sexta-feira, março 30, 2012

nevoeiro .

o nevoeiro da noite vem disfarçado de um modo de tal forma universal que chego a acreditar que as máquinas de teletransporte estão precisamente escondidas, ocultas, ali no meio. e algum defensor do sebastianismo deve ter tido a mesma suspeita que eu (ou vice-versa), daí o mito.

pedaços de água, amarrados em jeito de nuvem, descansam mais perto da terra do que é habitual. como se estivessem de visita. como se viessem de lente angular de máquina reflexa em punho, dispostas a descobrir o que se passa e quem passa no que se passa.

dizem que se sonha mais quando há nevoeiro. sonha-se de facto mais quando há nevoeiro. não deixa de ser irónico que no momento em que a visão real do exterior se torna mais turva a visão decidida do sonho se torne mais clarividente. vou ali pôr um pé em áfrica, o queixo na ásia e o tornozelo na antárctida. ou, por outras palavras, aproveitar o nevoeiro para viajar até onde bem a vontade me levar, sob a forma de sonho.

quinta-feira, março 29, 2012

sobre a beleza .

é extremamente hipócrita afirmar-se que o aspecto das pessoas não conta e que o que importa é exclusivamente ser-se bonito por dentro. como o mundo vive de hipocrisias há uma grande fatia da população (adoro imaginar a população como um bolo de chocolate) que vive nesse alegre lugar-comum. mas se é hipócrita achar que as pessoas não valorizam o aspecto dos outros como um dos factores principais nas suas escolhas é na mesma dose inocente e infantil achar que isso isoladamente lhes traz esta vida e a outra.

pode ser-se bonito por fora. como se pode ser bonito por dentro. ser bonito por dentro tem até a grande vantagem de estar ao alcance de todos, não é tão geneticamente decidido como a parte de fora. depende da personalidade, da forma como ela é talhada, dos inputs positivos e negativos, do coração e mente calejados com os burburinhos inerentes à vida. mas sempre mutável. sempre a tempo de ser adaptado.

as pessoas bonitas por fora devem viver felizes com esse facto e tentar esforçar-se ainda mais por ser bonitas por dentro, já que parte do caminho lhes está facilitado. se não conseguirem sair da roda viva de achar que uma cara laroca lhes compra o mundo vão acabar a chorar a solidão e a incompreensão. porque uma parte de fora bonita... hoje em dia até se compra. manda-se fazer. depois gasta-se com o tempo. o interior bonito não se compra, constrói-se, dá muito mais trabalho, e por isso tem muito mais valor. as máscaras duram umas horas mas o que está por trás delas dura uma vida.

o mundo da fantasia também devia ser justo .

nunca gostei de histórias estanques. se nos filmes com pessoas a sério (embora algumas estejam tão descredibilizadas que parecem pessoas a brincar) existem tantos cameos, essas maravilhosas participações especiais que raramente são mais do que marketing pessoal, os filmes de animação não deveriam ser excepção e as histórias podiam misturar-se no mundo da animação (eu sei que o shrek já tentou um bocadinho isso, vá, eu sei, mas é todo outro conceito que aqui está em causa).

chegado o momento de o lobo mau comer 'a' capuchinho vermelho, esta só lhe dizia "porque é que não comes antes a hansel e o grettel que se fartaram de comer doces e estão gordos que nem um abade?"
"não... agradeço o conselho, mas estou de dieta. o verão está a chegar e vou para um resort de lobos, quero estar em boa forma"
"e os três porquinhos?"
"que horror... bacon e presunto e coisas? então isso é que está mesmo fora de questão!"
"então e eu não sou má para a tua dieta?"
"disseram-me para fazer uma dieta de frutos vermelhos. eu não sei o que isso é e tu eras o mais vermelho que eu vi num raio de x quilómetros."
"o que são x quilómetros?"
"não sei bem... é uma forma de dizer quando não se sabe bem quantos quilómetros se quer explicitar."
"olha, e a pequena sereia?"
"não sou grande fã de peixe. acabava a comer só metade e há tanta fome no mundo que me parece mal do ponto de vista ético."
"mas eu sou uma criança... não te parece pouco ético almoçar uma criança?"
"acho que tens razão. desculpa todo este mal entendido. acho que vou comer a cinderela, que é magrinha que nem carne de aves. não se fala mais nisso."

terça-feira, março 27, 2012

"man on wire" (2008)




as provas diárias de egoísmo, imbecilidade, insensibilidade, acomodamento ou tantas outras características negativas, que são a cobertura glacé desse cupcake que é a vida, fazem-me frequentemente acreditar que o mundo é um autocarro perdido. sem condutor. ou pior que ir sem condutor... com um que bebeu demais à merenda.

