domingo, janeiro 27, 2013

o óptimo ser inimigo do bom

há um conforto quase uterino em se fazer aquilo que se é suposto fazer. seguir as linhas da vida como elas foram traçadas, tentar continuar gerações seguindo o que vem de cima, num ritmo igual ou melhor, e continuar gerações abaixo, trazendo ao mundo quem repita o quadro. com raras excepções é essa a vida que quase todos levamos, autómatos do carrossel em que nos puseram, com uma pseudovontade de mudar, escondida por trás do conforto de em vez disso simplesmente ficar.

o risco é uma aversão aos nossos genes. fica bem assumir que se arrisca. é romântico afirmar que se mergulha de cabeça numa qualquer montanha russa ou que se muda a vida num segundo como se ela própria de uma montanha russa se tratasse. mas quase sempre esse é um risco calculado. o nosso calculismo não é diferente do do leopardo que persegue a sua presa ou do do elefante que se move em manada. a nossa tão brilhante (semi-ironia) razão até adensa a complexidade desse calculismo.

depois há o salto no escuro. há a vontade da perfeição. que tem o passo todo trocado com a satisfação. o perfeccionismo tem o condão de pintar de dourada a obsessão de tentar ser feliz. mas algures pelo meio o próprio conceito de felicidade ganha contornos de amnésico e acontece-lhe muitas vezes o mesmo que a uma torrada que ficou demasiado tempo para lá do que uma torrada merece viver dentro de uma torradeira.

ninguém descobriu até hoje a pólvora, não creio que vá portanto ser descoberta hoje, ou mesmo amanhã, mas creio que a luta pela perfeição choca tanto com a impossibilidade de plena satisfação que, em muitos casos, a aceitação passiva de uma felicidade como a que é vendida pela rua fora traria muito mais paz muito mais depressa do que andar à procura dela nos escuros cantos das casas onde vivemos.

sábado, janeiro 26, 2013

acreditar é logo um primeiro passo

não querendo correr o risco de me tornar um jean de la fontaine (até porque tenho 'jean' no nome, mas noutra língua), num destes dias de neve houve um esquilo que me deixou a pensar.

vi o dito animal saltar de uma árvore para o meio da neve e andar ali mais de vinte minutos para um lado e para o outro, para cima e para baixo, em busca de comida onde claramente ela não existia. não questionando a inteligência do animal, que eventualmente se guiaria meramente pelo instinto, não deixa de ser enternecedor vê-lo a lutar por aquilo em que acredita.

seja isso uma bolota ou uma posição sobre o que está mal no mundo.

sábado, janeiro 19, 2013

corin hewitt

recomendo, quando vos calhar ' no caminho ', a obra do corin hewitt. sendo inicialmente canalizador, foi descobrindo ao abater paredes de casas para trabalhos de restauro que no interior das paredes se encontravam os mais variados objectos possíveis e imaginários, desde malas com dinheiro, a quadros roubados, a livros, cartas de amor, e muitos outros. isso inspirou as suas criações, que pretendem mostrar várias histórias possíveis de ser contadas atrás de uma parede depois de retirada a tinta que nos separa de todo esse mundo escondido.

MOCA Cleveland, Corin Hewitt:The Hedge



reciclar tempo de vida

tempo perdido é uma coisa que não existe. porque ele não se perde, quando muito consome-se. o que há é boas e más formas de utilizar o tempo que temos, esse que varia tanto, e que chega em demasia a uns e tanto escasseia para outros.

um dos erros mais frequentemente cometidos é chorar a má utilização do tempo no passado. só esse tempo de lamento já é mais tempo mal gasto, por isso é sempre boa ideia sair da bola de neve quanto antes (não quero arriscar ver-vos no fundo do vale enrolados numa esfera com milhares de ramos de árvore, penso sempre no vosso bem).

uma das principais resoluções que fiz, ainda bem pequeno, foi prometer a mim mesmo que ia aprender pelo menos uma coisa nova por dia durante o resto da minha vida. sendo que podem estender este conceito aos vossos âmbitos profissionais, pessoais ou metafísicos, oportunidades não faltam. o princípio está lá para tentar impedir que caia no marasmo. e mesmo nos dias em que o conhecimento de algo de novo parece não poder chegar de lado nenhum há formas de o contornar. perguntem a alguém qual foi o momento da sua vida em que se sentiu mais feliz. perguntem a um agricultor se este ano foi um ano bom para as colheitas e porquê. perguntem a um enólogo porque é que a reserva deste ano é tão especial, há quanto tempo aquele terreno aluga os seus grãos à vinha, por quantas chuvas e geadas passaram aquelas uvas que agora dançam do copo para a boca.

