segunda-feira, dezembro 31, 2018

papel, pedra e tesoura

há meses que ando a tentar jogar ao papel, pedra e tesoura no central park e o meu sucesso tem sido perto de zero.

só tenho sido feliz na parte da pedra, já as encontrei de variados tamanhos e feitios, guardei-as todas para um dia fazer um castelo e destruí um dedo mindinho entre dois seixos mais atrevidos, mas valeu a pena.


o papel tem muito que se lhe diga. acho que de início entendi mal, andei à procura do papel junto de qualquer pessoa que tivesse ar de vir a sair da broadway. um actor muito simpático recomendou-me um psiquiatra seu amigo e duas actrizes pouco sorridentes fugiram de mim como se tivesem visto a peste negra.


de todos os três, a tesoura é o maior desafio. já encontrei uma de podar, caída no relvado, mas um dobermann com ar ameaçador ladrou mais alto que a minha vontade de aventuras. 


ainda pensei trocar o jogo pelo xadrez, mas rapidamente desisti, eram ainda mais peças para encontrar. resolvi apostar em actividades mais estóicas. observar os pássaros a brincar, alegres, numa poça de água, aquece-me na mesma o coração e lesiona-me muito menos os dedos mindinhos.

terça-feira, maio 29, 2018

parece que foi ontem

parece que foi ontem, que os dedos abriam as páginas do atlas ao acaso e decidiam os adversários do próximo jogo, sim, desta vez pode ser um escaldante bahamas contra gronelândia, ficando tudo a jeito para essas partidas em que um só jogador fazia de vinte e dois e criava a complexa dinâmica de rematar à baliza e defender o remate ao mesmo tempo.


parece que foi ontem, que adormecer era complicado, o calor, que nem a brisa do rio acalmava, entrava pela alma, e para dissuadi-lo brincavam os pés pelo enrugado das paredes, ó deus, quem se lembraria de inventar paredes rugosas e achar que isso tinha tudo para correr bem.


parece que foi ontem, a vida era muito só isso, o intervalo entre campainhas, o duelo entre livros devorados e roupas suadas com tanto futebol de intervalo, as aventuras em autocarros apinhados de gente, os desafios de fazer uma chave de casa rodar, porque isso é tão difícil e pertence ao mundo dos grandes.


parece que foi ontem e de repente é hoje. de repente os atlas são contas de electricidade, as paredes rugosas são a burocracia quotidiana, as aventuras de intervalo são pára-arrancas e arranca-páras, que são mais párias que páras. são os dias a correr atrás dos dias, sem a mesma espuma que estava lá para trás, são uma imperial tirada sem pressão, um céu cinzento sem sequer ter nuvens, uma vontade interminável de que o hoje volte a ser ontem. quem sabe, amanhã.

sexta-feira, abril 06, 2018

uma ou outra vez

uma vez escrevi um livro. outra vez também. mas cansei-me das duas vezes ao fim de dez páginas e eles morreram tragicamente antes da idade.

pensar dá muito trabalho e consome demasiada energia. fazer de deus, criar personagens do nada, espirrar mapas com linhas que não existem, adormecer a delinear horizontes e perder o autocarro por causa da árvore que tinha de ficar mesmo no meio do vale e se perdeu no caminho até lá e agora estão os corvos todos a reclamar e toda a gente sabe que os corvos quando reclamam fazem um chinfrim e que as vírgulas caíram todas na descida da montanha e agora para as encontrar é um castigo que nem
vos digo.

é mais fácil não pensar. molhar só as mãos em tinta, abrir cem a duzentas páginas e molhar as filhas da celulose com uma coisa qualquer. não são palavras a dançar o tango umas com as outras. não são letras a saltar do céu num pára-quedas cor de arco-íris. mas isso não importa ou pouco importa. dá na mesma para pôr uma capa, esconder debaixo do braço e descer pela avenida das letras com o nariz levantado com ar de intelectual. 

outra vez escrevi outro livro. era sobre um eucalipto que não lia, porque cada vez que pegava num livro se imaginava a remexer nas entranhas de um seu parente afastado. um robot aparecia na floresta, apresentava-lhe o admirável mundo onde telefones e tablets salvavam toda a família do eucalipto, o que o fez escorrer seiva de alegria. depois, o robot disse-lhe que os eucaliptos já não serviam para nada e cortou-o aos pedaços. é por estas e por outras que deixei de passar os dias a escrever livros.

sábado, janeiro 20, 2018

fora da bolha

fechou a porta da bolha com uma mão, enquanto a outra mão apertava o nariz para tentar não desmaiar com o cheiro nauseabundo . as paredes da bolha tinham rachas de cima a baixo, o tecto da bolha, todo de vidro, parecia ser feito de chapa de zinco, tamanha a sujidade que o inundava .

fora da bolha tudo era melhor, sentia-se uma rainha . depois de passar pelo banho dado na lavagem automática, explorada por um grupo de gambozinos obsessivo-compulsivos, chegava ao mundo lá fora pronta a reinar . cumprimentava reis à esquerda, príncipes à direita, toda a gente lhe perguntava a sua opinião, queria ver a sua aprovação, procurar o calor das suas palavras, almejar a, sei lá, quem sabe, até, talvez um dia, poder fazer parte do seu círculo fechado de amizades . corria as várias capelinhas, tinha opinião sobre tudo e todos e tudo e todos tinham ouvidos para a sua opinião . desinformada, cheia de musgo, superficial, mas na sua parca inteligência tinha percebido há bastante tempo que no mundo de hoje não é preciso saber, basta parecer que se sabe . 

depois sentava-se a ver o pôr-do-sol, de quando em vez até a fotografá-lo, e as lágrimas apressavam-se a saltar dos seus olhos . não por nenhum impulso stendhaliano, mas porque se lembrava que eram horas de voltar para a bolha . e dentro da bolha tudo voltava a ser imundo, a sua vida valia abaixo de zero, o seu valor era abaixo do que a sua vida valia, e as paredes rachadas da bolha nunca pareciam querer saber a sua opinião .