depois dou de caras com histórias como a que é retratada neste documentário e volto a achar que afinal não vai tudo dentro desse autocarro. a prova de coragem, determinação, treino e originalidade da história de vida de philippe petit estão para o desânimo e a descrença nos sonhos como uma caipirinha gelada para uma tarde de verão com quarenta graus à sombra e sem brisa a soprar.

para lá de recomendado. (mesmo a quem tem medo das alturas)

razões e motivos

hoje li uma frase que me deixou a pensar durante várias horas.

era sobre o motivo de escrever. perguntava de modo directo, e indirecto, sem sequer usar pontos de interrogação, o que leva as pessoas a escrever, qual o seu destino final. primeiro senti-me indignado com o que a frase dizia. depois pensei no conteúdo da frase. finalmente acabei a dar razão à frase.

nunca duvidei que se aprende a todos os minutos que passam. nunca duvidei que a melhor massagem ao ego vem sob a forma de elogios espontâneos, pouco forçados, pouco materiais e, sobretudo, desinteressados. egos à parte (e se os egos ocupam muita da maquinaria por trás de tudo o que fazemos na vida) eu esforço-me sempre por tentar ter a humildade de olhar para as bússolas, mesmo as que me parecem feias e ferrugentas à primeira miradela, contemplá-las durante uns bons minutos (ou horas) e perceber o que é que ali está que me possa ajudar a re-orientar os eixos no sentido de um norte ou sul mais magnéticos e menos magnoegoéticos.

a frase não a digo. isto é um pouco como quantos ovos usar na receita ou como o truque da raspa de limão, o segredo ainda continua a ser a alma de muito bom negócio.

sábado, março 24, 2012

ursos polares em desertos



a sensação de estar perdido numa conversa, numa música ou num local é decerto igual ao que um urso polar sente se o largarem do nada no meio de um deserto.

as âncoras culturais, de espaço e de tempo, são um pouco o índice do livro que construímos ao longo da nossa vida. se nos arrancam essas páginas andamos a saltar apressadamente de capítulo em capítulo, mais rápido que o coelho da alice, imaginando que o chão nos treme sob os pés.

se isso é mau como princípio de vida... estar perdido apenas de tempos em tempos não é obrigatoriamente negativo. ajuda a encontrar e ajuda a desenhar novas derivadas, ajuda a pôr novos carimbos na nossa equação, e quem sabe até a resolvê-la.

lembro-me frequentemente da sensação de perda numa viela (ela própria perdida) das ruas de mumbai. de sentir que ia caminhando, seguindo os cheiros, as cores, o ensurdecedor barulho saindo das várias casas, os pedidos de 'pare aqui, entre ali' e de ter quase entrado em modo de epifania do quão caótico um momento se pode tornar. libertar os cinco sentidos nesse vórtex de primitivismo selvagem encaminha os eixos para uma espécie de alinhamento que quase leva a encontrar o sexto sentido. depois há de novo a luz. neste caso entrar por uma porta, sentar numa mesa suja, encostada a um canto, ignorar todos os olhos postos na pessoa que é estranha a este ambiente, usar as rudimentares palavras em hindi para pedir um prato de lentilhas com especiarias e um lassi doce. mergulhar no sabor da refeição, que traz a história da humanidade agarrada em cada colherada e em cada movimento de sucção da palhinha. sorrir a quem passa, ver que acalmaram a curiosidade e que voltaram à sua vida normal de almoço, à sua conversa. sobre o que será que conversam eles? perco-me a imaginar. agora trocámos de papéis, agora sou eu que os adivinho.

por mais línguas que inventem, por mais dialectos que escrevam, por mais sons diferentes que sejam emitidos, a imaginação é algo que será sempre transversal ao ser humano. e tenho para mim que na torre de babel só não se entenderam o suficiente para a construir porque gastaram demasiado tempo a tentar comunicar por palavras e tempo a menos a tentar comunicar com o coração.

quarta-feira, março 21, 2012

partida, largada, fugida .



a placa das partidas tem o ar sensaborão do branco e do preto, mas quem a cheira de perto sabe que nela se perdem todos outros mundos e destinos, que navegam por corpos como baldes de adrenalina lançados sem pedido de autorização.

o toque da pele dá a certeza da direcção. inventam tantas portas mas quando uma mão toca na outra, e os olhos se cruzam por microsegundos, o mundo todo desaba, as pernas fraquejam, e o íman do destino é mais forte do que aquele castelo que quisemos trazer lá de longe e que colámos toscamente na porta do frigorífico.