vejo parte do mundo preocupada, e com muita razão, por nos estarmos a tornar couch potatoes (batatas de sofá, vá, vulgo "procrastinar no sofá dias a fio"), e com o impacto que isso tem na nossa saúde física, mas preocupa-me ainda mais a batatização da nossa vontade de conhecer e aprender. durante milhares de anos houve tanta vontade de aprender mais e mais e hoje em dia apresentam-nos um mundo cujo objectivo principal é estupidificar as nossas ambições de vida e tornar-nos seres cada vez mais passivos que tudo aceitam e nada questionam. vejam lá isso, para bem de todos nós.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

por alguma coisa saímos da idade da pedra

sempre me intrigou o fenómeno do bife na pedra.

imagino o homem pré-histórico, saído da sua caverna, sem grandes jornais para ler ou sites da internet para pôr as notícias em dia, a ter de passar o tempo a caçar (um misto de necessidade alimentar e diversão). não tendo ainda dado conta do fogo, terá havido um primeiro indivíduo com dentição mais sensível que se revoltou e disse "não! isto assim não! acho impossível ter de comer estes nacos de búfalo todos crus, eu não tenho dentes de sabre e o meu primeiro nome não é tigre!". vai daí, o indignado, descobriu que os calhaus do lado de fora da caverna, por volta do meio-dia, em dias de verão, estavam a ferver de uma maneira que queima pés. sentindo os seus pés a arder teve a brilhante ideia de colocar um naco de carne em cima desses mesmos calhaus e assim foi inventado o primeiro bife na pedra.

ora, julgo, embora possa estar enganado, que depois disso já passaram uns quantos anos. não só foi inventado o fogo como até foi descoberto o gás. e a electricidade. passou a haver maravilhosas e múltiplas formas de cozinhar a carne sem ter de recorrer ao método mais ancestral de todos.

daí eu ter dificuldade em entender que na moderna sociedade haja quem realmente paga para comer o bife dessa forma. será revivalismo? serão estas as mesmas pessoas que vão a óbidos ver as mesmas reconstituições históricas todos os anos? serão pessoas com graves distúrbios psicológicos que vão para o restaurante com a intenção de se auto-mutilarem na fervente pedra e acabam por desistir da ideia quando lhes cheira a almoço?

são tudo questões que ficam por responder. até lá estou a criar mais dois ou três conceitos do género para tentar enganar os paspalhos clientes desta forma de alimentação. uma chama-se "garoupa na grelha de carvão" - levo para a mesa meio bidon recortado (a forma tradicional), cheio de carvão lá dentro, uma grelha e o peixe, e o cliente toma conta do assunto e enche a sala de fumo e cheiro a peixe. a outra é "bolo de amêndoa no alguidar" - forneço ao simpático cliente um alguidar e trago-lhe em vários tupperwares farinha, fermento, açúcar, ovos, raspa de limão e amêndoa. e uma batedeira, vá. e empresto um forno, num acto de insensata e altruísta loucura.

note-se que não tenho nada contra quem gosta de bife na pedra. só temo é que sejam pessoas que acabem por comprar terrenos na lua ou por convidar para entrar em casa aquelas senhoras que andam aos pares e que garantem trazer a palavra do senhor. tenham lá cuidado com isso.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

uma questão de prioridades

há muita coisa que me deixa indignado. mas uma das que mais indignado me deixa é a humanidade ter as suas prioridades todas trocadas.

não consigo conceber que o homem já tenha ido à lua mas ainda não tenha tratado com cuidado um assunto de muitíssimo maior importância - o equilibrismo de café.

se o meu objectivo fosse ser equilibristo-malabarista ter-me-ia inscrito no chapitô ou trabalhava no circo atlas em vez de ir tomar o pequeno-almoço a um qualquer café. fico sempre na dúvida se estou ali para tomar pacatamente a primeira refeição do dia ou para participar numa versão renovada dos gladiadores americanos. peço um galão, que chega todo garboso no seu copo alto, e pespegam com o dito num pequeno e ridiculamente instável pires. entretanto dão-me outro pequeno prato com um croissant em equilíbrio instável. pego nesses dois companheiros e inicio a desafiante prova de atravessar toda uma sala cheia de gente plena da sua fúria matinal, aquela raiva de quem tem pressa de ir fazer o que não gosta, que se acotovela entre si, dificultando o meu objectivo final de alcançar uma mesa (esta habitualmente decorada de migalhas como se de uma obra de arte se tratasse).

concentrem-se nisto, senhores. arranjem luvas que colem ao copo do galão. pacotinhos de vidro para transportar o casamento de leite e café quentes no seu interior. ou um pires que funcione em regime de pega-monstros. agora fazerem-me pagar para provas de equilibrismo é que não tem jeito nenhum.

