terça-feira, março 29, 2011

morte à simetria. lenta, por favor.



escrevo com a pena que se transformou em caneta que se transformou em dedos que carregam em teclas.

escrevo com a sensação de quem flutua por cima de um mundo maior, feito de beleza e de desequilíbrio. tomara o dia em que se assuma que a simetria é o expoente máximo do pior que o homem consegue criar. a natureza prova isso das melhores formas. não há simetria que quando mudada de escala não seja assimétrica. a definição nasce precisamente da assimetria.

percebo a paixão por linhas direitas. é o mesmo conforto de achar que está alguém num pedestal num edifício de pedra, que olha por vocês, e que corrige os vossos erros, vos apara os erros e vos aplaude as virtudes. mas as linhas direitas são nauseantes. as linhas direitas estão sempre a pedir para levar com aquela borrachinha do paint brush, que eu uso mentalmente para apagar o que não gosto.

para mim, tudo o que me apaixona é assimétrico. até o wassily, com a sua mestria, pegou em formas geométricas e baralhou-as como quem atira os dados para cima de uma mesa. aqueles que se dedicaram a desenhar senhoras direitas e com chapéus de plumas ou desinteressantes maçãs dentro de um prato, tenho para mim que um dia se vão afundar no pântano do esquecimento, numa espécie de sismo global que tudo mudará.

o que nos foge entre os dedos



fico perdido. parado nesta encruzilhada. por mais voltas que dê, venho com demasiada frequência parar a este cruzamento em que para um lado vejo a seta do futuro e para o outro a placa tosca do passado. em primeiro lugar, adorava saber que lugar (estava para usar um pleonasmo desde as quatro da tarde) é este onde me encontro. há quem lhe chame presente, mas eu sou levado a crer que presente é coisa que não existe.

existe só como homónimo, sobretudo nesta altura do ano. porque, tirando isso, foge entre os dedos como outra coisa qualquer. o presente nunca o é. mas também não está bem definido que eu não possa voltar ao passado ou acelerar o meu caminho ao futuro. ninguém define essas regras. criam-se tantas comissões para tudo e mais alguma coisa, e o tempo continua a brincar ao deus dará (se calhar até só a brincar ao dará), sem que nenhuma entidade reguladora o obrigue a apresentar contas e a explicar porque faz o que faz e como faz.

na volta acabaria como tudo o resto. corrupto e vendido. e nesse dia eu nem perceberia bem que estava no cruzamento de sempre. a placa tosca teria sido trocada por um diamante qualquer e o caminho sinuoso adiante era agora uma alcatifa horrível, pejada de ácaros e que nem no barroco era bonita.

pensando bem, vou deixar o tempo continuar assim. a fluir por ele. a viajar sem regra. a esconder os buracos negros, os menos negros e até os que não têm cor. é verdade que me foge entre os dedos, mas antes isso que estar claustrofobicamente fechado dentro de uma ampulheta. por mais bonita que ela fosse...