os pontos de encontro desencontram-se dos caminhos perdidos. os megafones anunciam partidas mas os nossos olhos só vêem chegadas. cheira a borracha de bagagens e a perfume de hospedeiras mas o nosso nariz só cheira nozes moscadas, praias mascadas, águas mergulhadas e sóis bebidos. lá longe, onde as árvores brincam às construções na areia, e as algas fingem que são tenebrosos tubarões, há um sol que nasce, outro sol que se põe, e horas para ser vividas entre um e outro, para cima e para baixo, como se fôssemos aquele canalizador baixote de bigode que saltava em busca da princesa. no paraíso não há princesas antecipadas. elas aparecem. nascem dos vermelhos com que se pinta o céu e com que se pintam os lábios. e as unhas também, estamos uns mãos-largas com o vermelho. da leve e discreta brisa que teima em ondular os cabelos e dos grãos de areia que sorrateiramente descansam na palma das mãos e assim navegam em caravelas de desejo até às faces acabadas de corar.

mesmo quando o céu desaba é para renovar. corremos na chuva e rimos do tempo. brincamos aos avessos e chovemos no molhado. porque o sorriso é coisa para ter mais energia que um relâmpago. e a energia é aquilo que levamos da vida.

domingo, março 11, 2012

salada de palavras



os rodados marcados na terra são sempre a prova do que por ali passou. paro sempre para inspeccionar provas do tempo, recente ou passado. fósseis de caracol ou rodados de jipe também fazem parte do adn de um lugar, provavelmente bem mais que as coordenadas dadas por satélite.

inventam-se aparelhos que dão (dizem eles) com uma precisão de milímetros a localização de um ponto na terra. irónico como há tanta precisão para definir onde estamos e tão pouca para perceber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. talvez sejam idiossincrasias de domingo à tarde com sol, doce luz a encher-me os olhos e vida a correr-me nas veias.

prendi-me há pouco por momentos nos olhos de um animal que claramente ficou surpreendido com a minha investigação. quer-me parecer que vive ali naquele local, que a sua vidinha passa por aquele parque, pedindo emprestado, sem prazo de devolução, uma ou outra dádiva dos turistas que se sentam na esplanada depois de uma manhã de jardim botânico. na sua postura de carteirista da vida não olha as vítimas nos olhos, pegando no troféu e afastando-se para os seus vegetálicos aposentos arbustados de privacidade. pedi-lhe os olhos. tentou fugir como quem não se quer comprometer. conversámos durante uns bons minutos e acabou por ceder. e nos olhos consegue-se ler tudo. os olhos deviam trazer isbn e código de barras porque nunca vi outro lugar nos animais (de duas, quatro, oito patas, as que vos apetecer...) que fale tanto, ainda que sem sair do silêncio.

perdido na salada de palavras e vida, que ali estavam contidas, sorri. depois fiz-lhe uma festa, ronronei por vê-lo ronronar, espreguicei-me, esse acto de esgar de vontade e levantei-me para continuar o meu caminho. ele ficou parado, a olhar-me, cá para mim a tentar perceber quem é vítima e ladrão no meio desta história toda.

sábado, março 10, 2012

as máquinas dependem todas de uma fonte de energia . até o coração .



escreve-se muito sobre o amor.
escreve-se demasiado sobre o amor.
será que se escreve efectivamente sobre o amor?
não se escreve quase nada de jeito sobre o amor.

não contem que seja eu que venha fazer isso. tenho mais jeito para ler em esplanadas, enquanto bebo goles de café e me perco a olhar para as gaivotas na sua vidinha, do que para eloquência em temáticas amorosas.
o vosso azar é que as gaivotas foram de fim-de-semana e estou sem moedas para comprar café, restando-me apenas a caneta e o papel do moleskine. esperem. está aqui o computador também. vou salvar a amazónia (e um ou outro bocado de monsanto) e usar antes as teclas.

não houve jamais um homem ou mulher que compreendesse o amor. nem jamais haverá. tal como ninguém sabe onde o universo começa ou termina. achando-nos na inteligência de tudo saber, cometemos o erro de frequentemente achar que os limites do universo, o amor, ou a razão pela qual a torrada cai sempre com o lado da manteiga para baixo, não nos escapam à compreensão.

erro. é bom compreender. mas é melhor ainda viver. o amor existe para ser vivido. tal como o universo existe para ser vivido. a história da torrada e da manteiga já não é bem assim, mas fica para outro dia que eu não gosto de falar de manteiga em textos que vacilam deslizantemente para o campo magnético do amor.

todo o tempo que é perdido a discutir o geral é fascinante. porque uns amam devagar demais. outros amam depressa demais. uns param demasiado para pensar. outros deviam parar para pensar. uns sabem gostar. outros não sabem gostar. o amor morre. o amor vive. paremos.

paremos, não para pensar, mas para aproveitar melhor o tempo, porque esse não pára e, vulgarmente, ri-se de quem não o sabe usar. dêem as mãos e sorriam mais vezes. discutam a forma das nuvens mais vezes. sintam que adormeceram com a vossa metade e que acordaram com a vossa metade. a vida está cheia de detalhes e a teimosia continua a ser em falar da forma em vez de mergulhar no conteúdo.