(p.s.: eu não tomo o pequeno-almoço fora de casa. muito menos servem galões nos estados unidos da américa. ó arte, a quanto obrigas!) 

quarta-feira, janeiro 16, 2013

tudo são puzzles

nunca fui dos maiores fãs dos tradicionais puzzles. por mais elevada que seja a inteligência espacial de quem num ápice consegue juntar milhares de recortadas peças, para no fim formar uma fotografia, a mim parece-me uma considerável perda de tempo, quando se conseguiria obter muito mais facilmente a mesma fotografia com menos luta. isto porque trezentas peças azuis, praticamente iguais, que correspondem, em teoria, a pedaços de "céu", podem ser um desafio, mas também podem roçar a tortura.

o conceito do puzzle, no entanto, fascina-me. fascina-me porque acaba por ser uma metáfora de tudo aquilo que temos, fazemos e procuramos na vida. é a imagem de que tudo é formado por pequenas peças e que o nosso conhecimento de todas as coisas, palpáveis e não palpáveis, é muitas vezes essa fotografia final, que nas nossas naturais limitações não dá para obter logo de caras, e só juntando todas (ou quase todas) as peças é possível ter uma imagem mais clara daquilo que na verdade estamos a observar.

e tanto é um puzzle de várias peças um filme ou um livro como uma planta ou um animal. no fundo porque a tudo atribuímos códigos e o nosso jogo do conhecimento não é mais do que uma dança entre codificação e descodificação. e entre dias e noites, entre sóis e luas, vamos montando todo outro puzzle, aquele em que nós próprios vivemos, tentando juntar as peças boas, pôr de lado as peças más, e sobretudo reposicionar todas aquelas que, por algum acaso, andávamos com a mania de deixar no sítio errado.

terça-feira, janeiro 08, 2013

a insustentável estupefacção pela ausência de vidas extra

tive a sorte de crescer ao mesmo tempo que os vídeojogos cresciam. numa época em que o triunvirato da diversão, felizmente, se dividia entre bons livros, brincadeiras de rua e os referidos vídeojogos.

dos livros não preciso de falar porque das maiores vantagens competitivas do mundo é saber e gostar de ler. se houver dinheiro compram-se, se não houver vai-se a uma biblioteca, mas não há qualquer desculpa (pelo menos para nós, os felizardos do mundo ocidental) para dizer que não se aprendeu mais sobre mais coisas porque não se teve oportunidade para isso. quando muito pode escassear o tempo, mas já há muito tempo concluí que o tempo (ou a falta dele) depende mais da forma como organizamos a sua qualidade do que da importância que pomos na sua quantidade.

as brincadeiras de rua são outro pilar importante do mergulho nas nossas raízes animais. somos seres vivos nascidos da natureza e à natureza vamos parar. tornámo-nos tão brilhantes na engenharia das nossas vidas que nos fechámos em cidades de betão e nos refugiámos em cubículos de escassa dimensão, onde habitam no chão madeiras cujo nome dizemos pomposamente sem que a maior parte de nós tenha sequer tocado num tronco de uma árvore das que acabam debaixo dos nossos caseiros pés. não é suposto. não defendo que voltemos a viver em cavernas, mas devia ser um direito adquirido (e um dever de espécie) poder ir à praia e não ter de desviar sacos de plástico no mar, enfiar uma beata apagada nos dedos dos pés, pelo meio da areia, ou ter de pagar, hoje em dia, para que uma criança possa brincar numa floresta, fechada e controlada (a floresta e a criança), onde vai poder saltar ainda menos do que aquilo que nós podíamos saltar.

