda a perder anos de vida. ou vida nos anos.

quarta-feira, abril 04, 2012

os cabos do mundo .

a predilecção do ser humano por cabos é algo de notável.

há quinhentos anos atrás o seu objectivo era dobrá-los no meio de tempestades, entrando para dentro de meia dúzia de tábuas de madeira marteladas à pressa com um quadrado de pano a dar a dar ao sabor do vento. os cabos eram de tal forma temidos que até lhes inventavam figuras humanas monstras e lhes davam nomes de miradouros de santa catarina (deixem-me acreditar que a ordem dos factos é esta, sim?).

num regime mais contemporâneo os cabos mudaram de sítio. largaram a pedra em que a água bate e tornaram-se em fios de cobre, ou de outra coisa qualquer, envoltos em borracha e com uma maníaca tendência para se enrolar. sempre achei aliás que os cabos só podem ter sido feitos à imagem dos bichos de conta, dada tamanha semelhança no que toca à 'enroladela'. estes cabos estão por todo o lado. criam uma cidade à parte, só sua, acima da outra e abaixo da outra. até ao fundo do oceano eles foram parar, para transportar megabytes de informação enquanto lancham com uma raia e gracejam com um tamboril.

engraçado, talvez, é o facto de os cabos serem sempre sinónimo de comunicação. já o eram na sua infância enquanto acidentes geográficos e continuaram quando cresceram e se modificaram para outros usos. cá para mim isto foi o fruto de anos e anos a ver como as aranhas usam os cabos (de rede) para construir o seu mundo. é. ao fim e ao cabo foi mesmo isso.

segunda-feira, abril 02, 2012

pergunta resposta .

pergunta: " oh João, tu que és cardio, achas que amamos com o coração? "

a minha resposta: " acho que devíamos amar com o coração e teimamos em amar com a cabeça..."

domingo, abril 01, 2012

entre linhas de pautas moram letras

a música tem um papel constante na minha vida. os sons mais variados conseguem a proeza de me fazer viajar sem sair do mesmo sítio. de sonhar acordado. tem mais força para os meus sentidos carregar no botão 'play' de certas músicas do que pôr uns óculos estranhos e fingir que estou a ver o mundo a três dimensões. (o que se passa com isto das três dimensões, já agora? que raio de embuste à inteligência vem a ser este? eu quando vou ver um filme quero ver um filme. descansado. em sossego. de três dimensões já é o resto do meu mundo e se eu quiser três ou mais dimensões vou para o meio da floresta ou da praia e não preciso de usar óculos adequados. tirando os de sol em certos dias.)

consigo traçar a rota da música na minha vida até aos momentos mais primitivos da minha memória. consigo associar músicas a locais, a pessoas, a fases da vida. já me apercebi que funcionam certamente como um índice do livro que é a nossa vida. quando começam a tocar, envergonhadamente, do nada, transportam-nos no tempo, trazem de volta os cheiros, os sorrisos, as lágrimas, o vento a bater na cara, o reflexo do sol no mostrador do relógio e a forma como o usávamos para brincar com o mundo.

além de roteiro, a música é um amigo. dos melhores. leio ao som da música. estudo ao som da música. escrevo ao som da música. escolho diferentes músicas consoante o tipo de texto que quero escrever. reinvento a banda sonora das letras a cada momento. assim sinto a escrita como um filme. e os filmes têm todos música. porque as notas sabem navegar, à deriva, de mãos dadas, com as imagens, como mais ninguém o consegue fazer.