sexta-feira, janeiro 18, 2013

por alguma coisa saímos da idade da pedra

sempre me intrigou o fenómeno do bife na pedra.

imagino o homem pré-histórico, saído da sua caverna, sem grandes jornais para ler ou sites da internet para pôr as notícias em dia, a ter de passar o tempo a caçar (um misto de necessidade alimentar e diversão). não tendo ainda dado conta do fogo, terá havido um primeiro indivíduo com dentição mais sensível que se revoltou e disse "não! isto assim não! acho impossível ter de comer estes nacos de búfalo todos crus, eu não tenho dentes de sabre e o meu primeiro nome não é tigre!". vai daí, o indignado, descobriu que os calhaus do lado de fora da caverna, por volta do meio-dia, em dias de verão, estavam a ferver de uma maneira que queima pés. sentindo os seus pés a arder teve a brilhante ideia de colocar um naco de carne em cima desses mesmos calhaus e assim foi inventado o primeiro bife na pedra.

ora, julgo, embora possa estar enganado, que depois disso já passaram uns quantos anos. não só foi inventado o fogo como até foi descoberto o gás. e a electricidade. passou a haver maravilhosas e múltiplas formas de cozinhar a carne sem ter de recorrer ao método mais ancestral de todos.

daí eu ter dificuldade em entender que na moderna sociedade haja quem realmente paga para comer o bife dessa forma. será revivalismo? serão estas as mesmas pessoas que vão a óbidos ver as mesmas reconstituições históricas todos os anos? serão pessoas com graves distúrbios psicológicos que vão para o restaurante com a intenção de se auto-mutilarem na fervente pedra e acabam por desistir da ideia quando lhes cheira a almoço?

são tudo questões que ficam por responder. até lá estou a criar mais dois ou três conceitos do género para tentar enganar os paspalhos clientes desta forma de alimentação. uma chama-se "garoupa na grelha de carvão" - levo para a mesa meio bidon recortado (a forma tradicional), cheio de carvão lá dentro, uma grelha e o peixe, e o cliente toma conta do assunto e enche a sala de fumo e cheiro a peixe. a outra é "bolo de amêndoa no alguidar" - forneço ao simpático cliente um alguidar e trago-lhe em vários tupperwares farinha, fermento, açúcar, ovos, raspa de limão e amêndoa. e uma batedeira, vá. e empresto um forno, num acto de insensata e altruísta loucura.

note-se que não tenho nada contra quem gosta de bife na pedra. só temo é que sejam pessoas que acabem por comprar terrenos na lua ou por convidar para entrar em casa aquelas senhoras que andam aos pares e que garantem trazer a palavra do senhor. tenham lá cuidado com isso.

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