o vosso coração precisa da arquitectura correcta para funcionar. como todas as máquinas. mas isso não chega. nunca vi nada funcionar sem combustível (energia cinética também conta, não vá aparecer aqui algum preciosista da física). e o coração não é excepção. hoje, quando forem tentar desconstruir o amor, com o objectivo de criar um livro de instruções, saiam em vez disso para a rua e sorriam para o céu da noite. na volta ainda vêem uma aurora boreal e percebem que os pincéis para colorir a felicidade já vêm connosco de origem. basta querer utilizá-los.

sexta-feira, março 09, 2012

aleatório escreve-se com x ou com ch ?



a vantagem dos pensamentos aleatórios é que começam aqui e acabam ninguém sabe muito bem onde. acredito que os pássaros também voem assim. têm a mania de inventar que não. que voam em bando. muito organizados. que com jeitinho até escrevem YMCA no céu ao som da música. mas isso é tudo uma farsa. há é decerto um pássaro mais esperto que os outros. consegue convencer o resto do bando a voar para um lado qualquer ficando com o caminho livre para arrastar a asa à senhora dona passarinho da sua eleição. nem usei o feminino de pássaro porque vocês têm mentes maldosas e retorcidas e isto é praticamente uma casa de família sem a parte da família.

felizmente o pássaro deve ser um bicho com pouca memória. tirando o papagaio que traz um gravador instalado. já os outros, vão voando voando, e a meio esquecem-se de para onde estavam a voar. entram em stress e quem paga são os capots dos carros, vítimas de tiros mais certeiros do que certas indirectas que ninguém percebe.

mesmo voando sem saber para onde vão os pássaros são felizes. porque andam no céu. brincam à chuva. vêem o arco-íris de perto. sorriem de bico aberto às auroras boreais. ficam com pele de galinha (?!) ao ver passar um pássaro daqueles de ferro a fazer fiu-fiu. e comem minhocas. como aquelas que usam para fazer o hamburger mais tenrinho.

eu sei que a história das minhocas não passa de um mito. mas os mitos não são mais do que brincadeiras que deixamos passear na mente para que a felicidade possa ser servida numa bandeja de prata com toalhete de limão para refrescar as mãos. e que bem que sabe ser feliz.

domingo, março 04, 2012

o homem já conseguiu ir à lua, mas continua a usar meias brancas com sapatos .




gosto muito de pensar sobre a tendência natural do ser humano para querer conhecer o que está mais longe desvalorizando o que está mais perto. também gosto muito de pensar sobre a lista de compras para a semana. e em taças gigantes de leite-creme. mas acredito que as minhas ilações sobre estas duas últimas sejam (ainda) menos interessantes.

foi de facto um passo de gigante o homem ter-se conseguido enfiar dentro de um cilindro de lata e ir dar umas passeatas pelo único satélite da terra que não serve para retransmitir canais de televisão ou coordenadas geográficas. pensar que quatrocentos anos antes ainda se duvidava da esfericidade da terra e se acreditava que o mundo acabava num precipício gigante e, tão pouco tempo depois, já nos dedicávamos à conquista do céu.

no meio de tanto empreendorismo não deixa de ser irónico que se parta em direcção ao que mora para lá da ionosfera, estratosfera e todas-as-outras-o-esfera, sem saber ainda muito bem uma série de coisas sobre a própria esfera que habitamos. pensou sobre isso o júlio verne, tipo cheio de imaginação, e um ou outro geólogo, que se dedica a fazer buracos e tentar perceber o que existe abaixo de nós. no fundo continuamos sem ter grandes certezas. imagino que tenha havido uma reunião das pessoas espertas e se tenha discutido se deveríamos ir ao centro da terra ou à lua. após dias e dias de discussão, os sábios, exaustos, decidiram que escavar dá muito trabalho, que o chão é rijo, e que a melhor opção seria começar a pensar em foguetões e dispará-los em todas as direcções.

outra característica bem nossa é não saber dar bem conta das coisas que descobrimos. desta vez na lua não havia ouro ou prata para saquear, muito menos indígenas para fecundar. portanto ficámos um pouco sem saber o que fazer ali. já olharam bem para a lua? com aquele aspecto desolado, as pedras todas desarrumadas e tudo com ar de ter sido atropelado pela noite anterior e estar fora do sítio?

já se perguntaram porque é que a lua tem um aspecto tão desorganizado? de certeza que todas as manhãs fazem essa pergunta. eu pensei. e cheguei à conclusão de que a lua está naquele chiqueiro porque só doze seres humanos lá puseram os pés e nenhum deles era mulher...