por último os vídeojogos. oiço toda a gente dizer que os filmes da disney e as histórias de príncipes e princesas nos elevaram em demasia as expectativas para a vida adulta, mas não enveredo bem por aí. talvez quem tenha umas orelhas grandes se consiga identificar com os problemas do quotidiano do dumbo, mas não sou grande apologista dessa corrente. os vídeojogos, quando apareceram, e à medida que se foram desenvolvendo, tinham que sobreviver através da criatividade e do argumento, já que os meios tecnológicos não eram nem de perto comparáveis com os que hoje existem. obrigavam-nos mais a pensar e menos a disparar. forçavam-nos a imaginar uma história em vez de ficarmos embevecidos com a tridimensionalidade das personagens e da pixelizada paisagem. traziam contudo também uma série de falsas expectativas. damos por nós a crescer e a descobrir que a história das vidas extra é uma farsa, que raramente temos 'continues' e que, imaginem bem, mesmo que limpemos (metaforicamente, gente violenta) do nosso caminho quem não nos quer bem, eles não desaparecem permanentemente daquele lugar.

no fundo deve ser bom crescer em qualquer época e eu não passo de uma espécie de velho dos marretas. mas não posso deixar de sentir que este mundo em que vivemos cada vez tem mais, e por isso mesmo cada vez tem menos.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

as ruínas

acho incrível a importância que é dada a tudo o que são castelos, templos, antas, dolmens, caras gigantes em ilhas do pacífico, etc., que se catapultam para fenómeno turístico porque são ruínas de algo que já foi grande.

acho incrível sobretudo a nossa vontade de atravessar o mundo, e largar fundos, para tudo isso visitar, quando cada um de nós carrega no coração ruínas de si próprio e raramente as visita. o senso comum tende a achar que o que digo não é verdade, e que nos lembramos sempre, em sofrimento (então se formos portugueses o sofrimento é barrado com molho de hipérbole), de todas as coisas más que atentaram contra a vida desse nosso órgão tão importante. mas essa é só metade da história.

em abono da verdade o que fazemos é olhar para as clareiras, para os prédios caídos, e para a imagem do que foi. e aqui falo da ilha da páscoa como falo do coração. falta-nos o exercício de re-imaginar o que era. olhar para os templos incas como se estivessem acabados de inaugurar e cheios de gente a andar para cima e para baixo a acartar caldeirões de chocolate líquido. imaginar as pirâmides de gizé a acabar de receber a última pedra do seu vértice sob um calor abrasador enquanto alguém acabava de enrolar o falecido faraó em quantidades inimagináveis de papel renova. ou parar para lembrar toda a vida, coisas boas e más, com que o nosso coração foi antes invadido.

ser especialista a olhar para como ficou não é igual a saber ver o que foi. e muito menos ajuda a saltar para o que virá a ser.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

altas resoluções

tenho para mim que temos de ser mais drásticos nas medidas coercivas para controlar as resoluções de ano novo.

a trinta e um de dezembro de cada ano vejo toda a gente a prometer que vai perder peso, que vai trabalhar e concentrar-se mais, e que vai fazer tudo e mais um par de botas para ter um ano melhor. trezentos e sessenta e cinco dias depois geralmente leio o mesmo, o que me faz acreditar que, das duas umas, ou isto é por ciclos (e as resoluções funcionam para os primeiros seis meses e vão ao ar nos seis seguintes) ou então a humanidade é dotada de uma espectacular capacidade de prometer que vai fazer coisas mas de um terrível deficit de vontade slash concentração para acompanhar tanto wishful thinking. (slash como em "barra", não como em guitarrista dos guns n' roses)

várias coisas poderiam ser feitas para melhorar o prognóstico das resoluções de ano novo. calma. sei que por momentos acharam que ia sugerir aumentar mais dois ou três impostos e reduzir-vos os salários se não cumprissem os pressupostos a que se propõem (raramente uma expressão com tantos P's foi usada na blogosfera), mas a verdade é que deixo essa "criatividade" para outros.

a minha ideia passa por cada pessoa arranjar um anão, vesti-lo de cabedal justo da cabeça aos pés e dar-lhe um chicote. ele andaria atrás de cada um de vocês e chicotear-vos-ia (dois hífens também é raro aparecerem, este blog é melhor que a wikipédia) cada vez que não estivessem a cumprir a promessa. já sei. alguns estão a achar que esta ideia é demasiado kinky. nesse caso podem sempre substituir o anão por um marreco, se se sentem mais confortáveis.

tenham um ano feliz e daqui a um ano contem-me se resultou.